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sábado, 13 de junho de 2009

O modernismo e o Verbo que se fez mundo

É certo que se deve amar o mundo por ter sido criado por Deus, como também é certo que devemos amá-lo, com o amor devido ao inimigos. No entanto, com o advento do modernismo, os inimigos foram transmutados em amigos. Esquece-se a inimizade profunda entre Deus e o mundo, para ter por amigo, um inimigo de Deus. Quem transmuta o inimigo em amigo, também transmuta lobo, cães e porcos, em ovelhas e é o que tem acontecido desde a década de 1965, com o encerramento do Concílio Vaticano II que se encerrou propondo o diálogo com o mundo. O otimismo deste diálogo (definido como inculturação), tem por diretriz principal o seguinte lema:

"Aquilo que nos une, é maior do que aquilo que nos separa."

Somos todos humanos e criaturas de Deus, isto nos une e o que nos separa, é que não somos todos filhos de Deus, mas somente aqueles que acreditam em Jesus e professam a fé católica. O lema do diálogo, parte de que o humano nos une e o divino nos separa, ou seja, o homem é elevado ao primeiro e Deus é colocado em um segundo plano. Considerando-se estas coisas, o mandamento de amarmos a Deus sobre todas as coisas, é subvertido e os dialogantes, passam a "amar ao próximo sobre todas as coisas, e a Deus como a si mesmos". É quando a paz de Cristo e a paz do mundo tornam-se uma e a mesma coisa e já não ressoa mais como paz de Cristo, mas como um "namaste" (O deus que esta dentro de mim, saúda o deus que esta dentro de você). Digamos que, este é o principal motivo pelo qual a crença em Deus ameaça desaparecer em diversas sociedades.

Não se poderia esperar outro comportamento da Igreja pós-concíliar, a não ser este pacifimo covarde. O Concílio Vaticano II reconheceu o mundo moderno, como o melhor dos mundos possíveis através da Gaudium Et Spes e da Dignitatis Humanae. Consequentemente a partir de então, a maioria esta na melhor das Igrejas possíveis e tal como o mundo, onde todo mal é necessário para a sua evolução, da mesma maneira na Igreja, toda heresia é necessária, digamos, para a evolução dos dogmas. Esta afinidade entre a Igreja que tem por cabeça Cristo e a humanidade que tem por cabeça o homem corruptível e decaído no pecado, só foi possível pela adoção do modernismo. Desde então o Católico que obrava pela sua salvação, passa a obrar pela inculturação, ecumenismo e diálogos culturais e inter-religiosos que não tem fim. Porque o homem na concepção é tão bom quanto o bom selvagem de JJ Rousseau, ou como o homem Pelaginano (seu ancestral). Logo, se não necessito de salvação, então devemos trabalhar por um mundo melhor, pois sendo o melhor possível, ele é melhor até mesmo que a Nova Jerusalém (que os modernistas viram na modernidade, nem as escrituras eles obedecem).   Cumpre notar que  o ecumenismo nos católicos, produz um efeito bem curioso, eles passam a acreditar que só por ser protestante, uma pessoa não pode ser condenada ao inferno. Vejam só, estes católicos passam a crer com os protestantes, que a Igreja é apenas útil a salvação e não necessária como sempre se acreditou. Neste caso, parece que o dogma “Extra ecclesiam nulla sallus” evoluiu para a extremidade oposta!

O modernismo nada mais é do que a doutrina do Verbo que se fez mundo. Consequentemente todas as suas doutrinas devem se sujeitar ao mundo, tal como a doutrina da evolução do dogma, onde o modernista apostatá da fé no Espírito Santo e passa a crer na ciência e a apresentar o própio Espírito Santo, como a evolução que ele crê. Deste modo, o Espírito Santo que não pode ser conhecido pelo mundo,  é apresentado como se fosse a evolução, que ensina ao homem todas as coisas. E o cristianismo imanentista, se apresenta com toda sua força, fazendo da matéria o Pai, do mundo o Filho e da evolução, o Espírito Santo. Reparem que não se fala mais nos dons do Espírito Santo, agora se fala pura e simples em termos técnicos científicos. Não foi atoa que os modernistas chegaram a afirmar que a humanidade é a Igreja, eles realmente acreditam que Cristo é o verbo que se fez mundo (são anticristos). Querem sempre o progresso da Igreja, mas eles mesmo não progridem para lugar algum, são vázios e dão testemunho perfeito do niilismo. As visões de progresso deles, são as mesmas do mundo, de onde pode se demonstrar que eles realmente acreditam que a Igreja é a noiva do "verbo" que se fez mundo, não do Verbo que se fez Carne. 

É bastante óbvio que se a Igreja progredir para a visão dos modernistas, ela se tornará o própio mundo.Uma religião que tenha o modernismo por doutrina, só pode religar o homem a sociedade para religá-lo ao mundo. Consequemente, a missão da Igreja, torna-se a unidade do gênero humano, não mais "transmitir o que recebeu." Desta maneira, já não podemos estranhar que no episcopado existam comunistas, protestantes, modernistas, indigenistas, homo-simpatizantes, etc, pois o episcopado testemunha vivamente, a unidade do gênero humano, não a unidade na fé. Isto é bastante evidente na CNBB, onde as coisas da terra (sociais), são a principal ocupação do Episcopado.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Apologia

Translated by José Fernandes VIDAL & Luiz Fernando Karps PASQUOTTO

Certamente esta é a obra mais importante de Tertuliano, escrita no ano 197 (Antes de sua queda na heresia montanista) e dirigida aos governantes do Império Romano. Tertuliano nasceu em Cartago no ano 155 dC e aí exercia sua profissão de advogado quando, em 193, converteu-se ao Cristianismo, passando a exercer também a atividade de catequista junto à Igreja.

Sua inteligência e sólida formação jurídica foram claramente demonstradas nesta obra, em que defende os cristãos, apelando por seu direito de liberdade religiosa, perante o Império Romano cruel e perseguidor. Seus argumentos são expostos de forma lógica e polêmica, visando o convencimento das autoridades a quem é dirigida, questionando a "justiça" aplicada contra os cristãos, transportando a apologética do terreno filosófico para o jurídico.

"Com admirável habilidade, Tertuliano censura os processos jurídicos, em voga, do Poder do Estado 'gentio' contra os cristãos: é suficiente o crime do 'nomem christianum' (=nome 'cristão'), para acarretar a condenação. A todos os criminosos concede-se o direito de defesa; aos cristãos, não. Àqueles, a tortura tenta arrancar uma confissão; aos cristãos, uma apostasia. As suspeitas iníquas espalhadas contra os cristãos, Tertuliano as repele como mentiras, expondo, em contraposição, o essencial concernente à fé cristã e à vida das comunidades. Concluindo, declara ser o Cristianismo uma filosofia; mas os filósofos gentios não são obrigados, como os cristãos, a sacrificar e podem até negar os deuses impunemente. Todavia, as crueldades gentílicas não prejudicarão os cristãos; ao contrário, 'o sangue dos cristãos é como semente que brota'" (B.Altaner/A.Stuiber).

"Raramente um discurso de defesa cristão conhecera semelhante precisão de argumentos jurídicos, semelhante rudeza de ironia, semelhantes aspereza de lógica, onde os argumentos são desferidos como golpes certeiros, as fórmulas marteladas, os dilemas inelutáveis, sem concessões à posição dos poderes públicos ou dos filósofos. Para ele [Tertuliano] não basta convencer o adversário: arrasa-o, pisa-o, humilha-o" (A.Hamman).

Agradeço aos caríssimos amigos e irmãos na fé, José Fernandes Vidal (já falecido) (cc 1-30) e Luiz Fernando Karps Pasquotto (cc 31-35), por dedicarem voluntariamente muito de seu tempo na árdua tarefa de tradução desta obra, para que se tornasse acessível a todos, em nossa língua, através da Internet. Que Deus o abençoe!

Capítulo I

- "A Verdade só deseja uma coisa dos governantes da Terra: não ser condenada sem ser conhecida"

Governantes do Império Romano:

Se, sendo constituídos para a administração da justiça em vosso elevado Tribunal, sob os olhares de todos os cidadãos, ocupando ali a mais elevada posição no Estado, vós não podeis abertamente inquirir e perscrutar, diante de todo o mundo, a verdade real com respeito às perseguições feitas contra os Cristãos

Se, somente nesse caso, tendes receio ou ficais inibidos para exercer vossa autoridade, fazendo uma inquirição pública com os cuidados que promovem a justiça

Se, finalmente, os extremos rigores usados para com nosso povo, recentemente, em julgamentos privados, são para nós obstáculo para defender-nos perante vós

então, seguramente não podeis impedir de a Verdade chegar aos vossos ouvidos pelas vias secretas de um silencioso livro.

A Verdade não tem como apelar para vos fazer verificar sua condição, porque isso não promove vossa curiosidade por Ela. Ela sabe que não é senão uma transeunte na terra, e que entre estranhos, naturalmente encontra inimigos. E, mais do que isso, sabe que sua origem, sua habitação natural, sua esperança, sua recompensa, sua honra estão lá em cima. Uma coisa, enquanto isso, Ela deseja ansiosamente dos governantes terrestres: não ser condenada sem ser conhecida. Que dano pode causar às leis - supremas em seu poder - conceder-lhe ser ouvida? Absolutamente nada lhe prejudicaria e sua supremacia não seria mais distinguida ao condená-la, mesmo depois que Ela apresentasse sua defesa? Mas se for pronunciada uma sentença contra Ela, sem ter sido ouvida, ao lado do ódio de uma injusta ação, vós incorrereis na suspeita merecida de assim agirdes com alguma intenção que é injusta, como não desejando ouvir o que vós não estais capacitados a ouvir e a condenar.

Colocamos isto ante vós como primeira argumentação pela qual insistimos que é injusto vosso ódio ao nome de "Cristão". E a verdadeira razão que parece escusar esta injustiça (eu diria ignorância) ao mesmo tempo a agrava e a condena. Pois que o que é mais injusto do que odiar uma coisa da qual nada sabeis, mesmo se pensais que ela mereça ser odiada? Algo é digno de ódio somente quando se sabe que é merecido. Mas sem esse conhecimento, por que se reivindicar justiça? Pois se deve provar, não pelo simples fato de existir uma aversão, mas pelo conhecimento do assunto. Quando os homens, portanto, cultivam uma aversão simplesmente porque desconhecem inteiramente a natureza da coisa odiada, quem diz que não se trata de uma coisa que exatamente não deveriam odiar?

Assim, confirmamos que tanto são ignorantes enquanto nos odeiam, e odeiam descabidamente, quanto quando continuam em sua ignorância, sendo uma coisa o resultado da outra, se não o instrumento da outra. A prova de sua ignorância, ao mesmo tempo condenando e se escusando de sua injustiça, é esta - odeiam o Cristianismo porque não conhecem nada sobre ele nem querem conhecê-lo antes de por a todos debaixo de sua inimizade.

Quantos, se antes foram seus inimigos, tornam-se seus discípulos. Simplesmente aprendendo sobre eles, logo começam a odiar o que antes tinham sido e a professar o que antes tinham odiado. E o número destes é tão grande que atraem a vossa preocupação. O clamor é de que o Estado está cheio de cristãos - que estão nos campos, nos vilarejos, nas ilhas; levantam-se lamentações, como se por alguma calamidade, pessoas de ambos os sexos, de todas as idades e condições, mesmo de classe alta, estão se convertendo à profissão de fé cristã.

Entretanto, não ocorre a ninguém o pensamento de que estão deixando de ver alguma coisa boa. Não se permitem que nenhum pensamento mais justo chegue à sua mente, não desejam fazer um julgamento mais correto. Somente neste caso fica adormecida a curiosidade da natureza humana. Preferem ficar ignorantes, embora aos outros o conhecimento tenha trazido a felicidade.

Anacarse reprova o estúpido prazer de criticar os cultos. Quanto mais não reprovaria ele o julgamento daqueles que sabe que podem ser denunciados por homens que são inteiramente ignorantes! Porque deles preconcebidamente não gostam, não querem saber mais. Assim, prejulgam aquilo que não conhecem até que, caso venham a conhecê-lo, deixem de lhe ter inimizade. Mas isso desde que pesquisem e nada encontrem digno de sua inimizade, quando deixam, então, certamente de ter uma aversão injusta. Entretanto, se seu mau caráter se manifesta, em vez de abandonarem o ódio encontram mais uma forte razão para perseverarem nesse ódio, mesmo sob a própria autoridade da justiça.

Mas argumenta alguém: uma coisa não é boa simplesmente porque as multidões se convertem a ela, pois que quantos são por sua natureza inclinados para o que é mal?! Quantos se desviam para os caminhos do erro?! Isso é verdade, sem dúvida. Contudo uma coisa completamente má, nem mesmo aqueles que a ela são levados ousam defendê-la como boa. A natureza encobre tudo o que é mau com um véu, seja de medo seja de vergonha. Por exemplo, vedes que criminosos ficam ansiosos para se esconderem eles mesmos, evitam de aparecer em público, ficam tremendo quando são caçados, negam sua culpa quando são acusados e, mesmo quando são submetidos à tortura, não confessam facilmente, nem sempre chegam a confessar; e quando não há dúvidas sobre sua culpa, lamentam o que fizeram. Em suas confissões admitem terem sido impelidos por disposições malignas, até põem a culpa seja no destino, seja nas estrelas. São incapazes de reconhecerem que aquilo veio deles, porque eles próprios sabem que aquilo é mau.

Mas o que tem isso de semelhante com o caso dos cristãos? Eles se envergonham ou se lamentam de não terem sido cristãos há mais tempo. Se são apontados cristãos, disso se gloriam. Se são acusados, não oferecem defesa. Interrogados, fazem uma confissão voluntária. Condenados, agradecem... Que espécie de mal é este que não apresenta as peculiaridades comuns do mal, do medo, da vergonha, do subterfúgio, do arrependimento, do remorso? Que mal, que crime é este de que o criminoso se alegra? Serem acusados cristãos é seu mais ardente desejo, serem punidos por isso é sua felicidade! Vós não podeis chamar isto de mal - vós que continuais convictos de nada saberdes do assunto.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Carta aberta do Pe. João Batista ao Papa Bento XVI.

 

Carta Aberta ao Santo Padre Bento XVI

Beatíssimo Padre.

Prostrado aos pés de Vossa Santidade, venho, respeitosamente, por meio desta, manifestar-lhe minha fidelidade incondicional na qualidade de sacerdote católico incardinado na Diocese de Anápolis.

Tenho acompanhado com tristeza e indignação todos os ataques dirigidos contra Vossa Santidade, verdadeiros atos de rebeldia, por parte de pessoas que perderam a fé católica ou se deixaram enredar por falsas doutrinas e, assim, são incapazes de avaliar com justeza as medidas prudentes e zelosas de Vossa Santidade com o intuito de promover o bem da Igreja e preservar a integridade da fé católica.

Desejaria dizer a Vossa Santidade que lhe sou particularmente grato pelo motu proprio Summorum Pontificum e pelo decreto de revogação das excomunhões declaradas em 1988 contra Mons. Marcel Lefèbvre, D. Antonio de Castro Mayer e os 4 bispos então consagrados.

Com a liberdade de um filho que confia em seu pai, devo dizer a Vossa Santidade que, tendo nascido em 1962 em uma diocese do interior do Estado São Paulo, assisti à degradação da vida espiritual católica promovida pela teologia da libertação e em nome do Concílio Vaticano II: igrejas destruídas e profanadas, a liturgia completamente dessacralizada, a educação católica, garantia da transmissão dos valores perenes, abolida com o fechamento de antigos colégios, porque se dizia serem apenas  instituições a serviço da  burguesia e contra as classes oprimidas. Um número incalculável de publicações  (cartilhas, panfletos, folhetinhos de missa) espalhou todos esses anos entre os católicos a grosseria, a  imoralidade e a heresia, de modo que se gerou um ambiente insuportável. É inútil e impossível mencionar todas as calamidades que se abateram sobre os católicos, e Vossa Santidade tem pleno conhecimento da realidade.

Digo isto apenas para confessar a Vossa Santidade que, se eu e minha família preservamos a fé católica, foi graças ao combate travado por sua S. Exa. Revma. Mons. Lefèbvre. Com efeito, verificamos que ele tinha razão em convocar os católicos para lutar contra tantos desmandos e abusos.

Em 1988, quando foi assinado um protocolo de “acordo” entre a Fraternidade Sacerdotal São Pio X e a Santa Sé, no qual se previa a conveniência de que fosse sagrado um bispo eleito entre os padres da Fraternidade e, como não se superasse o obstáculo da fixação de uma data para tal sagração, pareceu-nos que Mons. Lefèbvre tinha o direito de proceder ao rito sagrado.

Decorridos tantos anos, estou convencido de que o venerável bispo agiu bem. Os frutos de sua obra são bênçãos e graças para toda a Igreja. Não tivesse ele agido com prudência e fortaleza então, certamente não existiria a Fraternidade Sacerdotal São Pedro e muitos outros institutos ligados a Ecclesia Dei Adflicta. Eu mesmo não teria sido ordenado presbítero no rito tradicional em 1996 pelo cardeal Stickler em atenção às letras dimissórias de meu antigo bispo D. Manoel Pestana Filho. E, certamente, o “progressismo católico” teria avançado muito mais como força devastadora da Vinha do Senhor.

Por isso, expresso hoje minha gratidão a Vossa Santidade e reverencio a memória dos dois bispos que ajudaram tantos católicos a conservar a fé em tempos tão atribulados.

Gostaria ainda de dizer a Vossa Santidade que são numerosíssimos os padres que o apóiam por ter, por exemplo, ordenado a correção da tradução da forma da consagração do cálice na Santa Missa e não se conformam com o descaso da hierarquia em cumprir a ordem emanada de Roma. O zelo de Vossa Santidade pelo decoro da sagrada liturgia nos conforta. Há muitos padres que desejariam seguir o exemplo de Vossa Santidade em suas paróquias, mas temem represálias da parte dos seus ordinários.

Igualmente, quero assegurar a Vossa Santidade que foi enorme a satisfação dos verdadeiros católicos com a atitude digna do arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho OC, por ter recordado que os católicos que cooperaram com a prática do aborto naquela cidade incorreram em excomunhão latae sententiae. São gestos como este que confirmam os católicos em sua fé. Foi, por outro lado, vergonhoso e lamentável ver outros bispos censurarem a atitude coerente do arcebispo D. José Cardoso Sobrinho.

Seja-me permito, finalmente, rogar a Vossa Santidade uma providência especial para proteger o Brasil, o maior país católico do mundo, de uma gravíssima ameaça que paira sobre a Terra de Santa Cruz. Vivemos há quase oito anos sob um governo socialista que tem adotado uma política anticristã na área do direito da família e da vida. O atual governo tem o propósito de introduzir a legalização geral do aborto e da união civil homossexual. Tudo isto está previsto no programa político do Partido dos Trabalhadores, partido do governo. A candidata do governo à presidência da República no próximo ano já fez declarações neste sentido. Apesar da absoluta incompatibilidade de suas propostas políticas, a referida senhora tem exercido nas concentrações carismáticas o ministério de leitora nas missas, em franca campanha política. Com efeito, isto nos desconcerta.

Quando se trata de assuntos de grande relevância moral e para a salvação das almas, não se observa da parte da hierarquia tanto empenho para não dizer que há dolorosa omissão ou cumplicidade. Atitude como a de D. Cardoso é uma gota de água pura no mar morto. Mas quando se trata de assuntos técnicos ou sócio-economicos observa-se uma indiscreta ingerência, que só redunda em descrédito da Igreja. Permito-me recordar a Vossa Santidade o episódio da transposição do rio São Francisco ou mais recentemente a absurda demarcação de território indígena em região rica em minérios (uma ameaça à soberania nacional), com apoio do Conselho Indigenista Missionário, órgão ligado à CNBB.

De maneira que, diante da gravidade da situação atual do Brasil, rogo a Vossa Santidade que, assim como Pio XII (cuja memória Vossa Santidade tem reverenciado) salvou a Itália do perigo comunista arregimentando os católicos, assim também agora ajude a salvar o Brasil da perpetuação de uma tirania socialista e anticristã, que se instaurou entre nós com os préstimos da “esquerda católica”

Rogo a bênção de Vossa Santidade sobre minha pessoa e sobre todos fiéis da Capela Santa Maria das Vitórias em Anápolis, consagrada por Dom Pestana em dezembro do ano passado. Asseguro a Vossa Santidade nossas fervorosas orações ao Imaculado Coração de Maria para que Nossa Senhora o proteja da maldade dos seus inimigos.

Anápolis, 27 de março de 2009

Festa de São João Damasceno

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Associação Civil Santa Maria das Vitórias

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

De uma condição prévia à outra

Abbé Régis de Cacqueray-Valménier

Superior do Distrito da França
Fraternidade Sacerdotal São Pio X

NOTA

A Montfort, por amor à Fé e à Santa Igreja Católica Apostólica Romana, por amor à justiça para com Dom Lefebvre e a Dom Mayer, esses dois heróicos defensores da fé e da Missa de sempre, por amor à verdade, publica com alegria esse comunicado do Superior da FSSPX na França, rezando e fazendo votos para que o Papa Bento XVI, tirando a conclusão lógica do Motu Proprio Summorum Pontificum, anule as excomunhões inválida e injustamente lançadas contra Dom Lefebvre e Dom Mayer em 1988, o que permitirá a  vitória da Missa de sempre e o debate franco sobre os erros do Vaticano II.

Publicamos esse Comunicado, pouco nos importanto da oposição e até da hostilidade, que muitos da FSSPX fazem à Montfort, mas pensando apenas no bem e na vitória da Igreja. Tanto mais que nos chegam rumores de fontes romanas que indicariam uma possível suspensáo das excomunhões desse dois Bispos, quando o justo seria a declaração da nulidade das excomunhões de 1988.

Os destaques colocados no texto pela Montfort indicam os pontos em que mais concordamos com as palavras do Padre Cacqueray.

Deus dê, o quanto antes, por meio do Papa Bento XVI, a glória e a justice devidas a Dom Lefebvre e a Dom Mayer por seu heroísmo sem mácula, sem compromissos e sem traições.

São Paulo, 11 de Janeiro de 2009.

Orlando Fedeli

Presidente da Associação Cultural Montfort.


De uma condição prévia a outra

Abbé Régis de Cacqueray-Valménier

“Se se toma o termo “secundário” no sentido em que dissemos e que é o sentido primitivo: o segundo é o que segue... o que resulta do outro.” (Romano Amerio)

“Joana D’Arc tem hoje menos céticos do que ela encontrou em seu tempo.” Jacques Bainville

“Você me mostrou o caminho de Ars, eu lhe mostrarei o caminho do Céu.” São João Maria Vianney, o Cura d’Ars

No início do ano de 2001, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X especificou e levou ao conhecimento da Santa Sé “as três etapas” que lhe parecia necessário respeitar para continuar a trabalhar na resolução da crise doutrinal da Igreja e, por via de conseqüência, unicamente, à regularização canônica de sua própria situação.

A exposição, tornada pública, desta linha estratégica foi acolhida com numerosas críticas desfavoráveis, sobretudo pelo motivo de que o princípio de comunicar a Roma, como primeira etapa, condições prévias a toda discussão com ela, pareceu, senão inadmissível, ao menos totalmente inadequado. Essa pretensão, já considerada exorbitante em si mesma, não dissimulava, além disso, uma vontade inconfessada da Fraternidade de ficar no seu canto e de deixar para as calendas gregas a hora de sua reintegração?

A “estratégia” da Fraternidade

Para a decepção de alguns, e a alegria de outros, o itinerário proposto pela Fraternidade para chegar a “acordos” foi portanto considerado impraticável: como Roma teria podido aceitar que lhe ditassem uma linha de conduta, emitida, ainda por cima, sem qualquer conversação, por essa Fraternidade “excluída da Igreja”? Não teria sido dar a essa última uma importância desmesurada e se colocar a reboque de sua marginalidade, para maior irritação de quase todos?

Note-se, entretanto, que a lenta diplomacia romana nem produziu uma contraproposta no lugar daquela da Fraternidade nem exprimiu – ao menos publicamente – sua concordância ou sua discordância com a idéia de ter que passar sob as forcas caudinas, ou seja,  aceitar as condições humilhantes que lhe tinham sido designadas, diga-se de passagem, não sem alguma audácia ou ingenuidade.  Foi, todavia, o silêncio oficial em que Roma se manteve que contribuiu finalmente, por falta de expressão de uma outra proposição ou da recusa daquela que lhe tinha sido indicada, a tornar pouco a pouco a estratégia da Fraternidade, sozinha no terreno diplomático, mestra desse terreno até hoje, ao ponto de se ter imposto, sem combate, como a referência natural em função da qual todos se habituaram a se situar ou se deslocar, nas relações que se seguiram.

Dado que a apresentação dessas duas condições prévias forma apenas a primeira das três etapas do itinerário sugerido pela Fraternidade, nem o sucesso parcial que ela obteve em resposta a seu primeiro pedido, nem o outro sucesso que proviria da obtenção do segundo, não bastariam portanto, por si sós, para acertar a diferença, de essência puramente doutrinária, que a opõe à “Roma conciliar” e cujo tratamento foi fixado na segunda das três etapas.

Do mesmo modo, as duas condições preliminares ao pretendem de modo algum se substituir ao exame das questões doutrinárias. Tal não é sua função. Em virtude de seu próprio estatuto, elas não têm outra função além de preludiá-lo e de criar um clima propício a seu bom desenvolvimento. Elas foram escolhidas e formuladas para serem apresentadas a um interlocutor ainda por vir, o qual se espera que seja capaz de apreciar o interesse que há em atender esses dois pedidos para o bem de toda a Igreja, mas do qual não se conhece, ao menos no momento em que se está agora, a persistência em seguir e em professar os desvios conciliares.

Quer se trate pois da Missa de São Pio V ou das “excomunhões de 1988”, as condições prévias não têm a pretensão de fazer valer junto da Santa Sé tudo o que a Fraternidade quer obter em tais assuntos. Sobre o primeiro ponto, a Fraternidade, com efeito,  nunca fez mistério de sua vontade de chegar à erradicação pura e simples da missa nova. Quanto à segunda, ela considera que Roma terminará por concluir pela nulidade das “excomunhões de 1988”.

Mas ela tem clara consciência de que não se poderá, logicamente, ser-lhe dada inteira satisfação nesses dois pontos, senão após a conclusão feliz da segunda etapa de sua estratégia. Foi por isso que ela considerou, na escolha das duas condições prévias que colocou e em sua formulação precisa, o que poderia, em um primeiro tempo, ser já obtido de um papa, empenhado ainda em defender o Concílio, mas, paradoxalmente, preocupado em procurar os meios de remediar o estado de ruína da Igreja e as injustiças cometidas. Ora, constatou-se que o Papa Bento XVI apresentava esse perfil.

Apesar desse sábio realismo, as duas condições prévias a toda discussão não deixavam de ser, tanto uma quanto outra, inaceitáveis questionamentos. Que se julgue! Enquanto Paulo VI tinha tido simplesmente a vontade de substituir a antiga missa pela nova, a Fraternidade não pedia nada menos que o reconhecimento do direito dos padres de tê-la sempre celebrado e de continuar a celebrá-la.

Quanto às sagrações de 30 de junho de 1988, elas se encontravam ipso facto sancionadas pela excomunhão prevista no novo Código de Direito Canônico. Ora, a Fraternidade se recusa, no entanto, a pedir o “levantamento das sanções”. Ela procura obter a “retirada do decreto de excomunhão” e não escapa a ninguém que os termos que ela empregou para traduzir seu pedido foram escolhidos de propósito. Ela quer que seja bem manifestada sua convicção da nulidade das sanções e, se Roma se decidir a agir, que ela o faça deixando ao menos a porta aberta à essa hipótese canônica.

Todos os ingredientes pareciam portanto reunidos para que esta estratégia permanecesse letra morta, gelasse ainda mais as relações entre Roma e a Fraternidade e, mais grave, causasse mesmo um prejuízo a uma eventual vontade romana de reconhecer o direito dos padres de celebrar a missa de sempre.

Se essa perspectiva não é inexata, a decisão da promulgação do Motu Proprio de 7 de julho de 2007 parece então como ainda mais surpreendente. Como o Papa teria podido se decidir a atravessar um tão temível Rubicão, se a questão dessa missa não tivesse inicialmente se apresentado a ele como uma questão de consciência, se ele não tivesse percebido um estado de necessidade suficientemente grave para se arriscar em um tal terreno, e se ele não tivesse contado tirar vantagens decisivas de seu Motu Proprio? Teria ele enfrentado o episcopado do mundo inteiro, como fez, por um caso que considerasse secundário? E já que ele se decidiu, uma questão não deixa de estar em todos os lábios: se ele ousou conceder a primeira, atenderá também a segunda das duas condições prévias?

De uma espera à outra

Apenas nós tivemos tempo para nos deixar educar às lentidões romanas por esse jogo de paciência que precedeu o atendimento da primeira condição prévia, nós nos encontramos, com efeito, convidados à espera do segundo! Saberemos nós tirar de nossa primeira prova de resistência o melhor proveito? Viver aquela que começou como convém? De fato, não será simplesmente apenas no ritmo de nossos rosários?

Não só! Se a oração é nada menos que a respiração de nossas almas, ela não toma entretanto o lugar de tudo o mais e não nos dispensa do resto. Os instantes que nós vivemos devem igualmente ser utilizados para antecipar uma profunda reflexão a respeito dessa defesa e dessa confissão pública de fé junto a Roma, que será talvez “a hora” por excelência da vida de nossa Fraternidade.

É preciso realmente esperar que esses momentos, que poderão trazer sua pedra decisiva para o reerguimento da vida da Igreja, acabem por acontecer. Nós devemos, em conseqüência, ter essa grande preocupação de compreender, por nós mesmos, sempre mais profundamente, que a restituição parcial da Missa deverá ser seguida de sua restituição total e da restituição da fé. Ai de nós, clero e leigos, se não chegamos a ter uma consciência suficiente dos verdadeiros pontos-chave e da profundidade de nosso combate. Nossa posição de soldados de Deus nos pede que não nos deixemos embalar pela esperança da retirada de um decreto que, se acontecesse, não assinaria nem mesmo um armistício. A espera não é a passividade. Esse momento deve ser imperativamente aproveitado para prosseguir a instrução e a formação de cada um, do aumento de firmeza e de espírito de combate.

Lembremo-nos, pois, das faltas e das imperfeições constatadas durante esse primeiro período de espera para não recair nelas.        A medida que rumores, sempre mais numerosos e insistentes, alguns deles vindos de Roma, nos advertiam que o Papa ia publicar um texto em favor da Missa antiga, os espíritos tiveram tendência a se dividir entre ceticismo e euforia. Passando o tempo, eles se aqueceram, e se espalhou um clima de excitação realmente pouco propício a uma reflexão objetiva sobre a significação exata que teria a concessão da primeira condição prévia.

De uma condição prévia a outra


Ainda que imperfeito e insatisfatório sob vários aspectos, é evidente hoje que esse Motu Proprio marcou uma data na história da liberdade para a missa tradicional. Ele merecia ser saudado pela Fraternidade, que não deixou de fazê-lo, ao menos pela confissão pontifical tão esperada de que a missa de São Pio V não havia jamais sido abrrogada e pelo conseqüente reconhecimento de que todo padre tinha tido sempre o direito de celebrá-la e tinha, portanto, presentemente o direito de fazê-lo.


Além disso, ele correspondia e respondia, em sua materialidade, à primeira condição prévia sugerida pela Fraternidade e pelo qual ela havia pedido com fervorosas orações. Se ele não era, certamente, apresentado como uma resposta a seu primeiro pedido, ele o era de facto. Não contente de indicar  certo encontro do pensamento do Papa com o nosso, sobre esse primeiro bem que se esperava do reconhecimento da liberdade da missa, ele se prestava evidentemente demais a ser entendido como um sinal para com a Fraternidade para não ter sido pensado e medido como tal.


Notemos também que não repugnou a Bento XVI inscrever-se visivelmente nessa lógica, que foi, no entanto, emitida e definida unilateralmente pela Fraternidade, sabendo perfeitamente que não deixariam – para louvá-lo ou para criticá-lo – de ressaltar isso. Ainda que ter representado o primeiro ato não o comprometa, é verdade, com aqueles que se seguem, o fato de tê-lo feito não é neutro e ele o sabe bem. Tanto mais que o Papa não ignorava que o efeito secundário da publicação do Motu Proprio seria infalivelmente o aumento do discrédito que afetaria as condenações fulminadas por Roma contra a Fraternidade. Ao afirmar que a missa nunca tinha sido proibida, o discurso pontifical dava razão, infelizmente apenas após sua morte, àquele que o tinha sempre afirmado, quase isoladamente entre todos os bispos: “O venerado Monsenhor Lefebvre”.


Na seqüência de tal reabilitação implícita de seu grande combate pela missa, mesmo que ela permaneça ainda parcial, será possível por muito tempo ao Papa manter a lembrança da “excomunhão” daquele que, quase sozinho, teve a coragem de lutar contra todos, que não se deixou intimidar e cuja recompensa, até o momento, consistiu apenas em ter suja sua memória?


É realmente possível que um combate tão heróico, cuja utilidade para a Igreja não cessa e não vai cessar de se revelar cada vez mais, possa ter sido conduzido por um homem mau, mau de uma malícia que teria sido mais tenebrosa que aquela de Lutero e cuja memória deveria para sempre permanecer maldita? Maldito, aquele sem o qual essa missa não teria sido sempre oferecida à Igreja? Quem ousará ainda dizê-lo? Quem não começa, ao contrário, a perceber a reunião e o germinar de todos esses sinais que deixam pressentir que essas “excomunhões” foram simplesmente uma prevaricação, uma aplicação criminosa da lei e que não se pode por mais tempo deixar crer que elas existiram e que existiriam ainda?

Admitamos – dato, non concesso – que as sagrações episcopais de 1988 não tivessem, ali[as, tido outra finalidade que sua decisiva e incontestável contribuição à salvaguarda e à manutenção da missa. Só essa preocupação, tão grave e sagrada, não teria bastado então e, hoje ainda, não deveria ser suficiente para concordar com a realidade de um estado de necessidade, ao menos litúrgica, no qual Dom Lefebvre se encontrava acuado e que foi invocado por ele para agir?


Ou, se não se pode ou não se quer confessar essa necessidade, embora evidente, a preocupação de que ela existisse não deveria bastar a que se reconheça, pelo menos, a nobreza de sua intenção, e, em vista do eminente serviço assim prestado à Igreja, a impedir que se demore sobre uma “falta” que, na seqüência, se teria revelado tão bem-aventurada que só mereceria como sanção a magnanimidade pontifical? Embora não seja, de modo algum, o nosso, esse raciocínio deveria, por outro lado, encontrar atentos nossos interlocutores, submetidos a um novo Código de Direito Canônico que o favorece
.


Não nos espantaria, na verdade, que o pensamento de Bento XVI caminhe nessa direção. Se ele mesmo não estivesse, de saída, intimamente convencido de uma grave necessidade provocada pelo estado de dissolução litúrgica, teria corrido o risco de enfrentar e de ganhar a inimizade da grande maioria do espicopado? Se ele correu esse risco, é que também ele tinha consciência de um estado de necessidade litúrgica suficientemente grave para dever intervir.


Ainda que nós encontremos – e nós não escondemos – muito a dizer sobre a doutrina e a teologia do Papa, enraizados nos textos do Concílio, essas graves reservas não nos impedem de pensar, ao mesmo tempo, que Bento XVI não carece nem de inteligência nem de uma indiscutível probidade
. Ele sabe perfeitamente que não poderia ter devolvido a missa à Igreja se o apego a essa liturgia e a reinvidicação de sua liberdade não tivessem sido mantidas e transmitidas pelo Fundador da Fraternidade São Pio X. Essas excomunhões incomodam em sua alma de Papa como poeira no olho. Nós imaginamos que elas o fazem chorar e que elas obscurecem seu olhar: quanto tempo ele, que quer ver, as suportará ainda?


A partir disso, toda esperança não se torna possível? Essa primeira piscadela pontifical não nos dá o direito de pensar que o Papa não se deterá mais em tão bom caminho?
Teria ele podido, ao escolher dar o primeiro passo, não se colocar a questão do segundo, não se preocupar com essa lógica que leva irresistivelmente a subir de uma condição prévia a outra, ou seja, de uma ação reconhecida como benfazeja a um ser que não pode, portanto, ser um malfeitor?

Aliás, os dois processos se parecem. Nos dois casos, trata-se apenas de obter a confissão de um não-ser: não-serda interdição da celebração da missa de São Pio V, não-ser das excomunhões e nulidade de um decreto vergonhoso. Se a primeira cruzada do Rosário foi seguida do Motu Proprio sobre a missa, a segunda poderia muito bem terminar com a retirada do decreto das excomunhões.

A segunda condição prévia

Antes da obtenção da primeira condição, pouco numerosos, realmente, eram os que conjecturavam que Roma se arriscaria a concedê-la apesar da agressividade episcopal. Poucos procuraram, consequentemente, tomar a verdadeira medida de tal acontecimento. Após sua obtenção, é ainda possível ou ter tendência a relativizar sua significação e seu alcance por uma justa preocupação de não se arriscar a entusiasmo injustificado em relação ao Papa Bento XVI, ou então ter sido atingido pessoalmente por esse entusiasmo.

É preciso refletir bem e rezar para encontrar o equilíbrio no julgamento e esclarecer as almas como é preciso, não afastar a hipótese da retirada do decreto como improvável, nem anunciá-la,como um astrólogo, como estando para se produzir em breve.

Porque o decreto pode muito bem não ser retirado por muito tempo ainda, é preciso mostrar sua nulidade e injustice, e demonstrar, ao mesmo tempo, que ele é a conclusão lógica da máquina conciliar rejeitando Fé e Tradição. Enquanto subsistir a aparência dessa sanção, nós continuaremos a levá-la como uma Legião de Honra, como o símbolo de um glorioso opróbrio, aquele que valeu a nossos bispos sua fidelidade solitária.

Porque a retirada do decreto pode igualmente se produzir rapidamente, é nosso dever antecipar essa declaração, de maneira que tal ato, se acontecer, seja unicamente julgado conforme sua significação exata. Se se trata realmente da retirada do decreto – e não de um levantamento das excomunhões – será então o começo da reparação da injustiça inaudita que conhecemos e nós poderemos então nos rejubilar.


Com efeito, mesmo que se trate apenas, em definitivo, de um primeiro passo para a reparação de uma indignidade, nós teremos para com o Papa que decidir isso um verdadeiro sentimento de gratidão, que não devemos de modo algum hesitar em exprimir
..Se, por outro lado, se tratar de um “levantamento das excomunhões”, as coisas seriam outras. Isso não corresponderia a nossa segunda condição prévia, e não isentaria nossos bispos do mau processo que lhes tinha sido movido. Deixando crer que as penas pronunciadas não era nulas mas que eram talvez mesmo merecidas, não resultaria disso, em certo sentido, pelo menos, um novo mal mais profundo? Roma teria então retirado, com uma aparência misericordiosa, sanções que se encontrariam, pelo mesmo ato, confirmadas como tendo sido validamente e até mesmo legitimamente aplicadas.


Nós ouvimos dizer que alguns padres dos Institutos Ecclesia Dei tinham se unido a nossa cruzada do Rosário e nós lhes agradecemos
. Nós queríamos simplesmente observar-lhes que nossa cruzada visa obter a retirada de um decreto nulo e aflitivo, não a retirada de uma penalidade que nós sabemos ser inexistente. Esta distinção é importante! A existência dessa Comissão Ecclesia Dei,  trepadasobre a condenação de Dom Lefebvre, assim como a aceitação de pertencer a ela, é um autêntico assunto de escândalo.. Nós nunca entendemos, em particular, como alguns, que lhe devem tudo e estão convencidos da nulidade das excomunhões, tenham se perdido nessa via. Que eles possam protestar contra tal tutela e se emancipar dela. Não seria essa uma maneira de pagar sua dívida de reconhecimento para com Dom Lefebvre?

Se tivemos sucesso, como cremos, nesse esforço de explicar o que anima nossa Fraternidade, as almas não se encontrarão desorientadas. Essas duas condições prévias, por mais importantes que sejam, não são, no final das contas, nada mais do que o começo de um longo processo!


Todas as questões mais sérias, que dizem respeito à própria fé, restam a abordar. Esse é o coração de nosso combate e não podemos fazer concessão de um só iota. Não será, portanto, certamente, uma falta de gratidão, mas um ato de caridade, continuar a exprimir bem nitidamente todos os nossos desacordos com a doutrina envenenada do Concílio
. Tenhamos o trabalho, desde agora, de refutar esse sentimentalismo tão comum que gostaria, como resposta aos avanços do Papa, que nós cessemos nossas críticas a respeito de seu pensamento, o qual está, no entanto, resolutamente inscrito na sua hermenêutica de continuidade do Vaticano II, absolutamente inadmissível.

Nunca deixemos dizer que “essas discussões teológicas” são um problema de especialistas e não nos dizem respeito. É preciso insistir em demonstrar que é totalmente o contrário: já que se referem à fé, essas questões dizem respeito a todos eminentemente, clero e leigos. Nós devemos ter o trabalho de entender e de fazer entender os pontos chave delas.

O Vaticano II é o “descoroamento” político de Nosso Senhor Jesus Cristo e a negação de Seus direitos sobre as sociedades. O Vaticano II é uma benevolência, infinitamente danosa e escandalosa para as almas, para com essas sociedades, escoltas do erro e do vício e fornecedoras do Inferno, muito impropriamente chamadas “outras religiões”. O Vaticano II é o triunfo do democratismo na Igreja, que torna toda autoridade quimérica e todo mando mais ou menos impossível, que permite a proliferação da heresia e do cisma. O Vaticano II é, na realidade, o maior desastre que jamais se produziu na Igreja.


Para se refazer, ela deve se livrar dele. De modo algum, portanto, a Fraternidade poderá cessar seu imenso combate de confissão da fé, que comporta obrigatoriamente a denúncia do erro
. Ela deve permanecer humilde e respeitosa, mas intrépida, impávida, para continuar a dizer tudo que ela deve dizer, confessar tudo o que ela deve confessar, denunciar tudo o que ela deve denunciar.

De Santa Joana d’Arc a Dom Lefebvre

Não é chegada a hora de se lembrar do processo de Santa Joana, daquela que foi queimada, em 30 de maio de 1431, como feiticeira, herege e relapsa na praça do Velho Mercado de Rouen?

Foi sua admirável mãe, Isabelle Romée, que obteve a instalação de um novo processo da Inquisição. Em 7 de julho (essa não é uma data que nós já conhecemos?) de 1456, na grande sala do palácio arquiepiscopal de Rouen, os comissários pontifícios, sob a presidência de Jean Juvenal de Ursins, arcebispo de Reims, declararam o processo de condenação de Joana e a sentença “manchados de roubo, de calúnia, de iniqüidade, de contradição, de erro manifesto de fato e de direito, inclusive a abjuração, as execuções e todas as suas conseqüências” e, por isso, “nulas, inválidas, sem valor e sem autoridade”.

Hoje, ainda que, certamente, a santa mãe de Dom Lefebvre, do alto do céu,  espere isso com confiança, é a Fraternidade São Pio X, sua filha, que pede justiça por seu pai. Nós estamos certos de que, dele, os católicos confessarão um dia, o que alguns tinham pressentido a respeito de Joana: “Tua morte será tua vida”. E os franceses, do mesmo modo que experimentam um legítimo orgulho de contar entre os seus uma tal filha, terão não menos vivo orgulho do serviço prestado à Igreja por esse arcebispo, outro insigne rebento e honra de sua raça.

Ambos julgaram, no dia seguinte às suas famosas sagrações, das quais eles tinham consciência de que lhes valeriam as mais violentas incompreensões e represálias de seus juízes, terem acabado sua epopéia. Tanto para um como para a outra, a sagração, seja de um rei ou de quatro bispos, é o instante por excelência para o qual convergem suas admiráveis missões. E de suas cavalgadas, seus destinos e sua fidelidade ao plano de Deus, ninguém compreendeu nada e ninguém compreenderá jamais, se não tiver percebido que eles são voltados inteiramente para essas sagrações salvadoras.

O gênio deles ou sua santidade, o selo da inspiração divina como o símbolo de sua indomável determinação, não se manifesta, em toda sua amplitude, senão na hora dessas sagrações vitoriosas. Sua missão se encerra e culmina nessas sagrações, que valeram a uma e valerão um dia ao outro, muito mais que qualquer outro ato de suas vidas, a declaração da heroicidade de suas virtudes e que os tornam, um e outra, tão teologicamente próximos! É encantador ver, aliás, até que ponto as reflexões dos melhores biógrafos e hagiógrafos de Joana esclarecem também a vida de nosso fundador.

Ora, em 1456, a leitura da reabilitação de Joana foi feita em todas as grandes cidades do reino da França. De nossa parte, esperamos pacientemente a hora (e estamos firmemente convencidos de que ela virá) em que cada bispo de nosso país, cada um em sua catedral, será convidado a anunciar que as pretensas sanções levantadas contra nossos bispos, na realidade, jamais existiram. Muito pelo contrário, que Dom Lefebvre, por sua coragem em 30 de junho de 1988, rendeu um notável serviço à Igreja. Antes disso, eles terão, é claro, cada um em seu bispado, estourado um champanhe, ou pela sagração de Reims ou pelas sagrações de Ecône, para festejar essa reparação! Queiram nos perdoar a pequena ironia – que aliás nem é necessariamente uma ironia! – de ter imaginado essa divertida cena.

Como quer que seja, nós gostaríamos de convidar cada um a refletir sobre a luz que fornece a obtenção da primeira condição prévia. A Fraternidade pediu e agora ela obteve. Isso teria sem dúvida sido concedido antes, se ela tivesse sido mais vigorosamente imitada e apoiada em seu pedido e em sua oração. Hoje, ela começou uma segunda oração e um segundo pedido – não para pedir o levantamento das excomunhões! – mas para requerer a retirada do vergonhoso decreto.


Ninguém deve pensar que esse segundo pedido só interessaria desta vez – diferentemente do primeiro – exclusivamente aos membros e aos fiéis da Fraternidade! Em primeiro lugar porque todos e cada um de nós devem estar implicados, quando se trava um combate a serviço da verdade e da justiça. Em seguida e principalmente, porque a obtenção da segunda condição prévia abrirá, enfim, oficialmente, o debate tão esperado dessas questões graves e decisivas que o Concílio coloca à consciência católica.

Possam os católicos contemporâneos não passar a vergonha de ter de confessar, tarde demais, que só entraram na batalha após a vitória alcançada, por falta, certamente, de ter tido a coragem de enfrentar o consenso para levantar a capa do “religiosamente correto”. Será muita pena, tanto mais que se torna fácil, hoje em dia, sentir que o vento está começando a virar e farejar o fim que vai ter esse caso!

O carrasco de Joana, após ter acendido o fogo que devia queimá-la viva, gritou: “Estamos perdidos: queimamos uma santa”.  Nós nos perguntamos se as pessoas mais secretamente confusas não serão, um dia, aquelas que quiseram se obstinar em crer ou fazer de conta que crêem, nessas “excomunhões” e que, com uma voz grave e penalizada, mandam, ainda hoje, rezar pelo seu levantamento e pelo retorno dos cismáticos ao aprisco da Igreja. Quem será o último a dizer que acredita nisso ainda?

Quanto à Fraternidade, ela continua, tão pacificamente quanto é possível avançar pacificamente em meio a uma tempestade, a seguir sua rota. Com ou sem a retirada do decreto das excomunhões, ela se encontra ainda mais resoluta a não baixar os braços e a não assinar com Roma “um acordo entre a água e o fogo”, pelo fato de sua providencial estratégia ter sido reconhecida e escolhida e estar mesmo começando a dar frutos.

Com a graça de Deus, ela passará, neste ano de 2009, a fronteira de quinhentos membros padres. Na França, ela tem a alegria de anunciar-lhes, após a benção da nova igreja construída no coração da cidade de Rouen, a abertura, para este novo ano, de dois novos lugares de culto na região parisiense, um em plena cidade de Paris, o outro perto de Meaux, e tem esperança, na próxima volta às aulas, de abrir um priorado em Rouen e uma nova escola primária em Brest.

Para o progresso de nosso apostolado, nós lhes agradecemos, de todo coração, suas orações e seu apoio. Nós devemos, em toda parte, continuar a construir tudo sozinhos, pois os lugares de culto nos serão sempre recusados. Na medida em que se amontoam cada vez mais os escombros do Concílio, parece, com efeito, que os bispos, ao invés de tentar se livrar deles, preferem se deixar igualmente sepultar com o que subsiste de suas dioceses.

Não nos queixamos de pagar caro nossa liberdade de palavra e de confissão da fé. Mas é um fato, de que se deve ter consciência clara, que enquanto as igrejas vazias permanecem obstinadamente fechadas – como em Amiens – e que nós temos que pagar, até o último centavo, cada metro quadrado de nossas instalações e cada pedra de nossas construções, que o combate da fé só se manteve, miraculosamente, e continua, graças a esse ostracismo e a essa imensa precariedade aos quais nós continuamos confrontados.

Mais do que nunca, a fim de intensificar nossa resistência e a fim de propagar a fé, nós temos necessidade de sua ajuda. Nós lhe agradecemos esse apoio indispensável para que nós possamos sempre mais desenvolver nosso apostolado para a glória de Deus, para a salvação das almas, para que a fé seja transmitida a nossos filhos e que não desapareça de nosso país.  Santa Joana o disse e viveu: “É preciso fazer o que se deve quando Deus quer. Façamos a nossa parte que Deus fará a d’Ele”.

Caros amigos e benfeitores, nesse começo do ano de 2009, cheios de uma invencível certeza de que a hora de Deus e do triunfo de sua justiça está para vir, eu lhes apresento meus votos de que enraizados no combate da fé, nós continuemos a combater, todos juntos e até o fim, no cadinho das virtudes cristãs e no Coração Doloroso e Imaculado da Santíssima Virgem Maria.

Votos de 2009 aos fiéis

Suresnes, 31 de Dezembro de 2008

Abbé Régis de Cacqueray-Valménier, Superior Distrito da  França da FSSPX


Para citar este texto:
Abbé Régis de Cacqueray-Valménier - "De uma condição prévia à outra"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=fraternidade-vaticano&lang=bra
Online, 22/01/2009 às 18:40h

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O LIBERALISMO É PECADO

Dom Felix Sardá y Salvany

III. – Se é pecado o Liberalismo, e que pecado é...

O Liberalismo é pecado, já se o consideremos na ordem das doutrinas, já na ordem dos fatos.
Na ordem das doutrinas é pecado grave contra a fé, porque o conjunto de suas doutrinas é heresia, ainda que não o seja, talvez, uma ou outra de suas afirmações ou negações isoladas. Na ordem dos fatos é pecado contra os diversos Mandamentos da lei de Deus e de sua Igreja, porque de todos é infração. Mais claramente, na ordem das doutrinas o Liberalismo é a heresia universal e radical, porque a todas compreende; na ordem dos fatos é a infração radical e universal, porque a todas autoriza e sanciona.

Procedamos por partes na demonstração.

Na ordem das doutrinas o liberalismo é heresia. Heresia é toda doutrina que nega com negação formal e pertinaz um dogma da fé cristã. O liberalismo doutrina primeiro os nega todos em geral e depois cada um em particular. Nega todos em geral quando afirma ou supõe a independência absoluta da razão individual no indivíduo, e da razão social, ou critério público, na sociedade. Dizemos que afirma ou supõe porque, às vezes, nas conseqüências secundárias, não se afirma o princípio liberal, mas se lhe dá por suposto e admitido. Nega a jurisdição absoluta de Cristo Deus sobre os indivíduos e as sociedades, e, em conseqüência, a jurisdição delegada que sobre todos e sobre cada um dos fiéis, de qualquer condição ou dignidade que seja, recebeu de Deus a Cabeça visível da Igreja. Nega a necessidade da revelação divina, e a obrigação que tem o homem de admiti-la, se quiser alcançar seu fim último. Nega o motivo formal da fé, isto é, a autoridade de Deus que revela, admitindo da doutrina revelada apenas aquelas verdades que alcança seu limitado entendimento. Nega o magistério infalível da Igreja e do Papa, e, em conseqüência, todas as doutrinas por eles definidas e ensinadas. E depois desta negação geral e global, nega cada um dos dogmas, parcial ou concretamente, à medida que, segundo as circunstâncias, os julga opostos a seu critério racionalista. Assim, nega a fé do Batismo quando admite ou supõe a igualdade de todos os cultos; nega a santidade do matrimônio quando sanciona a doutrina do chamado matrimônio civil; nega a infalibilidade do Pontífice Romano quando se recusa a admitir como lei seus mandatos e ensinamentos oficiais, sujeitando-os a seu passe ou exequatur — não em seu princípio, para assegurar-se de sua autenticidade, mas para julgar seu conteúdo.

Na ordem dos fatos é a imoralidade radical. Assim o é porque destrói o princípio ou regra eterna de Deus, impondo-se à humana; canoniza o absurdo princípio da moral independente, que é, no fundo, a moral sem lei, ou, o que dá no mesmo, a moral livre — isto é, uma moral que não é moral, pois a idéia de moral, além de sua condição dirigente, encerra essencialmente a idéia de enfrentamento ou limitação. Ademais, o Liberalismo é toda imoralidade, porque em seu processo histórico cometeu e sancionou como lícita a infração de todos os mandamentos, desde o que manda o culto de um único Deus, que é o primeiro do Decálogo, até o que prescreve o tributo dos direitos temporais à Igreja, que é o último dos seus cinco mandamentos.

Por onde cabe dizer que o Liberalismo, na ordem das idéias, é o erro absoluto, e na ordem dos fatos, é a desordem absoluta. E por ambas as coisas o Liberalismo é pecado, ex genere suo, gravíssimo — é pecado mortal.

http://www.permanencia.org.br/revista/politica/liberalismo3.htm

sábado, 25 de outubro de 2008

IN EMINENTI APOSTOLATUS SPECULA

BULA PAPAL DE CLEMENTE XII

SOBRE A MAÇONARIA

CLEMENTE, bispo, servo dos servos de Deus a todos os fiéis, Saudações e Bênçãos Apostólicas.

Uma vez que a divina clemência colocou-Nos, mesmo nossos méritos não estando à altura de tal tarefa, no alto da torre do relógio do Apostolado com o dever de cuidado pastoral confiando em Nós, e tendo sido chamada a Nossa atenção, na medida em que foi concedida a Nós vinda do alto, com incessantes cuidados a todas essas coisas através do qual a integridade da religião ortodoxa é mantida a partir de erros e vícios, impedindo a sua entrada, e pelos quais os perigos de perturbação da maior parte dos tempos são repelidos de todo o mundo católico.


Agora, chegou a Nossos ouvidos, e o tema geral deixou claro, que certas Sociedades, Companhias, Assembléias, Reuniões, Congregações ou Convenções chamadas popularmente de Liberi Muratori ou Franco-Maçons ou por outros nomes, de acordo com as várias línguas, estão se difundindo e crescendo diariamente em força; e que homens de quaisquer religiões ou seitas, satisfeito com a aparência de probidade natural, estão reunidos, de acordo com seus estatutos e leis estabelecidas por eles, através de um rigoroso e inquebrantável vínculo que os obriga, tanto por um juramento sobre a Bíblia Sagrada quanto por uma variedade de severos castigos, a um inviolável silêncio sobre tudo o que eles fazem em segredo em conjunto.

Mas é parte da natureza do crime trair a si própria e para mostrar ao seu próprio clamor. Assim, estas citadas Sociedades ou Convenções têm causado na mente dos fiéis a maior suspeita, e todos os homens prudentes e íntegros tem apresentado o mesmo juízo sobre eles como sendo pervertidos e depravados. Pois se eles não estão fazendo mal, então não deveriam ter um ódio tão grande da luz. De fato, este rumor tem crescido a tais proporções que, em vários países estas sociedades têm sido proibidas pelas autoridades civis como sendo contra a segurança pública, e por algum tempo pareceu terem sido prudentes eliminados.


Por conseguinte, tendo em mente o grande prejuízo que é muitas vezes causado por essas Sociedades ou Convenções não só para a paz do Estado temporal, mas também para o bem-estar das almas, e percebendo que eles não possuem, por qualquer das sanções civis ou canônica; e uma vez que Nós somos inspirados pela palavra divina que é a parte do fiel servo e do comandante da casa do Senhor para assistir dia e noite o açoite de tais homens contra o lar agindo como ladrões e, como raposas que procuram destruir a vinha; de fato, para evitar que os corações dos simples sejam pervertidos e os inocentes sejam feridos secretamente por suas flechas e para bloquear a ampla estrada que poderia ser aberta para a ação de pecado e pelas justas e razoáveis motivações conhecidas por Nós; e por isso, depois de ter tomado conselho de alguns de nossos Veneráveis Irmãos entre os Cardeais da Santa Igreja Romana, e também de nossa própria reflexão a partir de certos conhecimentos e de madura deliberação, com a plenitude do poder apostólico, que decidimos fazer e decretar que estas mesmas Sociedades, Companhias, Assembléias, Reuniões, Congregações,ou Convenções de Liberi Muratori ou de Franco-Maçons, ou de qualquer outro nome que estas possam vir a possuir, estão condenadas e proibidas, e por Nossa presente Constituição, válida para todo o sempre, condenadas e proibidas.
Deste modo, Nós ordenamos precisamente, em virtude da santa obediência, que todos os fiéis de qualquer estado, grau, condição, ordem, dignidade ou preeminência, seja esta clerical ou laica, secular ou regular, mesmo aqueles que têm direito a menção específica e individual, sob qualquer pretexto ou por qualquer motivo, devam ousar ou presumir o ingresso, propagar ou apoiar estas sociedades dos citados Liberi Muratori ou Franco-maçons, ou de qualquer outra forma como sejam chamados, recebê-los em suas casas ou habitações ou escondê-los, associar-se a eles, juntar-se a eles, estar presente com eles ou dar-lhes permissão para se reunirem em outros locais, para auxiliá-los de qualquer forma, dar-lhes, de forma alguma, aconselhamento, apoio ou incentivo, quer abertamente ou em segredo, direta ou indiretamente, sobre os seus próprios ou através de terceiros; nem a exortar outros ou dizer a outros, incitar ou persuadir a serem inscritos em tais sociedades ou a serem contados entre o seu número, ou apresentar ou a ajudá-los de qualquer forma; devem todos (os fiéis) permanecerem totalmente à parte de tais Sociedades, Companhias, Assembléias, Reuniões, Congregações ou Convenções, sob pena de excomunhão para todas as pessoas acima mencionadas, apoiadas por qualquer manifestação, ou qualquer declaração necessária, e a partir da qual ninguém poderá obter o benefício da absolvição, mesmo na hora da morte, salvo através de Nós mesmos ou o Pontífice Romano da época.

Além disso, Nós desejamos e ordenamos que todos os bispos e prelados, e outras autoridades locais, bem como os inquisidores de heresia, investiguem e procedam contra os transgressores, independentemente da situação, grau, condição, ordem de dignidade ou preeminência que venham a ter; e que venham a perseguir e punir a todos com as sanções competentes da mais alta suspeição de heresia. Para cada um destes e a todos destes Nós concedemos e garantimos a livre faculdade de solicitar o auxílio do braço secular, em caso de necessidade, para investigar e proceder contra aqueles mesmo transgressores e para persegui-los e puni-los de acordo com as competentes sanções.

Dada e traçada em Roma, em Santa Maria Maior, no ano de 1738 de Nosso Senhor.

CLEMENTE XII

sábado, 18 de outubro de 2008

O modernista Henrici de Lubac




HENRI DE LUBAC S.J., UM "MESTRE" QUE NUNCA FOI DISCÍPULO



I - Inclinações "liberais" e deformação teológica
II - "Mestres" Que Nunca Foram Discípulos
III - Desprezo por Roma e Falsa Obediência
IV -A "Simbiose intelectual de Blondel"
V - O Desprezo pelo Magistério Infalível
VI - Os "reformadores"
VII - A Arma do Desprezo e da Difamação
VIII - A Crise Pós-Conciliar e o "Exame de Consciência" de De Lubac


Inclinações "liberais" e deformação teológica



Chegamos ao jesuíta Henri de Lubac, pai da "nova teologia".
Partiremos de sua formação filosófico-teológica, porque ela mostra o clima de desprezo pela autoridade e pela orientação da Roma católica em que amadureceu a crise atual da Igreja. Para lutar contra a agressão dos modernistas, São Pio X tinha mandado que se afastassem dos seminários e das casas de formação de religiosos os professores suspeitos e que fossem excluídos das ordenações os "jovens que demonstrassem o menor sinal de apego às doutrinas condenadas e às novidades perniciosas"1.
De acordo com essas diretivas, o jovem De Lubac nunca deveria ter sido ordenado. Foi ele mesmo que, em sua obra Memória em Torno de Minhas Obras2, reconheceu suas simpatias pelo liberalismo católico, condenado de modo repetido pelos Pontífices Romanos, simpatias que o predispuseram a "correr atrás dos sistemas e das tendências turbulentas do pensamento moderno"3.
De Lubac escreveu, por exemplo, do Cardeal Couillé:
"por mim aureolado, desde minha adolescência, por causa da lembrança de Mons. Dupanloup, de quem ele foi colaborador". Mons. Dupanloup, o "herói", ou antes o "santo", de De Lubac adolescente, foi uma figura marcante da corrente liberal no Concílio Vaticano I, e deixou este Concílio antes de sua conclusão, para não assistir à proclamação da infalibilidade pontifical, a que ele se opunha. Ao contrário de Mons. Lavallée, reitor das Faculdades Católicas de Lyon, de quem De Lubac escreveu: "O que me preocupou sempre um pouquinho nele foi... sua reputação de tradicionalista extremo."4
Esse horror ao "integrismo" e aos "integristas" não deixou nunca De Lubac até o fim de seus dias, como veremos. Contra a agressão do modernismo, São Pio X e todos os seus sucessores, até Pio XII, tinham confirmado a obrigação de "seguir religiosamente (sancte) a doutrina, o método, os princípios de Santo Tomás"5. Mas dessa orientação romana faziam pouco caso ou até não se davam conta nas casas de formação dos jesuítas freqüentadas por De Lubac. Assim, durante seus estudos de filosofia, em Jersey (1920-1923), o jovem De Lubac pôde ler "apaixonadamente" L’Action, La Lettre (sobre Apologética) e diversos outros estudos de Maurice Blondel.
"Por uma louvável exceção, alguns de nossos mestres de então, apesar das interdições serem severas, permitiam, sem nos encorajar, que seguíssemos o pensamento do filósofo de Aix."6
E ainda, na página 192:
"Entre os autores de mais fraca envergadura, éramos loucos por Lachelier [que se mete, como Blondel, no domínio do kantismo], recomendado pelo Pe. Auguste Valensin mais pelo seu estilo do que por suas idéias [ainda que isto seja verdade, as idéias penetravam também com o estilo]. É preciso lembrar que, nesse tempo, para os escolásticos de filosofia tais leituras eram, para a maioria, um fruto semiproibido. Graças a mestres e conselheiros indulgentes, nunca foram leituras clandestinas."
E assim o jovem De Lubac, em vez de receber uma séria e sã formação filosófica, base indispensável de uma séria formação teológica, deformou-se, "graças a mestres e conselheiros indulgentes , com a leitura apaixonante de filósofos viciados de imanentismo e de subjetivismo.



"Mestres" Que Nunca Foram Discípulos



O prejuízo de tal "formação" é enorme e irreparável:
"Porque a doutrina tradicional de Santo Tomás é a mais forte, a mais luminosa e a mais segura nos seus princípios — é preciso crer na Igreja — é dever munir-se dessa força e dessa luz, para afastar as teorias arriscadas ou falsas. Não se faz sempre o contrário? Estuda-se aos trancos uma filosofia ou uma teologia diminuída e sem coesão; em seguida, tem-se contato com Santo Tomás e com a Tradição, mas episodicamente. Esse contato não é uma formação: pior, ele falsifica a realização do pensamento escolástico e tradicional. Ora, a Igreja pede uma formação tomista tradicional. Se realmente Santo Tomás é um guia, é a ele que é preciso recorrer, antes e sobretudo; é sua doutrina, pura, que é preciso ensinar na formação teológica; sua leitura, para ser realmente formadora, não deve vir como um estudo secundário e acessório."7
Essa carência de uma sólida formação filosófica e teológica é o "defeito de fábrica" que se constata em todos os "novos teólogos".
Henri Bouillard, veterano da "turma" de De Lubac, por ocasião da inauguração do Centro de Arquivos Maurice Blondel8 ofereceu "o testemunho" seguinte:
"Faço parte desses jovens estudantes de teologia que, em meados de 1930, arrumavam um exemplar fotocopiado de L’Action [principal obra de Blondel], livro que não se achava, na época, em livrarias. A obra era suspeita, e sua leitura, sem guia competente, era difícil. Mas, profundamente decepcionados com a filosofia escolástica e com a apologética ensinada nos Seminários [mal ou sem convicção por professores fascinados, também eles, pela ‘filosofia moderna’], procurávamos aí uma iniciação, entre outras, ao pensamento moderno e, mais ainda, o modo, que não achávamos em outro lugar, de compreender e
justificar nossa fé."
Continua Bouillard:
"Mesmo como professor, o conjunto de minhas lições se inspirava largamente no pensamento blondeliano. Outros teólogos [entre os quais seu amigo De Lubac] haviam se engajado, fazia muito tempo, neste caminho, e outros dele se aproximavam. Devo testemunhar não somente o que Blondel me ensinou mas a influência que ele exerceu sobre numerosos teólogos e, através deles, sobre o conjunto da teologia."9
Com razão, então, o Pe. Garrigou-Lagrange escreveu de De Lubac, de Bouillard e de seus companheiros:
"Não achamos que eles abandonam a doutrina de Santo Tomás; eles nunca aderiram a ela e nunca a compreenderam bem. É doloroso e inquietante."10
Como sempre, os "inovadores", para falar como Santo Afonso, "querem ser tidos por mestres, sem nunca terem sido discípulos"11.




Desprezo por Roma e Falsa Obediência




Junto com as "novidades", o jovem De Lubac absorveu, inevitavelmente, o desprezo pela orientação "romana":
"Entre os contemporâneos que eu segui na época de minha formação, tive uma dívida particular para com Blondel, Maréchal, Rousselot."12
Entretanto, nenhum desses três era visto como ortodoxo, nem pelo Santo Ofício nem pela sede romana da Companhia de Jesus.13 E De Lubac escreve sobre o jesuíta Pierre Charles:
"seu prestígio cresceu [sic] a nossos olhos, por causa da semidesgraça em que ele caiu [diante das autoridades romanas], como o padre Huby depois do caso de Les yeux de la Foi", obra de Rousselot que os jesuítas Charles e Huby tentaram muitas vezes publicar,
contra a oposição de Roma14.
Mais tarde, De Lubac aprendeu a praticar uma real desobediência sob a aparência da mais formal obediência. O padre Podechard, "o mais submisso dos filhos da Igreja", conta De Lubac, acabava de terminar um curso sobre o servo de Jahvé, na Faculdade de Teologia de Lyon.
"Disse-lhe que ele deveria escrever um livro e publicá-lo. ‘É impossível’, replicou-me. ‘E por quê?’ ‘Há na base posições críticas que hoje não são admitidas. Sobre essas questões bíblicas, Padre, a Igreja e eu, realmente, não nos entendemos; é preciso então que um dos dois se cale, e é normal que seja eu’."15
Mas isso não impedia o "mais submisso dos filhos da Igreja" de falar sem tais precauções nos seus cursos, propondo aos jovens eclesiásticos teses que ele sabia desaprovadas pela Igreja.
De Lubac aprenderá a lição e, no seu devido tempo, saberá esconder, ele também, sua real desobediência sob uma submissão formal. Com conhecimento de causa, Pio XII, na Humani Generis, escreverá que os "novos teólogos" ensinam o erro "de modo prudente e encoberto": "Se nos livros impressos falam com prudência, nos escritos transmitidos em particular, nas lições e conferências, se exprimem mais livremente." Constataremos a mesma coisa, mais adiante, para von Balthasar. E isso explica como o mundo católico, com o Vaticano II, pôde "acordar" modernista sem nem sequer gemer16.



A "Simbiose Intelectual" de Blondel



O primeiro passo da "nova teologia", para abandonar a tradição dogmática da Igreja, é o abandono da filosofia escolástica. E esse passo, vimos no capítulo precedente, foi dado por Blondel. O segundo passo é o abandono da teologia católica tradicional, e é Henri de Lubac que dele se encarregará.
O "teólogo modernista" — escreveu São Pio X — critica "a Igreja porque, com grande obstinação, ela se recusa a submeter-se e acomodar seus dogmas às opiniões da filosofia [moderna]"; de seu lado, "tendo posto de lado a antiga teologia", ele se esforça "para pôr em voga uma novidade, fiel em tudo aos delírios dos filósofos"17. Toda teologia, de fato, pressupõe uma filosofia, e a "nova teologia" de De Lubac pressupõe a "nova filosofia" de Blondel.
Em 8 de abril de 1932, Henri de Lubac S.J. escrevia a Blondel que agora era possível "a elaboração de uma [nova] teologia do sobrenatural [...] porque sua obra filosófica [de Blondel] lhe havia preparado os caminhos"18.
Recentemente, em março de 1991, o Osservatore Romano consagrou uma página inteira à apresentação (naturalmente elogiosa) da obra Henri de Lubac: Théologie et dogme dans l’Histoire. L’influence de Blondel19. O autor, A. Russo, aluno italiano do alemão Walter Kasper (ele também da turma "dos que pensam que venceram"), escreve que a correspondência De Lubac/Blondel "oferece um exemplo de simbiose intelectual que raramente se encontra na história do pensamento"20. É, na realidade, uma velha história: os semelhantes se atraem. Inúmeros pontos uniam Blondel e De Lubac: a mesma falta de confiança no valor da razão (antiintelectualismo ou, ainda, gnosticismo ou cepticismo); a mesma falta de vigor intelectual já assinalada pelo Pe. de Tonquedec S.J. em Blondel e que não é difícil mostrar nos escritos de De Lubac; o mesmo complexo de inferioridade em face do "homem moderno" (identificado com o filósofo moderno, doente de cepticismo e de subjetivismo); o mesmo medo de intelectuais, escondido sob a ansiedade apologética de um "apostolado pacificante" (Blondel), "de ficar ou ser expulso" (A. Russo21) por uma cultura que recusa o Cristo e sua Igreja, e a miragem correlativa de conciliar a pseudofilosofia moderna com a fé, como São Tomás tinha conciliado com a fé a filosofia de sua época. Blondel e De Lubac não notaram que São Tomás havia saneado uma filosofia fundamentalmente sã, mas que até um pensador da têmpera de São Tomás (Blondel é como um ratinho diante de uma montanha, em relação a ele) não poderia sanar os sofismas dos filósofos modernos. Não há conflito entre a fé e a razão reta22, mas há conflito entre a fé e a filosofia moderna, porque esta última anda muito longe da sã razão. Querer "reler" a Fé segundo os critérios da filosofia moderna é dissolver a fé nos erros da filosofia moderna, sem libertar para tanto o "pensamento cristão" (e a nós) do ostracismo a que a cultura moderna o relegou.
Isso toca o erro, que não é suscetível de conversão.Quanto aos que erram, é preciso lembrar que é difícil reconduzir à verdade aqueles que, como os filósofos modernos, se enganam nos princípios23 e que, em todo caso, aqueles que se enganam nos princípios devem ser corrigidos nos princípios. Supor, ao contrário, esses princípios errados (gnosticismo, subjetivismo etc.) como ponto de partida para uma "nova filosofia cristã" ou então para uma "nova teologia" conduz inevitavelmente a conclusões erradas, uma vez que é impossível tirar conclusões verdadeiras de princípios falsos.
E então a "simbiose intelectual" que houve entre De Lubac e Blondel só poderia conduzir a resultados muito infelizes, e não somente para os dois personagens diretamente interessados.



O Desprezo pelo Magistério Infalível



De Lubac e Blondel compartilhavam, sobretudo, o mesmo desprezo pelo Magistério infalível. E este desprezo aparece evidente quando se pensa que eles deviam sustentar (ou, mais exatamente, insinuar e difundir mais ou menos clandestinamente, porque não as sustentavam nunca de cara descoberta) suas "novidades" não contra uma escola teológica diferente, numa matéria controversa, mas contra o Magistério da Igreja, numa matéria sobre a qual existiam ensinamentos constantes e condenações repetidas dos Pontífices Romanos.
Quando Blondel e, no rastro de sua "filosofia" De Lubac consideraram o sobrenatural como uma exigência, um aperfeiçoamento necessário da natureza, que sem ele se acharia frustrada nas suas aspirações essenciais e, por isso, num estado anormal, e, em conseqüência, negavam que se pudesse admitir, ainda que por mera hipótese, um estado de "natureza pura", eles vinham opor-se à doutrina universal e constante da Igreja sobre a gratuidade do sobrenatural: se o sobrenatural é necessário à natureza, já não é gratuito, mas sim devido, e, se é devido à natureza, já não é sobrenatural, mas... natural, e com efeito o naturalismo é o fundo real do modernismo, como
também da "nova teologia".
A gratuidade do sobrenatural foi constantemente ensinada pela Igreja e defendida por ela contra os erros de Baius e de Lutero, que, como Blondel e De Lubac, diziam seguir a Santo Agostinho. Contra o modernismo, São Pio X tinha assim confirmado a doutrina constante da Igreja:
"Não Nos podemos impedir de deplorar mais uma vez, e com firmeza, que se encontrem católicos [e aqui o Pe. de Tonquedec não podia deixar de pensar em Blondel] que, repudiando a imanência como doutrina, a empregam, contudo, como método de apologética; que o fazem, digamos Nós, com tão pouca discrição, que parecem admitir na natureza humana, em relação à ordem sobrenatural, não somente uma capacidade e uma conveniência — coisas que, em todos os tempos, os apologetas católicos tiveram o cuidado de pôr em relevo — mas uma verdadeira e rigorosa exigência." Assim, na natureza humana, o filósofo, o apologeta, o teólogo católico não podem admitir mais que "uma capacidade ou uma conveniência" (poder de obediência) de receber o sobrenatural. Ultrapassar esses limites é abalar uma pedra fundamental da teologia católica, acarretando em seguida a ruína de todo o resto, como o vemos hoje, no curto caminho que vai do "sobrenatural",
que já não é aquele de Blondel e de De Lubac, à "visão antropológica" e aos "cristãos anônimos" de Karl Rahner, ao indiferentismo religioso ou "ecumenismo", à importância secundária da Igreja como meio de salvação24.
A encíclica Pascendi data de 1907. Em 1932, Blondel, com um desprezo evidente pelo Magistério infalível da Igreja, estava ainda chocado ou, como ele diz, "amadurecendo"
sua concepção heterodoxa do sobrenatural. Por sua vez, De Lubac, exaltado como modelo de "obediência" e de "fidelidade" à Igreja por ocasião de sua morte25, com igual desprezo pelo Magistério, encoraja-o e faz do sobrenatural naturalizado de Blondel o fundamento de sua "nova teologia".
Do mesmo modo, quando Blondel e De Lubac apresentam e difundem uma "nova" noção de "verdade", vitalista e evolucionista, eles sabem que essa noção fora condenada por São Pio X na Pascendi26 e em seguida pelo Santo Ofício, em 1º de dezembro de 1924, mas continuam imperturbáveis no seu caminho do erro.



Os "Reformadores"



Na realidade, o que espanta em Blondel e De Lubac é, justamente, sua maneira de se apresentar como critérios indiscutíveis de verdade, contra o Magistério secular da Igreja: sua causa é a causa do "cristianismo autêntico"27; eles são os artistas do retorno à "tradição mais autêntica"28, aqueles que restituíram a vida à "antiga doutrina"29, da qual, segundo eles, o "pensamento cristão" e, necessariamente, o Magistério da Igreja se teriam desviado no curso dos séculos, o que é "uma coisa absurda e a mais ultrajante
para a própria Igreja"30.
São Pio X, na Pascendi, bem descreveu a consciência falsificada dos modernistas, que tiravam do santo Papa toda a esperança em suas possibilidades de arrependimento:
"O que se lhes reprova como uma falta é o que eles vêem, ao contrário, como um dever sagrado... Que a autoridade os repreenda tanto quanto queira, eles têm para si suas consciências... E eles seguem seus caminhos; repreendidos e condenados, vão sempre dissimulando, sob mentiras de submissão exterior, uma audácia sem limites. Curvam hipocritamente a cabeça, enquanto com todos os seus pensamentos, com todas as suas energias perseguem, mais audaciosamente que nunca, o plano traçado. Isto é neles uma vontade e uma tática: porque acham que é preciso estimular a autoridade, não destruí-la; e porque lhes importa ficar no seio da Igreja para aí trabalhar e aí modificar pouco a pouco a consciência comum."
E ainda:
"Essa gente faz maravilhas, porque nós não os contamos no número dos inimigos da Igreja [...]; mas deixemos de lado as intenções, de que somente Deus é juiz, e examinemos suas doutrinas [é o critério objetivo para julgar] e suas maneiras de falar e de agir. Na verdade, aqueles que os consideram como os mais nocivos inimigos da Igreja não se afastam da verdade."31




A Arma do Desprezo e da Difamação



De Lubac, como Blondel (ver o capítulo anterior), utiliza o sistema dos modernistas para não se revelar excessivamente, a fim de, como disse São Pio X na Pascendi, "ficar no seio da Igreja para aí trabalhar e aí modificar pouco a pouco a consciência comum".
Apesar disto, os grandes teólogos tomistas viram imediatamente o termo aonde iriam conduzir as "novidades" propostas por ele, precavidamente encobertas; e imediatamente o futuro Cardeal Journet, fortalecido por sua formação tomista, assinala que "o Pe. De Lubac já não consegue distinguir a filosofia da teologia"32 ou, ainda, o natural do sobrenatural, e, adiante, percebe nele um "fideísta"33.
Não foi difícil para De Lubac convencer "o excelente" Charles Journet34, mas não foi assim com os outros teólogos tomistas. Às suas argumentações De Lubac oporá, então, a arma do desprezo e da difamação.
Em 1946 o Pe. Garrigou-Lagrange lança sua grave advertência: "Para onde vai a nova teologia? Ela retorna ao modernismo"; "a verdade já não é o que é, mas o em que se torna, e muda sempre", e isto "conduz ao relativismo completo"35. Além disso, numa carta pessoal, o grande teólogo dominicano lembra a Blondel, agora avançado em idade, sua responsabilidade diante de Deus. Em vão. De Lubac "utiliza" a carta para desacreditar o autor"36 e intervém prontamente para sossegar o inquieto Blondel: "A carta que ele Garrigou-Lagrange] acaba de nos enviar explica-se, ao menos em parte, pelo despeito que sente por ter visto recusado um artigo seu para a própria Revue Thomiste. Ele já não é somente o homem limitado que nós sabíamos, mas se torna num verdadeiro maníaco; daqui a alguns meses estará fabricando um espectro de heresia, para se dar a satisfação de salvar a ortodoxia. Recorre ao senso comum, mas é ele que já não tem o senso comum. O que se poderia responder é que o fato de pertencer a uma Ordem que tem por divisa ‘Veritas’ não lhe confere nenhum privilégio de infalibilidade [...]. O senhor não é responsável por nenhum dos desvios teológicos que ele imagina.
Neste momento existe um forte impulso integrista, denúncias e tagarelices de todo o gênero confluem ao quarto do Padre Garrigou-Lagrange."37 E, em 28 de julho de 1948, ele voltará a falar de "suas [de Garrigou-Lagrange] idéias simplistas sobre o absoluto da verdade"38.
Mas em 17 de setembro de 1946 Pio XII, interferindo pessoalmente na questão, exprimiu "idéias simplistas" idênticas às do Pe. Garrigou-Lagrange, idéias que foram sempre as da Igreja sobre o absoluto da verdade. Aos padres da Companhia de Jesus, numa alocução que teve grande repercussão, ele exprimira seu ponto de vista sobre a "nova teologia", "que deve evoluir como todas as coisas evoluem, estar em progresso sem se fixar nunca (...) Se fosse necessário abraçar tal opinião [advertiu o Santo Padre], que seria dos dogmas imutáveis da Igreja Católica? Que seria da unidade e da estabilidade da fé?"39
A advertência caíra no vazio. E igualmente cairá, para De Lubac (nesse tempo Blondel já estava morto), a encíclica Humani Generis (1950), que repete a imutabilidade da verdade e condena a "nova teologia do sobrenatural", de De Lubac:
"Ela me parece — escreve este sobre a grande Encíclica — como muitos outros documentos eclesiásticos, muito unilateral; o que não me espantou: é um pouco a lei do gênero. Mas nada vi que me tenha atingido."40
E às críticas vigorosas e luminosas de seus grandes adversários (Garrigou-Lagrange, Labourdette, Cordovan, Boyer etc.) ele continuará a responder com o desprezo e a difamação. Escreve ele a seu provincial em 1 de julho de 1950: "Fui atacado por alguns teólogos, é verdade, em geral pouco estimados [sic] por causa de sua ignorância notória [sic] da tradição católica ou por qualquer outro motivo."41 Adiante fala de "críticos obstinados de um grupo enfurecido" (é o sistema sempre utilizado pelos "que pensam que venceram"; ver a caricatura, tão injuriosa quanto injusta, do Pe. Garrigou- Lagrange apresentada pelo Pe. Martini S.J. — que reserva um tratamento parecido para Pio IX em Vaticano II — Balanço e Perspectivas).
De Lubac pratica um sistema "transversal" idêntico para defender seus companheiros:
Teilhard de Chardin S.J., que fazia teologia através da ciência, como De Lubac fez teologia através da história, é criticado por seus erros teológicos? De Lubac adverte que a culpa vem da "ignorância de seus críticos quanto ao estado atual da ciência [sic] e aos problemas que daí derivam"42!




A Crise Pós-Conciliar e o "Exame de Consciência" de De
Lubac




Nem as advertências e condenações dos Pontífices Romanos nem as condenações de seus adversários arranharam, em De Lubac, a segurança de "reformador". Para conter tal segurança, era preciso o horrível desastre do pós-concílio.
Do estado de alma de De Lubac (e de von Balthasar), Paulo VI se fará eco fiel — falaremos nisso depois — no seu famoso discurso de 30 de junho de 1972 sobre "as fumaças de Satanás no templo de Deus", que é também a confissão de uma ilusão longamente cultivada e obstinadamente perseguida:
"Acreditava-se que, depois do Concílio, viria um dia de sol para a história de Igreja. E, pelo contrário, veio um dia de nuvens, de tempestade, de obscuridade."
A impossibilidade de cavalgar o tigre das contestações desencadeadas e o desastre que desmentiu as róseas ilusões dos "reformadores" obrigaram De Lubac a um "exame de consciência", que ele registra na já citada Mémoire autour de mes oeuvres. Entretanto, estamos muito longe de uma conversão. Ele admite, no máximo, que "essa época não é menos [sic] sujeita aos desvios, aos passos em falso, às ilusões, aos assaltos do espírito do mal".
E continua:
"O que eu percebo hoje desses assaltos não me faz maldizer minha época, mas me leva a perguntar: não teria sido melhor considerar mais seriamente, desde o começo, meu caráter de fiel, meu papel de padre e de membro de uma Ordem apostólica, em suma, minha vocação, e principalmente concentrar com maior decisão meu trabalho intelectual precisamente no centro da fé e da vida cristã, em vez de o desperdiçar em domínios mais ou menos periféricos, segundo meus gostos ou segundo a atualidade? [...]
Não estaria eu preparado, dessa maneira, para interferir, com um pouco mais de competência e, sobretudo, de autoridade moral, no grande debate espiritual de nossa geração? Não estaria eu, agora, um pouco menos desprovido para esclarecer a uns e encorajar a outros?"
E ainda:
"Há sete ou oito anos estou paralisado pelo medo de afrontar de cara, de maneira concreta, os problemas essenciais, na sua atualidade viva. Isto foi sabedoria ou fraqueza? Tive eu razão ou não? [...]. Não teria eu aparentemente acabado, contra a minha vontade, no clã
integrista que me causa horror?"43
Entre tantas dúvidas, uma única parece não ter jamais aflorado à consciência de De Lubac, a saber, que este "integrismo", com o "horror" que o paralisava, não era nada menos que a fidelidade à ortodoxia católica, fiel e infalivelmente guardada pela Igreja, e que ele desprezava, para se dispersar em "domínios mais ou menos periféricos",
43 Pp. 389 ss. 77 segundo seus "gostos ou segundo a atualidade", pretendendo em seguida — o que é pior — ser um "mestre" na Igreja, sem jamais ter sido um discípulo:
"Cegos e condutores de cegos, que, inflamados de uma ciência orgulhosa, chegaram a essa loucura de perverter a eterna noção da verdade e, ao mesmo tempo, a verdadeira natureza do sentimento religioso; inventores de um sistema onde, sob o império de um amor cego e desenfreado por novidades, não se preocupam de maneira nenhuma em achar um ponto de apoio sólido para a verdade, mas, desprezando as santas e apostólicas tradições, abraçam outras doutrinas, vãs, fúteis, incertas, condenadas pela Igreja, nas quais homens muito vaidosos pretendem apoiar e assentar a verdade."44










Notas: 1 Motu Proprio de 18 de novembro de 1907.
2 Milão, Jaca Book.
3 Pe. Parente, La Théologie, ed. Studium.
4 P. 5.
5 São Pio X, Motu Próprio, cit.; Pio XII, Humani Generis; Direito Canônico
(1917), Cânon 1366 nº2.
6 Memória, p. 10.
7 Lavaud, La Vie spirituelle, pp. 174 ss, citado por J. B. Aubry, L’Étude de
la Tradition, p. 100.
8 Louvaina, 30-31 de março de 1973.
9 Centre d’Archives Maurice Blondel — Journée d’inauguration, 30-31 de
março de 1973; textos das intervenções, p. 41.
10 "La nouvelle théologie où va-t-elle?", Angelicum 23, 1946.
11 A. M. Tannoia, Vita, L.II, c. LV.
12 Op. cit.
13 Ibid., pp.13 ss.
14 Ibid., p. 14.
15 P. 17.
16 Cf. São Jerônimo: "O mundo acordou ariano e gemeu."
17 Pascendi.
18 Op. cit., p. 26.
19 Roma, ed. Studium.
20 P. 307.
21 Op. cit.
22 Dz. 1799.
23 Santo Tomás, II-II, q. 156, a. 3, ad 2m.
24 Sì Sì No No, ed. francesa, nº 131, pp. 2-7, "O Elogio do Padre Henri de
Lubac, um dos Padres do Vaticano II".
25 Ver Sì Sì No No, ed. francesa, cit.
26 Dz. 2058 e 2080.
27 Blondel a De Lubac, 15 de abril de 1945 e 16 de março de 1946, in A.
Russo, op. cit., pp. 307 e 309.
28 De Lubac in A.Russo, op. cit., p. 373.
29 Ibid.
30 Gregório XVI, Mirari vos.
31 Ibid.
32 Mémoire, cit., p. 7.
33 Ibid. p. 20.
34 Ibid., pp. 7-20.
35 "La Nouvelle Théologie...", op. cit.
36 A. Russo, op. cit.
37 Citado por A. Russo, op. cit., pp. 354 ss.
38 Ibid., p. 356.
39 Acta Apostolicae Sedis, 38, S., 2, 13, 1946, p. 385.
40 Mémoire, cit. p. 240.
41 Mémoire, cit., p. 219.
42 Nota pró-memória a seus superiores, de 6 de março de 1947, in
Mémoire, cit., p. 178.
43 Pp. 389 ss.
44 São Pio X, Pascendi, citação da Encíclica Singulari Nos, de Gregório
XVI..

domingo, 5 de outubro de 2008

O LIBERALISMO É PECADO

Dom Felix Sardá y Salvany

III. – Se é pecado o Liberalismo, e que pecado é...

O Liberalismo é pecado, já se o consideremos na ordem das doutrinas, já na ordem dos fatos.
Na ordem das doutrinas é pecado grave contra a fé, porque o conjunto de suas doutrinas é heresia, ainda que não o seja, talvez, uma ou outra de suas afirmações ou negações isoladas. Na ordem dos fatos é pecado contra os diversos Mandamentos da lei de Deus e de sua Igreja, porque de todos é infração. Mais claramente, na ordem das doutrinas o Liberalismo é a heresia universal e radical, porque a todas compreende; na ordem dos fatos é a infração radical e universal, porque a todas autoriza e sanciona.

Procedamos por partes na demonstração.

Na ordem das doutrinas o liberalismo é heresia. Heresia é toda doutrina que nega com negação formal e pertinaz um dogma da fé cristã. O liberalismo doutrina primeiro os nega todos em geral e depois cada um em particular. Nega todos em geral quando afirma ou supõe a independência absoluta da razão individual no indivíduo, e da razão social, ou critério público, na sociedade. Dizemos que afirma ou supõe porque, às vezes, nas conseqüências secundárias, não se afirma o princípio liberal, mas se lhe dá por suposto e admitido. Nega a jurisdição absoluta de Cristo Deus sobre os indivíduos e as sociedades, e, em conseqüência, a jurisdição delegada que sobre todos e sobre cada um dos fiéis, de qualquer condição ou dignidade que seja, recebeu de Deus a Cabeça visível da Igreja. Nega a necessidade da revelação divina, e a obrigação que tem o homem de admiti-la, se quiser alcançar seu fim último. Nega o motivo formal da fé, isto é, a autoridade de Deus que revela, admitindo da doutrina revelada apenas aquelas verdades que alcança seu limitado entendimento. Nega o magistério infalível da Igreja e do Papa, e, em conseqüência, todas as doutrinas por eles definidas e ensinadas. E depois desta negação geral e global, nega cada um dos dogmas, parcial ou concretamente, à medida que, segundo as circunstâncias, os julga opostos a seu critério racionalista. Assim, nega a fé do Batismo quando admite ou supõe a igualdade de todos os cultos; nega a santidade do matrimônio quando sanciona a doutrina do chamado matrimônio civil; nega a infalibilidade do Pontífice Romano quando se recusa a admitir como lei seus mandatos e ensinamentos oficiais, sujeitando-os a seu passe ou exequatur — não em seu princípio, para assegurar-se de sua autenticidade, mas para julgar seu conteúdo.

Na ordem dos fatos é a imoralidade radical. Assim o é porque destrói o princípio ou regra eterna de Deus, impondo-se à humana; canoniza o absurdo princípio da moral independente, que é, no fundo, a moral sem lei, ou, o que dá no mesmo, a moral livre — isto é, uma moral que não é moral, pois a idéia de moral, além de sua condição dirigente, encerra essencialmente a idéia de enfrentamento ou limitação. Ademais, o Liberalismo é toda imoralidade, porque em seu processo histórico cometeu e sancionou como lícita a infração de todos os mandamentos, desde o que manda o culto de um único Deus, que é o primeiro do Decálogo, até o que prescreve o tributo dos direitos temporais à Igreja, que é o último dos seus cinco mandamentos.

Por onde cabe dizer que o Liberalismo, na ordem das idéias, é o erro absoluto, e na ordem dos fatos, é a desordem absoluta. E por ambas as coisas o Liberalismo é pecado, ex genere suo, gravíssimo — é pecado mortal.

http://www.permanencia.org.br/revista/politica/liberalismo3.htm

quinta-feira, 8 de maio de 2008

A Igreja Darwinista

Imaginem uma Igreja que é o corpo do homem, do qual quase todos fazem parte. Apliquem nessa Igreja a noção darwinista da origem do homem. Teremos nela a história da humanidade segundo Charles Darwin, onde o homem sofre "aggiornamentos" para se adequar as condições de vida que o ambiente fornece. Assim, da mesma maneira que se tem um homem para cada idade histórica, também se terá uma Igreja para cada uma das idades históricas. Temos aqui, o princípio da história da nova Igreja.

Apesar das frequentes atualizações que se observam nos homens de Darwin, a substância material dos diversos homens da teoria da evolução, é a mesma. Mudando-se o formato da substância, para que o homem se adequasse a novas realidades, o que se alterou foi a substância espiritual dos mesmos; O homo habilis, por exemplo, não pensava, mas o homo sapiens, "pensa e logo existe".

Atualmente ocorre o inverso, cada homem sente-se no dever de mudar a forma de sua substância espiritual. Se a Evolução Darwiniana é produto do nada a evolução da humanidade é produto de todos os homens. Cada um estipula um fim para a evolução da humanidade, em um grande contra-senso, pois o nada sem razão e sem vontade, na visão darwiniana produz um universo ordenado e o ser humano dotado de exatamente de "razão e vontade livre", ele ganha de dez a zero, dos homens. Dotados de "razão e vontade livre", eles são incapazes de produzir uma sociedade que seja uma analogia ao universo em que vivem. Absurdos...

A concepção darwiniana, foi absorvida pelos modernistas católicos, eles à aplicaram, na Igreja e no católico, ela foi a motivação do Concílio Vaticano II, no qual ela triunfou. Agora para a grande maioria dos Católicos, como para Charles Darwin, a verdade também evolui, ela tem que ser constantemente "agiornata" como o homem foi constantemente "Aggiornato". Para a Teoria da Evolução o Aggiornamento do homem faz a vida acessível a ele, mas para a heresia modernista, o "aggiornamento" da verdade é que torna a verdade acessível ao homem. Como se vê o modernista quer ter acesso ao nada, pois uma verdade que evoluí, não é nada, ela não é acessível a ninguém, ela não existe.

Antes do Concílio, o católico era o "homem eterno", agora ele passou a ser visto como homem antigo, medieval e moderno. A catolicidade da Igreja, não lhe imprime mais caráter eterno. Agora o que imprime caráter é o tempo. Se olharmos por este ponto de vista, nunca existiu sequer um católico e diremos como Nietszche, que "o único cristão foi Jesus Cristo". Afinal se o tempo determina as necessidades humanas, se é ele quem dá as diretrizes para a Igreja, nunca houve uma só fé e um só batismo. Porque reduzindo-se tudo ao material e ao homem, nunca houve um Senhor.

Nunca tinha ocorrido em toda a história da Igreja um Concílio para atualizar a Igreja. Ainda mais nas circunstâncias em que se deu a convocação do Concílio, uma subita inspiração. Durante 1960 anos a Igreja é inspirada a expressar ao mundo uma porta estreita e durante 500 anos ela luta contra aqueles que escancararam a porta da perdição. Para na década de 1960, através de uma súbita inspiração ela se abrir ao mundo e permitir que ele transformasse a si mesma em uma auto-projeção da humanidade.

Ora, se a Igreja necessita ser atualizada, ele já não é mais o reflexo de Cristo, mas da humanidade. Em nenhum momento da antigüidade ou da idade média, os membros da Igreja pediram por uma atualização da Igreja. Na Antigüidade Santo Agostinho batizou Platão e na Idade Média Santo Tomás de Aquino batizou Aristóteles, sem que houvesse a necessidade da convocação de um Concílio para adequar a Igreja a tempos platônicos e outro para adequar a Igreja a tempos Aristotélicos. Muito pelo contrário, foram tempos platônicos e aristotélicos que se converteram ao tempo eterno, o tempo católico.

Dizem que o tempo é o senhor da razão, sendo assim hoje pode se dizer que ele é o cabeça da Igreja Conciliar. Porque tem se deixado de cumprir as ordenanças de nosso Senhor, para se atender as determinações de nosso tempo. A vida presente é tida como a primeira e última realidade do ser humano. De alguma forma desviaram o fim da graça da vida futura e aplicaram na em nossa vida presente. O que é um Concílio Pastoral senão um Concílio materialista? Entrem no site da CNBB, não existe pastoral da fé, todas as pastorais cuidam de questões da vida presente e se encerram nela. Não existe nenhuma preocupação com a vida futura. Todos dotados de razão e vontade livre, já não necessitam do conhecimento da verdade para alcançar a liberdade (Jo 8,32). Pensam nascer livres, mas sequer podem definir a liberdade e o concílio assina embaixo.Termino perguntando:

A Igreja é o Corpo de Cristo, ou o Corpo dos homens Darwinianos? Teria a Igreja sido máculada pela velhice e por rugas e o Concílio efetuado uma plástica?