sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Assis e a Dominus Iesus


Nota: Saiu recentemente um texto de Paolo Rodari, aventando mudanças no III encontro de Assis, baseando-se na Dominus Iesus. Surpreendentemente, o então Cardeal Ratzinger ao dizer o Credo niceno-constantinopolitano, neste documento, omite mesmo o Filioque que foi motivo da ruptura dos orientais da chamada Igreja Ortodoxa. Já no templo luterano (como Bento XVI), ao sequazes de Lutero, disse que “somente Deus pode nos dar unidade”. Aqui ele já omite plenamente a Dominus Iesus, onde se reafirmaria que a Igreja Católica é necessária para a salvação. Assim, ele só poderia ter dito aos luteranos “somente Deus pode trazê-los de volta a unidade da única Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo: Una, Santa, Católica e Apostólica. Para que se convertam e sejam salvos”. Não afirmando isto, deixa-se margens para entender que os luteranos podem encontrar salvação fora da Igreja. Mas o problema como colocado pelo Papa, não se trata de um problema de salvação a priori, mas um problema de unidade. Talvez os luteranos também estejam dentro da Igreja Católica, mas estejam em “meia comunhão”. Como se fosse possível dizer SIM NÃO…
Por essas e outras, o documento Dominus Iesus, não mudará em nada o III encontro de Assis. Abaixo segue o texto de Georcione Lima, analisando a Declaração Dominus Iesus (disponibilizado pelo site Capela). Um bom esclarecimento!

A DECLARAÇÃO DOMINUS IESUS E SUAS AMBIGÜIDADES
Procurei redigir um comentário a este documento da Congregação para a Doutrina da Fé, assinado pelo Cardeal Ratzinguer, com aprovação do Papa. Fui impedido por diversas razões, entre as quais destaco a náusea que sentia diante das armadilhas modernistas do texto e ainda mais dos bispos e teólogos que vieram a campo defender este documento. Nesse meio tempo soube da entrevista do Cardeal Ratzinguer a uma revista alemã (ver abaixo) onde o Cardeal acabava de vez com as esperanças que o texto, apesar das armadilhas, podia causar. Com isso pensei em desistir de comentar um texto que seria igual a todos os outros: inútil, enganador. Mas uma de nossas leitoras enviou-me o comentário abaixo que, apesar de não abranger todo o texto, mostra com clareza onde se encontram as principais armadilhas e o espírito modernista. Agradeço, assim, a Gercione Lima, por ter tido mais estômago do que eu. Aqui e ali introduzi algumas notas minhas.
Antes de lhe passar a palavra, assinalo que, no segundo parágrafo, o Cardeal transcreve o nosso Credo, o Símbolo de Nicéia-Constantinopla. Ora, surpreendentemente, este texto omite o Filioque: que procede do Pai e do Filho, como ensina a Fé Católica, motivo da ruptura dos orientais da chamada Igreja Ortodoxa. Não me parece plausível alegar uma distração, em se tratando de texto oficial da mais importante Congregação doutrinária da Igreja. Falar em heresia também seria exagerado, visto que no próprio Novo Catecismo, o texto apresenta o Filioque. Talvez a razão seja, simplesmente, ecumenismo. Talvez o próprio documento esconda, por detrás das afirmações quase tradicionais, intenções de agradar aos ortodoxos. Fica a dúvida para quem se interessar em pesquisar neste sentido.
Dom Lourenço Fleichman
Quem achou que a Declaração Dominus Jesus Sobre A Unicidade e a Universalidade Salvífica de Jesus Cristo e da Igreja veio para dar um fim às intermináveis especulações ecumênicas, bem como reafirmar o dogma: "Fora da Igreja não há salvação", comemorou muito por quase nada.
Essa declaração da Congregação para a Doutrina da Fé não deixa muito espaço para nenhum longo tratado sobre a mesma. É suficiente dizer que a declaração simplesmente "reiterou o ensinamento do Concílio Vaticano II, segundo o qual a Igreja Católica é necessária para a salvação". Pelo menos foi essa a explicação que o Cardeal Ratzinguer deu em entrevista ao jornal alemão "Frankfurter Allgemeine".
O leitor mais atento perceberá que a tática dos modernistas continua a mesma: declaram algumas verdades em um parágrafo, para logo em seguida contradizê-las no parágrafo seguinte, de forma que a indiferença e o pluralismo religioso que eles fingem erradicar, acabe perseverando mais vivo do que nunca.

Por exemplo, em algumas passagens da Declaração está escrito: "A verdade profunda, tanto a respeito de Deus como da salvação dos homens, manifesta-se-nos por esta revelação na pessoa de Cristo, que é simultaneamente o mediador e a plenitude de toda a revelação ... "A fé é um dom da graça: Porque para professar esta fé, é necessária a graça de Deus que previne e ajuda, e os outros auxílios internos do Espírito Santo, o qual mova e converta para Deus os corações, abra os olhos da alma, e dê "a todos a suavidade no aderir e dar crédito à verdade" ... "Deve, portanto, manter-se firmemente a distinção entre a fé teologal e a crença nas outras religiões. Se fé é aceitar na graça a verdade revelada, que permite penetrar no seio do mistério, favorecendo a sua inteligência coerente , a crença nas outras religiões é o conjunto de experiência e pensamento, que constitui os tesouros humanos de sabedoria e de religiosidade, que o homem na sua procura da verdade idealizou e pôs em prática em referência ao Divino e ao Absoluto".
Todavia, logo depois de declarar com absoluta fidelidade à Doutrina Tradicional, a diferença entre a Fé Católica sobrenatural e a fé puramente humana, a Declaração prossegue: 
"Embora querendo congregar em Cristo todas as gentes e comunicar-lhes a plenitude da sua revelação e do seu amor, Deus não deixa de Se tornar presente sob variadas formas quer aos indivíduos, quer aos povos, através das suas riquezas espirituais(?), das quais a principal e essencial expressão são as religiões(?), mesmo se contêm "lacunas, insuficiências e erros".
Como se Deus pudesse fazer uso de "erros" para Se fazer conhecido! Ora, não poucos santos já declararam que os poucos indícios de verdade encontrados nessas falsas religiões, são artifícios do demônio para seduzir e enganar os incautos sob a aparência de verdade.
"Portanto, os livros sagrados das outras religiões [escritos por homens] , que sem dúvida alimentam e orientam a existência dos seus seguidores, recebem do mistério de Cristo os elementos de bondade e de graça neles presentes.
Incrível! Tudo isto está em perfeita sintonia com a declaração do Concílio Vaticano com relação às religiões não-cristãs, a qual afirma: 
"A Igreja Católica não rejeita nada do que é verdadeiro e santo nestas religiões. Por isso, o Concílio Vaticano II, referindo-se aos modos de agir, aos preceitos e doutrinas das outras religiões, afirma - como acima se recordou - que, «embora em muitos pontos estejam em discordância com aquilo que [a Igreja] afirma e ensina, muitas vezes refletem um raio daquela Verdade, que ilumina todos os homens»
Realmente é de deixar qualquer um boquiaberto!
No que diz respeito à Igreja, depois de declarar positivamente que "em relação à unicidade e universalidade da mediação salvífica de Jesus Cristo, deve crer-se firmemente como verdade de fé católica na unicidade da Igreja por Ele fundada. Como existe um só Cristo, também existe um só seu Corpo e uma só sua Esposa: uma só Igreja católica e apostólica ...Os fiéis são obrigados a professar que existe uma continuidade histórica - radicada na sucessão apostólica - entre a Igreja fundada por Cristo e a Igreja Católica: Esta é a única Igreja de Cristo .
Não obstante tudo isso, a declaração continua com o mesmo jargão do Vaticano II: 
"Esta Igreja, como sociedade constituída e organizada neste mundo, subsiste [subsistit in] na Igreja Católica, governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele". 
Para quem não sabe,  esta expressão "subsistit", foi sugerida durante o Concílio por um pastor protestante amigo do atual Cardeal Ratzinguer: Pastor Wilhelm Schmidt . E a Dominus Iesus explica: 
"Com a expressão «subsistit in», o Concílio Vaticano II quis harmonizar duas afirmações doutrinais: por um lado, a de que a Igreja de Cristo, não obstante as divisões dos cristãos, continua a existir plenamente só na Igreja Católica e, por outro, a de que « existem numerosos elementos de santificação e de verdade fora da sua composição, isto é, nas Igrejas e Comunidades eclesiais que ainda não vivem em plena comunhão com a Igreja Católica".
Numa recente entrevista ao jornal alemão "Frankfurter Allgemeine", o Cardeal Ratzinguer explicou que o Vaticano II não quis usar a expressão de Pio XII (Mystici Corporis) segundo a qual "A Igreja de Cristo é APENAS a Igreja Católica", mas ao invés preferiu a expressão "A Igreja de Cristo subsiste (sugestão do pastor protestante) na Igreja Católica governada pelo sucessor de Pedro e pelos bispos em comunhão com ele", porque segundo ele, o Concílio desejou afirmar que "a Igreja de Cristo possui uma identidade muito maior do que a Igreja Católica Romana".
[É de fé divina e católica que só a Igreja Católica é a verdadeira Igreja fundada por Jesus Cristo. Logo, esta afirmação, do Concílio ou do Cardeal Ratzinguer, é pura heresia. Mas o modernista escapa desta acusação citando outras frases em que ele afirma a verdade, e usando termos ambíguos como este: "possui uma identidade", que no final das contas, pode ser interpretado como se quiser. Nota de Dom Lourenço]
Mas voltando à DOMINUS IESUS, vejamos as seguintes passagens: 
"As Igrejas que, embora não estando em perfeita comunhão com a Igreja Católica, se mantêm unidas a esta por vínculos estreitíssimos, como são a sucessão apostólica e uma válida Eucaristia, são verdadeiras Igrejas particulares. Por isso, também nestas Igrejas está presente e atua a Igreja de Cristo, embora lhes falte a plena comunhão com a Igreja católica, enquanto não aceitam a doutrina católica do Primado que, por vontade de Deus, o Bispo de Roma objetivamente tem e exerce sobre toda a Igreja".
As Comunidades eclesiais, invés, que não conservaram um válido episcopado e a genuína e íntegra substância do mistério eucarístico, não são Igrejas em sentido próprio. Os que, porém, foram batizados nestas Comunidades estão pelo Batismo incorporados em Cristo e, portanto, vivem numa certa comunhão, se bem que imperfeita, com a Igreja. O Batismo, efetivamente, tende por si ao completo desenvolvimento da vida em Cristo, através da íntegra profissão de fé, da Eucaristia e da plena comunhão na Igreja...Por isso, as próprias Igrejas e Comunidades separadas, embora pensemos que têm faltas, não se pode dizer que não tenham peso no mistério da salvação ou sejam vazias de significado, já que o Espírito Santo não recusa a servir-Se delas como de instrumentos de salvação, cujo valor deriva da mesma plenitude da graça e da verdade que foi confiada à Igreja Católica.
[Este parágrafo sobre a teologia dos sacramentos também é próximo da heresia, senão herético. Se estas "faltas" não tiram o peso dessas religiões, então seriam faltas secundárias. Os ortodoxos orientais têm ordenação válida. Nem por isso esta religião é caminho de salvação. Aliás, é comum ouvir dos padres progressistas que os anglicanos têm ainda o verdadeiro sacerdócio, quando se sabe que o Papa Leão XIII dirimiu esta questão, não sendo mais possível a um católico achar que os anglicanos tenham verdadeiros sacerdotes. (cf. carta Apostolicae curae, 13/9/1896). Além disso, desde quando pode-se afirmar que o batismo realizado nas seitas é válido? A doutrina e a prática tradicionais da Igreja ensinam que é pelo menos duvidoso, quando não inválido. Mesmo quando a forma sacramental é preservada, o que é raro entre os protestantes atuais, resta ainda a delicada questão da intenção de fazer o que a Igreja Católica faz. E quem poderá afirmar sem erro que houve esta intenção num batismo? Na medida em que o batismo destas seitas é inválido, seus adeptos não têm a fé teologal, nem a graça santificante, nem os dons do Espírito Santo. Nota de dom Lourenço].
Em poucas palavras: NADA MUDOU! Tudo aquilo que os padres tradicionais lutaram pra tirar dos documentos elaborados durante o Vaticano II, continuam na DOMINUS JESUS... com novo zelo, novo ardor e o mesmo velho método: a linguagem ambígua dos modernistas.
Gercione
[Gostaria de acrescentar, para terminar, que uma das características mais marcantes do espírito do Vaticano II é que estes textos ambíguos e escorregadios nos impedem de assinalar verdadeiras heresias, as quais só existem na práxis: vivemos há quarenta anos uma heresia da ação. Antes deste exemplo típico do documento Dominus Iesus, já vivemos isso com outros, como o texto desta mesma Congregação contra a Teologia da Libertação, que foi acompanhado de todos os aplausos a Dom Hélder e seus seguidores. Isso sem falar na Missa de Paulo VI, que é o mais vivo exemplo deste espírito medonho. Nota de Dom Lourenço]

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