domingo, 8 de junho de 2008

Comentário ao artigo Tradição e Tradicionalistas do Pe Françoa

Li o artigo do Pe Françoa, "Tradição e "tradicionalistas"", chamou me a atenção os esforços do autor a tentativa de demonizar Dom Marcel Lefebvre e o movimento tradicionalista. E principalmente a tentativa de impugnar a concepção tradicionalista de Tradição.

No primeiro caso, não falta material para impugnar a falsa acusação de cisma contra Dom Marcel Lefebvre. É mais do que suficiente, citar as palavras do Presidente da Comissão Ecclesia Dei, Cardeal Castrillon Hoyos, a maior autoridade sobre o assunto Tradicionalistas dentro da Igreja. Em entrevista a revista Una Voce, ele diz:

"Non siamo di fronte ad una eresia. Non si può dire in termini corretti, esatti, precisi che ci sia uno scisma. C'è una attitudine scismatica nel consacrare vescovi senza il mandato pontificio. Loro sono dentro la Chiesa, solo che manca una piena, una più perfetta - come è stato detto nell'incontro con monsignor Fellay - una più piena comunione, perchè c'è la comunione".

Não se pode dizer em termos corretos, exatos, precisos, que no que eles fizeram haja um cisma. Há uma atitude cismática no consagrar Bispos sem o mandato pontifício. Eles estão dentro da Igreja, falta apenas uma plena, uma mais perfeita—como foi dito no encontro com Dom Fellay—uma mais plena comunhão, porque comunhão existe”

Una voce - Entrevista com o Cardeal Castríllon Hoyos "non si puó dire che ci sia uno scisma"http://www.unavoce-ve.it/11-05-93.htm

É o Cardeal Hoyos quem diz que "não há cisma" e "Eles estão dentro da Igreja, falta apenas uma plena, uma mais perfeita comunhão". Portanto, tudo o que o Pe Françoa, escreveu em relação a cisma, "tradicionalistas que se afastaram da comunhão Católica e a ela não voltaram ou àqueles que, ainda que se dizem em comunhão com a Igreja, combatem-na" não possuí na própia Comissão Ecclesia Dei nenhum sentido e absolutamente nada de verdade. Uma atitude cismática, não é cisma!

Passemos agora a noção de tradição que ele apresenta no artigo. Segundo ele, os tradicionalistas, não fazem distinção entre "Tradição Apostólica" (experiência) e "tradições teológicas, disciplinares, litúrgicas ou devocionais" (formulação intelectual ). O Pe Françoa ao fazer isto, apenas repete a noção modernista de tradição, infundida pelo Concílio na Igreja, já em seu discurso de abertura, conforme-se lê:

“Uma coisa é a substância do “depositum fidei”, isto é, as verdades contidas na nossa doutrina, e outra é a formulação com que são enunciadas, conservando-lhes, contudo, o mesmo sentido e o mesmo alcance.” Discurso de abertura do Concílio Vaticano II – Papa João XXIII

Justamente esta noção, é condenada por São Pio X, na Encílica Pascendi Dominici Gregis, como pode se ler:

“Há ainda outra face, além da que já vimos, nesta doutrina da experiência, de todo contrária à verdade católica. Pois, ela se estende e se aplica à tradição que a Igreja tem sustentado até hoje, e a destrói. E com efeito, os modernistas concebem a tradição como uma comunicação da experiência original, feita a outrem pela pregação, mediante a fórmula intelectual." Pascendi Dominici Gregis - São Pio X

A distinção entre experiência e formulação intelectual, analogamete, equivaleria a vestir as imagens dos Santos e de Nosso Senhor Jesus Cristo, com terno e gravata. É a formulação intelectual quem gera a experiência, não conservando-se a mesma podera a Igreja gerar a experiência tradicional católica em seus fiéis? E como se não bastasse, ele, ainda apresenta o critério modernista da temporalidade, afetada pelo tempo que dura, como se lê na própia Pascendi:

"Por isto a esta fórmula, além do valor representativo, atribuem certa eficácia de sugestão, tanto naquele que crê, para despertar o sentimento religioso quiçá entorpecido, e restaurar a experiência de há muito adquirida, como naqueles que ainda não crêem, para despertar neles, pela primeira vez, o sentimento religioso e produzir a experiência. Por esta maneira a experiência religiosa abundantemente se propaga entre os povos: não só entre os existentes, pela pregação, mas também entre os vindouros, quer pelo livro, quer pela transmissão oral de uns a outros. Esta comunicação da experiência às vezes lança raízes e vinga; outras vezes se esteriliza logo e morre. O viver para os modernistas é prova de verdade; e a razão disto é que verdade e vida para eles são uma e a mesma coisa. E daqui, mais uma vez, se infere que todas as religiões existentes são verdadeiras, do contrário já não existiriam. " Pascendi Dominici Gregis

O modernismo "a síntese de todas as heresias" nos tempos de São Pio X, estava "nas veias e nas entranhas da Igreja." No período do Concílio, segundo Jacques Maritain, ele tinha evoluído de tal maneira que ele escreve no livro La Paysan de la Garonne (1966):

"O modernismo do tempo de Pio X comparado à febre neomodernista moderna, é um simples resfriado". Le Pavsan de la Garonne (1966) - Jacques Maritain

Não é somente Maritain, quem atesta a febre modernista no período do Concílio. O própio Cardeal Ratzinger dirá no livro "O caminho Pascal":

"A Teologia moderna está muitas vezes procurando uma certeza científica no sentido das ciências (naturais, empíricas); e, procedendo deste ponto de partida, é forçada a reduzir o ambiente bíblico às dimensões desta demonstrabilidade. Penso que este erro ao nível da certeza reside no âmago da crise modernista que reapareceu depois do Concílio" (Joseph Cardeal Ratzinger, O Caminho Pascal, Loyola, São Paulo,, p. 28).

Por essa e outras razões, fica completamente destituída de razão e sentido, o que o Pe Françoa escreveu em seu artigo sobre a Pascendi e sobre o Decreto Lamentabilli, como pode se ler (Nos destaques):

"O decreto e a encíclica, ao entrar em luta contra o modernismo, queriam dar resposta a uma situação pontual, que responde a uma determinada época histórica.Logicamente, esses documentos continuam válidos. No entanto, não seria razoavelmente válido julgar a nossa época da mesma maneira que se fez no principio do século XX e usar a linguagem do documento para atacar e combater o Concílio Vaticano II, a bispos que estão em perfeita comunhão com o Papa e com o seu Magistério." Tradição e "tradicionalistas" - Pe Françoa

São Pio X, não julgou a sua época, ele julgou uma doutrina, por isso dizer que "não seria razoavelmente válido julgar a nossa época da mesma maneira que se fez no principio do século XX", é algo destituído de sentido. Equivaleria a dizer que Jesus Cristo não poderá julgar todos os homens no dia do juízo final, pois ele não vive a nossa época e não seria razoávelmente válido julgar homens que estão sujeitos ao tempo por preceitos eternos. Lógicamente tanto o decreto quanto a encíclica cotinuam válidos e se tanto o Concílio, como Bispos, o Magistério e o Papa, não estão em comunhão com o decreto e pascendi, temos sim uma ruptura na tradição. Ainda mais quando se observa que a "linguagem" anterior ao concílio era um redondo e sonoro Não e após o Concílio ele tornou-se um redondo e sono Sim. O mesmo espírito que nos ensina a dizer Sim Sim e Não Não, diria Sim e depois Não?

O Pe Françoa e todos que professam os erros impugnados pela Pascendi, são modernistas. Há fé para os tradicionalistas, continua sendo a adesão da inteligência e da vontade a verdade revelada, e não a adesão da inteligência e da vontade a experiência que produz o sentimento religioso. A Teologia que conhecemos não é desatualizada e nem atualizada, ela é eterna, não é o tempo que lhe determina a veracidade. Não cremos com Galileu Galilei que "a verdade é filha de seu tempo." E muito menos observamos em toda a história da Igreja um Concílio Ecumênico que dividiu a Igreja em desatualizada e atualizada, a Igreja não caminha com o mundo!

Estes erros já foram denunciados pelo grande Pe Reginald Garrigou Lagrange, no artigo "Para onde vai a nova teologia?" Nele pode se ler que uma teologia que não usa a linguagem de nosso tempo, é uma teologia falsa, como sugere Pe Françoa em seu artigo. Para a nova teologia a matéria, é o Pai, o mundo é o Filho e a Evolução é o Espírito Santo. Por esta razão atualmente Igreja e mundo se confundem, por esta razão desejou-se abrir a Igreja ao mundo e por esta razão ela encontra-se nesta crise de identidade sem precedentes na sua própia história.

O modernismo, que é a fé na ciência humana, triunfa, como o poder das trevas teve a sua hora nos tempos de Nosso Senhor. Porém esse triunfo perdurará por pouco tempo...

Um comentário:

Anônimo disse...

Caríssimo

A sua crítica mostra ou que você não leu bem o artigo do Pe. Françoá ou que não o entendeu. De todas as maneiras, se estou dialogando com um homem de fé, em primeiro lugar que pensar que estou dialogando com um homem que crê et in Spiritum Sanctum ... sanctificantem Ecclesiam (união do Credo com uma explicação de Santo Tomás do artigo eclesiológico dentro da estrutura ternária do mesmo) e não coloque a Igreja contra a Igreja. Explico-me: não se pode colocar o Papa contra o Papa, o Magistério duma época contra o Magistério de outra. O homem de fé, que serve a Deus e a sua Igreja, procura as relações dos conteúdos da fé que o Magistério procura expor em cada época e não fica vendo contradições por doquier neste Magistério, guardião e transmissor da fé de todos os tempos. Se em algum momento, o teólogo (e uso a palavra teólogo num sentido amplo) percebe alguma dificuldade que tenha fundamento real ou lógico numa formulação magisterial terá que afrontar o assunto com a caridade intelectual e ao serviço da comunhão nestes momentos.

Lendo o artido do Pe.Françoá, por sua estrutura, pela bibliografia, pelo respeito ao Magistério, se vê que há estudo por detrás, há pesquisa e... há fé. Leia com calma a parte do artigo do Pe. Françoá onde ele expõe o modernismo e talvez você perceberá que não compreendeu ainda o que é o modernismo. E é muito importante sabe o que é uma coisa, antes de ficar chamando os outros de modernistas.

Tampouco o Pe. Françoá diz que os tradicionalista são cismáticos – leia bem! – o que ele diz é que o ato de D. Lebfevre de ordenar bispos sem mandato da Sé Apostólica é “um ato verdadeiramente cismático”. E você bem sabe que cisma significa “separação”. Será que um ato que implica excomunhão ipso facto – como é o caso da ordenação de bispos sem o mandato apostólico – não é um ato de separação, não é um “separar da comunhão”? E quando o Pe.Françoá fala sobre os seguidores fiéis de Lebfevre diz apenas que o conceito de tradição que eles manejam os levou para fora da Igreja Católica. Não é o mesmo que dizer “perder a plena comunhão com a Igreja Católica”, como dizia o Cardeal Hoyos, que você citou? Lembre-se, por outro lado, que também os ortodoxos e os protestantes não estão em plena comunhão com a Igreja Católica. Concede-se, no entanto, que os graus de comunhão são distintos nos três casos: lebfvrevianos, ortodoxos e protestantes em geral.

Quanto ao conceito de Tradição manejado pelo Pe. Françoá, mas uma vez parece que você não leu bem o texto. É literal: “A Tradição apostólica está afetada pela temporalidade que dura, já que não pode existir interrupção entre o momento original da entrega (traditio) do Evangelho e o hoje da Igreja. Em quanto às tradições disciplinares, teológicas, litúrgicas etc., leva em si o critério da duração que lhe afeta apenas relativamente, não de uma maneira absoluta.” Com tudo, e de acordo com o teor do seu comentário ao artigo do Pe. Françoá, não duvido que você chame de modernista inclusive o Papa Bento XVI quando disse naquela Audiência Geral do dia 26 de abril de 2006: “A Tradição é a comunhão dos fiéis à volta dos legítimos Pastores no decorrer da história, uma comunhão que o Espírito Santo alimenta garantindo a ligação entre a experiência da fé apostólica, vivida na originária comunidade dos discípulos, e a experiência atual de Cristo na sua Igreja.” Curiosamente, até o Papa utiliza o vocábulo “experiência” não para dizer que a Tradição seja uma experiência sic et simpliciter.

Não. Não posso concordar com você. Prefiro ficar com o Papa, com o Magistério e prefiro aceitar o progresso da teología. A propósito, você também confunde “teologia” com Revelação, e faz da teologia algo revelado quando diz que a teologia que você conhece é eterna... Nem a revelação é eterna para falar a verdade! A sua teologia é mais que angélica! – diria eu brincando com o tema. No entanto, sempre aprendi que teología (pelo menos segundo o uso desta palavra pelo bom senso) é “Theos”, “logos”, discurso sobre Deus desde a fé, uma reflexão sobre o mistério de Deus e sobre o que a Deus se refere. E, portanto, nenhuma teologia nem sistema teológico pode ser eterno strictu sensu, já que sempre são reflexões humanas sobre o Mistério, por mais profundas que sejam essas reflexões.

João Paulo