sábado, 18 de abril de 2009

Dois amores, duas cidades: Via modernorum III

 

Gustavo Corção

Ordem entitativa e ordem intencional

3. Na primeira página de seu livro L’ Ontologie du Connaître,, Yves Simon grava a seguinte advertência: "Quem não experimentou em si essa angústia [em face do problema do conhecimento], e essa necessidade de voltar à mais banal das experiências, para tocar com a mão a sua certeza — tememos que lhe tenha escapado o essencial do pro­blema. E quem não descobre na análise do conhecimento nada mais do que as coisas óbvias, estejamos certos de que esse con­cebe as coisas do conhecimento à maneira das coisas da na­tureza." E basta esse equívoco, essa peculiar estreiteza, para po­dermos dizer o que Maritain disse de Kant: passou ao largo cio problema ou do mistério do conhecimento. E é curioso que isto aconteça mais frequentemente na mesma época em que a cultura se torna reflexa, e se volta crispada sobre o conhecimento como objeto do conhecimento.

Dissemos que o conhecimento é uma união do conhecido com o cognoscente, mas união sui generis. Em regra geral, quando uma coisa se une a outra, forma uma terceira: a alma unida ao corpo dá o homem; a forma unida à matéria dá o corpo físico; o oxigénio unido ao hidrogénio forma a água. Mas o sujeito cognoscente e o objeto conhecido não produzem nenhum composto. "Temos diante de nós uma união cuja uni­dade não provém da fusão de duas realidades em uma terceira: se há unidade é porque o sujeito tornou-se o objeto, e essa unidade, segundo uma observação famosa de Averrois, é a mais íntima de todas que existem."

Assim, o aspecto conhecido da coisa conhecida existe duas vezes, uma vez na natureza, na coisa que o possui como seu, e uma segunda vez a título de objeto na alma que o conhece e que, conhecendo-o, possui-o como um outro. A qualidade fí­sica possuída fica restrita às dimensões de seu sujeito, e não pode pertencer ao mesmo tempo a diversos. Um som pode ser ouvido por diversos, mas cada um recebe e possui realmente uma fração da energia total, e essa fração não é possuída ao mesmo tempo por outros. Mas a qualidade constituída como objeto é indiferente à multiplicidade de possuidores. A existên­cia do objeto na alma cognoscente é uma existência imaterial, em um sentido especial, ainda que a coisa conhecida pertença à ordem sensível.

Yves simon: "Quando se diz que a forma do conhecimento existe imaterialmente no cognoscente, é preciso entender que ela entretém com ele uma relação que não é aquela que a forma de um composto entretém com a sua maté­ria, e isto supõe de sua parte uma libertação da matéria, do puro ponto de vista das condições que a matéria impõe à forma quando se juntam para constituir um composto. Eis o que significa o termo existência imaterial. É pre­ciso lembrar que essa expressão se presta a enganos, por excesso e por deficiência. Por excesso: porque o objeto do conhecimento sensível conserva, exceto no sentindo preciso que acabamos de definir, as condições formais que resultam da materialidade; se bem que comunicável, a forma sensível existente no conhecimento permanece forma de um objeto material, individual e provido de uma posição espacial. Por deficiência: porque no mundo dos espíritos ainda se aplica a distinção entre a existência físi­ca da coisa nela mesma, e sua existência no conhecimento. Por isso devemos preferir o termo existência intencional criado pelo aristotelismo latino para exprimir o pensa­mento de Aristóteles." (Op. cit. págs. 16, 17.)

Vê-se assim que é do lado da existência que o conhecimento tem sua incomparável especificidade. O que eu conheço existe em mim, mas seu modo de existir em mim é diferente de seu modo de existir em si mesmo; o que eu conheço eu sou, mas o modo como sou é diferente do modo que eu sou em mim mes­mo, e do modo de ser do que eu conheço em si mesmo.

Yves Simon: "Pobre consolo, para o que vai morrer, é o de pensar que ele continuará a existir na memória dos seus. Se não houvesse outra vida além dessa sobrevivência in­tencional, a morte seria realmente um mau negócio. Todo o benefício do conhecimento é para o cognoscente, que fica por ele dotado de um acréscimo de existência, exis­tência relacionada, suspensa em outro, e tal que se pode exprimir sua dependência em relação ao outro dizendo que ele tende para ele com todas as suas forças; o objeto conhecido existe no sujeito cognoscente com uma existência intencional, no sentido de estar a realidade desse objeto, na medida em que ele existe na alma, totalmente vinculado à realidade que a coisa possui no ser extramental. Se cortarmos a relação entre o objeto existente no espírito e a coisa existente (ou podendo existir) na natureza, o primeiro não conservará sombra de realidade." (Op. cit. págs. 17, 18.)

Essa distinção entre a ordem entitativa e a ordem intencional entre os dois modos de existência, é trave mestra na epistemologia realista, ou aristotélico-tomista, e foi longamente elaborada (e precisaria de um desenvolvimento muito maior do que este resumo para ser vista em todo o seu alcance) para salvar o conhecimento em todas as suas grandes exigências. O ponto de partida, ou motivação, sem o que não entenderemos essa construção intelectual, ou essa profunda pesquisa, é uma espécie de confiança incondicional na bondade do ser. "E Deus viu que era bom..." Ai do pensador que não começar sua Vida filosófica por esse Génese epistemológico! A inteligência é boa, e toda a filosofia tem de girar em torno da adequação da inteligência ao ser, como em torno de um eixo principal.

Na ânsia de entender o processo gnosiológico, podemos compará-lo a outras atividades que nos parecem mais claras, c que se explicam sem necessidade de um desdobramento na ordem da existência. Assim é que, para um encaminhamento do problema, podemos dizer, como aliás se diz em linguagem vul­gar, que conhecer é receber uma impressão, ou é assimilar uma manducação, ou é receber um germe fecundante. Em todas essas metáforas, o cognoscente é passivo em relação ao que vem de fora. Mas também podemos dizer que o conhecimento é uma elaboração, ou até uma fabricação, como se vê no sistema de Kant. E nessa perspectiva o cognoscente é ativo; talvez pu­déssemos dizer excessivamente ativo.

Todas essas imagens juntas, combinadas, arranjadas, não conseguem proporcionar uma síntese que cabalmente responda às exigências maiores do problema, não conseguem salvar o conhecimento, enquanto não admitirmos a singularidade do pro­cesso, e enquanto não entendermos o alcance da distinção entre as duas ordens de existência.

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