terça-feira, 3 de março de 2009

Dom Tomás Balduíno, um marxista vestido de Bispo

É hora de pensarmos em uma campanha passado limpo a nível també episcopal. Dom Tomás Balduíno pode ser até afetivamente Bispo, mas efetivamente é um marxista. Da mesma maneira que a nível eleitoral as pessoas esperam de seus candidatos que sejam aquilo para o que foram eleitos, nós católicos esperamos que nossos Bispos sejam Bispos.  É anacrônico um pedido de honestidade na política, quando ela não é praticada pela CNBB. Seja pelos posicionamentos heterodoxos e heréticos de seus integrantes ou pelas contínuas desobediências da CNBB ao Santo Padre.


Recentemente Dom Aldo Pagotto exonerou o Deputado Luiz Couto de suas funções sacerdotais. Dom Tomás Balduíno, classificou esta pena como sendo uma punição de vingança, alegando que o diálogo poderia ter a evitado. Definitivamente não queremos nem que nossos Bispos e nem que nossos políticos dialoguem quando devem aplicar as penas da lei. É hora de dar um basta a corrupção, tanto na religião quanto na política. E que a CNBB dê exemplo de honestidade e integridade em suas fileiras não tolerando agentes da corrupção como Dom Tomás Balduíno.

Parabéns a Dom Aldo Pagotto que fez valer a lei da Igreja. Pedimos aos bons Bispos do Brasil que não aceitem mais a corrupção episcopal e de nossa Santa Religião por Bispos como Dom Tomás Balduíno, Dom Clemente Isnard, Dom Demétrio Valentini, Dom Pedro Casaldaliga e outros. Pedimos principalmente que obedeçam ao Santo Padre começando pela correção da fórmula da consagração. Estamos cansados tanto da corrupção política quanto da corrupção religiosa!

Abaixo segue uma entrevista de Dom Tomás Balduíno, não parece a entrevista de um Bispo.

Entrevista com Dom Tomás Balduíno
Por Lucimeire Santos 10/12/2004 às 17:36
Nesta entrevista Dom Tomá Balduíno não esconde as decepções com velhos companheiros. Em Lula e no PT, diz não depositar mais nenhuma confiança. A esperança, agora, reside na rearticulação dos movimentos sociais, ?cooptados? pelo governo. O Bispo também critica as oligarquias remanescentes, a morosidade da reforma agrária e o agronegócio exportador.
Cansado de decepção
Não há nenhuma perspectiva de mudança. Tanto Lula como o partido do qual é presidente de honra tomaram outra feição?
A quarta-feira, 1o, era o único dia da semana em que estaria em Goiânia. Havia reservado a data para ir ao médico e resolver problemas pessoais, antes de viajar para São Paulo e, da capital paulista, para Londrina (PR). O primeiro impulso foi a negativa em nos receber. Mas acessibilidade é uma das inúmeras virtudes desse goiano de Posse, principal defensor da luta camponesa e da reforma agrária no País. Minutos depois, a assessoria confirmava: Dom Tomás Balduíno abriria espaço de 20 minutos na agenda para o jornal. No local combinado, o Convento São Judas Tadeu, no Setor Coimbra, o terço de hora se converteu em longos 70 minutos. Várias vezes, ouvimos o sino do convento o convocar para o almoço. Paciente, Dom Tomás se manteve firme nas respostas. No fundo, ele sabe que sua trajetória o convida a grandes reflexões. Prestes a completar 82 anos, no dia 31 de dezembro, o presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), mestre em teologia e filosofia, com pós-graduação em antropologia e lingüística, mostra quase o mesmo vigor de 40 anos atrás, época em que assumiu a causa dos oprimidos do regime militar, como padre em Conceição do Araguaia (1965 e 1967). Ele, porém, não esconde as decepções com velhos companheiros. Em Lula e no PT, diz não depositar mais nenhuma confiança. A esperança, agora, reside na rearticulação dos movimentos sociais, ?cooptados? pelo governo, e na remota possibilidade do surgimento de outro partido de massa. Nesta entrevista, dom Tomás critica as oligarquias remanescentes, a morosidade da reforma agrária e o agronegócio exportador. Como observador político, sai em defesa do prefeito Pedro Wilson, a quem considera uma ?reserva moral e administrativa?, e critica Iris: ?A classificação dele na política é de cacique. A eleição de Iris é um desafio para abrir os olhos da população goianiense; para evitar a manipulação que possa vir.?
O senhor esperava um diálogo mais efetivo com o governo federal durante a Conferência Nacional Terra e Água, realizada em Brasília?
A conferência foi apoiada pelos ministérios. Diversos deles deram subvenções para que acontecesse. Ela foi apresentada como uma proposta ao ministro Miguel Rosseto (Desenvolvimento Agrário). Depois, Incra, Ministério do Meio Ambiente, Secretaria Nacional da Pesca e Ministério das Minas e Energia foram solicitados. Eles participaram com financiamento e, também, com a palavra, durante o desenrolar do encontro. A conferência foi uma manifestação de muita vitalidade das diversas organizações populares que compõem o Fórum Nacional pela Reforma Agrária. Claro, teve presença mais significativa do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), mas também foi forte a participação do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), das organizações das mulheres e representantes dos povos indígenas e quilombolas. Teve uma atenção muito grande às perguntas e à gestação de propostas. Num gesto simbólico, o documento resultado do encontro foi entregue ao presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.
Foi intencional a escolha de Henrique Meirelles, tendo em vista que os sociais o consideram a figura mais ortodoxa do governo?
Independentemente do documento, havia uma ida ao Banco Central, como forma de manifestar repúdio à política econômica. Ele (Meirelles) é ortodoxo no sentido do continuísmo com a política anterior. É um reforço à política neoliberal de priorizar o capital, de responder às exigências do Fundo Monetário Internacional (FMI).
A declaração que mais repercutiu durante a conferência foi a do presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Rolf Hackbart, responsabilizando o agronegócio pelo assassinato de trabalhadores rurais sem-terra em Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Como o sr. avalia o episódio?
A palavra do Rolf estava dentro da programação. O massacre de Felisburgo (em Minas Gerais, onde cinco trabalhadores ligados ao MST foram assassinados) repercutiu muito na conferência. O encontro se deu num momento de reações violentas contra os sem-terra. Houve o episódio do Mato Grosso do Sul, com tiroteio para o lado de acampados; em Pernambuco e no Ceará. Na mesma semana, também ocorreu a queima de três aldeias dos índios Macuxi, em Roraima, e a tentativa de incêndio da catedral para mostrar o repúdio à igreja que apóia a causa indígena. Ainda por cima, teve a impunidade declarada do Tribunal de Justiça para os praças que participaram do massacre de Eldorado dos Carajás. O Rolf se ligou a essa causa. Mas associar a violência ao agronegócio não é palavra dele. Um estudo, que aparece no caderno da CPT, mostra que as regiões de agronegócio são as mais violentas do País. É um dado histórico. O Rolf, assumindo isso, trouxe aquela celeuma por parte da imprensa.
A grande imprensa assumiu da defesa do agronegócio?
Sim. É uma celeuma hipócrita, porque a imprensa é, majoritariamente, burguesa. Ela fala a linguagem da elite.
Não houve também uma tentativa do governo de colocar ?panos quentes?, por ter o maior expoente do agronegócio (Roberto Rodrigues) no Ministério da Agricultura?
Houve uma reação dentro do governo. O ministro, autoridade superior ao presidente do Incra, tomou a palavra para defender o agronegócio, que ele representa. Ele, inclusive, estava ligado à Monsanto (multinacional de biotecnologia), antes de assumir o ministério. Roberto Rodrigues defende o que é dele; não o governo. Essa crise repercutiu numa irritação do presidente Lula, que pensou em demitir o presidente do Incra. Acredito que só não demitiu para não repetir o gesto de degola do antecessor (Marcelo Resende). Talvez o pessoal que se lembra dos fatos tenha recomendado ao presidente não cometer a imprudência de demitir o Rolf por uma declaração que é óbvia. É a leitura técnica-científica dos fatos.
Por outro lado, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rosseto, um trotskista assumido, ficou mudo diante do episódio, assim como a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, tem perdido a queda-de-braço para o agronegócio. O sr. acha que Lula fracassou na tentativa de criar um governo de coalizão, comportando setores tão antagônicos nos ministérios?
Tempos atrás, eu analisava isso (o governo de coalizão) como algo indesejável. Um governo, que se pretende de mudança, faz alianças em vista de ganhar determinadas causas no Congresso, mas ao preço de aceitar tais e tais ministros... Hoje, acho que é o normal no governo Lula. Uma vez que está decidido a continuar o mesmo modelo econômico, e até aprofundá-lo, o caminho é esse.
O sr. não vê mais nenhuma perspectiva de mudança?
Não há nenhuma...
Quando Lula foi eleito, o sr. disse que não confiava nos partidos, mas depositava toda a esperança nele. Ainda resta confiança no presidente?
Não. A não ser que haja um evento muito significativo. Todas as vezes que é solicitado, Lula reafirma o apoio a esse modelo que está aí. Concordo com o manifesto dos 300 economistas, condenando a política econômica. É uma questão de liberdade pessoal. Não somos governo para ditar normas, mas, como da sociedade civil, a gente tem força para dizer o que está acontecendo. Fico triste (com o presidente), mas, ao mesmo tempo, esperançoso. Agora, nossa esperança se situa nas organizações populares, na rearticulação da sociedade civil, na retomada da consulta e de todos os instrumentos que dispomos para levar a luta adiante. Houve uma perda dessa sociedade com a subida de Lula.
À época da eleição, os movimentos sociais não admitiam que poderiam ser cooptados. Houve, então, cooptação?
Houve cooptação até voluntária. O pessoal começou a apostar, quase que exclusivamente, no Estado. Gente que tinha uma atuação nas diversas organizações populares passou facilmente para os quadros do governo.
José Graziano (assessor da Presidência ) e Frei Betto (coordenador do Programa Fome Zero) são exemplos?
O Betto, talvez, fique como elemento de conselho, embora tenha um trabalho funcional ligado ao Fome Zero. Mas várias pessoas que integram quadros do Incra ou da Funai foram tirados desse pessoal lutador. Nesse ponto, o MST se manteve firme na sua posição. Mas acho que, como conjunto, a sociedade perdeu. Hoje, até se diz que ?não foi o PT ganhou o poder; foi o poder que ganhou o PT? (risos). Tanto Lula como o partido do qual é presidente de honra tomaram uma outra feição, a ponto de haver crise interna. Havia sugestões de dissidência no partido; uma sigla que surgisse dessa cisão, aproveitando toda a história do PT - que é muito importante para a construção da nossa cidadania e nacionalidade, mas que acaba sendo dominado pela cúpula.
Quem é o principal responsável por essa nova direção: os ministros José Dirceu e Antônio Palocci ou o presidente do partido, José Genoino?
Envolve todos eles. José Genoino é o cabeça da nova fase. Já tinha esse posicionamento de aliança antes mesmo da vitória de Lula. Acredito que, pela liderança que ele exerce como pessoa, levou o conjunto do partido. Por exemplo: agora, na votação da Emenda Constitucional que dá status de ministro a Henrique Meirelles, o PT tomou posição, rachado. É quase que meio a meio, mas o direcionamento do partido é a favor dessa medida.
Por não seguir a linha, a senadora Heloisa Helena, junto com outros parlamentares, foi expulsa do partido e fundou o P-Sol. O sr. acha que a nova sigla tem futuro?
Acho que é um esforço. Ele nasce numa história de crise. Resulta, porém, pequeno e insignificante como partido. Pode ser cresça, mas não estou vendo esse crescimento.
Há possibilidade de surgir outro partido de massa no Brasil, como o PT?
É preciso que nasça. Uma vez que não, a comunidade não tem representação no governo. O partido não é tudo, mas não podemos prescindir dele. Seu papel é fazer a mediação entre a sociedade civil e o Estado. A elite é bem servida nesse sentido. A grande maioria dos partidos é obra da elite. Quando ela é afetada em sua propriedade, em seu patrimônio, imediatamente os partidos fazem o trabalho da mediação e conseguem modificar leis, por meio de emendas e flexibilizações. Toda a evolução do capital acontece pela força dos partidos representativos das elites financeiras.
É contraditório para movimentos sociais e antigos militantes do PT o fato de ser o PMDB que está puxando a discussão sobre sua permanência ou não no governo. Chegamos ao extremo de uma ala peemedebista adotar um discurso de ?esquerda?, de oposição ao PT?
O PMDB no governo está na lógica do fisiologismo, de manter, com todos os equilíbrios instáveis, o jogo de alianças, de compras e pressões. O que posso dizer é isso: eu não concordo, mas acho que o governo acertou na mosca. A mosca dele. Para mim, ela é hedionda.
A eleição de Lula, no Brasil, e de Lúcio Gutiérrez, no Equador; a permanência de Chávez, na Venezuela, e, logo em seguida, a vitória de Néstor Kirchner, na Argentina, deu a entender que estávamos criando um eixo de esquerda na América Latina. É possível fazer um paralelo com o rumo que Lula tomou e o adotado pelos vizinhos latino-americanos?
A comparação mais interessante é com a Venezuela. Os venezuelanos conseguiram a façanha de manter um presidente constitucional no posto dele, apesar do golpe dado com colaboração dos Estados Unidos e apoiado pelas elites. A Venezuela era dominada por 30 fazendeiros. Isso resulta, hoje, numa minoria com uma força econômica extraordinária. Aí surge um governo populista, popular, ou sei lá o quê, com uma fragilidade da massa. No Brasil, a gente tem quase o inverso: uma massa que vai se fortalecendo e se articulando em diversas organizações populares, mas, do ponto de vista do líder, nós perdemos. Não de tudo, porque Lula tem sua trajetória. Se hoje fosse marcada a eleição, ele ganharia, pela força da massa popular. A figura do Lula ainda cativa. A problema para ele é na militância; esse pessoal que o colocou no poder, celebrou e vibrou com isso... Agora, abaixo, tem toda aquela camada que vê só televisão, não teve chance de fazer análise de conjuntura e participar de encontros de formação. Outro dado em relação à figura do Lula é que ele tem uma influência no continente latino-americano. Nesse sentido, soma com esses governos para marcar uma posição que não é de total submissão ao império norte-americano.
Ele assume essa liderança, mas, do ponto de vista da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), por exemplo, o governo até hoje não se posicionou claramente.
Ele evita se posicionar justamente porque é bater de frente com os Estados Unidos. A gente tem um estudo, feito por alguém de dentro do Ministério das Relações Exteriores, mostrando que a Alca não vai cumprir o calendário, previsto para janeiro. Vão empurrando. Enquanto isso, se fortalece a alternativa, que é o Mercosul. Até Chávez entra no Mercosul ? ele é de Centro-norte (risos).
Mas o sr. considera positivo o fortalecimento do Mercosul?
Considero uma alternativa à Alca. Ele pode ter os mesmos pecados, porque é ?merco?. Antes de mercado, o que precisamos na América Latina é uma integração cultural e histórica. É aquilo que Chávez propõe: a mística bolivariana. Lula tem mais força para segurar a Alca por causa do poderio que representa o Brasil. Mas, quando comparo Mercosul e a Alca, faço uma advertência: é um mercado por outro. Pode ser que sejam as mesmas regras somente nas nossas mãos. O Mercosul fica nas mãos de quem; do Paraguai? Eu já estive na Venezuela três vezes. Lá, existe algo além do mercado. Esse espírito bolivariano, de independência em relação à metrópole, é uma espécie de espinho no sapato dos norte-americanos.
O sr. acha que Hugo Chávez resiste a mais um mandato de George W. Bush?
Acho que resiste, porque é uma questão de legalidade, de Constituição. Se fosse um golpe contra outro, ele estaria em desvantagem. A correlação de força seria em favor do norte-americano. Ele é o presidente eleito. Foi confirmado no poder por uma exigência da Constituição. O que querem mais? O que podem fazer é um bloqueio. Mas fazer bloqueio a país rico? A Venezuela é da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo).
O que diferencia os programas sociais de Lula e Chávez?
Lula tem uma política popular, que é o Fome Zero. A de Chávez é melhor. Aqui é mais promocional. O Fome Zero é assistencialista.; está claro isso. Na Venezuela, o que a gente nota, do ponto de vista da saúde, é que ela é preventiva. São 12 mil médicos cubanos e mais outros tantos do próprio país convocados para o ?soerguimento? da população. Eles atendem a família como na favela, morando lá.
O modelo brasileiro (Programa Saúde da Família) está longe disso?
Ele é muito pequenininho. Também outros programas, como alfabetização em massa e ?Universidade Para Todos?... O crédito também não funciona. Aqui, a burocracia emperrou. Os bancos não aprovam nada para o camponês. Lá, isso funciona.
Dá para se dizer que todos os programas sociais de Lula fracassaram?
Não generalizaria. Teria de estudar um por um. Conheço mais a linha da reforma agrária, que acaba não cumprindo as metas. Elas já foram reduzidas em 50% e, para este ano, acabou. Não tem mais dinheiro. Nem entrou no orçamento, apesar de os representantes do Fórum Nacional pela Reforma Agrária terem cobrado em tempo para colocar no orçamento de 2004.
Este ano, foram assentadas 69 mil famílias. A última previsão do Incra é de assentar 90 mil até o final do ano. A meta incial era de 115 mil. E, para os quatro anos de governo, 400 mil. É possível chegar pelo menos à metade?
O governo empurra a reforma agrária com a barriga. Vamos ver se entra no orçamento. O certo é orçar.
O presidente regional do Incra, Ailtamar Carlos da Silva, considera que há avanço no processo em Goiás, enaltecendo o diálogo criado com os movimentos sociais, em particular o MST. Há avanço?
A pressão feita em Goiás não é diferente da que é realizada em outras partes do Brasil. Quando ocupam o Incra, é uma pressão até para ajudar o presidente (do órgão), porque ele queria ter mais recurso. O Incra está sucateado. Grande parte (dos funcionários) se aposenta e não há renovação. É que o acontece em Goiás também. Agora, do ponto de vista de opção, Ailtamar Carlos é uma figura dos quadros da Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura). Ele vem dessa luta, e o diálogo com os movimentos é constante.
Como o sr. avalia a existência de diversas entidades na luta pela terra? Há diferença ideológica entre MST, MTL, Contag e MLST, por exemplo?
A tensão maior é entre MST e Contag, mas os dois estão dentro do fórum. Houve uma queixa de que a Contag não compareceu em bloco nesta conferência. Eles mandaram uma carta explicando que tinham uma programação própria. Mas, como forma de suprir a carência, o próprio da presidente da confederação foi à abertura. Existe a tensão porque a luta pela terra leva a uma espécie de disputa pelo mesmo espaço.
Essa tensão não está no fato de o MST ter nascido de um movimento de luta e, a Contag, de um movimento sindical, que durante um tempo esteve subordinado aos produtores rurais?
Pode ser, mas acredito que a Contag se oxigenou muito na luta pela terra. Há vários acampamentos e assentamentos dela. Ela não está fora das conseqüências ? até perigosas ? da luta pela terra. Comparando um sindicado com o peso da Contag e um movimento ágil e quase militar, como o MST, posso dizer que são diferentes, mas acho que se complementam. No fórum, a CPT é, muitas vezes, chamada a mediar as tensões entre um e outro. Nunca a gente sugeriu deixar de lado a Contag só porque está mais na política do governo. O governo consegue adular um pouco. Passa um ?zé? (risos), e o outro fica meio de lado. Mas unidade é o trunfo de todos que estão envolvidos na luta. Isso apareceu muito na conferência. Mesmo as organizações pequenas trazem um pluralismo sadio para dentro da luta. Essa tentação de central única é coisa do passado.
Ainda existe uma visão de que os assentamentos no Brasil não produzem e que a agricultura familiar não vai para frente. O que a CPT pensa sobre isso?
Vai pra frente, sim. Temos um levantamento muito interessante sobre o resultado dos assentamentos. Ao contrário do que muito gente diz, não há favelização do campo. Há sofrimento e pobreza, porque muitos assentamentos foram colocados em terras ruins e abandonados. Tanto que uma das metas do Lula ? que ele não está conseguindo cumprir ? é recuperá-los. Recuperar custa caro. Mas o que o governo não investe, como infra-estrutura do agronegócio, nas hidrovias e ferrovias? Isso tudo está nas nossas costas. Depois, eles vão se aproveitar da exportação da soja e ficar com o dinheiro no bolso. Por que não fazemos um investimento, até a fundo perdido, em favor daqueles com os quais o Brasil tem uma dívida histórica? Achar que é dinheiro jogado fora investir em reforma agrária é obtusidade, atraso. É digno dos paulistanos, considerados os mais avançados, mas contrários à reforma.
Como o sr. analisa a derrota de Pedro Wilson em Goiânia e a volta de Iris Rezende Machado ao poder?
Interessante é que Iris é conhecido. A classificação dele na política é de cacique. Não é muito diferente do Amazonino Mendes (ex-governador do Amazonas), do (senador) Antônio Carlos Magalhães e do Orestes Quércia (ex-governador de São Paulo). Essas pessoas se eternizaram no poder, não aceitaram o revezamento e foram se enriquecendo. Goiânia tem dinamismo, mas a direita tem muita força. Aqui é o agronegócio, a UDR (União Democrática Ruralista).
O agronegócio ajudou a eleger Iris?
Acho que está por aí. Mas a vitória de Iris não foi devido à elite que Joaquim Roriz sonhava repor no poder, por mil motivos. Na linha populista, ele investiu na maior carência da administração Pedro Wilson, que era periferia. Houve uma tentativa de trabalho, mas acho que a administração Pedro Wilson ? por ser muito ética, atendendo muito à Lei de Responsabilidade Fiscal ? ficou meio engessada. Ele, talvez, não teve a desenvoltura para poder calçar essas periferias. O Orçamento Participativo, na minha visão, não é culpa do Pedro. Talvez seja do pessoal que o assessora. De fato, estava desguarnecido. Aí entrou o populismo: ?Vou passar o asfalto na sua porta e vou colocar o transporte com uma ou duas semanas...? É a força do elemento popular. Mas há uma análise de que o Pedro Wilson perdeu por causa do feriadão. Os eleitores dele eram de mais recursos, de classe média... Quantos mil migraram?
O sr. acredita mesmo que o feriadão teve peso no resultado da eleição?
Teve. Foi calculado no lápis.
Mas o fato de as pessoas viajarem não seria reflexo de um desânimo? Os eleitores que migraram não teriam ?lavado as mãos?, como forma até de manifestar um descontentamento com os dois candidatos?
Acho que havia um crescimento (de Pedro Wilson). As pessoas precisam de reforço para superar o voto útil. Ninguém gosta de perder o voto. Ver que seu candidato está com uma desvantagem grande, pode levar ao desânimo. Mas a eleição de Iris é um desafio para abrir os olhos da população goianiense; para evitar a manipulação que se possa vir.
O sr. também critica muito o PSDB, mas aqui, apesar de ter havido uma polarização entre petistas e tucanos em nível nacional, o prefeito Pedro Wilson se aproximou governador Marconi Perillo...
Aqui é um caso especial, por causa da tensão entre Iriz e Marconi. Iris foi derrotado por Marconi, e essa retomada da prefeitura pode dar caminho a um certo revanchismo ou, pelo menos, desgastar a figura do Marconi. Daí a possibilidade de aliança. Uma vez que ganha a eleição, tem de discutir outros projetos importantes: governo, Presidência.
A decepção do sr. é maior com Lula do que com Pedro?
Não tenho decepção com Pedro. Eu fiz uma análise sobre as eleições daqui. Não foi culpa do Pedro Wilson, mas acho que ele poderia ter resguardado mais essas bases periféricas de Goiânia e o problema do transporte. Talvez não botou às claras, num processo de diálogo com a sociedade, e acabou perdendo.
Mesmo assim, Pedro é um bom candidato para o governo em 2006?
Sim. É uma das nossas reservas morais e administrativas. É isso que nosso País precisa. É um homem que foi formado numa coerência do bem comum. Depende de como vão se dar essas fraturas partidárias, as alianças.
Hoje (1o de dezembro) é dia Mundial de Luta contra a Aids. O Vaticano soltou uma nota associando a doença a uma deficiência da moral. Como o sr. vê essa linha da atuação, um pouco mais conservadora, do Papa João Paulo II?
O posicionamento geral dos pastores é um pouco diferente daquilo que é declarado em Roma, contra camisinha, inclusive. É mais de defesa da vida do que da moral moralista. A defesa da vida exige trabalhar diante da situação concreta que acontece. Não vamos analisar os deslizes sexuais ou morais das pessoas. A prática é de acreditar no dado da ciência.

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