Mostrando postagens com marcador Jesus. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jesus. Mostrar todas as postagens

sábado, 13 de junho de 2009

O modernismo e o Verbo que se fez mundo

É certo que se deve amar o mundo por ter sido criado por Deus, como também é certo que devemos amá-lo, com o amor devido ao inimigos. No entanto, com o advento do modernismo, os inimigos foram transmutados em amigos. Esquece-se a inimizade profunda entre Deus e o mundo, para ter por amigo, um inimigo de Deus. Quem transmuta o inimigo em amigo, também transmuta lobo, cães e porcos, em ovelhas e é o que tem acontecido desde a década de 1965, com o encerramento do Concílio Vaticano II que se encerrou propondo o diálogo com o mundo. O otimismo deste diálogo (definido como inculturação), tem por diretriz principal o seguinte lema:

"Aquilo que nos une, é maior do que aquilo que nos separa."

Somos todos humanos e criaturas de Deus, isto nos une e o que nos separa, é que não somos todos filhos de Deus, mas somente aqueles que acreditam em Jesus e professam a fé católica. O lema do diálogo, parte de que o humano nos une e o divino nos separa, ou seja, o homem é elevado ao primeiro e Deus é colocado em um segundo plano. Considerando-se estas coisas, o mandamento de amarmos a Deus sobre todas as coisas, é subvertido e os dialogantes, passam a "amar ao próximo sobre todas as coisas, e a Deus como a si mesmos". É quando a paz de Cristo e a paz do mundo tornam-se uma e a mesma coisa e já não ressoa mais como paz de Cristo, mas como um "namaste" (O deus que esta dentro de mim, saúda o deus que esta dentro de você). Digamos que, este é o principal motivo pelo qual a crença em Deus ameaça desaparecer em diversas sociedades.

Não se poderia esperar outro comportamento da Igreja pós-concíliar, a não ser este pacifimo covarde. O Concílio Vaticano II reconheceu o mundo moderno, como o melhor dos mundos possíveis através da Gaudium Et Spes e da Dignitatis Humanae. Consequentemente a partir de então, a maioria esta na melhor das Igrejas possíveis e tal como o mundo, onde todo mal é necessário para a sua evolução, da mesma maneira na Igreja, toda heresia é necessária, digamos, para a evolução dos dogmas. Esta afinidade entre a Igreja que tem por cabeça Cristo e a humanidade que tem por cabeça o homem corruptível e decaído no pecado, só foi possível pela adoção do modernismo. Desde então o Católico que obrava pela sua salvação, passa a obrar pela inculturação, ecumenismo e diálogos culturais e inter-religiosos que não tem fim. Porque o homem na concepção é tão bom quanto o bom selvagem de JJ Rousseau, ou como o homem Pelaginano (seu ancestral). Logo, se não necessito de salvação, então devemos trabalhar por um mundo melhor, pois sendo o melhor possível, ele é melhor até mesmo que a Nova Jerusalém (que os modernistas viram na modernidade, nem as escrituras eles obedecem).   Cumpre notar que  o ecumenismo nos católicos, produz um efeito bem curioso, eles passam a acreditar que só por ser protestante, uma pessoa não pode ser condenada ao inferno. Vejam só, estes católicos passam a crer com os protestantes, que a Igreja é apenas útil a salvação e não necessária como sempre se acreditou. Neste caso, parece que o dogma “Extra ecclesiam nulla sallus” evoluiu para a extremidade oposta!

O modernismo nada mais é do que a doutrina do Verbo que se fez mundo. Consequentemente todas as suas doutrinas devem se sujeitar ao mundo, tal como a doutrina da evolução do dogma, onde o modernista apostatá da fé no Espírito Santo e passa a crer na ciência e a apresentar o própio Espírito Santo, como a evolução que ele crê. Deste modo, o Espírito Santo que não pode ser conhecido pelo mundo,  é apresentado como se fosse a evolução, que ensina ao homem todas as coisas. E o cristianismo imanentista, se apresenta com toda sua força, fazendo da matéria o Pai, do mundo o Filho e da evolução, o Espírito Santo. Reparem que não se fala mais nos dons do Espírito Santo, agora se fala pura e simples em termos técnicos científicos. Não foi atoa que os modernistas chegaram a afirmar que a humanidade é a Igreja, eles realmente acreditam que Cristo é o verbo que se fez mundo (são anticristos). Querem sempre o progresso da Igreja, mas eles mesmo não progridem para lugar algum, são vázios e dão testemunho perfeito do niilismo. As visões de progresso deles, são as mesmas do mundo, de onde pode se demonstrar que eles realmente acreditam que a Igreja é a noiva do "verbo" que se fez mundo, não do Verbo que se fez Carne. 

É bastante óbvio que se a Igreja progredir para a visão dos modernistas, ela se tornará o própio mundo.Uma religião que tenha o modernismo por doutrina, só pode religar o homem a sociedade para religá-lo ao mundo. Consequemente, a missão da Igreja, torna-se a unidade do gênero humano, não mais "transmitir o que recebeu." Desta maneira, já não podemos estranhar que no episcopado existam comunistas, protestantes, modernistas, indigenistas, homo-simpatizantes, etc, pois o episcopado testemunha vivamente, a unidade do gênero humano, não a unidade na fé. Isto é bastante evidente na CNBB, onde as coisas da terra (sociais), são a principal ocupação do Episcopado.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Escândalo: PUC Minas promove homossexualismo em curso de extensão

 

O documento “Presença da Igreja na Universidade e na cultura universitária“, elaborado pela Congregação da Educação Católica, diz logo em sua nota preliminar:

A Universidade e, dum modo geral, a cultura universitária constituem uma realidade de importância decisiva. Estão em causa questões vitais neste campo e as profundas mudanças culturais com consequências desconcertantes suscitam novos desafios. A Igreja deve tê-los em conta na sua missão de anunciar o Evangelho.

Infelizmente, não é isso o que acontece.

Aqui em Belo Horizonte, a PUC Minas, através de sua Pró-reitoria de Extensão, está promovendo o curso “Direito à Diferença” a ser realizado em sábados, nos meses de abril e maio. Um dos objetivos do curso, voltado principalmente para professores de ensino fundamental e médio é o de “Fornecer subsídios teóricos para a elaboração de métodos e técnicas de intervenção voltadas para o reconhecimento do direito à diversidade e diferença“.

Um dos módulos do curso trata do assunto “Representações sobre gênero e orientação sexual: ‘Mitos’ e ‘Verdades’“. É claro que o curso tem como objetivo promover a ideologia gayzista, servindo de fachada para o pleno exercício, em uma universidade católica, do ativismo homossexual. Trata-se de enfiar na cabeça dos professores, à força, para que depois eles enfiem na cabeça das crianças, sob o eufemismo “educação”, a noção de que o comportamento homossexual é natural e deve ser considerado legítimo - pior ainda: que todas as vozes dissonantes em relação a esse ponto de vista devem ser caladas e a oposição ao homossexualismo deve ser criminalizada. Isso está acontecendo em uma instituição universitária católica, que deveria estar promovendo os valores do evangelho, mas contribui para a realização da agenda dos movimentos ativistas homossexuais.

A Igreja acolhe o homossexual com caridade e amor, mas condena veementemente o homossexualismo. Legitimar esse modo de vida, gravíssimo pecado contra a castidade, é algo contrário aos princípios do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, princípios esses que a PUC estará traindo ao promover esse infame curso. A promoção de um suposto “direito à diferença” significa “direito ao pecado”, algo inaceitável para a moral cristã.

O Grão-Chanceler da instituição, Dom Walmor Oliveira, está ciente sobre a realização deste cursto? Sua Excelência Reverendíssima percebe a gravidade do que está para ocorrer? O Reitor Dom Joaquim Giovani não está a par deste descalabro? Nossas insignes autoridades eclesiásticas não podem se omitir!

Então nós, católicos, temos que agüentar calados a doutrinação homossexual até mesmo em uma instituição católica, com a anuência de nossos pastores?

Para entrar em contato com a Arquidiocese de Belo Horizonte e manifestar seu desacordo com a promoção do homossexualismo em plena PUC Minas, envie seu email para o arcebispo Dom Walmor (arcebispobh@arquidiocesebh.org.br), para a PUC Minas (secretariageral@pucminas.br) e o Reitor Dom Joaquim Giovani (dommol@arquidiocesebh.org.br).

Fonte: Jornada Cristã

domingo, 3 de maio de 2009

A primeira Encíclica de Pio XII: 70 anos depois, sempre atual, Pe. Jean Michel Gomis

Movimento Juventude Católica do Brasil

Livre tradução do artigo "La primera Encíclica de Pío XII: 70 años después, siempre actual" do R.P. Jean Michel Gomis, divulgado na Revista Iesus Christus nº 118 do Distrito da América do Sul da Fraternidade Sacerdotal São Pio X.

Há quarenta anos, os católicos estamos como órfãos. Aquele que teria que ser nosso pai na fé, cujas palavras deveriam ser o farol que nos guia à vida eterna, que desde Roma, sua sede pontifical, teria que levar o barco de São Pedro com o timão da única Verdade que é Nosso Senhor Jesus Cristo, já não o faz. Comprovação terrível! No lugar de iluminar-nos com a luz da fé católica, nosso pai, o Santo Padre, nos quer apartar da Verdade, da doutrina católica, para levar-nos pelos caminhos do liberalismo e dos princípios da Revolução. Prevendo esta situação desde toda a eternidade e para não deixar-nos desamparados nesta crise espantosa que atravessa a Igreja, a Divina Providência nos deu, ao longo do século XX, modelos de pastores. Entre eles, depois de São Pio X, se destaca o Papa Pio XII. Durante os 19 anos que durou seu pontificado, Pio XII foi um verdadeiro pai para os católicos, iluminando-os com sua doutrina. Em sua primeira carta-encíclica, "Summi Pontificatus", de 20 de outubro de 1939, nos deixou como seu plano de batalha. Depois de recordar as prioridades de seu pontificado, o Papa recorda os males de sua época e os meios para recristianizar a sociedade. Como vamos ver, sua doutrina não perdeu nada de sua atualidade.

I. Prioridades de um pastor verdadeiro

1) O fim do pontificado: Restaurá-lo todo em Cristo Nosso Senhor. "Omnia instaurare in Christo" tinha por lema São Pio X. Restaurar todas as coisas em Nosso Senhor Jesus Cristo. O programa de Pio XII não foi outro. No começo de sua encíclica disse: Consagramos "Nossa vontade esperançosa como nosso ensino e atividade pastoral, e, finalmente, o sofrimento dos trabalhos e penas (...) exclusivamente à difusão do reino de Cristo" (par. 2). E mais adiante afirma que "a missão (da Igreja) (...) consiste em realizar na terra o plano divino de restaurar em Cristo todas as coisas dos céus e da terra" (par. 66). Neste reino social de Jesus, Pio XII vê o único meio para a salvação: "a única pedra angular sobre a qual tanto o Estado como o indivíduo podem encontrar salvação segura é Cristo (par. 71). "A reverência à realeza de Cristo, o reconhecimento dos direitos de sua régia potestade e o procurar a volta dos particulares e de toda a sociedade humana à lei de sua verdade e de seu amor, são os únicos meios que podem fazer voltar os homens ao caminho da salvação" (par. 15). Quão distantes estamos do laicismo difundido hoje em dia pelo Vaticano, que reconhece e aprova a neutralidade do estado em matéria religiosa!

2) Dar testemunho da verdade: Para chegar ao reino de Nosso Senhor, o primeiro dever do Vigário de Cristo é pregar a verdade: "Como Vigário de Aquele que, em uma hora decisiva, diante do representante da mais alta autoridade daquele tempo, pronunciou as augustas palavras: 'Eu para isto nasci e para isto vim ao mundo, para dar testemunho da verdade; todo aquele que pertence à verdade, ouve minha voz' (São João, 18, 37), declaramos que o principal dever que Nos impõe nosso ofício e nosso tempo é 'dar testemunho da verdade'" (par. 14). Esta palavras ferem os ouvidos liberais como feriram os ouvidos de Pilatos em seu momento.

Para dar testemunho da verdade exige-se a condenação do erro: "Este dever [dar testemunho da verdade, N.d.l.R.], que devemos cumprir com firmeza apostólica, exige necessariamente a exposição e a refutação dos erros e dos pecados dos homens, para que, vistos e conhecidos a fundo, seja possível o tratamento médico e a cura: Conhecereis a verdade, e a verdade os fará livres" (par. 14). O Papa Pio XII não cai na ilusão de pensar que só a pregação da verdade basta para difundi-la. Há que opor-se com força ao veneno do erro que corrompe as inteligências e as aparta de Nosso Senhor Jesus Cristo, como sempre o fez a Igreja, condenando as heresias.

A condenação do erro, evidentemente, deve realizar-se com o modo devido, praticando a Verdade na caridade: "O zelo que não é caridoso procede de uma caridade que não é verdadeira" dizia Dom Chautard ( "A alma de todo apostolado", ponto IV, capítulo 4). O Papa Pio XII pensava o mesmo: "Nossa conduta estará animada por aquela caridade paterna que enquanto nos ordena trabalhar com suma tristeza por causa dos males que atormentam aos filhos, nos manda também assinalar a estes mesmos filhos os oportunos remédios, imitando assim o divino modelo dos pastores, Cristo, Senhor nosso, que nos dá ao mesmo tempo luz e amor: Praticando a verdade com amor" (par. 14).

À luz destes princípios, o Papa começa a descobrir os erros atuais.

II Os Perigos atuais

1) O laicismo. O laicismo é o mal fundamental de nosso época, o câncer que rói as inteligências. O que é o laicismo? É uma "incredulidade religiosa, cega e demasiada orgulhosa de si mesma, que exclui Cristo da vida moderna, e especialmente da pública e, junto com a fé em Cristo, debilita também a fé em Deus. Daqui se segue que todas as normas e princípios morais segundo os quais eram julgadas em outros tempos as ações da vida privada e da vida pública têm caído em desuso" (par. 24).

A negação de Deus e do mundo sobrenatural que leva à neutralidade do estado em matéria religiosa e moral, tais são as propriedades essenciais do laicismo. O estado se declara incapaz de conhecer a verdade doutrinal ou moral. As conseqüências destas doutrinas são dramáticas:

a) A volta ao paganismo: "De onde o laicismo consegue subtrair o homem, a família e o Estado do influxo benéfico e regenerador de Deus e da Igreja, apareçam sinais cada vez mais evidentes e terríveis da corruptora falsidade do velho paganismo" (par. 24).

b) A desordem social na vida privada e pública, fracasso dos estados. "Assim debilitada e perdida a fé em Deus e no Divino Redentor e apagada das almas a luz que brota dos princípios universais de moralidade, fica imediatamente destruído o único e insubstituível fundamento de estável tranqüilidade em que se apóia a ordem interna e externa da vida privada e pública, que é o único que pode gerar e salvaguardar a prosperidade dos Estados" (par. 25).

Quanta claridade nestes princípios! Sem Deus, sem Nosso Senhor Jesus Cristo, sem a Igreja por Ele fundada, os estados tendem ao caos. A situação atual do mundo de hoje em dia o demonstra com evidência.

Ao par do laicismo, o Papa denuncia outro mal de nossa época.

2) O totalitarismo. Talvez poderíamos pensar que esta advertência perdeu sua atualidade. Claro que já não estamos em 1939, quando o nazismo de Hitler e o comunismo de Stalin ameaçavam o mundo. Mas não nos enganemos. Os totalitarismos seguem existindo, e basta ler a descrição que dele nos dá o Papa Pio XII para ver que, pouco mais ou menos em todas as partes, estamos regidos por um sistema totalitário.

O totalitarismo é "a usurpação pelo poder político daquela absoluta autonomia que é própria exclusivamente do Supremo Feitor, e a elevação do Estado ou da comunidade social, posta no lugar do mesmo Criador, como fim supremo da vida humana e como norma suprema da ordem jurídica e moral" (par. 40). O sistema totalitário coloca-se por encima de toda verdade ou lei moral. Se converte no fim supremo dos cidadãos.

Evidentemente que esta falsa doutrina foi condenada repetidas vezes pela Igreja, como o recorda o Papa Pio XII: "O poder político, como sabiamente ensina na encíclica 'Immortale Dei' nosso predecessor Leão XIII, de piedosa memória, foi estabelecido pelo Supremo Criador para regular a vida pública segundo as descrições daquela ordem imutável que se apóia e é regida por princípios universais; para facilitar à pessoa humana, nesta vida presente, a consecução da perfeição física, intelectual e moral, e para ajudar os cidadãos a conseguir o fim sobrenatural, que constitui seu destino supremo" (par. 44).

O fim do homem não é o estado; é a vida eterna. O estado deve assegurar aos cidadãos as condições de vida que lhe facilitarão a salvação.

A principal aplicação do totalitarismo será o abuso de autoridade do estado sobre a família: "Desta concepção teórica e prática pode surgir um perigo: considerar a família, fonte primeira e necessária da sociedade humana, e seu bem-estar e crescimento, como instituição destinada exclusivamente ao domínio político da nação, e se corre também o perigo de esquecer que o homem e a família são, por sua própria natureza, anteriores ao Estado, e que o Criador deu ao homem e à família peculiares direitos e faculdades e lhes assinalou uma missão, que responde a inequívocas exigências naturais" (par. 48).

Esta falsa doutrina se manifestará principalmente na educação dos filhos. O estado totalitário se atribuirá um direito indevido de vigiar a instrução e formação dos filhos para inocular seus falsos princípios desde o berço.

O vemos claramente, entre outros, na República Argentina (a Revista Iesus Christus é editada neste país, Nota do Tradutor). As leis tirânicas a respeito da educação que obrigam a seguir programas ímpios, que fomentam a "educação" (ou melhor, perversão) sexual, o que impede a criação de escolas verdadeiramente católicas: são uma prova evidente de que estamos vivendo debaixo de um estado totalitário. A escola laica obrigatória é uma das maiores vitórias do demônio no mundo de hoje: ter conseguido que desde a infância se formem a pequenos ateus, livre-pensadores, filhos de Voltaire e da Revolução.

Diante deste perigo, o Papa Pio XII recorda a necessidade absoluta da educação religiosa e da escola católica: "Uma educação da juventude que se despreocupe, com esquecimento voluntário, de orientar o olhar da juventude também à pátria sobrenatural, será totalmente injusta tanto contra a própria juventude como contra os deveres e os direitos totalmente inalienáveis da família cristã (...) que escândalo pode ser mais nocivo, que escândalo pode ter mais criminal e duradouro que uma educação moral da juventude dirigida equivocadamente a uma meta que, totalmente distante de Cristo, caminho, verdade e vida, conduz a uma apostasia oculta ou manifesta do Divino Redentor? (...) um sistema educativo que não respeite o recinto sagrado da família cristã, protegido pela lei de Deus; que deite por terra suas bases e feche à juventude o caminho a Cristo, para impedir-lhe beber a água nas fontes do Salvador, e que, finalmente, proclame a apostasia de Cristo e da Igreja como sinal de fidelidade à nação ou a uma classe determinada, este sistema, sem dúvida alguma ao obrar assim, pronunciará contra si mesmo a sentença de condenação" (par. 52). Meditando estas palavras nunca duvidaremos em apoiar o mais possível as escolas verdadeiramente católicas.

III Remédios aos problemas de nossa época

Para remediar o veneno do laicismo que corrói nossa sociedade existe uma única solução: a vida e a doutrina cristã: "Todo edifício que não tenha como fundamento a doutrina de Cristo, está sendo levantado sobre uma areia movediça, e seu destino é, cedo ou tarde, uma inevitável queda" (par. 72). "A reeducação da humanidade, se quer se efetiva, tem que ficar saturada de um espírito principalmente religioso; tem de partir de Cristo como fundamento indispensável" (par. 60).

O Papa Pio XII condena assim a ilusão dos que querem mudar a sociedade sem apoiar-se principalmente sobre a religião. A religião não é uma ajuda para a ordem da sociedade, é seu fundamento necessário. Para chegar À renovação da sociedade, o Papa nos propõe vários meios concretos:

1) A santificação pessoal. O meio principal e fundamenta da recristianização da sociedade é a própria santificação: "é o primeiro e o essencial" (par. 62). Somente os Santos podem transformar a sociedade, e basta em olhar a influência de um São Bernardo, de um Santo Cura de Ars ou de um São João Bosco para convencer-se disso.

2) A pregação. "A pregação do Evangelho, que lhe confiou seu Divino Fundador, com a qual se inculcam aos homens os preceitos da verdade, da justiça e da caridade, e igualmente o esforço por enraizar sólida e profundamente estes preceitos nas almas, são meios tão idôneos para alcançar a paz, é um trabalho tão nobre e eficaz, que não há quem possa ter outros que se lhes igualem" (par. 62). Não percamos nem uma oportunidade de pregar a verdade à gente que nos rodeia. São muitas as ocasiões que nos proporciona a Providência para falar do céu e da vida eterna. Sobretudo, não nos deixemos silenciar pelo respeito humano.

3) A Ação católica, ou seja a formação e o apostolado dos leigos. Como seu predecessor São Pio X, o Papa Pio XII tinha compreendido que os leigos têm um papel muito importante na recristianização da sociedade. Fortalecidos por uma profunda formação doutrinal e espiritual, por meio de seu exemplo e de sua atividade apostólica os leigos têm que ser instrumentos eficazes do Reino de Deus na sociedade.

4) A santidade da família. Não há segredo: para a reconstrução da Cristandade, a família tem uma importância essencial. Das famílias verdadeiramente católicas sairão os verdadeiros apóstolos e cooperadores do Reino de Cristo na terra:

"Há que advertir aqui que a família tem uma parte muito principal no fomenta desta colaboração dos seculares, tão importante, como temos dito, em nossos tempos, porque o governo equilibrado da família exerce um influxo extraordinário na formação espiritual dos filhos. Enquanto no lar doméstico brilhe a chama sagrada da fé cristã e os pais impregnem com esta fé as almas dos filhos, não há dúvida alguma que nossa juventude estará sempre disposta a reconhecer praticamente a realeza de Jesus Cristo e a opor-se valente e virilmente a todos quantos tentem banir o Redentor da sociedade humana e profanar sacrilegamente seus sagrados direitos. Donde se fecham as igrejas, donde se tira das escolas e do ensino a imagem de Jesus crucificado, fica o lar familiar como o único refúgio impenetrável da vida cristã, preparado providencialmente pela benignidade divina" (par. 64).

5) O grande meio para a recristianização da sociedade: o Culto ao Sagrado Coração. O Papa da encíclica sobre o Sagrado Coração ("Haurietis aquas"), que via no culto ao Sagrado Coração de Jesus "o compêndio de toda a religião, (...) a norma de vida mais perfeita, (...) o meio mais suave de encaminhar as almas ao profundo conhecimento de Cristo Senhor nosso e o meio mais eficaz que as move a amar-lhe com mais ardor e a imitar-lo com maior fidelidade e eficácia" (ibid.), não podia negligenciar em sua primeira encíclica a eficácia incrível desse culto para a renovação da sociedade: "Seja este culto (do Sagrado Coração) o fundamento no qual se apóiam  num momento o propósito que pretendem tanto nossa vontade esperançosa como nosso ensino e pastoral atividade, e, finalmente, o sofrimento dos trabalhos e penas, que consagramos exclusivamente à difusão do reino de Cristo" (par. 2).

Sigamos seu exemplo e façamos do Sagrado Coração o fundamento, a pedra angular de nossa vida pessoal e familiar, para que Nosso Senhor reine de novo na sociedade. Às vezes, ao ver a crise espantosa que atravessa a Igreja, nos podemos desanimar e dar-nos por vencidos. Não percamos nunca a fé no Sagrado Coração de Nosso Senhor, que prometeu à Santa Margarida Maria: "Reinarei a pesar de meus inimigos".

Coração de Jesus, tende misericórdia de nós!, em Vós confio!

quinta-feira, 23 de abril de 2009

CENTENÁRIO DE DOM HEREGE CAMARA

DUAS MÃOS POSTAS

Nélson Rodrigues

“Eu rezo! Pode deixar que eu rezo! Eu acredito na força da oração!”

Quem falava assim, e trêmulo de fé, não era o vizinho do lado, nem o açougueiro da esquina, nem o português do botequim. Não. Era d. Hélder, sim, sim, exatamente d. Hélder e não um qualquer. Eu pedia por alguém e repito: alguém da minha amizade ou, melhor dizendo, alguém do meu amor.

E que fiz eu? Fiz a opção entre d. Hélder e d. Marcos Barbosa (o que me fascina neste último é o sorriso de Manuel Bandeira). Acabei ligando para d. Hélder Câmara. Contei-lhe tudo, tudo. Disse: — “Há uma moça assim, assim, que eu amo. Que é tudo para mim. Essa moça está sofrendo. E eu queria que o senhor fosse vê-la. Faz isso para mim, d. Hélder, faz?”.

D. Hélder foi de uma solidariedade fulminante. Não fez o suspense de uma dúvida. Nada. Faria isso por mim. E, rápido, prático, pedia endereço, telefone. Sem vê-lo, eu o imaginava apanhando lápis, papel. Dei a rua, o número e o telefone. Ah, faltava o nome. Passei-lhe o nome. Era em Santa Teresa. Subiria Santa Teresa. Deixei o telefone, certo de que acabava de falar com um santo.

Não é recente a minha fascinação pela batina. Vem de longe, muito longe. Eu era garotinho e vi uma menina atravessando a rua para beijar a mão de um padre. E, depois, outras meninas beijaram a mão de outros padres. Hoje, ninguém beija a mão de padre, ninguém.

Eu queria um padre junto à mulher que amava. Ela sofria. Muito bem:

— e era preciso que a piedade e o amor vestissem batina. A solidariedade de d. Hélder fez-me um bem lancinante. Eis o que eu pensava: — “Ainda bem que procurei d. Hélder e não d. Marcos”. Por certo, d. Marcos teria também uma estrutura muito doce. Mas d. Hélder era mais promovido. Sim, tinha mais nome, mais imprensa (pode parecer torpe essa reflexão que, na época, me ocorreu).

D. Hélder cumpriu a palavra: telefonou. No dia seguinte, falou comigo: — “A moça estava de saída”. Combinaram que ele telefonaria depois. (Carlos Heitor Cony contou-me que, na sua passagem pelo seminário, falou certa vez com d. Hélder. Abriu-lhe a alma: — “Meu pecado é o orgulho. Sou muito orgulhoso etc. etc.”. D. Hélder foi exemplar: — “Meu filho, nunca seja orgulhoso de dentro para fora, mas de fora para dentro”.

Cony parou, perplexo. O outro, mais didático, completou: — “Para fora, seja modesto, seja humilde. O orgulho interior Deus perdoa”.)

Liguei para a mulher amada. Ela estava feliz, feliz, com o telefonema.

Disse: — “Foi tão simpático”. Parecia menos deprimida, menos crispada. E eu: — “Meu anjo, escuta. Tudo vai sair bem. Você vai ver: d. Hélder é formidável. E inteligente, muito inteligente”. A inteligência era o de menos.

Sempre tive a obsessão da bondade. Mas eu tinha medo, eis a verdade.

Quem ama conhece todo o inferno da mania de perseguição.

Retifico: a mania de perseguição não é mania de perseguição. De fato, qualquer amor há de sofrer uma perseguição concreta e assassina. Somos impotentes do sentimento e não perdoamos o amor alheio. Eu amava e comecei a sentir, por toda a parte, pressões contra mim e o ser amado. Soube de alguém que fizera este comentário: — “Se essa moça gosta do Nelson, é uma débil mental!”.

E d. Hélder não foi. Desesperado, eu dizia: — “Mas ele prometeu. Não telefonou para você? Não disse que ia? Vou falar com ele”. Liguei várias vezes. Começou a não estar. Cerquei-o em casa. D. Hélder suspirava: — “Não posso, não devo”. Aterrado, fiz-lhe todo um furioso apelo: — “D. Hélder, não se trata de opinar. O senhor não opina. Não precisa ser nem contra, nem a favor. O que eu quero do senhor é um ato de compaixão. Me entende? A moça está sofrendo. O senhor diz uma palavra amiga e só. D. Hélder!”.

Foi aí que ele falou em “rezar” e repetiu: — “Rezo! Rezo!”. Por um momento, eu não soube o que dizer. Ele pôs-se a demonstrar o valor formidável (e prático) da oração. Foi patético no telefone: — “Acredito na oração! Acredito! Tenho rezado pela moça!”. Reagi à sua veemência com a minha veemência.

O que é que eu disse? Disse que a oração é linda. Duas mãos postas são sempre tocantes, ainda que se reze pelo vampiro de Dusseldorf. Mas por que não (e também) a presença, a cálida presença física? Por que não o gesto, o olhar, o sorriso? E por que não a voz, a inflexão? Por que não a lágrima? (o ausente não chora).

E falei muito e deixei de dizer tanta coisa. Poderia contar que, na rua Alegre, quis ser coroinha. Ainda hoje, quando vejo a torre de uma igreja, sinto em mim todo um frêmito de batinas, de freiras, de círios e de santos.

Aos oito anos, eu próprio queria ser santo; desejei ser crucificado e imaginava alguém enxugando, na minha fronte, o suor do martírio. Mas calei-me. Senti em d. Hélder o tédio da nossa discussão. Direi mesmo a palavra cruel e inapelável: ali, eu era o “chato”.

(Desesperado, fui bater a d. Marcos Barbosa. O nosso primeiro encontro foi na Rádio Jornal do Brasil. E que bem me fez o seu sorriso de Manuel Bandeira. (Era mais gordo do que eu pensava.) Contei-lhe tudo.

Repeti que não se tratava de opinar; ninguém precisava ser contra ou a favor. O que eu queria era um mínimo de bondade, apenas isso, um mínimo de compaixão. Ele me ouviu, tenso; e não senti, na sua atitude, nenhuma fuga. Quando acabei, disse que ia; e foi. Aí é que está: foi. Subiu Santa Teresa; desceu do bonde; bateu na porta. E riu para a moça, com os dentes de Manuel Bandeira.)

Passou. E hoje vejo pelos jornais que d. Hélder mudou muito. Não é o mesmo, eis a verdade, não é o mesmo. Aí estão os seus pronunciamentos; faz viagens; anda de um lado para outro. Foi a Nova York, que é um pouco mais longe do que Santa Teresa. E, lá, promovido como O Arcebispo Vermelho, fez discursos. Por que não ficou aqui rezando? E outra coisa: — há fome no Nordeste? Nem tudo está perdido, porque temos aí a fé de d. Hélder. Pena é que, nos seus manifestos, ele não faça uma única e escassa referência ao sobrenatural. Sim, nunca prometeu orar pelas populações famintas. E eu estou imaginando se, um dia, Jesus baixasse à Terra. Vejo Cristo caminhando pela rua do Ouvidor. De passagem, põe uma moeda no pires de um ceguinho. Finalmente na esquina da avenida, Jesus vê d. Hélder. Corre para ele; estende-lhe a mão. D. Hélder responde: — “Não tenho trocado”. E passa adiante.

[16/12/1967]

O óbvio ululante

terça-feira, 21 de abril de 2009

A teologia e a lógica

 

Pe. João Batista de Almeida Prado Ferraz Costa

O grande crítico literário Sílvio Romero, na segunda metade do século XIX, debochou da teologia em sua obra A filosofia no Brasil, fazendo uma classificação das ciências na qual enquadrava a teologia como “pretendida ciência” ao lado da metafísica e da quiromancia. Isso provocou a ira do Pe. Leonel Franca que, no seu precioso livro Noções de história da filosofia, se refere com sarcasmo a Romero como o “filósofo de Lagarto” em alusão à sua terra natal em Sergipe.

Se a classificação de Romero é ridícula e destituída de qualquer valor filosófico, não deixa, entretanto, de ser uma advertência útil para quem pretenda fazer um discurso teológico consistente e com rigor lógico. Na época em que Romero escreveu, sua crítica era totalmente injusta e reveladora da ignorância que grassava em nosso meio.

Quem estuda Aristóteles e Santo Tomás, ainda que não tenha fé, tem de reconhecer a coerência do discurso filosófico e teológico.

Como se sabe, a Igreja, obedecendo a uma longa tradição, à diferença dos cismáticos orientais, faz preceder aos estudos teológicos um estudo de filosofia que forneça maior solidez de raciocínio a quem pretende refletir sobre a revelação divina.

Até meados do século passado, mais precisamente até o Vaticano II, conforme testemunho das mais pessoas mais velhas que tiveram a graça de freqüentar um seminário daqueles bons tempos, era comum o uso de grandes manuais de filosofia escolástica que introduziam o seminarista nos estudos de Aristóteles e Santo Tomás. Hoje esses manuais são raridades bibliográficas que precisariam ser reeditadas e complementadas com notas referentes, sobretudo, àqueles pontos de ligação entre a filosofia e a ciência, como, por exemplo, na área da comologia e antropologia, de maneira que se mostrasse com maior clareza a harmonia entre fé e razão à luz dos avanços da ciência no campo da física, biologia e neurociência.

Via de regra, os referidos manuais iniciavam o estudo da filosofia com uma explicação das leis fundamentais da lógica, quer dizer, ensinavam os primeiros princípios pelos quais a inteligência humana chega ao conhecimento da verdade: princípio de não contradição, princípio de exclusão do meio etc.

A filosofia moderna, fazendo tábula rasa desses primeiros princípios evidentes e indemonstráveis, transforma-se em algaravia com desastrosas conseqüências no plano da teologia. Como se sabe, os teólogos da “nova teologia” condenados por Pio XII na Humani generis (1950) tinham claro desprezo pela escolástica. Queriam uma teologia nova ao sabor da filosofia moderna. Começaram querendo uma teologia à Hegel para terminar querendo uma teologia à Marx. Basta citar o pe. Lima Vaz e o franciscano Boff, da teologia da libertação.

Até aqui chovo no molhado. Agora, desejaria dar minha modesta contribuição para esclarecer a controvérsia, que tem afligido a muitos, sobre se a Fraternidade São Pio X está em comunhão ou não com a Santa Sé.

Examine-se primeiro o problema sob o aspecto lógico e, em seguida, veja-se sua conseqüência teológica. O princípio da exclusão do meio nos ajuda a resolver a questão: entre o estar em comunhão e o não estar em comunhão não há meio. Ora, Roma diz que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X tem certa comunhão que se espera venha a ser uma plena comunhão

. O fato é que se afirma a comunhão. O que importa é o substantivo. O adjetivo é secundário. Homem inteligente ou homem burro. O que conta é que homem e, como tal, deve ser tratado. Como se sabe, gramaticalmente falando, a realidade se encontra no substantivo, naquilo que a coisa é, e não no adjetivo que apenas lhe indica um atributo. No caso, afirma-se a comunhão, a qual não pode ser discutida, pois não existe “meia comunhão”. Com efeito, entre o pensar e não pensar não existe “meio pensar”, embora existam o pensamento medíocre e a teologia capenga. O adjetivo, para ser justo, tem de ser condizente com a realidade indicada pelo substantivo seja em seu ser ou em seu agir. Disto se infere quão infeliz e imprecisa a expressão cunhada pela nova eclesiologia “em plena comunhão”.

Por outro lado, a afirmação da Lumen gentium “a Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica” representa um problema, porque subsistir significa estar na sua substância e a Igreja não é uma substância. A Igreja é uma sociedade. Sociedade, como a definem os melhores tratadista, é uma união moral de indivíduos em vista de um fim comum. De maneira que, em rigor, a Igreja Católica é a sociedade fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo que congrega todos os batizados unidos entre si pelo vínculo da fé, da disciplina (obediência ao Romano Pontífice) e dos sacramentos.[1]

Na verdade, a tristemente célebre expressão da Lumen gentium, ao induzir a pensar que não existe total identificação entre a Igreja de Cristo e a Igreja Católica, favorece o esfacelamento da Igreja como sociedade e como ordem. Pulveriza a Igreja em inúmeras seitas nais quais subsistiria a Igreja de Cristo. Com razão perguntou um autor: como afirmar que a Igreja de Cristo subsiste ao mesmo tempo na Igreja Católica, que condena a ordenação de sacerdotisas e a união gay, e na Igreja Anglicana que aplaude essas aberrações?

Ademais, com base na Sagrada Escritura, a Igreja Católica sempre disse ser a Esposa de Cristo. Pois bem, se Cristo está “casado” com ela, como poderá também estar casado com as várias seitas cristãs nas quais subsistiria de alguma forma, a não ser que se admita uma poligamia teológica? A lógica é irrefragável: ou se está casado ou não se está. Não existe meio casado. Seria um absurdo e uma blasfêmia dizer que Cristo está “plenamente” casado com a Igreja Católica e “meio” casado com as várias seitas.

Conclui-se, pois, que os modernistas estão acuados. Não têm resposta. Se quiserem negar que a Fraternidade esteja em comunhão (E aqui me refiro não a uma simples comunhão com uma máquina burocrática eclesiástica, mas a uma comunhão fundada nos elementos tradicionais da Igreja), têm de obedecer à lógica, ao princípio da exclusão do meio e condenar a sua própria invencionice teológica da plena comunhão e meia comunhão.

Como se vê, o discurso teológico, se quiser ser respeitado como ciência, tem de obedecer aos primeiros princípios, sob pena de realmente merecer chacotas de mau gosto da parte dos inimigos da Igreja. Consta que Sílvio Romero, na segunda edição da sua obra, retratou-se da sua zombaria. Mas se vivesse hoje, teria um prato cheio para dizer de certa teologia que não passa de pretendida ciência.

Anápolis, 5 de março de 2009


[1] A famosa definição paulina de Igreja como corpo místico supõe, evidentemente, o emprego do vocábulo corpo em sentido analógo. A não ser assim, teríamos de admitir uma concepção organicista de Igreja, com uma unidade física incompatível com a liberdade dos seus membros. Seria exagero indagar se a expressão subsiste, na medida em que implica a idéia de substância, não será a causa da obsessão por padronização e uniformização segundo o modelo progressista que se verifica em amplos setores da Igreja hoje?

Fonte: ASSOCIAÇÃO CIVIL SANTA MARIA DAS VITÓRIAS

domingo, 12 de abril de 2009

Sermão na Madrugada da Ressurreição*

Pe Antônio Vieira

Surrexit, non est hic, Marc. XVI.

I

Melhor é sempre Deus que quem o busca, ainda quando parece que falta ao que tem prometido. Tem prometido Deus que todos os que de madrugada o buscarem o acharão: Qui mane vigilant ad me, invenient me, e madrugando esta manhã as três Marias, prevenidas de preciosos unguentos para ungir o sagrado corpo que tinham acompanhado à sepultura, foram tão venturosas que o não acharam. Assim não cumpre Deus sua palavra, não porque falta, mas porque excede o que promete. Não acharam o que buscavam, mas acharam o que nem a buscar, nem a desejar, nem a imaginar se atreviam. Era ainda a madrugada tão escura, que mais se mostrava coberta de trevas, que de sombras: Cum adhuc tenebrae essent, e entrando no santo sepulcro as primeiras três romeiras dele, dentro lhes apareceu ou amanheceu um anjo, o qual vestido de branco, parecia a alva, e coroado de raios, o Sol:

Erat autem aspectus ejus sicut fulgur, et vestimentum ejus sicut nix. Esta é a gala dos anjos nos dias de grande festa, e este anjo foi o que lançou fora da porta a grande pedra que cerrava a sepultura, o que fez tremer a terra, o que derrubou amortecidas as guardas, e o que pôs em fugida os presídios de Pilatos. Não falaram palavra as Marias, assombradas do que viam; e o anjo depois de as animar, lhes disse nas palavras que propus, que Jesus Nazareno crucificado, a quem buscavam, ressuscitara, e não estava ali: Surrexit, non est hic.

Mas se não estava ali, aonde estava? A resposta desta pergunta será a matéria do sermão tão breve, como costuma ser, e é bem seja nesta hora: Ave Maria.

In Vol. 2, tomo V, pregado em Belém do Grão-Pará, s. d.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Jornal Francês faz insulto vil a Nosso Senhor Jesus Cristo e ao Papa

 


Reaja agora mesmo contra a blasfêmia do Le Monde
O jornal francês "Le Monde" publicou uma charge ultrajante que retrata Nosso Senhor numa barca distribuindo preservativos.
O título do desenho blásfemo diz:
"Após a multiplicação dos pães, a multiplicação dos preservativos"
A charge ainda ataca o Papa, retratando-o como um velho decrépito, usando uma expressão que corresponderia ao: "Vale tudo..." (Você pode ver a caricatura aqui, mas advertimos que é extremamente ofensiva)
Você, católico, não pode aceitar esse tipo de insulto!

A defesa de Nosso Senhor e do Papado não tem fronteiras!
Por isso, pedimos a todos que estão lendo essa matéria, e que não admitem que o Santo Nome de Deus seja vilipendiado dessa forma, que protestem imediatamente e energicamente enviando um e-mail ao jornal Le Monde.

Para enviar seu protesto imediatamente clique aqui.

Se preferir enviar um e-mail pessoal ao Le Monde, o endereço eletronico é:
mediateur@lemonde.fr

Você pode escrever no idioma que quiser. O Le Monde tem tradutores e essa mensagem chegará aos responsáveis por essa blasfêmia. Mas, seja qual for sua opção, é vital que você envie a mensagem imediatamente. A honra de Nosso Senhor e do Papado não podem ser ignorados pelos filhos da Santa Igreja.

Milhares de católicos americanos e europeus já protestaram junto ao Le Monde. Outros países latino-americanos estão se mobilizando também. É muito importante que todos se unam para levantar uma grande onda de indignação que impeça o Le Monde de repetir tal barbaridade.

Os católicos brasileiros não podem ficar de fora dessa manifestação de amor, fé e fidelidade a Deus, ao Papado e a moral católica.
Faça agora mesmo o seu Protesto.
Ou envie sua mensagem ao Le Monde por e-mail: mediateur@lemonde.fr
Envie esta matéria para todos os católicos que você conhece.

Que Deus e Nossa Senhora de Fátima o abençoe!

Associação Devotos de Fátima

www.devotosdefatima.org.br

PS - Segue abaixo uma sugestão de mensagem ao Le Monde caso você queira enviá-la de seu e-mail pessoal. Se você está sem tempo, clique aqui para protestar imediatamente e facilmente. Lembre-se: os jornais europeus não fazem qualquer crítica a Maomé por causa da reação dos muçulmanos. Eles precisam saber que nós católicos não admitimos também que se zombe de nossa Fé.

======================

Ao Le Monde:
Como católico brasileiro, fiquei profundamente chocado, indignado e triste ao saber que seu jornal publicou uma caricatura sacrílega mostrando Nosso Senhor Jesus Cristo, numa distribuição infâme de preservativos, colocando também palavras inaceitáveis nos sagrados lábios do Santo Padre.

Sou filho da Santa Igreja, sou católico, e não posso me omitir nessa hora em que agridem tão infamemente Nosso Senhor, o Papa e moralidade católica, através de uma charge blasfema.
Exijo que o jornal peça desculpas a todos os católicos e se comprometa a nunca mais publicar material ofensivo a Fé, especialmente dos países de Civilização Cristã.
Rezo para que os promotores dessa infâmia reconheçam o pecado cometido, arrependam-se e se convertam. Pelo bem de suas almas e pelo bem de seu país, a França.

Fonte: Fátima em foco

terça-feira, 31 de março de 2009

O exorcismo de Emily Rose: O que é exorcismo?

 

1. Ficha técnica: Ano de lançamento [2005/EUA]. Diretor [Scott Derrickson]. Elenco [Laura Linney/Tom Wilkinson/Campbell Scott]. Roteiro [Scott Derrickson/Paul Harris Boardman]. Distribuidora [Columbia Pictures].

2. Sinopse: Baseado em fatos reais, "O Exorcismo de Emily Rose" é uma combinação dos gêneros terror/exorcismo e drama judicial. No filme, a protagonista Laura Linney interpreta o papel de uma advogada que defende um padre (Tom Wilkinson) acusado por uma sessão de exorcismo realizada em uma adolescente chamada Emily Rose que, segundo ele, havia sido possuída pelo demônio.
3. Fatos: Emily Rose é o nome fictício para a colegial alemã Anneliese Michel, que nasceu no dia 21 de Setembro de 1952 na cidade de Leiblfing, na Bavária e morreu no dia 1 de Julho de 1976, em Main. Sofreu graves perturbações por muitos anos. Chegou a ser internada em Clínica psiquiátrica, submetida a tratamento para epilepsia de 1968 a 1972, não tendo obtido resultado algum. Depois de muitos anos de sofrimento os pais acreditavam realmente que Anneliese estava possuída pelo demônio e pediram ajuda à Diocese de Wuerzburger. A Igreja reconheceu o caso como legítimo e os responsáveis pelo exorcismo foram os padres Ernst Alt e Arnold Renz. A partir de 1973, já há muito debilitada pelos sucessivos tratamentos psiquiátricos, Anneliese profundamente desidratada e padecendo de inanição, sofreu parada respiratória e cardiovascular durante uma sessão de exosrcismo, onde a jovem veio a falecer. Sua morte é tida até hoje como um mistério. O caso é conhecido como "o caso Klingenberg".

4. Exorcismo: O Catecismo da Igreja Católica [N° 1673] assim se expressa: "Quando a Igreja exige publicamente e com autoridade, em nome de Jesus Cristo, que uma pessoa ou objeto seja protegido contra a influência do maligno e subtraído a seu domínio, fala-se de exorcismo. Jesus o praticou [Mc 1, 25-26], é dele que a Igreja recebeu o poder e o encargo de exorcizar [Mc 3, 15]. Sob uma forma simples, o exorcismo é praticado durante o Batismo. O exorcismo solene, chamado 'grande exorcismo', só pode ser praticado por um sacerdote, com a permissão do bispo. Nele é necessário proceder com prudência, observando estritamente as regras estabelecidas pela Igreja [Código de Direito Canônico, cân. 1172]. O exorcismo visa expulsar os demônios ou livrar da influência demoníaca, e isto pela autoridade espiritual que Jesus confiou à sua Igreja. Bem diferente é o caso de doenças, sobretudo psíquicas, cujo tratamento depende da ciência médica. É importante, pois, verificar antes de celebrar o exorcismo se se trata de uma presença do maligno ou de uma doença".

5. Demônio: O demônio existe e dele dão testemunhos o Antigo e o Novo Testamento. O Magistério da Igreja e os Ensinamentos Conciliares exortam a confiança em Deus ante sua atuação. São Tomás de Aquino dedicou-se profundamente [Suma Teológica, I, q. 50-64] ao estudo da natureza e da atuação dos anjos, tendo por este motivo recebido o título de Doutor Angélico. Se por um lado, temos uma nova Teologia que prega um ceticismo injustificável, afastando-se cada vez mais da crença não só no demônio, mas na existência dos anjos, por outro lado temos certas teologias que pregam e exploram uma credulidade exagerada, onde em toda dor e sofrimento humano identifica e proclama atividades demoníacas. Estas duas posturas são extremas, viciosas, favoráveis à própria atuação demoníaca, cuja maior façanha é fazer-nos crer que ele não existe. Ambas posturas não são condizentes com a fé do cristão coerente, assíduo na palavra que não depõe contra o bom senso e a ciência. A virtude é excelência para o discernimento e coerência na fé. Embora sejam poucos os casos de possessão reconhecidos pela Igreja Católica, não significa que não hajam.

6. Conclusão: Podemos atestar dois tipos de atividades diabólicas: a ordinária, a tentação e a extraordinária, a infestação local [sons, barulhos, gritos e gemidos de natureza desconhecidas, movimento de objetos, odores etc], infestação pessoal [aparições sedutoras ou assuatadores, sugestões sensíveis e imaginativas, mas nada que afete a consciência, o entendimento e o arbítrio] e a possessão [presença atual no corpo com o tormento do espírito humano]. A possessão é atividade diabólica extraordinária em duplo sentido: por ser muito rara e por ser de ordem sobrenatural. O diagnóstico é prudente e passa por uma análise psiquiátrica, parapsicológica, médica, para, assim, se for confirmado, passar para uma terapia curativa: o exorcismo. Há sintomas comuns entre as fenomenologias psiquiátricas e parapsicológicas, o que as diferenciam da atividade diabólica extraordinária são: aversão ao sagrado, falar línguas estranhas, proferir blasfêmias e reagir ao nome de Jesus Cristo etc. Mais importante é a prevenção da presença e da atuação diabólica em nossas vidas, pelas assim denominadas 'terapias preventivas', como a confissão, a comunhão, o sinal da cruz, meditação acerca da vida de Jesus, os sacramentais, objetos bentos, relíquias, ou seja, levar uma vida cristã coerente e digna.

Fonte: Aquinate

quarta-feira, 25 de março de 2009

Dois amores, duas cidades: A reforma

Nota: Trazemos a nossos leitores o Capítulo III (A reforma), do livro “Dois amores, duas cidades”, do grande Gustavo Corção.  Tenham uma boa leitura.

Lutero, o protótipo dos tempos modernos

1. Um dos fatos que mais brutalmente marcou o século XVI, e depois tôda a moderna civilização, foi sem dúvida a desobediência de Lutero. E o que que pretendemos mostrar neste capítulo é que a Reforma pro­testante se inscreve na mesma corrente, na mesma descarga espiritual que produziu a Renascença.

À primeira vista parece que o luteranismo, surgido histo­ricamente em reação ao sibaritismo que imperava em Roma, tem de ser compreendido como um fenómeno de inspiração contrária à eclosão renascentista. Lembrando a oposição que se levantou entre Lutero e Erasmo, confirmava-se a ideia de um radical antagonismo entre Lutero e o espírito renascentista. Lutero seria um reacionário, uma alma contrária ao vento da nova era. E foi nessa lamentável méprise que caiu o histo­riador.

Henri Pirenne: "Pode-se dizer que a Renascença armou a seu modo o problema religioso. Mas não fez mais do que esboçar a solução moderna, prudente e aristocrática que preparava para ele. A Reforma se atravessou no caminho com ímpeto, violência, intolerância, mas também com a fé profunda e a necessidade apaixonada de chegar a Deus e à salvação, com que havia de conquistar e subjugar tan­tas almas. Entre a Reforma e a Renascença, nada de co­mum. A bem dizer se opõem. A Reforma recoloca o cristão no lugar do homem, escarnece da razão, humilha-a, mesmo quando afasta e condena o dogmatismo. Lutero é muito mais aparentado com os místicos da Ida­de Média do que com os humanistas seus contemporâ­neos." (Histoire de 1'Europe, Alcan, 1936, pág. 394.)

É difícil encontrar em página de historiador sério uma passagem com maior número de disparates. Vítima do precon­ceito agnóstico, o autor vê uma oposição superficial e parece esquecer-se de que há inúmeros pares em que uma concordância profunda se manifesta com discordâncias epidérmicas. Haverá entre a Reforma e a Renascença todas as diferenças que quise­rem esmiuçar: debaixo delas está o Individualismo, traço comum, marca essencial dos dois movimentos.

O tom apaixonado de Lutero, para Henri Pirenne, se parece com o de Savonarola, ou com o tom apaixonado de São Vicente Ferrer a puxar filas de flagelantes pelo caminho da Europa, no crepúsculo da Idade Média. Conclui então que Lutero é um medieval! Mas se escarnece e humilha a razão, mais do que nunca se afirma um moderno, que nos intervalos do cientificismo é cético para a metafísica e para a teologia. Também não é bem fundada a afirmação de que a Reforma recoloca o cristão no lugar do homem. Evidencia-se aqui o embaraço em que fica o historiador desse período quando não sabe muito bem o que é um cristão, e talvez não saiba exatamente o que é um homem. Ao contrário disso, e apesar de algumas aparências, Lutero trouxe em sua reforma violentamente antinômica um reforço para o antropocentrismo da nova civilização. Separando total­mente a fé das obras, a ordem da graça da ordem da natu­reza, Lutero deixava o homem no mundo entregue aos critérios do mundo. "Peca fortemente e crê fortemente!" Tratando o mundo com pessimismo e desprezo, enquanto religioso, não se opunha a um otimismo temporal, antes o alimentava. Na teo­logia da graça, Lutero foi um "exteriorista", quase diríamos um barroco, porque para ele o princípio divino, em vez de ser o remédio penetrante, curativo, transformante, que abre as portas do mais íntimo de nosso íntimo para habitação da Trindade, era uma proteção exterior, uma espécie de cobertura divina da irremediável podridão humana. Na teologia da justiça pela Fé, de tal modo a separa das obras, por ele desprezadas, que aca­ba tangenciando a doutrina de Pelágio que superestima as obras humanas na economia da salvação.

Onde, porém, se encontram a Reforma e a Renascença co­mo dois galhos da mesma cepa é na maneira de conceber o homem, isto é, no Individualismo. Para Jacques Maritain isto é tão claro, e tão fundamental, que não hesitou em dar ao estudo feito em Trois Rejormateurs o título: Luther ou l'ave-nement du Mói; na epígrafe colhida em Fichte acrescenta este título ao reformador: Lê prototype de ages modernes.

Nesse admirável estudo, o autor nos mostra o drama espi­ritual de Lutero, que consistia precisamente num transbordamento da sensibilidade, por onde se vê mais uma vez o traço característico do homem do século XVI.

Jacques Maritain: "Ele parece ter procurado antes de tudo, na vida espiritual, o que os autores chamam consolações sensíveis, e se haver apegado apaixonadamente a esse gosto experimental da piedade, a esses confortos que Deus envia às almas para atraí-las, mas que também retira quan­do quer, e que não passam de meios. Para Lutero, ao contrário, o que importa antes de tudo é sentir-se em es­tado de graça (...) Uma veemente nostalgia mística, numa alma agitada e carnal, destorcendo todas as lições dos espirituais, transformava-se assim num apetite brutal de saborear a própria santidade." (Trois Réformateurs, Plon, 1925, pág. 8.)

"O que logo impressiona na fisionomia de Lutero é o egocentrismo: algo muito mais sutil, mais profundo e mais grave do que o egoísmo. Um egoísmo metafísico. O eu de Lutero torna-se praticamente o centro de gravitação de to­das as coisas, sobretudo na ordem espiritual: e o eu de Lutero não é só as querelas e paixões de um dia: ele tem um valor representativo, é o eu da criatura, o fundo incomunicável do indivíduo humano. A Reforma tirou os freios do eu humano na ordem espiritual e religiosa; a Renascença (quero dizer o espírito que animava a Renas­cença) tirou os freios do eu humano na ordem das ati-vidades naturais e sensíveis." (Op. cit. págs. 19 e 20.)

Aliás, é nesse estudo admirável, de proveitosíssima leitura para a compreensão de muito fenómeno contemporâneo, que Jacques Maritain desenvolve a famosa distinção entre o indivíduo e a pessoa a que já nos referimos. Essa distinção capi­tal é, de certo modo, paralela à que fizemos aqui entre amor-de-si-mesmo e amor-próprio, e a outra entre Homem-Interior e Homem-Exterior. Referem-se todas as perspectivas de visada e de valorização do homem, e pode-se dizer sem receio de exa­gero que o drama do mundo contemporâneo vem da confusão, da indistinção, da troca de perspectivas, não apenas nos tratados de filosofia e nos recintos académicos, mas na vida mesma das sociedades, e no sangue da civilização, até os vasos capilares.

Maritain: "O que é afinal o Individualismo moderno? Um engano, um qui pró quo: a exaltação da individualidade ca­muflada em personalidade, e o correlato aviltamento da verdadeira personalidade." (Pag. 29.)

A história de Lutero, como a de Jean Jacques Rousseau, é uma ilustração exata e cruel dessa doutrina. Nesse sentido, ao contrário do que diz Henri Pirenne, Lutero é um dos homens mais representativos da Renascença; e mais, é um dos homens que mais influíram no fenómeno da indiferença intelectual e moral que se revestirá com a denominação de "liberalismo". Sua constituição psíquica tornava-o um vibrátil detector das ondas de ressentimento desencadeadas no fim da Idade Média e ensinadas pelo nominalismo florescente. Foi um ressonador, talvez semiconsciente, um tipo de homem representativo-nega-tivo, mais receptor do que transmissor, como mais tarde Adolf Hitler. Porta-voz de melindrados, intérprete de amargores, reali­zou mais uma vez o paradoxo do zelo de amor-próprio tão en-contradiço nas vésperas das apostasias: o mesmo zelador que apresenta, nervoso e intolerante, em defesa da pureza da Igreja, bruscamente abandona a mesma Igreja que dizia defender.

Foi um superficial no sentido mais ontológico e trágico do termo — sim trágico, por exprimir aquele outro paradoxo do amor-próprio ferido: o eu em torno do qual o egocentrismo se move não é um eu verdadeiro, nem um verdadeiro centro, é antes a projeção, a exteriorização ou a inflação que a desordem do amor-próprio produz.

Os alemães protestantes, diz ainda Maritain, pedem que ad­miremos a grandeza de Lutero. Grandeza infra-humana, elemen­tar, como as que chamamos de "força da natureza"; mas não grandeza humana propriamente dita.

O Nominalismo de Lutero

2 . Uma tal pletora de sensibilidade ha-de via de se traduzir necessariamente numa atitude antiintelectualista, no que se en­contrava, mais uma vez, com a tendência da época. Sob esse ponto de vista, e apesar das enormes dife­renças tanto nas consequências como nas motivações profun­das, Lutero respirava o mesmo ar em que viviam Erasmo e Tomás Morus, que com toda sua imensa generosidade e seu santo heroísmo não escapou da moda nominalista e da depres­são filosófica.

A reação antidoutrinária, antifilosófica de Lutero toma proporções monstruosas. "Aristóteles é o baluarte ímpio dos pa-pistas", "se ele (Aristóteles!) não tivesse existido em carne e osso eu não teria nenhum escrúpulo de o considerar um diabo". Mas é da própria razão que Lutero diz os mais violentos hor­rores:

Lutero: "a razão é a maior p. . . do diabo; por sua natureza e sua maneira de ser, ela é uma p. . . nociva; é uma pros­tituta, a p ... principal do diabo, uma p ... roída de es­crúpulos e lepra, que devíamos esmagar com os pés, ela e sua sabedoria ... ... Ela é e deve ser afogada no batismo . . . ela merecia, a abominável, ser relegada aos mais sujos lugares da casa, às latrinas."

Essas passagens que transcrevemos com desgosto estão nas páginas 43, 46 e 47 do livro citado de Maritain, onde o leitor encontrará as referências precisas das fontes.

É preciso não esquecer que Lutero era nominalista por for­mação, e nominalista por índole; coisa que felizmente não passou despercebida do autor do Século XVI e XVII da História Geral da P.U.F.

Roland Mousnier: "Lutero, Calvino e todos os reformadores foram nominalistas. O dogma católico se interpreta muito bem em termo de realismo, e muito mal em termos de nominalismo. Tomemos por exemplo a Encarnação. Para os realistas, o Verbo que se encarnou em Jesus, não assu­miu os defeitos, os vícios, as fraquezas, as corrupções do homem. Ele se fez Homem. Uniu-se ao Arquétipo ideal do Homem. Mas para os nominalistas não há arquétipos. O "homem" é um nome cômodo que serve para designar os indivíduos aliás diferentes de uma coleção. Deus se tornar homem é assim incompreensível." (Op. cit. pág. 71.)

Devemos ressalvar algumas imprecisões filosóficas do vo­cabulário do autor supracitado. Ele se exprime como platónico. Para o realista de formação aristotélico-tomista não é em termos de uma união com o Arquétipo ideal que se formula a Encar­nação, e sim de uma união com a natureza humana, realmente existente em cada indivíduo humano. Também devemos notar que "incompreensível" no sentido próprio de realidade excessi­va, ou misteriosa, que a razão não logra abranger e esgotar, é também para nós o dogma da Encarnação. Por isso preferiría­mos no texto acima usar o termo "cognoscível", "pensável" ou "inteligível", em vez de "compreensível". Feitos esses reparos devemos reconhecer neste volume (Lês XVI et XVII Siècles) da Histoire Générale dês Civilizations da P.U.F. um discerni­mento filosófico que nem sempre se encontra nos outros volu­mes, e que não encontramos em Pirenne.

Otimismo e pessimismo

3. Não pretendemos, nos exíguos limites deste capítulo, desenvolver um es­tudo sobre Lutero. Queremos apenas apontar alguns traços seus e de suas obras que nos ajudem a compreender o fenómeno mais amplo e confuso que se processou nos séculos XV e XVI. E um desses traços é o "pessimismo" profundo e radical que até agora só encontráramos no maniqueísmo. Já dissemos atrás que para Lutero, por força de seu nominalismo e de seu sensualismo, a graça santificante não restaura na alma a justiça afetada ou destruída pelo pecado; não penetra, não cura, não transforma, mas apenas cobre. Debaixo dessa cobertura divina o homem continua incurável. Ora, a respeito da relação dos sexos e do matrimónio o seu pessimismo se formula com a brutalidade e a simplicidade que nos lembra os albigenses. Para Lutero, o dever conjugal jamais se realiza sem pecado (Weim. X, P.II, 304, 6, 1522) que "Deus cobre para que possa haver pessoas casadas" (opp. exeg. lat. IV. 10). Mais tarde, em 1538 (Weim XLII, 582, 29. 31) dirá mais nitidamente:

Lutero: "A palavra de Deus: crescei e multiplicai- vos, não é um preceito; mais do que preceito é obra divina à qual não podemos nos subtrair ainda que o quiséssemos; ela é tão necessária para mim como ser um homem, e mais ne­cessária do que comer, beber, ir à latrina, escarrar, dormir e acordar."

E por aí além. Ao mesmo tempo Lutero naturaliza e libera as relações sexuais que não podemos evitar, e as torna estranhas ao universo da graça e da santidade. E o pobre amor humano, legítimo ou culpado (a diferença terá de ser encontrada nos cos­tumes e nas leis da cidade) transcorre todo no sombrio mundo da culpa essencial, da malignidade intrínseca, com o consolo da extrínseca cobertura ou tolerância de Deus.

Com este exemplo, e outros, vemos na Reforma um feitio complementar que vem suprir o que faltava no feitio da Re­nascença. O pessimismo de Wittenberg se articula bem com o otimismo de Florença, formando um conjugado de forças com o mesmo resultado: o imanentismo, a integração do Homem no Mundo, e a Autonomia absoluta para aí fazer, desde que logre o poder físico, o que lhe parecer consentâneo. Na continuação do processo de laicização e mundanização, o Protestantismo, co­mo um todo inorgânico, se decomporá em mil e tantas seitas, e perderá o que pudesse ter de conteúdo religioso: será o mais adaptado simulacro de religião para uma sociedade liberal. Diremos isto sem nenhum desejo de ajuizar da lealdade e da sinceridade das pessoas que praticam (acreditamos que muitas o pratiquem santamente pela força e pela infinita liberdade da misericórdia divina) essa espécie da aspiração ao cristianismo real. Receamos porém que aquela lealdade e aquela sinceridade, sendo as virtudes máximas dessa atmosfera religiosa, signifiquem que, nelas, o Homem tomou o lugar de Deus, a livre interpre­tação substituiu-se ao Magistério da Igreja, e o juízo próprio superpôs-se à humildade e à submissão de caridade.

Por seu lado, a cultura também produziu antinomias seme­lhantes nos quatro séculos de Civilização Moderna. Até Rous-seau ainda se fala em otimismo e em santidade natural. Mas à medida que se aproxima o crepúsculo os homens começam a duvidar da razão e da natureza. Quando chegamos em Freud verificamos que a reviravolta foi completa como a rotação que transforma o dia em noite: o homem que nascia naturalmente bom, nasce agora naturalmente perverso.

Fonte: Gustavo Corção,

Dois Amores, duas Cidades,

Capítulo III; “A Reforma”, 

Agir 1967.

sábado, 21 de março de 2009

O CÂNON DE SÃO VICENTE DE LERINS

 

Na obra intitulada Os graus de Autoridade do Magistério, consagrada à questão da autoridade do Magistério e da infalibilidade papal, o padre Bernard Lucien pretende mostrar que os ensinamentos do Vaticano Il são uma explicitação da doutrina perene da Igreja e portanto, matéria de obediência por parte de todos os católicos.

"Diversos "tradicionalistas" negam que a infalibilidade do Magistério ordinário universal cubra a afirmação central da Dignitatis Humanae. mas é isso que defendemos em nosso estudo. Eis a afirmação mencionada, transcrita do primeiro parágrafo da encíclica:

"O Concílio Vaticano II declara que a pessoa humana tem direito à religiosa. Essa liberdade consiste em que todos os homens devem estar isentos de constrangimento por parte tanto de indivíduos quanto de grupos sociais e de qualquer poder humano que seja, de modo que em matéria religiosa ninguém seja forçado a agir contra sua consciência nem impedido de agir, dentro dos justos limites, segundo sua consciência, em privado como em público, sozinho ou associado a outros. O Concílio declara, além disso, que o direito à liberdade religiosa tem seu fundamento na própria dignidade da pessoa humana tal como a Palavra de Deus e a razão humana a dão a conhecer"1.

1-  1- Liberdade Religiosa: um ensinamento infalível do Magistério ordinário universal?

O padre Lucien afirma aqui que a doutrina do Concílio Vaticano II sobre a liberdade religiosa é infalível porque equivale a um ensinamento do Magistério ordinário universal.

Sabemos que o Papa pode exercer o Magistério de maneira infalível e que ele faz isso tanto sozinho quanto junto com os bispos. Essa infalibilidade é uma propriedade que concerne precisamente um certo exercício da autoridade. Podem-se distinguir três circunstâncias específicas nas quais a autoridade suprema goza da infalibilidade:

1 - o ato da pessoa física do Papa quando fala sozinho excathedra;

2- o ato da pessoa moral do Concílio Ecuménico, que é a reunião física do Papa e dos bispos;

3- o conjunto dos atos unânimes e simultâneos que emanam de todos os pastores da Igreja espalhados pelo mundo: o Papa e os bispos, sem estarem reunidos.

O ensinamento do Papa falando ex cathedra e o do Concílio ecuménico correspondem à infalibilidade do Magistério solene ou extraordinário, enquanto que o ensinamento unânime de todos os bispos dispersos no mundo, sob a autoridade do Papa, corresponde ao ensinamento do Magistério ordinário universal.

A constituição dogmática Dei Filius do Concílio Vaticano l faz parte desse Magistério ordinário universal: "Devemos crer de fé divina e católica tudo que está contido na Palavra de Deus, escrita ou transmitida pela Tradição e que a Igreja propõe como divinamente revelado, seja por uma julgamento solene, seja por seu Magistério ordinário e universal" (DS 3011). E na Carta Tuaslibenter de21 de dezembro de 1862, o Papa Pio IX fala do "Magistério ordinário de toda a Igreja dispersa em todo o universo" (DS 2679). Por ocasião do Concílio Vaticano l, num discurso de 6 de abril de 18702, o representante oficial do Papa, Mons. Martin, precisou o seguinte em relação ao texto Dei Filius: "Essa palavra "universal" significa quase o mesmo que a palavra empregada pelo Santo Padre na carta apostólica Tuas libenter, a saber, o Magistério ordinário de toda a Igreja dispersa sobre a Terra". Torna-se claro que o Magistério ordinário universal se distingue do Magistério do Concílio ecuménico como o Magistério do Papa e dos bispos dispersos se distingue do Magistério do Papa e dos bispos reunidos.

Ora, por um lado, o Vaticano II é um Concílio ecuménico. E por outro, o Papa Paulo VI disse em duas ocasiões3 que esse Concílio tinha evitado pronunciar de modo extraordinário dogmas que comportassem a nota de infalibilidade; o Concílio simplesmente quis munir seus ensinamentos da autoridade do Magistério ordinário supremo, manifestamente autêntico4.

2 - De Pio IX ao Vaticano continuidade: ruptura ou continuidade?

O Padre Lucien não nos diz se hoje ele vê uma contradição5 entre o texto de Dignitatis humanae e Quanta cura, entre o Vaticano II e o ensinamento da doutrina tradicional. O atual sucessor de Pedro, o Papa Bento XVI, sem dúvida não lhe reprovaria o fato de enxergar essa oposição entre o Vaticano II e Pio IX, pois ele próprio fez essa constatação no epílogo de seu livro publicado em 1982, Os princípios da teologia católica6. Sendo ainda cardeal, Joseph Ratzinger afirmava « com vigor e a clareza que lhe é característica7», essa oposição formal e irremediável. Explicando como a constituição pastoral sobre a Igreja no mundo atual (Gaudium et Spes) « foi considerada cada vez mais depois do Concílio como o verdadeiro testamento 8» do Vaticano II, o futuro Papa Bento XVI observava que « se procurarmos um diagnóstico global do texto, poderíamos dizer que ele é (ligado aos textos sobre a liberdade religiosa e sobre as religiões do mundo) uma revisão do Syllabus de Pio IX, uma espécie de anti-SylIabus9 ». Na verdade, « o texto desempenha o papel de um anti-Syllabus na medida em que representa uma tentativa de reconciliação oficial da Igreja com o mundo tal qual este mundo se tornou desde 178910. »

Sem negar explicitamente essa contradição, o padre Lucien constrói um raciocínio para afirmar o contrário da ruptura: ele pretende fazer-nos ver a mais completa continuidade entre o Vaticano II e Pio IX, entre o ensinamento do Concílio sobre a liberdade religiosa e a Tradição anterior.

3-  Cânon de São Vicente de Lérins a serviço da Dignitatis Humanae ?

Para afirmar essa continuidade, torna-se necessário encontrar no Vaticano II uma explicitação das verdades que até então estariam contidas em estado latente e implícito na pregação da Igreja11. Do início ao fim, o estudo do padre Lucien insiste sobre essa questão de passagem do implícito ao explícito na pregação de Igreja. Está exatamente aí o cerne do problema que o autor quer resolver: para negar a contradição entre a Quanta cura de Pio IX e Dinitatis humanae do Vaticano II, é indispensável ver nesse último documento urna explicitação do anterior. O Vaticano II teria, portanto ensinado, segundo a expressão de São Vicente de Lérins, « non nova sed nove », não verdades diferentes mas a mesma verdade apresentada em termos diferentes, isto é, de modo mais preciso. O padre Lucien quer provar que o ensinamento do Vaticano l sobre a liberdade religiosa é uma explicitação dogmática do ensinamento de Pio IX, um ensinamento perfeitamente homogêneo em relação à Tradição.

4-O verdadeiro significado do cânon

Mas é inútil... O cânon de S. Vicente é sem dúvida nenhuma digno de grande interesse. Não é à toa que o cardeal João Batista Franzelin consagrou duas teses (n°s 24 e 25) de seu célebre tratado Sobre a Tradição divina (De divina Traditione, Roma, I896) à exegese do cânon leriniano. É verdade que pode-se compreender mal seu verdadeiro alcance: a leitura não é tão fácil quanto se poderia imaginar. O pe. Lucien acha que os tradicionalistas interpretam mal S. Vicente segundo ele, a compreensão do verdadeiro significado de suas pala vras implica na perfeita aceitação dos documentos do Concílio Vaticano II. O raciocínio é completamente falso.

Ao compreender bem a extensão do Commonitorium, percebe-se que aí não há absolutamente nada que autorize a ver no Vaticano II uma explicitação legítima dos dados da Tradição. Ao contrário, o critério do "ubique et semper" justifica perfeitamente a atitude de Monsenhor Lefebvre e de todos os que se viram obrigados a recusar os ensinamento do Concílio.

4.1 -A regra do Commonitorium

Eis os termos que São Vicente de Lérins usa para enunciar sua famosa regra: "Na própria Igreja católica deve-se velar cuidadosamente para permanecer com o que foi crido em todos os lugares, sempre e por todos os católicos. Isso é verdadeira e propriamente católico. [...] E assim será se seguirmos a universalidade, a antiguidade, o acordo unânime" (Commonitorium, livro 1, n° 2 in Patrologie latine de Migne, t. 50, col. 640). Como observa o cardeal Franzelin, essa regra poderia ser compreendida num sentido ao mesmo tempo afirmativo e exclusivo em relação a qualquer verdade - e somente da verdade - crida em todo lugar, sempre e por todos. Mas na concepção de São Vicente, esse adágio deve ser compreendido em sentido apenas afirmativo, mas não em sentido exclusivo, em relação às verdades cridas de maneira explícita. É preciso também considerar o modo implícito de crer: nem todas as verdades que exigem hoje uma crença explícita por parte dos membros da Igreja foram sempre, ern todos os lugares e por todos cridas explicitamente. Algumas verdades foram cridas inicialmente somente de modo implícito, antes de tornar-se objeto de crença unânime e explícita. É o caso da Imaculada Conceição, por exemplo. Juntamente com a plenitude de graça, essa verdade sempre foi implicitamente professada, como consta em Lc., 1, 28. Pode-se dizer que ela sempre fez parte da fé da Igreja, apesar de sua expiicitação ter acontecido somente em 1854, por ocasião do ato decisivo de Pio IX, com a bula Ineffabilis Deus.

4.2 A explicação de Franzelin

Na tese 23, o cardeal Frar.zelin analisa detalhadamente essa diferença entre a crença implícita e explícita12. "Há uma diferença entre as verdades reveladas, e isso mostra que não é necessário nem desejável que todas as verdades estejam contidas de um só modo e uma só maneira na pregação dos apóstolos e ao longo de toda a história da tradição". As verdades cuja crença explícita se impôs imediatamente a todos foram pregadas e transmitidas desde as origens apostólicas de modo explícito. São os principais mistérios da fé católica, que correspondem aos doze artigos do Credo. Mas, observa Franzelin, essas verdades reveladas explicitamente possuem uma grande fecundidade: "elas podem corresponder de uma infinidade de maneiras às exigências das diferentes épocas. Elas se opõem a erros muito diversos que a fraqueza ou a perversidade humanas podem inventar. A questão é clara: nenhum dos dogmas revelados foi nem proposto nem enunciado pêlos apóstolos de modo a explicitar todas essas virtualidades diferentes, o que teria sido moralmente impossível. Tanto menos necessário, pelo fato de Jesus Cristo ter prometido e instituído que os sucessores dos apóstolos deviam receber, ao mesmo tempo que o dogma, o carisma da infalibilidade para poder responder às exigências de cada época, propondo e explicando as verdades reveladas."

Toda a pregação da Igreja já está em germe na pregação dos apóstolos; más assim como o germe não é ainda o fruto maduro, a pregação dos apóstolos não propôs no estado explícito todas as verdades necessárias à crença da Igreja. Como observa também o cardeal Billot, "a infalibilidade da Tradição não exige de modo algum que, sem distinção, todas e cada uma das verdades que fazem objetivamente parte do depósito da fé devem a cada época brilhar com todo seu esplendor no candelabro da Igreja magisterial, a ponto de que todos pudessem ver distinta e explicitamente as marcas dessa ou daquela verdade. E portanto pode ter havido alguma verdade a respeito da qual num momento ou noutro tenha surgido uma diversidade de interpretação ou de opinião no interior do aprisco da unidade e da comunhão.

Na tese n° 9, Franzelin resume assim a regra de São Vicente de Lérins: os ensinamentos da Tradição que todos devem crer explicitamente sempre encontraram uma adesão perfeitamente unânime13. Entretanto, a revelação objetiva pode conter pontos de doutrina que, num momento ou noutro, não tenham suscitado unanimidade bastante expressiva ou que na realidade não tenham chegado à unanimidade. Eis porque é impossível que uma doutrina revelada, depois de ter sido unanimemente defendida e explicitamente professada entre os sucessores dos apóstolos, venha a ser negada no interior da Igreja. E reciprocamente, é impossível que uma doutrina, depois de ter sido negada e condenada pela unanimidade, seja defendida. Mas pode acontecer que a unanimidade mais perfeita se produza somente depois de uma doutrina ter suscitado opiniões diferentes". Portanto, a pregação atual explícita da Igreja não pode negar a pregação passada explícita.

4.3 Aplicação do caso: a liberdade religiosa

Para dar apenas um exemplo, a condenação da liberdade de consciência e de culto só aparecerá de maneira explícita nos textos do Magistério a partir do momento em que, para retomar a expressão de Franzelin, a fraqueza e a perversidade humanas fizerem surgir esse erro pernicioso. O Papa Gregório XVI será quase 14 o  primeiro a denunciar o erro na encíclica Mirari vos, de 15 de agosto de 1832. Desde então, a reprovação vai se impor à adesão explícita de todos os fiéis católicos. Os sucessores de Gregório XVI no século XIX, de Pio IX (com Quanta Cura) a Leão XIII (com a encíclica Immortale Dei) farão constante eco a esse ensinamento (cf. Mons. Lefebvre, Mês doutes sur Ia liberte religieuse, Clovis, 2000, págs. 47-54). A encíclica Quanta cura de 8  de dezembro de 1864 (DS 2896), em particular, corresponde a um ato do Magistério solene, revestido das notas de infalibilidade ex cathedra15. A partir do momento em que o Magistério propõe uma verdade com toda a precisão requerida, observa ainda Franzelin, "a questão ficando esclarecida, esse dogma passa a fazer parte da crença católica explícita e da pregação aberta da Igreja. Tendo-se chegado a esse consenso e à pregação explícita, o dogma não pode mais ser objeto de desacordo ou de obscurecimento no interior da Igreja.

Nenhum consenso oposto a essa crença tornada explícita poderia desde então prevalecer. Podemos aplicar aqui a regra enunciada antes por Franzelin: "É impossível que uma doutrina, depois de ter sido negada e condenada unanimemente, seja defendida (in De divina Traditione, Roma, (4a ed), 1896, tese 9, 2° corolário, pág. 82. Ver  também a tese 23, pág. 266). Isso se verifica a propósito da verdade pregada pêlos Papas desde o século XIX: em seus ensinamentos, a liberdade religiosa está explícita e definitivamente condenada como um erro contrário ao depósito da revelação divina. Torna-se desde então impossível ensinar a liberdade religiosa sem se colocar em contradição formal com o depósito de fé.

5- O sofisma do Pé. Lucien

Demos esse exemplo para mostrar porque não podemos seguir o Pé. Lucien em sua análise. A explicação que ele dá do cânon de São Vicente de Lérins é tirada do tratado de Franzelin, mas está fora de contexto. Longe de contradizer a argumentação da Fraternidade São Pio X, ela vem confirmá-la. O ensinamento do Vaticano II sobre a liberdade religiosa, tal como se apresenta na declaração Dignitatis humanae, está em oposição formal com a pregação constante e explícita da Igreja, desde os Papas Gregório XVI e Pio IX. Ela não poderia, de modo algum, ser considerada como consenso legítimo nem prevalecer contra a doutrina tradicional. O consenso atual e unânime da pregação explícita da Igreja é o que o ato de ensino do Magistério ordinário universal definiu. A pregação do Vaticano II não pode pretender sê-lo, desde que ela contradiz o que sempre foi crido de modo explícito, em todos os lugares e por todos, a partir da metade do século XIX.

6- O Magistério ordinário universal, órgão da Tradição

Seria possível, entretanto, objetar que há 40 anos o conjunto do corpo episcopal docente disperso, compreendendo o Papa e os bispos residenciais -ordinários de uma diocese - ensina unanimemente o princípio da liberdade religiosa. Não haveria nisso, fora do Vaticano II propriamente dito mas em continuidade com ele, a expressão do Magistério ordinário universal infalível? O ensinamento infalível do pós-Concílio faria assim eco ao ensinamento autêntico do Concílio.

Para responder completamente a objeção, observemos ainda o seguinte: para ser universal, o ensinamento do Magistério ordinário do corpo episcopal disperso deve preencher duas condições: 1° ele deve ter a universalidade atual no espaço ou unanimidade; 2° ele deve ter a universalidade no tempo ou constância.

As duas, unanimidade e constância são requeridas para a universalidade que define formalmente esse Magistério ordinário.

6.1 - As duas propriedades constitutivas: unanimidade e constância

A universalidade atual no espaço concerne o sujeito docente: eis porque é uma universalidade que acontece no espaço somente e não no tempo. O Magistério

ordinário universal é desse ponto de vista o ensinamento do corpo episcopal pregando de viva voz; a unanimidade que resulta é a unanimidade dos bispos do instante presente da história, hic et nunc (aqui e agora). Se nos colocarmos sob o ângulo do sujeito, dizendo que esse Magistério é a unanimidade de todos os bispos e de todos os Papas desde São Pedro e os apóstolos, destruímos ipsofacto a própria noção de Magistério ordinário, pregando de viva voz.

A constância, em compensação, concerne o objeto ensinado: é uma universalidade que não somente existe no espaço mas também no tempo. O Magistério ordinário universal é a proposição da doutrina revelada. Ora, essa doutrina é imutável substancialmente, o que quer dizer que ela permanece imutável tanto no tempo quanto no espaço, não somente de um lado a outro do planeta, mas do início ao fim da história. O Magistério ordinário é por definição um Magistério tradicional: é um Magistério que prega hoje e que não pode estar em desacordo com o Magistério de ontem, como diz São Paulo. na epístola aos Gálatas, capítulo 1. versículos 8-9: "Se acontecesse que nós mesmos ou um anjo do céu vos ensinasse outra coisa diferente do que ensinei, que seja anátema". São Paulo aqui diz três coisas:

          - Primeiro,ele distingue entre duas pregações explícitas, a pregacão passada do Magistério de ontem e a pregação atual do Magistério de hoje.

- Segundo, ele precisa que essas duas pregações explícitas são feitas por aqueles que cumprem a mesma função do Magistério eclesiástico, o próprio São Paulo e todos os seus sucessores no episcopado.

         - Terceiro, São Paulo acrescenta que essas duas pregações explícitas não podem se contradizer; se houver uma contradição entre a pregação atual e a pregação passada, deve-se concluir que a pregação atual não é a pregação do Magistério eclesiástico.

E o ensino do Concílio Vaticano l, na constituição Dei Filius só repete o que diz São Paulo: Se alguém disser que é possível que os dogmas propostos pela Igreja às vezes, devido ao progresso da ciência, podem ter um sentido diferente do que a Igreja compreendeu e ainda compreende, que seja anátema" (cânon 3 do capítulo 4 em DS 3043).

Essas duas propriedades constitutivas são observáveis na realidade: elas falam aos olhos dos fiéis e permitem reconhecer a infalibilidade de uma pregação. É por isso que a unanimidade atual e a constância não são apenas elementos que compõem a definição dessa pregação; são também critérios de visibilidade. Mas há uma ordem entre os dois: O crrtério da unanimidade atual depende do critério de constância. A unanimidade de hoje só tem valor se coincidir com o ensinamento constante do mesmo e inalterável depósito de fé.

1 ABBÉ BERNARD LUCIEN, Lês degrés d'autorité du Magistère, La Nef, 2007, p. 160.
2 Mansi, tomo 51, coluna 322

3 "Discurso de encerramento do Concílio, 7 de dezembro de 1965" em DC n° 1462 (2 de janeiro de 1966), col 54; "Audiência de 12 de janeiro de 1966" em DC n° 1466 (6 de março oe 1966), col. 418-420.

4 Por essa expressão "Magistério autêntico", os teólogos entendem hoje comumente o ensino de um Magistério não infalível.

5 Num estudo precedente, de 1988, o Padre Bernard Lucien via a contradição: "Não podemos deixar de concluir a realidade da contradição entre Dignitatis humanae e Quanta cura. [...] A ruptura do Vaticano II em relação à doutrina tradicional sobre a questão da liberdade religiosa é (Gregoire XVI, Pie IX et Vatican II - Etude surla liberte religieuse dans Ia doctríne catholique, Ed. "Forts dans Ia Foi", 1990, p. 295 2 296.

6 CARDEAL JOSEPH RATZINGER, Lês Príncipes de Ia théologie catholique. Esquisse et matériaux, Téqui, 1982, p. 423-440.

7 Pé. BERNARD LUCIEN, Lês degrés d'autorité du Magistère, La Nef, 2007, p. 178.

8 CARDEAL JOSEPH RATZINGER, Lês Príncipes de Ia théologie catholique. Esquisse et matéríaux, Téqui, 1982, p. 423.

9 Ibidem, p. 426-427.

10 Ibidem, p. 427.

11 A tese do Padre Basílio do Mosteiro de Santa Madalena do Barroux também vai nesse sentido.

12 CARDEAL JOÃO BATISTA FRANZELIN, De divina Traditione, Roma (4a edição), 1896, tese 23, p. 259-260.

13 CARDEAL JOÃO BATISTA FRANZELIN, De divina Traditione, Roma (4a edição), 1896, tese 9, 2° corolário, p. 82.

14 " O Papa Pio VII já tinha condenado o mesmo erro em sua Carta apostólica Post tam diuturnitas de 29 de abril de 1814.

15 Cardei LOUIS BILLOT, De Ecc/es/a,Roma (4a. edição), 1921, questãoi 14, tese 31, parágrafo 1, n° 2, pág. 635; Rev .Pé. DUBLANCHY, "Infaillibilité", no

Dictionaire de théologie catholique, f. 7, col. 1703-1704; Mons. Lefebvre,Mês doutes sur Ia liberte religieuse, Clovis, 2000. págs. 54-56.

Fonte: Jornal Sim Sim Não Não, Ano XV nº 161, Julho-Agosto,2008

Assinatura

quinta-feira, 19 de março de 2009

QUE FAZER?

Uma das notas características do novo espírito é a da tolerância erigida em máxima virtude, e o correlato horror por qualquer espécie de luta ou combate. Gustavo Corção

Lutar. Combater. Clamar. Guerrear. Mas lutar sa­bendo que lutamos não somente contra a carne e o mun­do, mas contra o principado das trevas. É preciso gritar por cima dos telhados que, se o cristianismo se diluir, se a Igreja tiver ainda menos visível o ouro de sua santa visibilidade, se seu brilho se empanar pela estupidez de seus levitas, o mundo se tornará por um milénio espanto­samente, inacreditavelmente, inimaginavelmente estúpi­do e cruel.

Roguemos pois a Deus. com todas as forças: desfaçamo-nos em lágrimas de rogo e gritemos a súplica que nos estala o coração: enviai-nos Senhor, ainda este século, um reforço de grandes santos, de grandes soldá^ dos que queiram dar a vida. no sangue ou na mortifica­ção de cada dia. pela honra e glória de Nosso Senhor Jesus Cristo. Compadecei-vos, Senhor, de nossa extre­ma miséria, e sacudi os homens para que eles saibam quem é o Senhor!

É preciso lutar; e sobretudo não desanimar quando nos disserem que o inimigo cerca a Cidade de Deus com cavalos e carros de combate. Ouçamos Eliseu: "Não tenhais medo porque os que estão conosco são muito mais fortes do que os que estão contra nós". E elevando a voz Eliseu clamou: "Senhor, abri-lhes os olhos para que eles vejam. E abrindo-lhes os olhos o Senhor eles viram, em torno de Eliseu, a montanha coberta com cavalos de guerra e carros de fogo." (II Reis, VI, 16-17)

E para bem encerrar estas páginas tão sofridas, ou­çamos depois do Profeta a voz do grande santo Papa que pusemos no frontispício desta obra. Ouçamos a voz de São Pio X, que desde o princípio deste século de desesperança clamou para despertar as indiferenças, quebrar os orgulhos e pelo santo temor preparar o cami­nho da Salvação:

"Qual seja o desenlace desse combate contra DEUS empreendido por fracos mortais, nenhum espírito sensa­to poderá duvidar. É certamente fácil, para o homem que quer abusar da liberdade, violar os direitos e a autorida­de suprema do Criador; mas ao Criador caberá sempre a vitória. Digamos mais; a derrota se aproxima do ho­mem justamente quando mais audaciosamente se ergue certo do triunfo. E é disto que Deus mesmo nos adverte: 'Ele fecha os olhos para os pecados dos homens' (1)como que esquecido de seu poder e de sua majestade, mas logo depois desse aparente recuo, 'despertando como um homem cuja força a embriaguez aumentara' (2), ele esmagará a cabeça de seus inimigos (3), a fim de que to­dos saibam "que o Rei da terra inteira, é Deus' (4) e que 'os povos compreendam que não são senão homens'.

(5)"

Gustavo Corção

(1) Sab. 11,24

(2) Sl. 78,65

(3) Sl. 67,22

(4) Sl. 46,8

(5) Sl. 9,21

(6) Enc. E Supremi Apostolatus

Fonte: Jornal Sim Sim Não Não, Ano XV nº 161, Julho-Agosto,2008 (Suplemento em lembrança dos 30 anos de falecimento de Gustavo Corção)

Assinatura

quarta-feira, 4 de março de 2009

As lições do jovem Joseph: “…uma Igreja de pagãos que ainda se chamam cristãos quando na verdade viraram pagãos”.

A Igreja da modernidade pós-bélica lhe parecia uma espécie de “Igreja dos pagãos. Não, como em outros tempos, uma Igreja de pagãos que se tornaram cristãos, mas uma Igreja de pagãos que ainda se chamam cristãos quando na verdade viraram pagãos”. Falava de um novo paganismo “que cresce sem parar no coração da Igreja e ameaça demoli-la de dentro para fora”.

Os anos de ensino em Bonn e Münster
Tradição e liberdade: as lições do jovem Joseph

Os primeiros anos de ensino do professor Ratzinger, lembrados por seus alunos. “A sala estava sempre superlotada. Os alunos o adoravam. Ele tinha uma linguagem bela e simples. A linguagem de um homem de fé”

de Gianni Valente

Joseph Ratzinger, numa foto de 1961, enquanto prepara a aula na biblioteca do seminário de Bonn

“Estávamos no início do semestre de inverno de 1959-1960. Na sala 11 da Universidade, lotada de alunos, a porta se abriu e entrou um jovem padre, que à primeira vista poderia parecer o segundo ou o terceiro assistente de qualquer paróquia de cidade grande. Era o nosso professor de Teologia Fundamental, e tinha 32 anos.” Foi assim que o então estudante Horst Ferdinand, falecido há dois anos, depois de passar a vida inteira entre os escritórios administrativos do Parlamento Federal e a diplomacia alemã, anotou em seu inédito manuscrito de memórias o início da carreira universitária de Joseph Ratzinger, pé ante pé. Uma aventura que havia começado alguns meses antes, e que o professor que depois se tornou Papa também descreve em sua autobiografia como um início em que vibravam belas promessas: “Em 15 de abril de 1959, comecei a dar aulas, já como professor titular de Teologia Fundamental na Universidade de Bonn, diante de um amplo auditório que acolheu com entusiasmo o tom novo que acreditava identificar em mim”.
Bonn, naqueles anos, era a capital quase por acaso da Alema­nha de Adenauer. No país amputado, que deixou seus Länder orientais do outro lado da cortina de ferro, o renascimento econômico e social progredia em ritmo vertiginoso. Na eleição de 1957, o Partido Democrata-Cristão alcançou a maioria absoluta no Parlamento. Depois do pesadelo nazista, a Igreja alemã oferecia, com orgulho legítimo, a sua contribuição essencial para o novo início da nação. Num clima que poderia ter induzido ao triunfalismo, o jovem sacerdote-professor Ratzinger sintetizara havia pouco tempo, num artigo escrito em 1958 para a revista Hochland, as reflexões sugeridas por suas breves mas intensas experiências pastorais vividas alguns anos antes como capelão na paróquia do Preciosíssimo Sangue em Bogenhausen, o bairro da alta burguesia de Munique. Ele definia um “engano” estatístico o clichê que descrevia a Europa como “um Continente quase totalmente cristão”. A Igreja da modernidade pós-bélica lhe parecia uma espécie de “Igreja dos pagãos. Não, como em outros tempos, uma Igreja de pagãos que se tornaram cristãos, mas uma Igreja de pagãos que ainda se chamam cristãos quando na verdade viraram pagãos”. Falava de um novo paganismo “que cresce sem parar no coração da Igreja e ameaça demoli-la de dentro para fora”.
Bonn era uma cidade pequena que ainda curava suas feridas de guerra, mas o jovem e brilhante professorzinho bávaro vinha do mundo protegido e familiar de Domberg, o ponto mais elevado de Freising, sobre o qual aparecem juntos, um ao lado do outro, a Catedral, o seminário onde se formou e a Escola de Altos Estudos Teológicos, onde, como professor, deu seus primeiros cursos de Teologia Dogmática e Fundamental a partir de 1958. Assim, a capital às margens do Reno, onde havia sido chamado a ensinar, lhe parecia uma metrópole pulsante e aberta. Escreve ainda em sua autobiografia: “Vinham estímulos de todos os lados, já que a Bélgica e a Holanda ficam bem perto e, tradicionalmente, a Renânia é uma porta aberta para a França”. Para ele, era “quase um sonho” ter sido chamado para ocupar a cátedra perseguida em vão por seu mestre, Gottlieb Sohngen. E a gratificação maior era a acolhida por parte dos alunos.
Um professor especial
Na autobiografia, Ratzinger descreve os primeiros meses de ensino em Bonn como “uma festa de primeiro amor”. Todos os seus alunos daquela época lembram bem os comentários que passavam de boca em boca entre os estudantes e que faziam lotar as aulas daquele enfant prodige teólogo. Conta o estudioso do judaísmo Peter Kuhn, que se tornaria assistente do professor Ratzinger nos anos de ensino em Tubingen: “Eu era um jovem luterano de vinte anos. Freqüentava a Faculdade Teológica Evangélica, depois de ter assistido às aulas de Karl Barth em Basiléia. Conheci o bávaro Vinzenz Pfnür, que freqüentara as aulas de Ratzinger inclusive em Freising. Ele me disse: preste atenção, nós temos um professor interessante, vale a pena ouvi-lo, mesmo que você seja protestante. No primeiro seminário, eu logo pensei: este homem não é realmente como os outros professores católicos que eu conheço”. Horst Ferdinand escreve ainda em seu manuscrito: “As aulas eram milimetricamente preparadas. Ele as dava parafraseando o texto que havia preparado, com formulações que às vezes pareciam construir-se como um mosaico, com uma riqueza de imagens que me lembrava Romano Guardini. Em algumas aulas, como nas pausas de um concerto, daria para ouvir uma agulha cair no chão”. Acrescenta o redentorista Viktor Hahn, que se tornaria o primeiro aluno a “doutorar-se” com Ratzinger: “A sala estava sempre superlotada, os alunos o adoravam. Ele tinha uma linguagem bela e simples. A linguagem de um homem de fé”.
Como é que ele apaixonava tanto os alunos, naquelas aulas expostas num tom suave, concentrado, sem gestos teatrais? É evidente que o que o jovem professor dizia não era farinha do seu saco. Que não era ele o protagonista. “Nunca procurei”, explica o próprio Ratzinger no livro-entrevista O sal da terra, “construir um sistema próprio, uma teologia especial. O que é específico é que, por assim dizer, eu queria simplesmente pensar com a fé da Igreja, e isso significa, sobretudo, pensar com os grandes pensadores da fé”.
Os caminhos sugeridos por Ratzinger aos alunos para que saboreassem a aventura da descoberta da Tradição eram os mesmos que o haviam apaixonado em seus estudos universitários: a historicidade da Revelação, Santo Agostinho, a natureza sacramental da Igreja. Basta ler os títulos de seus cursos e de seus seminários nos primeiros anos de ensino. No semestre de inverno de 1959-1960, o curso se chamava “Natureza e realidade da Revelação”. No semestre seguinte, o título era “A doutrina da Igreja”. No semestre de verão de 1961, seria a vez de “Problemas filosófico-religiosos nas Confissões de Santo Agostinho”...

A Rheinische Friedrich-Wilhelms Universität de Bonn

Se existe um traço distintivo nas aulas de Ratzinger, ele também não está relacionado com uma particular ostentação de erudição acadêmica. A linguagem tinha uma simplicidade límpida, que deixava transparecer imediatamente o coração das questões que eram enfrentadas, mesmo as mais complexas. Conta Roman Angulanza, um dos primeiros alunos dos tempos de Bonn: “De certa forma, ele havia reformulado a maneira de dar aulas. Lia as aulas na cozinha para sua irmã, Maria, que era uma pessoa inteligente, mas que não tinha estudado teologia. E se a irmã gostasse, isso era sinal de que a aula estava boa”. Acrescenta o professor Alfred Läpple, noventa e dois anos, preceptor de Ratzinger no seminário de Freising: “Joseph dizia sempre: quando você dá aulas, o máximo é quando os alunos deixam de lado a caneta e ficam ouvindo o que você diz. Enquanto eles continuarem a tomar notas sobre o que você diz, isso significa que você não os tocou. Mas, quando deixarem de lado a caneta e o­lharem para você enquanto você fala, é possível que você tenha tocado o coração deles. Ele queria falar ao coração dos alunos. Não estava interessado em simplesmente aumentar os conhecimentos deles. Dizia que as coisas importantes do cristianismo só são aprendidas quando aquecem o coração”.
Era precisamente do gosto por redescobrir a Tradição lendo os Padres que brotava no jovem professor uma abertura total e flexível diante das perguntas e da agitação que tornavam vibrante o pensamento teológico daqueles anos. Em Bonn, ainda estavam presentes professores idosos formados com base nos cânones do mais estrito antimodernismo, que se limitavam a propor esquemas acadêmicos da teologia neo-escolástica. Conta Hahn: “Fiquei impressionado quando uma vez, na aula, ele tomou um trecho do Antigo Testamento como pretexto para comparar a imagem de Igreja que circulava naqueles anos com os impérios dos medas e dos persas, que acreditavam que durariam para sempre em virtude da imutabilidade estática de suas leis. E acrescentou, com ímpeto, que era preciso defender-se daquela imagem de Igreja”. Confirma Peter Kuhn: “Os outros professores, em comparação com ele, pareciam rígidos e anquilosados, fechados em seus esquemas, sobretudo com relação a nós, evangélicos. Ele enfrentava todas as questões sem medo. Não temia ir sempre além, enquanto outros professores nunca saíam dos trilhos de uma autocelebração sem nenhuma originalidade”.
A liberdade e a abertura ocupavam um lugar de destaque na sua relação com o mundo protestante. Vários alunos da Faculdade Teológica Evangélica - coisa completamente fora do comum naqueles anos - vinham assistir às aulas do jovem professor católico, que no semestre de verão de 1961 desenvolveu o seminário fundamental intitulado “Igreja, sacramento e fé na Confessio augustana” e, no semestre de inverno de 1962-1963, dedicou seu curso ao Tractatus de potestate papae, de Felipe Melanton. O então estudante Vinzenz Pfnür, que havia acompanhado Ratzinger de Freising a Bonn, recebia a sugestão de elaborar uma tese sobre a doutrina da justificação em Lutero; e, muitos anos depois, como professor de História da Igreja, daria sua contribuição ao acordo católico-luterano sobre a justificação, assinado em Augusta em 31 de outubro de 1999. Ele conta a 30Dias: “Em 1961, Ratzinger escreveu para o Lexicon protestante ‘Die Religion in Geschichte und Genenwart’, um artigo sobre o protestantismo na perspectiva católica. Na época, não era comum que um católico fosse convidado a escrever para aquela publicação. Ratzinger, naquele artigo, registrava os elementos de conflito com a teologia dialética e existencialista que então dominava a esfera protestante. Mas sublinhava que, apesar da distância dos dois “sistemas”, havia uma proximidade naquilo que era transmitido aos fiéis como patrimônio da Igreja, tanto católico quanto protestante, como, por exemplo, na oração”.

A Westfälische Wilhelms Universität de Münster

Ratzinger e Schlier se
tornaram amigos
A liberdade do jovem professor bávaro, que não se enquadrava em nenhum esquema, aparecia também na sua afinidade eletiva com figuras consideradas de fronteira pelo establishment teológico de então. Foi em Bonn que Ratzinger encontrou e começou a conviver com Heinrich Schlier, o grande exegeta luterano que se converteu ao catolicismo em 1953. Explica Pfnür: “Schlier, como discípulo de Rudolf Bultmann, era um mestre do método exegético histórico-filológico. No que diz respeito à questão sobre o Jesus ‘histórico’, Schlier considerava certamente possível reconstruir os traços decisivos daquilo que foi vivido por Jesus, mas dizia que não se podia ter acesso ao Jesus da fé reconstruindo o Jesus histórico; o único meio para isso eram os quatro Evangelhos, como únicas interpretações legítimas. Mas o existencialismo teológico de Bultmann levava ao risco de se reduzir a Ressurreição a um fenômeno interior, mental e psicológico, vivido pelos discípulos no íntimo da sua visão de fé. Enquanto, para Schlier, os Evangelhos, tal como são lidos e interpretados pela Igreja, descreviam acontecimentos reais, e não visões interiores produzidas pelo sentimento religioso dos apóstolos. Foi a partir dessa percepção compartilhada que Ratzinger e Schlier se tornaram amigos”. Uma abordagem que assume e valoriza com discernimento crítico os traços importantes da lição de Bultmann sobre a maneira de se aproximar das Sagradas Escrituras, sem um fechamento apriorístico. Entre o final da década de 1960 e o início da de 1970, os dois professores animaram juntos as semanas de estudo para jovens teólogos organizadas em Bierbronnen, na Floresta Negra. Schlier seria também convidado dos encontros teológicos periódicos do círculo de alunos doutorandos de Ratzinger, inaugurados de forma sistemática a partir do período de ensino em Tubingen. Mas, nos anos de Bonn, a simpatia de Ratzinger pelo grande exegeta não parecia ser compartilhada pelo resto do corpo acadêmico. Depois da sua conversão ao catolicismo, que lhe fechava a possibilidade de lecionar na Faculdade Evangélica, Schlier não encontrou espaço na Faculdade Teológica Católica, e acabou “estacionado” na Faculdade de Filosofia, ensinando Literatura Cristã Antiga. Vinham estudantes de toda a Alemanha, da Holanda e da Bélgica para ouvi-lo. “Mas alguns professores”, lembra Peter Kuhn, “eram hostis a ele. Consideravam suspeito o fato de ter vindo do luteranismo e de ter sido discípulo de Bultmann. E certamente tinham também inveja da amplidão de seu horizonte humano e intelectual”.
Uma outra amizade “de fronteira” que marcou os anos de Ratzinger em Bonn foi a que teve com o indólogo Paul Hacker, cuja genialidade também é pintada com traços fortes na autobiografia de Ratzinger. Partindo do luteranismo, Hacker também se tornaria católico, atravessando um percurso feito “de noites inteiras” passadas “a dialogar com os Padres e com Lutero, diante de uma ou mais garrafas de vinho tinto”. Ratzinger aproveitou o imenso conhecimento de Hacker sobre o hinduísmo quando teve de organizar as aulas de história das religiões que fazem parte do curso de Teologia Fundamental. Naqueles anos, eram sobre o hinduísmo que se concentravam os inte­resses de Ratzinger com relação ao mundo das religiões. “Alguns alunos”, lembra Kuhn, “reclamavam, zombando de tudo aquilo. Diziam: Ratzinger está totalmente mergulhado no hinduísmo, só fala de Rama e de Krishna, não agüentamos mais...”. Mas aconteceria também naqueles anos o primeiro encontro significativo de Ratzinger com uma personalidade do mundo judaico: o rabino Horowitz, que guiava seminários na Faculdade Teológica Evangélica.
Os anos do Concílio
Naqueles anos, na Faculdade de Teologia da capital alemã, muitas cátedras eram ocupadas por professores de prestígio. Lá estava o grande historiador da Igreja Hubert Jedin, que, segundo alguns estudantes da época, teria sido o patrocinador do chamado de Ratzinger a Bonn. Lá estava o historiador dos dogmas Theodor Klauser, a estrela da faculdade, sempre elegante, que rodava pela cidade na sua Mercedes reluzente (Ratzinger usava os meios de transporte público ou ia para a faculdade a pé; podia ser reconhecido de longe por sua infalível boina, que ele mesmo chama com ironia “o meu elmo de prontidão”); lá estava o outro dogmático bávaro, Johann Auer, que Ratzinger encontraria de novo como colega nos anos de ensino em Ratisbone. Ao redor do professor começava a se formar também um pequeno cenáculo de estudantes: Pfnür, Angulanza e poucos outros. Aos domingos, Ratzinger os convidava para o almoço em sua casinha de campo na Wurzerstrasse de Bad Godesberg, para onde se transferira depois de deixar a instalação inicial no colégio teológico Albertinum. Com ele vivia a irmã, Maria, que era também uma ótima cozi­nheira. Algumas vezes, Auer participava também daqueles banquetes bávaros.
Em Bonn, Ratzinger recrutou também seu primeiro assistente: Werner Böckenförde, falecido há dois anos. Um natural de Münster de personalidade forte, que às vezes dava a impressão de querer “dirigir” seu professor. Explica Angulanza: “Böckenförde gostava de Ratzinger como teólogo, mas estava mais interessado nos processos e nos fatos de tipo político-eclesiástico, que analisava de maneira muito crítica. A relação entre os dois era formalmente correta, mas não familiar”.
A atmosfera dinâmica e serena na qual se desenvolvia o trabalho em Bonn estava destinada, porém, a definhar. As centenas de alunos que enchiam as aulas do professor de trinta anos suscitavam inveja por parte de velhos professores como Johannes Botterweck (Antigo Testamento) e Theodor Schäfer (Novo Testamento). Lembra ainda Angulanza: “Eu não saberia julgar Schäfer, pois nunca assisti às suas aulas áridas, onde ele se limitava a citar de maneira pouco original o seu Compêndio à introdução do Novo Testamento. Botterweck, para nós, alunos, parecia cheio de si, presunçoso e polêmico”. A inveja acadêmica cresceu quando João XXIII convocou o Concílio Vaticano II, e o cardeal de Colônia Joseph Frings, depois de ter assistido a uma conferência do jovem docente bávaro sobre a teologia do Concílio, escolheu-o como seu consultor teológico em vista da participação das assembléias conciliares. Frings e seu secretário, Hubert Luthe - futuro bispo de Essen e colega de estudos de Ratzinger na Universidade de Munique - enviaram a seu colaborador os schemata dos documentos redigidos pela Comissão Preparatória para obter seu parecer. Ratzinger, segundo o que ele mesmo conta em sua autobiografia, teve deles “uma impressão de rigidez e pequena abertura, de ligação excessiva com a teologia neo-escolástica, de pensamento demasiadamente professoral e pouco pastoral”. Foi Ratzinger quem escreveu a famosa conferência lida por Frings, em Gênova, a 19 de novembro de 1961, sobre “O Concílio Vaticano II diante do pensamento moderno”, que resumia as expectativas de reforma suscitadas pela iminente assembléia eclesial em boa parte dos episcopados europeus. Quando começou o Concílio, Frings levou seu consultor consigo a Roma e obteve para ele a nomeação oficial a teólogo do Concílio. Teria a sua ajuda na redação dos discursos que viriam a ser representativos das razões expostas pela ala reformista na assembléia conciliar. E daria a seu colaborador a chance de se tornar, nos “bastidores”, um dos protagonistas do Concílio. Mas em Bonn a valorização daquele talento teológico de trinta e cinco anos não agradava a todos. E o ar começou a ficar pesado.

Joseph Ratzinger, perito no Concílio Ecumênico Vaticano II, numa foto do outono de 1964

Invidia clericorum
Do círculo de doutorandos de Ratzinger faziam parte dois estudantes ortodoxos, Damaskinos Papandréou e Stylianos Harkianakis, hoje metropolitas do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla. Mas o Conselho de Faculdade recusou o pedido dos dois de se doutorarem na Faculdade Católica. Durante uma viagem de Ratzinger a Roma, para participar do Concílio, as notas das provas de alguns de seus alunos foram abaixadas por seus detratores. A tese do aluno Johannes Dörmann sobre as novas descobertas acerca do evolucionismo introduzidas pelos estudos de Johann Jacob Bachofen (o primeiro a teorizar a existência de um matriarcado originário primitivo) também foi rejeitada, sob o argumento de que não se tratava de um trabalho teológico. Ratzinger lembrou do drama que havia vivido por ocasião de seu exame de habilitação, quando o professor de Teologia Dogmática Michael Schmaus, seu co-examinador, tentou reprovar sua tese sobre São Boaventura, tachando-a de modernismo. E entendeu que era hora de mudar de ares.
Em 1962, a cátedra de Teologia Dogmática na prestigiosa Universidade de Münster ficava vaga: o grande teólogo dogmático Hermann Volk, nomeado bispo de Magonza, pediu então que chamassem Joseph Ratzinger para sucedê-lo. Lembra Viktor Hahn: “O professor, a princípio, recusou aquele chamado: não queria deixar Bonn, entre outras coisas para não se afastar de Colônia, onde havia começado a colaboração com Frings. Mas, quatro meses depois, voltou atrás na sua decisão e aceitou. Certamente, a hostilidade em torno dele havia crescido com a sua nomeação como perito do Concílio. Perguntei ao professor Jedin se os outros professores é que tinham se livrado dele. Ele me respondeu: o senhor pode não estar errado”. Botterweck, nas conversas entre colegas, se vangloriaria de tê-lo “feito fugir” de Bonn.

“Joseph dizia sempre: quando você dá aulas, o máximo é quando os alunos deixam de lado a caneta e ficam ouvindo o que você diz. Enquanto eles continuarem a tomar notas sobre o que você diz, isso significa que você não os tocou. Mas, quando deixarem de lado a caneta e olharem para você enquanto você fala, é possível que você tenha tocado o coração deles. Ele queria falar ao coração dos alunos. Não estava interessado em simplesmente aumentar os conhecimentos deles. Dizia que as coisas importantes do cristianismo só são aprendidas quando aquecem o coração” (Alfred Läpple)

Em Münster, Ratzinger se instalou com a irmã numa casinha na alameda Annette von Droste Hülshoff, perto do lago artificial Aasee. No andar de cima, se alojariam dois alunos seus, os “fidelíssimos” Pfnür e Angulanza, que o assistiam na Universidade como colaboradores científicos. De manhã cedo, ele celebrava a missa na capela de uma casa de repouso perto da sua, e depois ia para a faculdade de bicicleta. Conta Peter Kuhn: “Münster é uma cidade de planície, que não fica muito longe da Holanda; lá, todos andavam de bicicleta, como muitos ainda fazem hoje. Eu pedi a Pfnür que comprasse uma bicicleta para o nosso professor, mas ele é um tipo parcimonioso e acabou arranjando uma usada, em tão mal estado que até hoje eu brinco com ele, dizendo que por culpa daquela bicicleta o Papa ainda sente dor nos joe­lhos...”. Em Münster, ampliou-se o número de alunos que pediam para se doutorar com ele. Com os mais íntimos, ele continuava a tradição dos pequenos almoços bávaros. Algumas vezes, o batalhão de teólogos se encontrava com seu professor para comer numa taberna no lago que parecia feita sob medida para eles: chama-se Zum Himmelreich, Ao Reino dos Céus.
O clima que Ratzinger encontrou na faculdade era cordial e estimulante. “A Faculdade de Münster”, lembra Pfnür, “estava em ascensão, oferecia espaços e possibilidades financeiras supe­riores aos de Bonn. E a teologia dogmática era o campo de ação mais adequado ao professor Ratzinger, onde a sua preparação patrística e escritural era mais bem valorizada”. Os filões “clássicos” do ensino de Ratzinger eram reapresentados à luz do que estava acontecendo no Concílio que se desenrolava em Roma. Em 1963, seus cursos eram dedicados à Introdução à Dogmática e à Doutrina sobre a Eucaristia. O seminário se concentrava sobre o tema “Escritura e Tradição”. Em 1964 e em 1965, os seminários versavam sobre a constituição Lumen gentium do Concílio Vaticano II. No semestre de inverno de 1965-1966, um dos cursos de Teologia Dogmática consistia numa retrospectiva do Concílio que se concluíra havia pouco, enquanto o seminário tomava como ponto de partida a constituição conciliar Dei Verbum, sobre a Revelação.
Com os colegas não havia problemas. Em Filosofia, o professor era Joseph Pieper. Em Teologia, lá estava o combativo Erwin Iserloh, famoso por sua maneira de ser sempre contrário a tudo por princípio. Naqueles anos, juntavam-se ao corpo docente outras jovens promessas da teologia alemã, como Walter Kasper e Johannes Baptist Metz, iniciador da teologia política, com o qual Ratzinger polemizaria nos anos seguintes. Mas, no tempo de Münster, ninguém parecia ter a preferência que os estudantes reservavam a ele. Conta ainda Pfnür: “Havia cerca de 350 inscritos no curso, mas em média 600 ouvintes participavam das aulas. Até estudantes de outras faculdades, como Filosofia e Direito, vinham ouvir Ratzinger. Imprimimos em fascículos o curso de Eclesiologia sobre a centralidade da Eucaristia e vendemos 850 exemplares”. Kuhn ironiza: “Em Münster, Pfnür abriu uma pequena gráfica. Eles transcreviam as aulas e depois mandavam pacotes inteiros delas para toda a Alemanha, para os fãs de Ratzinger espalhados pelas faculdades teológicas”.
A intensa participação no Concílio contribuiu para a fama crescente do professor Ratzinger. Ele escrevia pareceres para seu cardeal e estava encarregado da redação dos esquemas de documentos alternativos aos preparados pela Cúria Romana. Encontrava e colaborava com todos os grandes teólogos do Concílio: Yves Congar, Henri de Lubac, Jean Daniélou, Gérard Philips, Karl Rahner. “A nós, alunos”, lembra Pfnür, “ele contava que o que o impressionava de maneira particular eram os teólogos e os bispos latino-americanos”. Quando voltou para a Alemanha ao final das sessões romanas, ofereceu resumos públicos dos traba­lhos conciliares em conferências superlotadas. Oportunidades de reflexão, nas quais o juízo de Ratzinger mostrava-se distante do novo triunfalismo progressista e da excitação polêmica que já pareciam contagiar os outros teólogos “reformistas” do Concílio. “Todas as vezes que eu voltava de Roma”, conta em sua autobiografia, “encontrava na Igreja e entre os teólogos um estado de espírito cada vez mais agitado. Crescia cada vez mais a impressão de que não havia nada estável na Igreja, de que tudo podia ser objeto de revisão”. Explica hoje Pfnür: “Os primeiros indícios do caos se registravam não tanto na Faculdade, mas nas paróquias. Os párocos começavam a mudar a liturgia a seu bel-prazer, e sobre isso ele deu juízos muito críticos desde o início”.
Na faculdade, as coisas continuavam a caminhar na direção certa. Ratzinger gozava da estima unânime dos colegas e alunos. Hahn conta a 30Dias um episódio emblemático: “Um dia encontrei a sala cheia: todos queiram assistir a uma disputatio pública entre o professor Metz e o teólogo suíço Hans Urs von Balthasar, que criticava a sua teologia política. Metz pediu a Ratzinger que coordenasse o debate. O nosso professor, entre uma declaração e outra dos dois contendores, sintetizava o pensamento deles com uma riqueza de exposição que tornava claras e interessantes até as passagens mais obscuras dos dois. No final, a platéia aplaudiu com respeito tanto Metz quanto Von Balthasar. Mas os aplausos mais demorados e entusiasmados foram reservados para o árbitro”.
Os cursos lotados, a estima dos colegas, as relações que se iniciavam com bispos e teólogos do mundo inteiro... O que impeliu Ratzinger a deixar Münster?

Ratzinger, professor de Teologia Dogmática na Escola de Altos Estudos Filosófico-Teológicos de Freising, em 1959

O “chamado” de Küng
O professor de fama já mundial não era daqueles que se escravizavam e passavam por cima dos próprios entes queridos para seguirem o ídolo da carreira acadêmico-eclesiástica. A irmã, Maria, que se mantinha a seu lado com dedicação quase maternal, não conseguiu ambientar-se na bela cidadezinha da Vestefália. Para ela, o lugar mais belo de Münster era a estação, de onde partiam muitos trens para a Baviera. Conta Hahn: “Alguns anos depois, quando lhe perguntei o porquê de sua partida, ele me confirmou que a irmã não estava feliz em Münster. Ela havia dedicado a vida a ele, e ele não podia deixar de levar em conta a saudade que ela sentia”. Assim, quando, em 1966, chegou um convite para a segunda cátedra de Teologia Dogmática da Faculdade de Teologia Católica de Tubingen, Ratzinger não pensou duas vezes sobre o assunto. Na primeira viagem para a cidade, tinha como acompanhante o costumeiro Pfnür, que se encarregaria da mudança. Para acolhê-lo, lá estava um teólogo que Ratzinger conhecia desde 1957, e que encontrou também no Concílio. Alguém que o estimava e que interveio perante seus colegas de faculdade para tê-lo em Tubingen. Convidou-os para o almoço e se mostrou cheio de solicitude e cordialidade perante a nova aquisição da Faculdade de Tubingen. Seu nome era Hans Küng.
continua...
(colaborou Pierluca Azzaro)

Fonte: 30 Dias