quinta-feira, 23 de abril de 2009

CENTENÁRIO DE DOM HEREGE CAMARA

DUAS MÃOS POSTAS

Nélson Rodrigues

“Eu rezo! Pode deixar que eu rezo! Eu acredito na força da oração!”

Quem falava assim, e trêmulo de fé, não era o vizinho do lado, nem o açougueiro da esquina, nem o português do botequim. Não. Era d. Hélder, sim, sim, exatamente d. Hélder e não um qualquer. Eu pedia por alguém e repito: alguém da minha amizade ou, melhor dizendo, alguém do meu amor.

E que fiz eu? Fiz a opção entre d. Hélder e d. Marcos Barbosa (o que me fascina neste último é o sorriso de Manuel Bandeira). Acabei ligando para d. Hélder Câmara. Contei-lhe tudo, tudo. Disse: — “Há uma moça assim, assim, que eu amo. Que é tudo para mim. Essa moça está sofrendo. E eu queria que o senhor fosse vê-la. Faz isso para mim, d. Hélder, faz?”.

D. Hélder foi de uma solidariedade fulminante. Não fez o suspense de uma dúvida. Nada. Faria isso por mim. E, rápido, prático, pedia endereço, telefone. Sem vê-lo, eu o imaginava apanhando lápis, papel. Dei a rua, o número e o telefone. Ah, faltava o nome. Passei-lhe o nome. Era em Santa Teresa. Subiria Santa Teresa. Deixei o telefone, certo de que acabava de falar com um santo.

Não é recente a minha fascinação pela batina. Vem de longe, muito longe. Eu era garotinho e vi uma menina atravessando a rua para beijar a mão de um padre. E, depois, outras meninas beijaram a mão de outros padres. Hoje, ninguém beija a mão de padre, ninguém.

Eu queria um padre junto à mulher que amava. Ela sofria. Muito bem:

— e era preciso que a piedade e o amor vestissem batina. A solidariedade de d. Hélder fez-me um bem lancinante. Eis o que eu pensava: — “Ainda bem que procurei d. Hélder e não d. Marcos”. Por certo, d. Marcos teria também uma estrutura muito doce. Mas d. Hélder era mais promovido. Sim, tinha mais nome, mais imprensa (pode parecer torpe essa reflexão que, na época, me ocorreu).

D. Hélder cumpriu a palavra: telefonou. No dia seguinte, falou comigo: — “A moça estava de saída”. Combinaram que ele telefonaria depois. (Carlos Heitor Cony contou-me que, na sua passagem pelo seminário, falou certa vez com d. Hélder. Abriu-lhe a alma: — “Meu pecado é o orgulho. Sou muito orgulhoso etc. etc.”. D. Hélder foi exemplar: — “Meu filho, nunca seja orgulhoso de dentro para fora, mas de fora para dentro”.

Cony parou, perplexo. O outro, mais didático, completou: — “Para fora, seja modesto, seja humilde. O orgulho interior Deus perdoa”.)

Liguei para a mulher amada. Ela estava feliz, feliz, com o telefonema.

Disse: — “Foi tão simpático”. Parecia menos deprimida, menos crispada. E eu: — “Meu anjo, escuta. Tudo vai sair bem. Você vai ver: d. Hélder é formidável. E inteligente, muito inteligente”. A inteligência era o de menos.

Sempre tive a obsessão da bondade. Mas eu tinha medo, eis a verdade.

Quem ama conhece todo o inferno da mania de perseguição.

Retifico: a mania de perseguição não é mania de perseguição. De fato, qualquer amor há de sofrer uma perseguição concreta e assassina. Somos impotentes do sentimento e não perdoamos o amor alheio. Eu amava e comecei a sentir, por toda a parte, pressões contra mim e o ser amado. Soube de alguém que fizera este comentário: — “Se essa moça gosta do Nelson, é uma débil mental!”.

E d. Hélder não foi. Desesperado, eu dizia: — “Mas ele prometeu. Não telefonou para você? Não disse que ia? Vou falar com ele”. Liguei várias vezes. Começou a não estar. Cerquei-o em casa. D. Hélder suspirava: — “Não posso, não devo”. Aterrado, fiz-lhe todo um furioso apelo: — “D. Hélder, não se trata de opinar. O senhor não opina. Não precisa ser nem contra, nem a favor. O que eu quero do senhor é um ato de compaixão. Me entende? A moça está sofrendo. O senhor diz uma palavra amiga e só. D. Hélder!”.

Foi aí que ele falou em “rezar” e repetiu: — “Rezo! Rezo!”. Por um momento, eu não soube o que dizer. Ele pôs-se a demonstrar o valor formidável (e prático) da oração. Foi patético no telefone: — “Acredito na oração! Acredito! Tenho rezado pela moça!”. Reagi à sua veemência com a minha veemência.

O que é que eu disse? Disse que a oração é linda. Duas mãos postas são sempre tocantes, ainda que se reze pelo vampiro de Dusseldorf. Mas por que não (e também) a presença, a cálida presença física? Por que não o gesto, o olhar, o sorriso? E por que não a voz, a inflexão? Por que não a lágrima? (o ausente não chora).

E falei muito e deixei de dizer tanta coisa. Poderia contar que, na rua Alegre, quis ser coroinha. Ainda hoje, quando vejo a torre de uma igreja, sinto em mim todo um frêmito de batinas, de freiras, de círios e de santos.

Aos oito anos, eu próprio queria ser santo; desejei ser crucificado e imaginava alguém enxugando, na minha fronte, o suor do martírio. Mas calei-me. Senti em d. Hélder o tédio da nossa discussão. Direi mesmo a palavra cruel e inapelável: ali, eu era o “chato”.

(Desesperado, fui bater a d. Marcos Barbosa. O nosso primeiro encontro foi na Rádio Jornal do Brasil. E que bem me fez o seu sorriso de Manuel Bandeira. (Era mais gordo do que eu pensava.) Contei-lhe tudo.

Repeti que não se tratava de opinar; ninguém precisava ser contra ou a favor. O que eu queria era um mínimo de bondade, apenas isso, um mínimo de compaixão. Ele me ouviu, tenso; e não senti, na sua atitude, nenhuma fuga. Quando acabei, disse que ia; e foi. Aí é que está: foi. Subiu Santa Teresa; desceu do bonde; bateu na porta. E riu para a moça, com os dentes de Manuel Bandeira.)

Passou. E hoje vejo pelos jornais que d. Hélder mudou muito. Não é o mesmo, eis a verdade, não é o mesmo. Aí estão os seus pronunciamentos; faz viagens; anda de um lado para outro. Foi a Nova York, que é um pouco mais longe do que Santa Teresa. E, lá, promovido como O Arcebispo Vermelho, fez discursos. Por que não ficou aqui rezando? E outra coisa: — há fome no Nordeste? Nem tudo está perdido, porque temos aí a fé de d. Hélder. Pena é que, nos seus manifestos, ele não faça uma única e escassa referência ao sobrenatural. Sim, nunca prometeu orar pelas populações famintas. E eu estou imaginando se, um dia, Jesus baixasse à Terra. Vejo Cristo caminhando pela rua do Ouvidor. De passagem, põe uma moeda no pires de um ceguinho. Finalmente na esquina da avenida, Jesus vê d. Hélder. Corre para ele; estende-lhe a mão. D. Hélder responde: — “Não tenho trocado”. E passa adiante.

[16/12/1967]

O óbvio ululante

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