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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

De uma condição prévia à outra

Abbé Régis de Cacqueray-Valménier

Superior do Distrito da França
Fraternidade Sacerdotal São Pio X

NOTA

A Montfort, por amor à Fé e à Santa Igreja Católica Apostólica Romana, por amor à justiça para com Dom Lefebvre e a Dom Mayer, esses dois heróicos defensores da fé e da Missa de sempre, por amor à verdade, publica com alegria esse comunicado do Superior da FSSPX na França, rezando e fazendo votos para que o Papa Bento XVI, tirando a conclusão lógica do Motu Proprio Summorum Pontificum, anule as excomunhões inválida e injustamente lançadas contra Dom Lefebvre e Dom Mayer em 1988, o que permitirá a  vitória da Missa de sempre e o debate franco sobre os erros do Vaticano II.

Publicamos esse Comunicado, pouco nos importanto da oposição e até da hostilidade, que muitos da FSSPX fazem à Montfort, mas pensando apenas no bem e na vitória da Igreja. Tanto mais que nos chegam rumores de fontes romanas que indicariam uma possível suspensáo das excomunhões desse dois Bispos, quando o justo seria a declaração da nulidade das excomunhões de 1988.

Os destaques colocados no texto pela Montfort indicam os pontos em que mais concordamos com as palavras do Padre Cacqueray.

Deus dê, o quanto antes, por meio do Papa Bento XVI, a glória e a justice devidas a Dom Lefebvre e a Dom Mayer por seu heroísmo sem mácula, sem compromissos e sem traições.

São Paulo, 11 de Janeiro de 2009.

Orlando Fedeli

Presidente da Associação Cultural Montfort.


De uma condição prévia a outra

Abbé Régis de Cacqueray-Valménier

“Se se toma o termo “secundário” no sentido em que dissemos e que é o sentido primitivo: o segundo é o que segue... o que resulta do outro.” (Romano Amerio)

“Joana D’Arc tem hoje menos céticos do que ela encontrou em seu tempo.” Jacques Bainville

“Você me mostrou o caminho de Ars, eu lhe mostrarei o caminho do Céu.” São João Maria Vianney, o Cura d’Ars

No início do ano de 2001, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X especificou e levou ao conhecimento da Santa Sé “as três etapas” que lhe parecia necessário respeitar para continuar a trabalhar na resolução da crise doutrinal da Igreja e, por via de conseqüência, unicamente, à regularização canônica de sua própria situação.

A exposição, tornada pública, desta linha estratégica foi acolhida com numerosas críticas desfavoráveis, sobretudo pelo motivo de que o princípio de comunicar a Roma, como primeira etapa, condições prévias a toda discussão com ela, pareceu, senão inadmissível, ao menos totalmente inadequado. Essa pretensão, já considerada exorbitante em si mesma, não dissimulava, além disso, uma vontade inconfessada da Fraternidade de ficar no seu canto e de deixar para as calendas gregas a hora de sua reintegração?

A “estratégia” da Fraternidade

Para a decepção de alguns, e a alegria de outros, o itinerário proposto pela Fraternidade para chegar a “acordos” foi portanto considerado impraticável: como Roma teria podido aceitar que lhe ditassem uma linha de conduta, emitida, ainda por cima, sem qualquer conversação, por essa Fraternidade “excluída da Igreja”? Não teria sido dar a essa última uma importância desmesurada e se colocar a reboque de sua marginalidade, para maior irritação de quase todos?

Note-se, entretanto, que a lenta diplomacia romana nem produziu uma contraproposta no lugar daquela da Fraternidade nem exprimiu – ao menos publicamente – sua concordância ou sua discordância com a idéia de ter que passar sob as forcas caudinas, ou seja,  aceitar as condições humilhantes que lhe tinham sido designadas, diga-se de passagem, não sem alguma audácia ou ingenuidade.  Foi, todavia, o silêncio oficial em que Roma se manteve que contribuiu finalmente, por falta de expressão de uma outra proposição ou da recusa daquela que lhe tinha sido indicada, a tornar pouco a pouco a estratégia da Fraternidade, sozinha no terreno diplomático, mestra desse terreno até hoje, ao ponto de se ter imposto, sem combate, como a referência natural em função da qual todos se habituaram a se situar ou se deslocar, nas relações que se seguiram.

Dado que a apresentação dessas duas condições prévias forma apenas a primeira das três etapas do itinerário sugerido pela Fraternidade, nem o sucesso parcial que ela obteve em resposta a seu primeiro pedido, nem o outro sucesso que proviria da obtenção do segundo, não bastariam portanto, por si sós, para acertar a diferença, de essência puramente doutrinária, que a opõe à “Roma conciliar” e cujo tratamento foi fixado na segunda das três etapas.

Do mesmo modo, as duas condições preliminares ao pretendem de modo algum se substituir ao exame das questões doutrinárias. Tal não é sua função. Em virtude de seu próprio estatuto, elas não têm outra função além de preludiá-lo e de criar um clima propício a seu bom desenvolvimento. Elas foram escolhidas e formuladas para serem apresentadas a um interlocutor ainda por vir, o qual se espera que seja capaz de apreciar o interesse que há em atender esses dois pedidos para o bem de toda a Igreja, mas do qual não se conhece, ao menos no momento em que se está agora, a persistência em seguir e em professar os desvios conciliares.

Quer se trate pois da Missa de São Pio V ou das “excomunhões de 1988”, as condições prévias não têm a pretensão de fazer valer junto da Santa Sé tudo o que a Fraternidade quer obter em tais assuntos. Sobre o primeiro ponto, a Fraternidade, com efeito,  nunca fez mistério de sua vontade de chegar à erradicação pura e simples da missa nova. Quanto à segunda, ela considera que Roma terminará por concluir pela nulidade das “excomunhões de 1988”.

Mas ela tem clara consciência de que não se poderá, logicamente, ser-lhe dada inteira satisfação nesses dois pontos, senão após a conclusão feliz da segunda etapa de sua estratégia. Foi por isso que ela considerou, na escolha das duas condições prévias que colocou e em sua formulação precisa, o que poderia, em um primeiro tempo, ser já obtido de um papa, empenhado ainda em defender o Concílio, mas, paradoxalmente, preocupado em procurar os meios de remediar o estado de ruína da Igreja e as injustiças cometidas. Ora, constatou-se que o Papa Bento XVI apresentava esse perfil.

Apesar desse sábio realismo, as duas condições prévias a toda discussão não deixavam de ser, tanto uma quanto outra, inaceitáveis questionamentos. Que se julgue! Enquanto Paulo VI tinha tido simplesmente a vontade de substituir a antiga missa pela nova, a Fraternidade não pedia nada menos que o reconhecimento do direito dos padres de tê-la sempre celebrado e de continuar a celebrá-la.

Quanto às sagrações de 30 de junho de 1988, elas se encontravam ipso facto sancionadas pela excomunhão prevista no novo Código de Direito Canônico. Ora, a Fraternidade se recusa, no entanto, a pedir o “levantamento das sanções”. Ela procura obter a “retirada do decreto de excomunhão” e não escapa a ninguém que os termos que ela empregou para traduzir seu pedido foram escolhidos de propósito. Ela quer que seja bem manifestada sua convicção da nulidade das sanções e, se Roma se decidir a agir, que ela o faça deixando ao menos a porta aberta à essa hipótese canônica.

Todos os ingredientes pareciam portanto reunidos para que esta estratégia permanecesse letra morta, gelasse ainda mais as relações entre Roma e a Fraternidade e, mais grave, causasse mesmo um prejuízo a uma eventual vontade romana de reconhecer o direito dos padres de celebrar a missa de sempre.

Se essa perspectiva não é inexata, a decisão da promulgação do Motu Proprio de 7 de julho de 2007 parece então como ainda mais surpreendente. Como o Papa teria podido se decidir a atravessar um tão temível Rubicão, se a questão dessa missa não tivesse inicialmente se apresentado a ele como uma questão de consciência, se ele não tivesse percebido um estado de necessidade suficientemente grave para se arriscar em um tal terreno, e se ele não tivesse contado tirar vantagens decisivas de seu Motu Proprio? Teria ele enfrentado o episcopado do mundo inteiro, como fez, por um caso que considerasse secundário? E já que ele se decidiu, uma questão não deixa de estar em todos os lábios: se ele ousou conceder a primeira, atenderá também a segunda das duas condições prévias?

De uma espera à outra

Apenas nós tivemos tempo para nos deixar educar às lentidões romanas por esse jogo de paciência que precedeu o atendimento da primeira condição prévia, nós nos encontramos, com efeito, convidados à espera do segundo! Saberemos nós tirar de nossa primeira prova de resistência o melhor proveito? Viver aquela que começou como convém? De fato, não será simplesmente apenas no ritmo de nossos rosários?

Não só! Se a oração é nada menos que a respiração de nossas almas, ela não toma entretanto o lugar de tudo o mais e não nos dispensa do resto. Os instantes que nós vivemos devem igualmente ser utilizados para antecipar uma profunda reflexão a respeito dessa defesa e dessa confissão pública de fé junto a Roma, que será talvez “a hora” por excelência da vida de nossa Fraternidade.

É preciso realmente esperar que esses momentos, que poderão trazer sua pedra decisiva para o reerguimento da vida da Igreja, acabem por acontecer. Nós devemos, em conseqüência, ter essa grande preocupação de compreender, por nós mesmos, sempre mais profundamente, que a restituição parcial da Missa deverá ser seguida de sua restituição total e da restituição da fé. Ai de nós, clero e leigos, se não chegamos a ter uma consciência suficiente dos verdadeiros pontos-chave e da profundidade de nosso combate. Nossa posição de soldados de Deus nos pede que não nos deixemos embalar pela esperança da retirada de um decreto que, se acontecesse, não assinaria nem mesmo um armistício. A espera não é a passividade. Esse momento deve ser imperativamente aproveitado para prosseguir a instrução e a formação de cada um, do aumento de firmeza e de espírito de combate.

Lembremo-nos, pois, das faltas e das imperfeições constatadas durante esse primeiro período de espera para não recair nelas.        A medida que rumores, sempre mais numerosos e insistentes, alguns deles vindos de Roma, nos advertiam que o Papa ia publicar um texto em favor da Missa antiga, os espíritos tiveram tendência a se dividir entre ceticismo e euforia. Passando o tempo, eles se aqueceram, e se espalhou um clima de excitação realmente pouco propício a uma reflexão objetiva sobre a significação exata que teria a concessão da primeira condição prévia.

De uma condição prévia a outra


Ainda que imperfeito e insatisfatório sob vários aspectos, é evidente hoje que esse Motu Proprio marcou uma data na história da liberdade para a missa tradicional. Ele merecia ser saudado pela Fraternidade, que não deixou de fazê-lo, ao menos pela confissão pontifical tão esperada de que a missa de São Pio V não havia jamais sido abrrogada e pelo conseqüente reconhecimento de que todo padre tinha tido sempre o direito de celebrá-la e tinha, portanto, presentemente o direito de fazê-lo.


Além disso, ele correspondia e respondia, em sua materialidade, à primeira condição prévia sugerida pela Fraternidade e pelo qual ela havia pedido com fervorosas orações. Se ele não era, certamente, apresentado como uma resposta a seu primeiro pedido, ele o era de facto. Não contente de indicar  certo encontro do pensamento do Papa com o nosso, sobre esse primeiro bem que se esperava do reconhecimento da liberdade da missa, ele se prestava evidentemente demais a ser entendido como um sinal para com a Fraternidade para não ter sido pensado e medido como tal.


Notemos também que não repugnou a Bento XVI inscrever-se visivelmente nessa lógica, que foi, no entanto, emitida e definida unilateralmente pela Fraternidade, sabendo perfeitamente que não deixariam – para louvá-lo ou para criticá-lo – de ressaltar isso. Ainda que ter representado o primeiro ato não o comprometa, é verdade, com aqueles que se seguem, o fato de tê-lo feito não é neutro e ele o sabe bem. Tanto mais que o Papa não ignorava que o efeito secundário da publicação do Motu Proprio seria infalivelmente o aumento do discrédito que afetaria as condenações fulminadas por Roma contra a Fraternidade. Ao afirmar que a missa nunca tinha sido proibida, o discurso pontifical dava razão, infelizmente apenas após sua morte, àquele que o tinha sempre afirmado, quase isoladamente entre todos os bispos: “O venerado Monsenhor Lefebvre”.


Na seqüência de tal reabilitação implícita de seu grande combate pela missa, mesmo que ela permaneça ainda parcial, será possível por muito tempo ao Papa manter a lembrança da “excomunhão” daquele que, quase sozinho, teve a coragem de lutar contra todos, que não se deixou intimidar e cuja recompensa, até o momento, consistiu apenas em ter suja sua memória?


É realmente possível que um combate tão heróico, cuja utilidade para a Igreja não cessa e não vai cessar de se revelar cada vez mais, possa ter sido conduzido por um homem mau, mau de uma malícia que teria sido mais tenebrosa que aquela de Lutero e cuja memória deveria para sempre permanecer maldita? Maldito, aquele sem o qual essa missa não teria sido sempre oferecida à Igreja? Quem ousará ainda dizê-lo? Quem não começa, ao contrário, a perceber a reunião e o germinar de todos esses sinais que deixam pressentir que essas “excomunhões” foram simplesmente uma prevaricação, uma aplicação criminosa da lei e que não se pode por mais tempo deixar crer que elas existiram e que existiriam ainda?

Admitamos – dato, non concesso – que as sagrações episcopais de 1988 não tivessem, ali[as, tido outra finalidade que sua decisiva e incontestável contribuição à salvaguarda e à manutenção da missa. Só essa preocupação, tão grave e sagrada, não teria bastado então e, hoje ainda, não deveria ser suficiente para concordar com a realidade de um estado de necessidade, ao menos litúrgica, no qual Dom Lefebvre se encontrava acuado e que foi invocado por ele para agir?


Ou, se não se pode ou não se quer confessar essa necessidade, embora evidente, a preocupação de que ela existisse não deveria bastar a que se reconheça, pelo menos, a nobreza de sua intenção, e, em vista do eminente serviço assim prestado à Igreja, a impedir que se demore sobre uma “falta” que, na seqüência, se teria revelado tão bem-aventurada que só mereceria como sanção a magnanimidade pontifical? Embora não seja, de modo algum, o nosso, esse raciocínio deveria, por outro lado, encontrar atentos nossos interlocutores, submetidos a um novo Código de Direito Canônico que o favorece
.


Não nos espantaria, na verdade, que o pensamento de Bento XVI caminhe nessa direção. Se ele mesmo não estivesse, de saída, intimamente convencido de uma grave necessidade provocada pelo estado de dissolução litúrgica, teria corrido o risco de enfrentar e de ganhar a inimizade da grande maioria do espicopado? Se ele correu esse risco, é que também ele tinha consciência de um estado de necessidade litúrgica suficientemente grave para dever intervir.


Ainda que nós encontremos – e nós não escondemos – muito a dizer sobre a doutrina e a teologia do Papa, enraizados nos textos do Concílio, essas graves reservas não nos impedem de pensar, ao mesmo tempo, que Bento XVI não carece nem de inteligência nem de uma indiscutível probidade
. Ele sabe perfeitamente que não poderia ter devolvido a missa à Igreja se o apego a essa liturgia e a reinvidicação de sua liberdade não tivessem sido mantidas e transmitidas pelo Fundador da Fraternidade São Pio X. Essas excomunhões incomodam em sua alma de Papa como poeira no olho. Nós imaginamos que elas o fazem chorar e que elas obscurecem seu olhar: quanto tempo ele, que quer ver, as suportará ainda?


A partir disso, toda esperança não se torna possível? Essa primeira piscadela pontifical não nos dá o direito de pensar que o Papa não se deterá mais em tão bom caminho?
Teria ele podido, ao escolher dar o primeiro passo, não se colocar a questão do segundo, não se preocupar com essa lógica que leva irresistivelmente a subir de uma condição prévia a outra, ou seja, de uma ação reconhecida como benfazeja a um ser que não pode, portanto, ser um malfeitor?

Aliás, os dois processos se parecem. Nos dois casos, trata-se apenas de obter a confissão de um não-ser: não-serda interdição da celebração da missa de São Pio V, não-ser das excomunhões e nulidade de um decreto vergonhoso. Se a primeira cruzada do Rosário foi seguida do Motu Proprio sobre a missa, a segunda poderia muito bem terminar com a retirada do decreto das excomunhões.

A segunda condição prévia

Antes da obtenção da primeira condição, pouco numerosos, realmente, eram os que conjecturavam que Roma se arriscaria a concedê-la apesar da agressividade episcopal. Poucos procuraram, consequentemente, tomar a verdadeira medida de tal acontecimento. Após sua obtenção, é ainda possível ou ter tendência a relativizar sua significação e seu alcance por uma justa preocupação de não se arriscar a entusiasmo injustificado em relação ao Papa Bento XVI, ou então ter sido atingido pessoalmente por esse entusiasmo.

É preciso refletir bem e rezar para encontrar o equilíbrio no julgamento e esclarecer as almas como é preciso, não afastar a hipótese da retirada do decreto como improvável, nem anunciá-la,como um astrólogo, como estando para se produzir em breve.

Porque o decreto pode muito bem não ser retirado por muito tempo ainda, é preciso mostrar sua nulidade e injustice, e demonstrar, ao mesmo tempo, que ele é a conclusão lógica da máquina conciliar rejeitando Fé e Tradição. Enquanto subsistir a aparência dessa sanção, nós continuaremos a levá-la como uma Legião de Honra, como o símbolo de um glorioso opróbrio, aquele que valeu a nossos bispos sua fidelidade solitária.

Porque a retirada do decreto pode igualmente se produzir rapidamente, é nosso dever antecipar essa declaração, de maneira que tal ato, se acontecer, seja unicamente julgado conforme sua significação exata. Se se trata realmente da retirada do decreto – e não de um levantamento das excomunhões – será então o começo da reparação da injustiça inaudita que conhecemos e nós poderemos então nos rejubilar.


Com efeito, mesmo que se trate apenas, em definitivo, de um primeiro passo para a reparação de uma indignidade, nós teremos para com o Papa que decidir isso um verdadeiro sentimento de gratidão, que não devemos de modo algum hesitar em exprimir
..Se, por outro lado, se tratar de um “levantamento das excomunhões”, as coisas seriam outras. Isso não corresponderia a nossa segunda condição prévia, e não isentaria nossos bispos do mau processo que lhes tinha sido movido. Deixando crer que as penas pronunciadas não era nulas mas que eram talvez mesmo merecidas, não resultaria disso, em certo sentido, pelo menos, um novo mal mais profundo? Roma teria então retirado, com uma aparência misericordiosa, sanções que se encontrariam, pelo mesmo ato, confirmadas como tendo sido validamente e até mesmo legitimamente aplicadas.


Nós ouvimos dizer que alguns padres dos Institutos Ecclesia Dei tinham se unido a nossa cruzada do Rosário e nós lhes agradecemos
. Nós queríamos simplesmente observar-lhes que nossa cruzada visa obter a retirada de um decreto nulo e aflitivo, não a retirada de uma penalidade que nós sabemos ser inexistente. Esta distinção é importante! A existência dessa Comissão Ecclesia Dei,  trepadasobre a condenação de Dom Lefebvre, assim como a aceitação de pertencer a ela, é um autêntico assunto de escândalo.. Nós nunca entendemos, em particular, como alguns, que lhe devem tudo e estão convencidos da nulidade das excomunhões, tenham se perdido nessa via. Que eles possam protestar contra tal tutela e se emancipar dela. Não seria essa uma maneira de pagar sua dívida de reconhecimento para com Dom Lefebvre?

Se tivemos sucesso, como cremos, nesse esforço de explicar o que anima nossa Fraternidade, as almas não se encontrarão desorientadas. Essas duas condições prévias, por mais importantes que sejam, não são, no final das contas, nada mais do que o começo de um longo processo!


Todas as questões mais sérias, que dizem respeito à própria fé, restam a abordar. Esse é o coração de nosso combate e não podemos fazer concessão de um só iota. Não será, portanto, certamente, uma falta de gratidão, mas um ato de caridade, continuar a exprimir bem nitidamente todos os nossos desacordos com a doutrina envenenada do Concílio
. Tenhamos o trabalho, desde agora, de refutar esse sentimentalismo tão comum que gostaria, como resposta aos avanços do Papa, que nós cessemos nossas críticas a respeito de seu pensamento, o qual está, no entanto, resolutamente inscrito na sua hermenêutica de continuidade do Vaticano II, absolutamente inadmissível.

Nunca deixemos dizer que “essas discussões teológicas” são um problema de especialistas e não nos dizem respeito. É preciso insistir em demonstrar que é totalmente o contrário: já que se referem à fé, essas questões dizem respeito a todos eminentemente, clero e leigos. Nós devemos ter o trabalho de entender e de fazer entender os pontos chave delas.

O Vaticano II é o “descoroamento” político de Nosso Senhor Jesus Cristo e a negação de Seus direitos sobre as sociedades. O Vaticano II é uma benevolência, infinitamente danosa e escandalosa para as almas, para com essas sociedades, escoltas do erro e do vício e fornecedoras do Inferno, muito impropriamente chamadas “outras religiões”. O Vaticano II é o triunfo do democratismo na Igreja, que torna toda autoridade quimérica e todo mando mais ou menos impossível, que permite a proliferação da heresia e do cisma. O Vaticano II é, na realidade, o maior desastre que jamais se produziu na Igreja.


Para se refazer, ela deve se livrar dele. De modo algum, portanto, a Fraternidade poderá cessar seu imenso combate de confissão da fé, que comporta obrigatoriamente a denúncia do erro
. Ela deve permanecer humilde e respeitosa, mas intrépida, impávida, para continuar a dizer tudo que ela deve dizer, confessar tudo o que ela deve confessar, denunciar tudo o que ela deve denunciar.

De Santa Joana d’Arc a Dom Lefebvre

Não é chegada a hora de se lembrar do processo de Santa Joana, daquela que foi queimada, em 30 de maio de 1431, como feiticeira, herege e relapsa na praça do Velho Mercado de Rouen?

Foi sua admirável mãe, Isabelle Romée, que obteve a instalação de um novo processo da Inquisição. Em 7 de julho (essa não é uma data que nós já conhecemos?) de 1456, na grande sala do palácio arquiepiscopal de Rouen, os comissários pontifícios, sob a presidência de Jean Juvenal de Ursins, arcebispo de Reims, declararam o processo de condenação de Joana e a sentença “manchados de roubo, de calúnia, de iniqüidade, de contradição, de erro manifesto de fato e de direito, inclusive a abjuração, as execuções e todas as suas conseqüências” e, por isso, “nulas, inválidas, sem valor e sem autoridade”.

Hoje, ainda que, certamente, a santa mãe de Dom Lefebvre, do alto do céu,  espere isso com confiança, é a Fraternidade São Pio X, sua filha, que pede justiça por seu pai. Nós estamos certos de que, dele, os católicos confessarão um dia, o que alguns tinham pressentido a respeito de Joana: “Tua morte será tua vida”. E os franceses, do mesmo modo que experimentam um legítimo orgulho de contar entre os seus uma tal filha, terão não menos vivo orgulho do serviço prestado à Igreja por esse arcebispo, outro insigne rebento e honra de sua raça.

Ambos julgaram, no dia seguinte às suas famosas sagrações, das quais eles tinham consciência de que lhes valeriam as mais violentas incompreensões e represálias de seus juízes, terem acabado sua epopéia. Tanto para um como para a outra, a sagração, seja de um rei ou de quatro bispos, é o instante por excelência para o qual convergem suas admiráveis missões. E de suas cavalgadas, seus destinos e sua fidelidade ao plano de Deus, ninguém compreendeu nada e ninguém compreenderá jamais, se não tiver percebido que eles são voltados inteiramente para essas sagrações salvadoras.

O gênio deles ou sua santidade, o selo da inspiração divina como o símbolo de sua indomável determinação, não se manifesta, em toda sua amplitude, senão na hora dessas sagrações vitoriosas. Sua missão se encerra e culmina nessas sagrações, que valeram a uma e valerão um dia ao outro, muito mais que qualquer outro ato de suas vidas, a declaração da heroicidade de suas virtudes e que os tornam, um e outra, tão teologicamente próximos! É encantador ver, aliás, até que ponto as reflexões dos melhores biógrafos e hagiógrafos de Joana esclarecem também a vida de nosso fundador.

Ora, em 1456, a leitura da reabilitação de Joana foi feita em todas as grandes cidades do reino da França. De nossa parte, esperamos pacientemente a hora (e estamos firmemente convencidos de que ela virá) em que cada bispo de nosso país, cada um em sua catedral, será convidado a anunciar que as pretensas sanções levantadas contra nossos bispos, na realidade, jamais existiram. Muito pelo contrário, que Dom Lefebvre, por sua coragem em 30 de junho de 1988, rendeu um notável serviço à Igreja. Antes disso, eles terão, é claro, cada um em seu bispado, estourado um champanhe, ou pela sagração de Reims ou pelas sagrações de Ecône, para festejar essa reparação! Queiram nos perdoar a pequena ironia – que aliás nem é necessariamente uma ironia! – de ter imaginado essa divertida cena.

Como quer que seja, nós gostaríamos de convidar cada um a refletir sobre a luz que fornece a obtenção da primeira condição prévia. A Fraternidade pediu e agora ela obteve. Isso teria sem dúvida sido concedido antes, se ela tivesse sido mais vigorosamente imitada e apoiada em seu pedido e em sua oração. Hoje, ela começou uma segunda oração e um segundo pedido – não para pedir o levantamento das excomunhões! – mas para requerer a retirada do vergonhoso decreto.


Ninguém deve pensar que esse segundo pedido só interessaria desta vez – diferentemente do primeiro – exclusivamente aos membros e aos fiéis da Fraternidade! Em primeiro lugar porque todos e cada um de nós devem estar implicados, quando se trava um combate a serviço da verdade e da justiça. Em seguida e principalmente, porque a obtenção da segunda condição prévia abrirá, enfim, oficialmente, o debate tão esperado dessas questões graves e decisivas que o Concílio coloca à consciência católica.

Possam os católicos contemporâneos não passar a vergonha de ter de confessar, tarde demais, que só entraram na batalha após a vitória alcançada, por falta, certamente, de ter tido a coragem de enfrentar o consenso para levantar a capa do “religiosamente correto”. Será muita pena, tanto mais que se torna fácil, hoje em dia, sentir que o vento está começando a virar e farejar o fim que vai ter esse caso!

O carrasco de Joana, após ter acendido o fogo que devia queimá-la viva, gritou: “Estamos perdidos: queimamos uma santa”.  Nós nos perguntamos se as pessoas mais secretamente confusas não serão, um dia, aquelas que quiseram se obstinar em crer ou fazer de conta que crêem, nessas “excomunhões” e que, com uma voz grave e penalizada, mandam, ainda hoje, rezar pelo seu levantamento e pelo retorno dos cismáticos ao aprisco da Igreja. Quem será o último a dizer que acredita nisso ainda?

Quanto à Fraternidade, ela continua, tão pacificamente quanto é possível avançar pacificamente em meio a uma tempestade, a seguir sua rota. Com ou sem a retirada do decreto das excomunhões, ela se encontra ainda mais resoluta a não baixar os braços e a não assinar com Roma “um acordo entre a água e o fogo”, pelo fato de sua providencial estratégia ter sido reconhecida e escolhida e estar mesmo começando a dar frutos.

Com a graça de Deus, ela passará, neste ano de 2009, a fronteira de quinhentos membros padres. Na França, ela tem a alegria de anunciar-lhes, após a benção da nova igreja construída no coração da cidade de Rouen, a abertura, para este novo ano, de dois novos lugares de culto na região parisiense, um em plena cidade de Paris, o outro perto de Meaux, e tem esperança, na próxima volta às aulas, de abrir um priorado em Rouen e uma nova escola primária em Brest.

Para o progresso de nosso apostolado, nós lhes agradecemos, de todo coração, suas orações e seu apoio. Nós devemos, em toda parte, continuar a construir tudo sozinhos, pois os lugares de culto nos serão sempre recusados. Na medida em que se amontoam cada vez mais os escombros do Concílio, parece, com efeito, que os bispos, ao invés de tentar se livrar deles, preferem se deixar igualmente sepultar com o que subsiste de suas dioceses.

Não nos queixamos de pagar caro nossa liberdade de palavra e de confissão da fé. Mas é um fato, de que se deve ter consciência clara, que enquanto as igrejas vazias permanecem obstinadamente fechadas – como em Amiens – e que nós temos que pagar, até o último centavo, cada metro quadrado de nossas instalações e cada pedra de nossas construções, que o combate da fé só se manteve, miraculosamente, e continua, graças a esse ostracismo e a essa imensa precariedade aos quais nós continuamos confrontados.

Mais do que nunca, a fim de intensificar nossa resistência e a fim de propagar a fé, nós temos necessidade de sua ajuda. Nós lhe agradecemos esse apoio indispensável para que nós possamos sempre mais desenvolver nosso apostolado para a glória de Deus, para a salvação das almas, para que a fé seja transmitida a nossos filhos e que não desapareça de nosso país.  Santa Joana o disse e viveu: “É preciso fazer o que se deve quando Deus quer. Façamos a nossa parte que Deus fará a d’Ele”.

Caros amigos e benfeitores, nesse começo do ano de 2009, cheios de uma invencível certeza de que a hora de Deus e do triunfo de sua justiça está para vir, eu lhes apresento meus votos de que enraizados no combate da fé, nós continuemos a combater, todos juntos e até o fim, no cadinho das virtudes cristãs e no Coração Doloroso e Imaculado da Santíssima Virgem Maria.

Votos de 2009 aos fiéis

Suresnes, 31 de Dezembro de 2008

Abbé Régis de Cacqueray-Valménier, Superior Distrito da  França da FSSPX


Para citar este texto:
Abbé Régis de Cacqueray-Valménier - "De uma condição prévia à outra"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=fraternidade-vaticano&lang=bra
Online, 22/01/2009 às 18:40h

sábado, 10 de janeiro de 2009

Terceiro segredo de Fátima: Uma contradição

 

Acompanhamos pela Mídia comoções gerais provocadas por supostas manifestações de Nossa Senhora. Multidões se deslocam para ver santa que chora mel, aparece em janelas, escreve em folhas, etc. Causa me espanto não observar o mesmo em relação ao famoso Terceiro Segredo de Fátima. É muito mais importante ouvir o que Nossa Senhora tem a nos dizer através dos três Pastorinhos, do que ver uma Santa que chora mel ou aparece em janelas.

O Concílio Vaticano II, trouxe um conceito novo a Igreja, o do chamado "Povo de DEUS". Desde então nos textos e falas das autoridades eclesiásticas, existe uma exaltação e uma disposição em se servir o " Povo de DEUS". É dificíl entender como estas mesmas autoridades, que exaltam e servem o "Povo de DEUS", neguem-lhe o direito fundamental de saber tudo, o que Nossa Senhora revelou aos três pastorinhos em Fátima.

Os dois primeiros segredos de Fátima* foram publicados 4 anos antes do término da segunda guerra mundial (1941). Resumidamente, o primeiro segredo tratava das almas e o segundo das nações. O terceiro segredo, deveria ter sido publicado em 1960, por ordem de Nossa Senhora e foi publicado parcialmente apenas em 13 de maio do ano 2000, pelo Cardeal Ãngelo Sodano. Como era previsto, o terceiro segredo, tratava sobre a Igreja, mas a parte que foi publicada não apresenta a mesma claridade dos dois primeiros segredos. O que demonstra que ele não foi publicado na íntegra!

Evidentemente, "os profetas de desgraças" (como se referiu João XXIII aos Três pastorinhos no discurso de abertura do Concílio Vaticano II) profetizaram alguma desgraça que ocorreria na Igreja. A existência dessa desgraça, é evidente em discursos do Papa Paulo VI. No discurso de 7 de Dezembro de 1968, ele dirá:

" A igreja atravessa, hoje, um momento de inquietação. Alguns se exercem na auto crítica, dir-se-ia que até na auto demolição. É como se houvesse um revolvimento interior agudo e complexo, que ninguém teria esperado depois do Concílio. Pensava-se que haveria um florescimento, uma expansão serena dos conceitos amadurecidos na grande assembléia conciliar. Existe também esse aspeto na Igreja, existe o florescimento, mas... nota-se mais ainda o aspeto doloroso. A Igreja é golpeada também por quem faz parte dela". (Paulo VI, Dicurso em 7 de Dezembro de 1968)

Em outros discursos:

" Por alguma brecha a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus: existe a dúvida, a incerteza, a problemática, a inquietação, o confronto. Não se tem mais confiança na Igreja; põe-se confiança no primeiro profeta profano que nos vem falar em algum jornal ou em algum movimento social, para recorrer a ele pedindo-lhe se ele tem a fórmula da verdadeira vida. E não advertimos, em vez disso, sermos nós os donos e os mestres [dessa fórmula]. Entrou a dúvida nas nossas consciências, e entrou pelas janelas que deviam em vez disso, serem abertas à luz...". " Também na Igreja reina este estado de incerteza. Acreditava-se que, depois do Concílio, viria um dia de sol para a história da Igreja. Em vez disso, veio um dia de nuvens, de tempestade, de escuridão, de busca, de incerteza. Pregamos o ecumenismo, e nos distanciamos sempre mais dos outros. Procuramos cavar abismos em vez de aterrá-los. Como aconteceu isso ? Confiamo-vos um Nosso Pensamento: houve a intervenção de um poder adverso. Seu nome é o Diabo" (Paulo VI, Discurso em 29 de Junho de 1972)

Auto-demolição, nuvens e a fumaça de satanás, indicam a presença de um castigo na Igreja, a "desgraça", nas palavras de João XXIII. Sabemos qual a causa do castigo das almas e das nações, mas a parte publicada do terceiro segredo, não revela a causa do castigo da Igreja e muito menos algum meio para suavizá-lo, como nos dois primeiros segredos. Portanto falta alguma coisa que temos o direito de saber para fazermos aquilo que Nossa Senhora pediu. Desconfia-se que essa parte que falta, seja uma proibição a convocação de um Concílio, a mudança da teologia e da litúrgia católica. Talvez seja essa a razão pela qual tanta Cautela na publicação em relação ao terceiro segredo, por parte das autoridades eclesiásticas.

Todo católico tem o dever de cobrar aos Padres, Bispos, Cardeais e ao Papa, o direito fundamental de saber a mensagem de Fátima na íntegra. As autoridades que desejam servir o "Povo de DEUS", não podem continuar negando ao mesmo povo que pretende servir, este direito fundamental de todo Católico. Publiquem o segredo, não neguem aos filhos o direito de ouvir e obedecer a mãe!

* O conteúdo dos segredos podem ser lidos no artigo "Fátima: um "segredo" contendo um enigma envolto em um mistério" (http://www.montfort.org.br/index.php?secao=cadernos&subsecao=religiao&artigo=fatima3&lang=bra#fatima2).

terça-feira, 22 de julho de 2008

Considerações acerca das "Considérations sur la France" de Joseph de Maistre




Paulo Miranda



Se porventura indagarmos quem foi Joseph de Maistre a certos católicos conservadores, ouviremos extenso laudatório. De Maistre teria sido, talvez, um dos maiores católicos ultramontanos, ardoroso inimigo da Revolução Francesa, vibrante defensor da Igreja e do Papado.

Eis o rótulo.

Se, não nos contentando com isso, desejarmos passar ao conteúdo, certamente ficaremos perplexos. A leitura das obras do conde saboiano surpreende pela flagrante incongruência entre seu renome de contra-revolucionário e a diametral oposição de muitas de suas teses aos interesses e à doutrina da Igreja.

Mas não é só. Perplexidade talvez ainda mais aguda nos causará a verificação da ingenuidade daqueles que, encantados pelo brilho do invólucro, aceitam cegamente o que ele reveste. Ainda que desse modo se lhes esteja inoculando o pior dos venenos.

Tal é o pensamento que vem à mente de quem estuda as obras de De Maistre, particularmente Considérations sur la France (1795), sobre a qual Veritas oferece hoje a seus leitores um comentário.

Para tanto, valemo-nos da edição da Librairie Catholique Emmanuel Vite, Lyon, 1924.



A honra ou a vida?

Uma pequena introdução de caráter histórico se impõe.

Em 1795, quando foram publicadas pela primeira vez as Considérations sur la France, o movimento católico chouan, que se rebelara contra a Revolução Francesa, sofria terrível derrota na batalha de Quiberon.

Apesar disso, não estava ainda definitivamente vencido. Dois anos mais tarde, Sotin, o terrível ministro da polícia revolucionária, escreveria: "Mantenhai-vos firmes, sobretudo, para que a chouanerie não reerga a cabeça. Se ela reaparecesse hoje, ela mataria a República" (G. de Cadoudal, Georges de Cadoudal et la Chouannerie, Éditions Saint Michel, 1971, pág. 181).

O que faltou para que o pujante movimento contra-revolucionário camponês obtivesse vitória? Não há dúvida de que a história poderia ter tomado rumo diverso se ele tivesse recebido apoio decidido da nobreza francesa, e se não tivesse sido traído por certos elementos do Clero.

No ano de 1797, Georges de Cadoudal, o último dos grandes líderes chouans, viajou à Inglaterra na tentativa de convencer o Conde d’Artois, irmão de Luís XVI, a retornar à França e comandar pessoalmente, com grandes chances de sucesso, uma ofensiva contra-revolucionária.

A gestão de Cadoudal redundaria em total fracasso. Era mais cômodo, para a nobreza, continuar a gozar dos confortos oferecidos pelo exílio e deixar a França à própria sorte.

Indagado por um nobre se ele poderia garantir a vida do Conde d’Artois caso este aceitasse sua proposta, o general chouan foi sincero: "A vida não, mas a honra".

De fato, tal era a opção que se apresentava aos nobres. Cabia arriscar suas vidas lutando pelo restabelecimento da monarquia, ou nada fazer, sacrificando sua honra.

Poucos seguiram o primeiro caminho. Alguns, pelo contrário, chegaram a aderir aos princípios da Revolução que lhes confiscara os bens e forçara o exílio ou condenara à morte: "Eu te asseguro que já sou quase democrata, e estou farta até as orelhas de reis e de imperadores", não temia escrever a princesa Louise de Condé a seu pai (Ghislain de Diesbach, Histoire de l’Émigration, B. Grasset, Paris, 1975, pág. 25).

A maioria dos nobres permaneceu inativa. "Coisa estranha", observa Louis Madelin, "os que se mostravam menos perturbados eram aqueles que, aparentemente, a Revolução atingia com mais crueldade: os nobres. Havia nessas amáveis pessoas um fundo de despreocupação (...). O que mais surpreende, é o fatalismo sereno com o qual as próprias vítimas aceitavam ser aprisionadas" (Louis Madelin, La Révolution, Hachette, Paris, 1933, págs. 114/115).

Contudo, a consciência provavelmente pesava a muitos. Afinal, saber que pobres camponeses davam suas vidas pela causa da Igreja e do Trono, e, diante disso, cruzar os braços, não era atitude que se pudesse suportar por muito tempo. A Revolução corria o risco, portanto, de que tais nobres, despertos de seu torpor, se dispusessem a lutar.

Portanto, a República tinha dois inimigos a combater: os chouans e a consciência dos nobres.

Quanto aos primeiros, era preciso "metralhar sem escrúpulo, prender à primeira suspeita concebida e fazê-los desaparecer", como recomendava Sotin a seus comandados.

Em relação aos nobres emigrados, o método podia ser mais suave. Bastava encontrar uma fórmula que lhes apaziguasse as consciências, mantendo-os na doce inatividade. Encontrar uma saída pretensamente católica que os fizesse crer na legitimidade de seu ócio. Que lhes permitisse, enfim, conciliar vida e honra.

Dos chouans daria conta o exército revolucionário. A segunda tarefa, mais sutil e talvez ainda mais nefasta, seria em grande parte cumprida por um insuspeito contra-revolucionário: o conde Joseph de Maistre.



A "Divindade" conduz a revolução satânica

"Há na revolução francesa um caráter satânico que a distingue de tudo o que já foi visto e talvez de tudo o que se verá" (Cons., pág. 55).

A frase tornou-se célebre, e bastou para consagrar as Considérations sur la France como obra contra-revolucionária.

Se a revolução francesa era satânica, qual a atitude normal do católico diante dela? O combate, naturalmente.

Engano. A lógica de De Maistre não condiz com a lógica comum. Segundo ele, combater a revolução era contrariar os planos da Providência, conforme veremos adiante.

Para o conde, havia na revolução "uma força avassaladora que faz curvarem todos os obstáculos"; ela "conduz os homens, mais do que os homens a conduzem" (Cons., pág. 4).

Eis como ele desenvolve sua tese: "Os próprios celerados que pareciam conduzir a revolução dela tomaram parte apenas como simples instrumentos". Robespierre, Collot ou Barrère "não pensaram em estabelecer o governo revolucionário e o regime do terror; eles foram conduzidos a isso insensivelmente pelas circunstâncias, e jamais se tornará a ver algo semelhante" (Cons., pág. 5). Tudo deu certo para eles, "porque eles eram apenas os instrumentos de uma força que conhecia mais do que eles" (Cons., pág. 6).

Mas o que seria essa "força avassaladora", da qual os líderes da revolução eram simples instrumentos? Certamente - pensará o leitor - a força satânica a que se refere De Maistre.

Novo engano. "Diz-se muito bem, quando se afirma que ela (a revolução) caminha sozinha: essa frase significa que jamais a Divindade se mostrou de uma maneira tão clara em nenhum acontecimento humano. Se ela emprega os instrumentos mais vis, é porque ela pune para regenerar" (Cons., pág. 7 - grifo nosso).

Portanto é essa "Divindade" que conduz essa revolução de caráter satânico, empregando instrumentos vis - os próceres revolucionários.

Esse é apenas o primeiro de uma série de paradoxos que infestam a obra.



O jacobinismo, "único meio de salvar a França"

Se a revolução era o meio de atuação da "Divindade", combatê-la seria contrariar o próprio Deus. Tal é a conclusão que se impõe, e De Maistre não hesita em confirmá-la: foi a Providência quem impediu o triunfo das forças contra-revolucionárias, cuja vitória teria conseqüências funestas.

Com ele a palavra:

"Se apenas a força tivesse operado aquilo que se chama a contra-revolução e recolocado o rei sobre o trono, não teria havido meio de fazer justiça" (Cons., pág. 13).

Para argumentar, o autor arquiteta uma hipótese:

"Transportemo-nos à época mais terrível da revolução; suponhamos que, sob o governo do comitê infernal, o exército, por uma súbita metamorfose, se tornasse de repente realista; suponhamos que ele convocasse suas assembléias primárias e que nomeasse livremente os homens mais esclarecidos e estimáveis para lhe traçar a rota a ser seguida nessa situação difícil; suponhamos, enfim, que um desses eleitos do exército se erguesse e dissesse: ‘Bravos e fiéis guerreiros, há circunstâncias em que toda a sabedoria humana se reduz a escolher entre diferentes males. É duro, sem dúvida, combater em favor do comitê de salvação pública, mas haveria algo ainda mais fatal: seria voltar nossas armas contra ele. No instante em que o exército se imiscuir na política, o Estado será dissolvido, e os inimigos da França, aproveitando esse momento de dissolução, a penetrarão e dividirão. Não é para o momento atual que nós devemos agir, mas para a continuação dos tempos: trata-se sobretudo de manter a integridade da França, e nós somente podemos fazê-lo combatendo em favor do governo, qualquer que seja ele" (Cons., págs. 16 e 17).

Como - perguntamos - deveria ser recebida tal proposta pelos católicos contra-revolucionários? Poderiam tais sofismas encontrar guarida? Afinal, já não estava dividida a França pela revolução, se não em seu território, em seu povo e em sua Fé? Poderiam os católicos, a pretexto de manter aquela artificial integridade territorial, juntar suas forças às do governo assassino, que derrubara Igreja e trono, inundando de sangue o solo francês?

Não. Sem dúvida, o autor de tal discurso seria repelido pelos católicos não acovardados como vil traidor.

Não é o que pensava De Maistre: "Esse homem", diz ele, "teria falado como grande filósofo" (Cons., pág. 17). E ele continua: "Se pensarmos bem, veremos que, uma vez estabelecido o movimento revolucionário, a França e a monarquia somente poderiam ser salvas pelo jacobinismo" (Cons., pág. 17). O poder revolucionário, em sua visão, "era ao mesmo tempo um castigo terrível para os franceses e o único meio de salvar a França" (Cons.,pág. 18).

A História, como já era previsível, negou-lhe razão. Tragicamente.

De Maistre, a pretexto de patriotismo, não poupa os contra-revolucionários:

"O que pediam os realistas, quando pediam uma contra-revolução tal como eles a imaginavam, quer dizer, feita bruscamente e pela força? Eles pediam a conquista da França, e portanto sua divisão, o aniquilamento de sua influência e o aviltamento de seu rei, ou seja, massacres talvez de três séculos, como conseqüência infalível de uma tal ruptura de equilíbrio" (Cons., pág. 18).

Linhas escritas por um falso contra-revolucionário, não apenas contra nobres, mas também contra camponeses católicos que, nada possuindo além de sua Fé, tomaram rudes armas para, desordenadamente, defender a Igreja e o Trono. Linhas que, a pretexto de falso patriotismo, apaziguavam consciências de omissos. Linhas assassinas, responsáveis pelo massacre de milhares de católicos franceses.



Bons frutos da má árvore

O otimismo de De Maistre não conhece limites. Profeticamente, o conde vislumbra resultados maravilhosos da revolução satânica. Para demonstrá-las, ele não hesita lançar mão de paradoxos, por mais irrazoáveis que sejam.

Aliás, ele não deixa de advertir quanto a isso: "Povo francês, não escute os raciocinadores; raciocina-se demais na França, e o raciocínio está banindo dela a razão. Entrega-te sem temor e sem reservas ao instinto infalível de tua consciência" (Cons., pág. 111).

Vê-se bem que De Maistre seguia à risca seu próprio conselho, entregando-se a esse estranho "instinto infalível".

Entre os excelentes resultados da revolução, o ultramontano conde vislumbra o ecumenismo:

"Era necessário, provavelmente, que os padres franceses fossem mostrados às nações estrangeiras; eles viveram entre nações protestantes, e essa aproximação diminuiu muito os ódios e preconceitos. A emigração considerável do clero, e particularmente dos bispos franceses, para a Inglaterra, me parece sobretudo uma época notável. Seguramente, ter-se-ão pronunciado palavras de paz! Seguramente, ter-se-ão formado projetos de aproximação durante essa reunião extraordinária! Ainda que não se tenha senão desejado em conjunto, isso já seria muito" (Cons., págs. 22/23).

Comovente, sem dúvida. Com essa demagogia, nosso tradicionalista poderia ser, hoje, presidente do Conselho Mundial das Igrejas.

Mas o ecumenismo é apenas uma das conseqüências benéficas da revolução descobertas por De Maistre:

"Todos os monstros que a revolução concebeu trabalharam apenas, segundo as aparências, em favor da realeza. Através deles, o brilho das vitórias forçou a admiração do universo, e envolveu o nome francês de uma glória da qual os crimes da revolução não puderam despojar inteiramente; por eles, o rei voltará ao trono com todo seu brilho e todo o seu poder, talvez mesmo com um acréscimo de poder" (Cons.,pág. 19).

"Qui habitat in coelis irridebit eos". A história demonstra o ridículo dessas palavras.

Entusiasmado, De Maistre prodigaliza sua estranha lógica:

"Se desejarmos conhecer o resultado provável da revolução francesa, basta examinar em que todas (as facções revolucionárias) desejaram o aviltamento, a própria destruição do cristianismo universal e da monarquia; de onde se deduz que todos os seus esforços redundarão apenas na exaltação do cristianismo e da monarquia" (Cons., pág. 117, o estranho destaque é do original).

Eis a árvore má a produzir bons frutos!



Que fazer? Nada fazer.

Ante tão belas perspectivas, que atitude tomar?

De Maistre responde: "Essa mesma idéia, que tudo se faz em vantagem da monarquia francesa, me convence de que qualquer revolução realista é impossível antes da paz; pois o restabelecimento da realeza deteria subitamente todos os recursos do Estado" ( p. 19). "Entretanto, parece sempre mais vantajoso para a França e para a monarquia que a paz, e uma paz gloriosa para os franceses, se faça pela república" (p.20).

Assim, De Maistre aconselha a nobreza a esperar a "paz gloriosa pela república". Enquanto isso, devia ela, segundo suas palavras, "curvar a cabeça e resignar-se. Um dia ela deverá abraçar de bom grado filhos que ela não carregou em seu seio; esperando, ela não deve mais fazer esforços exteriores; talvez mesmo fosse desejável que jamais a tivessem visto em uma atitude ameaçadora" (p. 151).

Nada mais cômodo.

***

Assim pensava Joseph de Maistre. Surpreende que, passados dois séculos, continue ele a gozar do renome de grande católico contra-revolucionário.

À sua revelia, é preciso reconhecer, pois ele se afirma "estranho a todos os sistemas, a todos os partidos, a todos os ódios, por caráter, por reflexão, por posição" (p. 183).

Essa derradeira mentira talvez seja a maior contida na obra. Pois por detrás da falsa neutralidade de De Maistre, ou de seu falso prestígio de católico contra-revolucionário, existia, sim, um sistema e um partido. E existia, sim, muito ódio.

O mesmo sistema, o mesmo partido e o mesmo ódio que levaram, mais tarde, o mundo a assistir impassível à gradual descristianização dos povos. Que não permitiu houvesse uma forte reação contra-revolucionária entre os católicos, a pretexto de não dividi-los. Que tem auxiliado a caminhada revolucionária até nossos dias, acalentando a inanição e a pusilanimidade de muitos daqueles que deveriam ser seus maiores opositores.



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Para citar este texto:
Paulo Miranda - "Considerações acerca das "Considérations sur la France" de Joseph de Maistre"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=consideracoes&lang=bra
Online, 22/07/2008 às 20:02h

quinta-feira, 19 de junho de 2008

O heroísmo da Vendéia

O heroísmo da Vendéia


Após três meses de suplícios, a religião tendo sido proscrita e o Rei, imolado, surge uma exigência para que o Departamento da Vendéia se filie à corrente sediciosa, a fim de dar suporte à Revolução que se transformou em tirania. Este Departamento, que fora ligado a Jesus e a Maria por São Luís-Maria Grignion de Montfort, se revolta.


No dia 13 de março de 1793, Jacques Cathalineu toma a decisão de ir à luta. Vinte homens armados o aclamam chefe. "Sem mais esperar, Jacques prende na sua botoeira o Sagrado Coração de Jesus que costumava utilizar quando em peregrinação, pendura o rosário no cinto e dá o sinal de partida com um tiro de pistola. A grande guerra da Vendéia teve início." Simples almocreve e vendedor ambulante, sem estudos, sabendo apenas ler, deixa a esposa com seis crianças, dizendo: "Tenha confiança; Deus, para quem eu vou lutar, cuidará desses inocentes."




O marquês de Bonchamps continua na resistência e previne seus camponeses: "Pode ser que a Revolução vos poupe e que se contente em aniquilar a nobreza e o clero, deixando-vos tranqüilos com as vossas famílias. Refleti!"
"- Senhor Marquês - respondem-lhe, logo pela manhã -, nós passamos a noite em oração e eis o que decidimos: lutaremos para defender e vingar a nossa fé, o nosso rei, o clero e a nobreza.
- Mas, meus amigos - lhes diz Bonchamps -, na posição em que vos encontrais, nada conseguireis!
- Muito bem! Nós morreremos por Deus e por nosso Rei!...
- Então, estais prometendo que jamais abandonareis a vossa causa?
- Sim! - gritaram todas as vozes. - Nós juramos que jamais abandonaremos a nossa causa.
- Muito bem; agora, para aceitar, só me resta colocar a seguinte condição - conclui Bonchamps: - que vós jamais vos abandonareis às crueldades que ensangüentam as guerras civis."
Os camponeses juraram agir assim.
Então, virando-se para a sua esposa, despediu-se com esta frase: "Adeus, senhora, não aspiremos às recompensas da Terra. Estas estariam muito abaixo da santidade da nossa causa."

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Lamentabili Sine Exitu
Papa S. Pio X
(DECRETO "LAMENTABILI")
Decreto do Papa S. Pio X sobre os erros do "Modernismo"


Das proposições dos modernistas condenadas pela Igreja Decreto da Sagrada Inquisição Romana e Universal3 de julho de 1907

Autoridade das decisões doutrinais da Igreja
Sagrada Escritura
Filosofia Religiosa da Nova Escola
Cristologia de Loisy
Origem dos Sacramentos
Nova teoria sobre a Igreja
Evolucionismo absoluto e ilimitado

Quarta-feira, 3 de julho de 1907.

Com êxito verdadeiramente Lamentável, a nossa idade, desmandando-se no indagar as razões supremas das coisas, vai não raras vezes atrás de novidades por tal forma, que deixa de parte o que é como herança do gênero humano, para se precipitar em erros gravíssimos. Erros esses que serão muito mais perniciosos, quando se trata das ciências sagradas, ou da interpretação da Sagrada Escritura, ou dos principais mistérios da fé.

E é para lamentar profundamente que também entre os católicos se encontrem não poucos escritos que, ultrapassando os limites demarcados pelos santos Padres e pela própria Santa Igreja, a pretexto de mais elevados conhecimentos e em nome de considerações históricas, procuram esse progresso dos dogmas, que, na realidade, não é senão a sua corruptela.

Para impedir que esses erros, que todos os dias se vão difundindo entre os fiéis, criem raízes em seus corações e corrompam a sinceridade de sua fé, aprouve a nosso Santíssimo Padre por divina providência Papa Pio X que, por ofício desta Sagrada Inquisição Romana e Universal, fossem notados e condenados os principais dentre esses erros.

Por isso, depois de diligentíssimo exame e do parecer prévio dos Reverendos Senhores Consultores, os Eminentíssimos e Reverendíssimos Senhores Cardeais, Inquisidores Gerais em matéria de fé e de costumes, julgaram que deviam ser condenadas e proscritas, como de fato ficam condenadas e proscritas as seguintes proposições:

AUTORIDADE DAS DECISÕES DOUTRINAIS DA IGREJA

1. A lei eclesiástica, que manda submeter à prévia censura os livros que tratem das Divinas Escrituras, não se estende aos cultores da crítica e da exegese científica dos Livros do Antigo e do Novo Testamento.

2. A interpretação dada pela Igreja aos Livros Sagrados, conquanto se não deva desprezar, está todavia sujeita a mais apurado juízo e a correção dos exegetas.

3. Pela sentenças e censuras eclesiásticas fulminadas contra a exegese livre e mais adiantada, pode se concluir que a fé proposta pela Igreja está em contradição com a história e que os dogmas católicos não podem realmente harmonizar-se com as verdadeiras origens da religião cristã.

4. O magistério da Igreja não pode determinar o sentido genuíno das Sagradas Escrituras, nem mesmo por meio de definições dogmáticas.

5. Visto que no depósito da fé se contêm somente as verdades reveladas, não compete a Igreja, sob nenhum respeito, proferir juízo sobre as asserções das ciências humanas.

6. Na definição de verdades, a Igreja discente e a docente colaboram de tal modo, que nada mais resta à Igreja docente senão sancionar as conjecturas comuns da discente.

7.A Igreja, quando proscreve erros, não pode de maneira nenhuma exigir que os fiéis aceitem seus juízos com assentimento interno.

8. Devem ser considerados imunes de toda culpa os que nenhum caso fazem das condenações proferidas pela Sagrada Congregação do Índice, ou pelas outras Sagradas Congregações Romanas.

SAGRADA ESCRITURA

9. Demasiada simplicidade ou ignorância revelam os que crêem que Deus é verdadeiramente o autor das Sagradas Escrituras.

10. A inspiração do livros do Antigo Testamento consistiu em terem os escritores israelitas ensinado doutrinas religiosas sob um aspecto peculiar, desconhecido ou pouco conhecido dos pagãos.

11. A inspiração divina não se estende a toda Sagrada Escritura a ponto de preservar de todo erro todas e cada uma de suas partes.

12. O exegeta, se quiser aplicar-se com proveito aos estudos bíblicos, deve antes de tudo abstrair de qualquer opinião preconcebida sobre a origem sobrenatural da Sagrada Escritura e interpretá-la do mesmo modo que os outros documentos meramente humanos.

13. Foram os próprios Evangelistas e os cristãos da segunda e terceira geração, que artificiosamente elaboraram as parábolas evangélicas e assim deram a razão do pouco fruto da pregação de Cristo entre os judeus.

14. Em diversas narrações, os Evangelistas referiram não tanto o que era verdade, quanto o que, embora falso, julgaram ser mais proveitoso a seus leitores.

15. Os Evangelhos sofreram continuas adições e correções até que fosse estabelecido e constituído o cânon definitivo; portanto, da doutrina cristã não subsiste neles senão um vestígio vago e incerto.

16. As narrações de São João não são propriamente história, são uma contemplação mística do Evangelho; os discursos contidos em seu Evangelho são meditações teológicas sobre o mistério da salvação, destituídas de verdade histórica.

17. O quarto Evangelho exagerou os milagres não só para que eles parecessem mais extraordinários, como também para que se tornassem mais aptos para revelar a obra e a glória do Verbo Encarnado.

18. É certo que João reivindica para si o caráter de testemunha de Cristo; na realidade, porém, ele foi apenas uma excelente testemunha da vida cristã, ou da vida de Cristo na Igreja, nos fins do primeiro século.

19. Os exegetas heterodoxos interpretaram o verdadeiro sentido das Escrituras com mais fidelidade que os exegetas católicos.

FILOSOFIA RELIGIOSA DA NOVA ESCOLA

20. A revelação não podia consistir em outra coisa, senão em ter o homem adquirido consciência de sua relação para com Deus.

21. A revelação, que constitui o objeto da fé católica, não se completou com os Apóstolos.

22. Os dogmas que a Igreja apresenta como revelados não são verdades caídas do Céu; são uma certa interpretação de fatos religiosos que a inteligência humana logrou alcançar à custa de laboriosos esforços.

23. Pode existir e realmente existe oposição entre os fatos relatados na Sagrada Escritura e os dogmas da Igreja que nele se baseiam; de modo que o crítico pode rejeitar, como falsos, fatos que a Igreja crê como certíssimos.

24. Não deve ser condenado o exegeta que estabelece premissas, das quais se segue que os dogmas são historicamente falsos ou duvidosos, contanto que ele não negue diretamente os mesmos dogmas.

25. O assentimento da fé, em última análise, baseia-se num acervo de probabilidades.

26. Os dogmas da fé devem ser considerados somente segundo o sentido prático, isto é, como norma de proceder e não como norma de crer.

CRISTOLOGIA DE LOISY

27. A divindade de Jesus Cristo não se prova pelos Evangelhos; é um dogma que a consciência cristã derivou da noção do Messias.

28. Jesus, quando exercia seu ministério, não falava com o intuito de ensinar que era o Messias, nem os seus milagres tinham por fim demostrá-lo.

29. Pode conceder-se que Cristo, tal como história o representa, é muito inferior ao Cristo, objeto da fé.

30. O nome de Filho de Deus, em todos os textos evangélicos, equivale somente ao nome de Messias; não significa, porém, que Cristo seja Filho verdadeiro e natural de Deus.

31. A doutrina sobre Cristo, que ensinada por S. Paulo, S. João e pelos Concílios de Nicéia, de Éfeso e de Calcedônia, não é a ensinada por Jesus; é a que a consciência cristã ideou a respeito de Jesus.

32. O sentido natural dos textos evangélicos é inconciliável com o que ensinam os nossos teólogos sobre a consciência e ciência infalível de Jesus Cristo.

33. É evidente para quem se não deixa levar por preconceitos que, ou Jesus professou o erro acerca do próximo advento do Messias, ou não tem autenticidade a maior parte de sua doutrina, contida nos Evangelhos Sinóticos.

34. O crítico não pode atribuir a Cristo uma ciência inteiramente ilimitada senão na hipótese, inconcebível historicamente e que repugna ao senso moral, isto é, de ter Cristo, possuído como homem a ciência de Deus, e no entanto, não ter querido comunicar a seus discípulos e à posteridade o conhecimento de tantas coisas.

35. Nem sempre Cristo teve consciência de sua dignidade messiânica.

36. A ressurreição do Salvador não é propriamente um fato de ordem histórica, mas de ordem meramente sobrenatural que não foi demostrado, nem é demonstrável, e que a consciência cristã insensivelmente deduziu de outros fatos.

37. A fé na ressurreição de Cristo consistia a princípio não tanto no próprio fato da ressurreição quanto na vida imortal de Cristo junto de Deus.

38. A doutrina sobre a morte expiatória de Cristo não é evangélica, mas somente paulina (de S. Paulo).

ORIGEM DOS SACRAMENTOS

39. As opiniões de que se achavam imbuídos os Padres de Trento, sobre a origem dos sacramentos, e que sem dúvida influíram em seus Cânones dogmáticos, estão muito distantes das que hoje sustentam os investigadores históricos do cristianismo.

40. Os sacramentos tiveram sua origem dos Apóstolos e seus sucessores que, por inspiração e impulso das circunstâncias e dos acontecimentos, interpretaram alguma idéia e intenção de Cristo.

41. Os sacramentos têm por fim único despertar na mente do homem a idéia da presença sempre benéfica do Criador.

42. A comunidade cristã introduziu a necessidade do batismo, adotando-o como um rito necessário e anexando-lhe as obrigações da profissão cristã.

43. A prática de conferir o batismo às crianças foi uma evolução disciplinar, que concorreu como uma das causas para que este sacramento se desdobrasse em dois, a saber: Batismo e Penitência.
44. Nada há que prove que o rito do sacramento da Confirmação tivesse sido usado pelos Apóstolos; ao contrário, a distinção formal do dois sacramentos, Batismo e Confirmação, não tem nenhuma relação com a história do cristianismo primitivo.

45. Nem tudo o que narra S. Paulo sobre a instituição da Eucaristia (1 Cor. 11, 23-25), pode ser aceito historicamente.

46. Não existia na Igreja primitiva o conceito do cristão pecador cristiano reconciliado pela autoridade da Igreja, mas só muito lentamente ela se afez a este conceito. Além disso, ainda mesmo depois que a Penitência foi reconhecida como uma instituição da Igreja, não se lhe chamava sacramento, porque seria tido como um sacramento infamante.

47. As palavras do Senhor: Recebei o Espírito Santo; os pecados que perdoardes, serão perdoados, e os que retiverdes serão retidos (João, 20, 22. 23), não se referem ao sacramento da Penitência, por mais que o tenham querido os Padres de Trento.

48. S. Tiago, em sua carta (5, 14. 15) não intentou promulgar nenhum sacramento de Cristo, mas de recomendar um pio costume; e se nesse costume ele vê talvez algum meio de graça, não o toma com o rigor com que o tomaram os teólogos que determinaram a noção e o número dos sacramentos.

49. A Ceia Cristã, assumindo a pouco e pouco a índole de cerimônia litúrgica, foi causa de que aqueles que tinham por costume presidi-la adquirissem o caráter sacerdotal.

50. Os anciãos, que exerciam o ministério da vigilância, nas assembléias cristãs, correspondia ou oficio de vigiar, foram instituídos pelos Apóstolos como presbíteros ou bispos para atender à organização necessária das crescentes comunidades, mas não propriamente para perpetuar a missão e poder dos Apóstolos.

51. O Matrimônio só muito tarde pôde tornar-se na Igreja sacramento da nova lei; pois, para que o matrimônio fosse considerado sacramento era necessário que precedesse uma completa explicação teológica sobre a doutrina da graça e dos sacramentos.

NOVA TEORIA SOBRE A IGREJA

52. Cristo não pensou constituir a Igreja como uma sociedade destinada a durar na terra por uma longa série de séculos; além disso, na mente de Cristo, o reino dos céus juntamente com o fim do mundo já deveria ter chegado.

53. A constituição orgânica da Igreja não é imutável; a sociedade cristã assim como a sociedade humana, está submetida a uma perpétua evolução.

54. Os dogmas, os sacramentos e a hierarquia, tanto em sua noção quanto em sua realidade, não passam de interpretações e evoluções do pensamento cristão que, por meio de incrementos externos, desenvolveram e aperfeiçoaram um pequeno germe que existia em estado latente no Evangelho.

55. Simão Pedro verdadeiramente nunca supôs que Cristo lhe confiara o primado na Igreja.

56. A Igreja Romana não por disposição da divina providência, mas em virtude de circunstâncias meramente políticas, tornou-se a cabeça de todas as Igrejas.

EVOLUCIONISMO ABSOLUTO E ILIMITADO

57. A Igreja mostra-se inimiga dos progressos das ciências naturais e teológicas.

58. A verdade não é mais imutável que o homem, pois que evolui com ele, nele e por ele.

59. Cristo não ensinou um determinado corpo de doutrina, aplicável a todos os tempos e a todos os homens; inaugurou em vez certo movimento religioso que se adapta, ou que deve ser adaptado aos diversos tempos e lugares.

60. A doutrina cristã, em seu princípio, foi judaica; mas, por sucessivas evoluções tornou-se primeiro paulina, depois joânica, e finalmente helênica e universal.

61. Pode-se dizer, sem paradoxo que nenhum capítulo da Escritura, desde o primeiro do Génesis até o último do Apocalipse, contém doutrina inteiramente idêntica à que sobre o mesmo ponto ensina Igreja; e por conseguinte nenhum capítulo da Escritura tem o mesmo sentido para o crítico e para o teólogo.

62. Os principais artígos do Símbolo dos Apóstolos não tinham a mesma significação entre os os cristãos dos primeros tempos do que a que tem entre os cristãos de nossos dias.

63. A Igreja se mostra incapaz de defender eficazmente a moral evangélica, porque adere obstinadamente a doutrinas imutávels que não podem conciliar-se com o progresso moderno.

64. O progresso das ciências exige que se reformem os conceitos da doutrina cristã sobre Deus, sobre a Criação, sobre a Revelação, sobre a Pessoa do Verbo Encarnado e sobre a Redenção.

65. O catolicismo atual não pode conciliar-se com a verdadeira ciência, a não ser que se transforme num cristianismo sem dogmas, isto é, num protestantismo amplo e liberal.

E na quinta-feira imediata, dia 4 do mesmo mês e ano, tendo-se feito de tudo isto minuciosa relação a nosso Ssmo. Padre o Papa Pio X, Sua Santidade aprovou e confirmou o Decreto dos Eminentíssimos Padres e mandou que todas e cada uma das proposições acima referidas fossem tidas por todos como condenadas e proscritas.

PEDRO PALOMBELLI

Notário da S. I. R. U.


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