quarta-feira, 10 de junho de 2009

O luzeiro em baixo do alqueire

Dois amores
Duas cidades
Gustavo Corção
Edito Agir 1967

Há um lema metafísico que se enuncia assim: nada passa da potência ao ato que não seja por algo que já este ja em ato. Esse princípio comanda toda a dinâmica do Ser, e manifesta-se em graus inferiores nos diversos planos do universo. Na Física, por exemplo, temos o princípio dos vasos comunicantes: só há movimento onde houver diferença de nível. Num circuito elétrico também só circula corrente quando em suas extremidades existe uma diferença de potencial. E assim em tudo. Na pedagogia de todos os graus e espécies a mesma regra se observa. Só dá quem tem, só ensina quem sabe, só eleva quem possui elevação.

A mesma coisa diríamos da pedagogia que os homens esperam da Igreja: só pode iluminar o mundo uma Igreja elevada e não uma luz trazida para o rés-do-chão. "Ninguém acende uma lanterna para colocá-la debaixo da cama ou coberta por alguma vasilha; antes põe-na sobre o candeeiro para que todos a vejam." (Luc. VIII, 16.)
No caso da pedagogia da Igreja ganha especial gravidade a regra comum. Não é apenas a altitude, a diferença de grau da medida comum, que devemos manter; é uma elevação de outra ordem, que exprima a transcendência da Igreja sobre o mundo, e que inculque nos homens a ideia da transcendência de nossa vocação sobre todas as instituições da ordem temporal.

Qual é nesse problema a atitude dos novidadeiros de hoje? É a do imanentismo. Para se comunicar, para atuar, para abrir caminhos, para ser ponte, ou que mais digam, querem eles que o Povo de Deus se despoje de seus traços distintivos. Na linguagem da antiga infidelidade, que preferia as cebolas do Egito ao insípido maná do deserto, querem que o Povo de Deus seja como todas as nações!

A vida cristã é um contraponto que tem por clave a Cruz de Nosso Senhor. E daí, sem nenhum artifício, se tira o duplo simbolismo, ou a composição da linha horizontal e da linha vertical. Nossos passos no mundo seguem a primeira linha, mas nossa vocação se afirma em cada instante pela segunda. Vejam os missionários: andam, viajam, atravessam distâncias enormes, para quê? Para verticalizar as almas que conquistam para Deus. Os modernistas planejam a horizontalização geral do cristianismo, por não terem observado que a cruz se sustenta pelo pé que se finca na terra e que aponta para o céu.

No programa de horizontalização do cristianismo, tudo fica igual a tudo. O que é um padre? Um homem como outro qualquer? E a marca? E o caráter? O cristão, que só pode ganhar o mundo, conquistar as almas, pela derrisão e pela loucura do espetáculo que oferece, deixa também sua marca e se torna um homem como-outro-qualquer. Poderíamos chamar esse movimento de como-outro-qualquerismo, e essa denominaçãomuito mais exata do que a de progressismo, porque m realidade esse movimento entrava o verdadeiro progresso humano.

E por aí se vê que o bravo mundo novo que desejam construir, antes de qualquer qualificação, será prodigiosamente enfadonho e tedioso.

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