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segunda-feira, 30 de março de 2009

Carta aberta do Pe. João Batista ao Papa Bento XVI.

 

Carta Aberta ao Santo Padre Bento XVI

Beatíssimo Padre.

Prostrado aos pés de Vossa Santidade, venho, respeitosamente, por meio desta, manifestar-lhe minha fidelidade incondicional na qualidade de sacerdote católico incardinado na Diocese de Anápolis.

Tenho acompanhado com tristeza e indignação todos os ataques dirigidos contra Vossa Santidade, verdadeiros atos de rebeldia, por parte de pessoas que perderam a fé católica ou se deixaram enredar por falsas doutrinas e, assim, são incapazes de avaliar com justeza as medidas prudentes e zelosas de Vossa Santidade com o intuito de promover o bem da Igreja e preservar a integridade da fé católica.

Desejaria dizer a Vossa Santidade que lhe sou particularmente grato pelo motu proprio Summorum Pontificum e pelo decreto de revogação das excomunhões declaradas em 1988 contra Mons. Marcel Lefèbvre, D. Antonio de Castro Mayer e os 4 bispos então consagrados.

Com a liberdade de um filho que confia em seu pai, devo dizer a Vossa Santidade que, tendo nascido em 1962 em uma diocese do interior do Estado São Paulo, assisti à degradação da vida espiritual católica promovida pela teologia da libertação e em nome do Concílio Vaticano II: igrejas destruídas e profanadas, a liturgia completamente dessacralizada, a educação católica, garantia da transmissão dos valores perenes, abolida com o fechamento de antigos colégios, porque se dizia serem apenas  instituições a serviço da  burguesia e contra as classes oprimidas. Um número incalculável de publicações  (cartilhas, panfletos, folhetinhos de missa) espalhou todos esses anos entre os católicos a grosseria, a  imoralidade e a heresia, de modo que se gerou um ambiente insuportável. É inútil e impossível mencionar todas as calamidades que se abateram sobre os católicos, e Vossa Santidade tem pleno conhecimento da realidade.

Digo isto apenas para confessar a Vossa Santidade que, se eu e minha família preservamos a fé católica, foi graças ao combate travado por sua S. Exa. Revma. Mons. Lefèbvre. Com efeito, verificamos que ele tinha razão em convocar os católicos para lutar contra tantos desmandos e abusos.

Em 1988, quando foi assinado um protocolo de “acordo” entre a Fraternidade Sacerdotal São Pio X e a Santa Sé, no qual se previa a conveniência de que fosse sagrado um bispo eleito entre os padres da Fraternidade e, como não se superasse o obstáculo da fixação de uma data para tal sagração, pareceu-nos que Mons. Lefèbvre tinha o direito de proceder ao rito sagrado.

Decorridos tantos anos, estou convencido de que o venerável bispo agiu bem. Os frutos de sua obra são bênçãos e graças para toda a Igreja. Não tivesse ele agido com prudência e fortaleza então, certamente não existiria a Fraternidade Sacerdotal São Pedro e muitos outros institutos ligados a Ecclesia Dei Adflicta. Eu mesmo não teria sido ordenado presbítero no rito tradicional em 1996 pelo cardeal Stickler em atenção às letras dimissórias de meu antigo bispo D. Manoel Pestana Filho. E, certamente, o “progressismo católico” teria avançado muito mais como força devastadora da Vinha do Senhor.

Por isso, expresso hoje minha gratidão a Vossa Santidade e reverencio a memória dos dois bispos que ajudaram tantos católicos a conservar a fé em tempos tão atribulados.

Gostaria ainda de dizer a Vossa Santidade que são numerosíssimos os padres que o apóiam por ter, por exemplo, ordenado a correção da tradução da forma da consagração do cálice na Santa Missa e não se conformam com o descaso da hierarquia em cumprir a ordem emanada de Roma. O zelo de Vossa Santidade pelo decoro da sagrada liturgia nos conforta. Há muitos padres que desejariam seguir o exemplo de Vossa Santidade em suas paróquias, mas temem represálias da parte dos seus ordinários.

Igualmente, quero assegurar a Vossa Santidade que foi enorme a satisfação dos verdadeiros católicos com a atitude digna do arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho OC, por ter recordado que os católicos que cooperaram com a prática do aborto naquela cidade incorreram em excomunhão latae sententiae. São gestos como este que confirmam os católicos em sua fé. Foi, por outro lado, vergonhoso e lamentável ver outros bispos censurarem a atitude coerente do arcebispo D. José Cardoso Sobrinho.

Seja-me permito, finalmente, rogar a Vossa Santidade uma providência especial para proteger o Brasil, o maior país católico do mundo, de uma gravíssima ameaça que paira sobre a Terra de Santa Cruz. Vivemos há quase oito anos sob um governo socialista que tem adotado uma política anticristã na área do direito da família e da vida. O atual governo tem o propósito de introduzir a legalização geral do aborto e da união civil homossexual. Tudo isto está previsto no programa político do Partido dos Trabalhadores, partido do governo. A candidata do governo à presidência da República no próximo ano já fez declarações neste sentido. Apesar da absoluta incompatibilidade de suas propostas políticas, a referida senhora tem exercido nas concentrações carismáticas o ministério de leitora nas missas, em franca campanha política. Com efeito, isto nos desconcerta.

Quando se trata de assuntos de grande relevância moral e para a salvação das almas, não se observa da parte da hierarquia tanto empenho para não dizer que há dolorosa omissão ou cumplicidade. Atitude como a de D. Cardoso é uma gota de água pura no mar morto. Mas quando se trata de assuntos técnicos ou sócio-economicos observa-se uma indiscreta ingerência, que só redunda em descrédito da Igreja. Permito-me recordar a Vossa Santidade o episódio da transposição do rio São Francisco ou mais recentemente a absurda demarcação de território indígena em região rica em minérios (uma ameaça à soberania nacional), com apoio do Conselho Indigenista Missionário, órgão ligado à CNBB.

De maneira que, diante da gravidade da situação atual do Brasil, rogo a Vossa Santidade que, assim como Pio XII (cuja memória Vossa Santidade tem reverenciado) salvou a Itália do perigo comunista arregimentando os católicos, assim também agora ajude a salvar o Brasil da perpetuação de uma tirania socialista e anticristã, que se instaurou entre nós com os préstimos da “esquerda católica”

Rogo a bênção de Vossa Santidade sobre minha pessoa e sobre todos fiéis da Capela Santa Maria das Vitórias em Anápolis, consagrada por Dom Pestana em dezembro do ano passado. Asseguro a Vossa Santidade nossas fervorosas orações ao Imaculado Coração de Maria para que Nossa Senhora o proteja da maldade dos seus inimigos.

Anápolis, 27 de março de 2009

Festa de São João Damasceno

Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa

Associação Civil Santa Maria das Vitórias

sábado, 21 de março de 2009

O CÂNON DE SÃO VICENTE DE LERINS

 

Na obra intitulada Os graus de Autoridade do Magistério, consagrada à questão da autoridade do Magistério e da infalibilidade papal, o padre Bernard Lucien pretende mostrar que os ensinamentos do Vaticano Il são uma explicitação da doutrina perene da Igreja e portanto, matéria de obediência por parte de todos os católicos.

"Diversos "tradicionalistas" negam que a infalibilidade do Magistério ordinário universal cubra a afirmação central da Dignitatis Humanae. mas é isso que defendemos em nosso estudo. Eis a afirmação mencionada, transcrita do primeiro parágrafo da encíclica:

"O Concílio Vaticano II declara que a pessoa humana tem direito à religiosa. Essa liberdade consiste em que todos os homens devem estar isentos de constrangimento por parte tanto de indivíduos quanto de grupos sociais e de qualquer poder humano que seja, de modo que em matéria religiosa ninguém seja forçado a agir contra sua consciência nem impedido de agir, dentro dos justos limites, segundo sua consciência, em privado como em público, sozinho ou associado a outros. O Concílio declara, além disso, que o direito à liberdade religiosa tem seu fundamento na própria dignidade da pessoa humana tal como a Palavra de Deus e a razão humana a dão a conhecer"1.

1-  1- Liberdade Religiosa: um ensinamento infalível do Magistério ordinário universal?

O padre Lucien afirma aqui que a doutrina do Concílio Vaticano II sobre a liberdade religiosa é infalível porque equivale a um ensinamento do Magistério ordinário universal.

Sabemos que o Papa pode exercer o Magistério de maneira infalível e que ele faz isso tanto sozinho quanto junto com os bispos. Essa infalibilidade é uma propriedade que concerne precisamente um certo exercício da autoridade. Podem-se distinguir três circunstâncias específicas nas quais a autoridade suprema goza da infalibilidade:

1 - o ato da pessoa física do Papa quando fala sozinho excathedra;

2- o ato da pessoa moral do Concílio Ecuménico, que é a reunião física do Papa e dos bispos;

3- o conjunto dos atos unânimes e simultâneos que emanam de todos os pastores da Igreja espalhados pelo mundo: o Papa e os bispos, sem estarem reunidos.

O ensinamento do Papa falando ex cathedra e o do Concílio ecuménico correspondem à infalibilidade do Magistério solene ou extraordinário, enquanto que o ensinamento unânime de todos os bispos dispersos no mundo, sob a autoridade do Papa, corresponde ao ensinamento do Magistério ordinário universal.

A constituição dogmática Dei Filius do Concílio Vaticano l faz parte desse Magistério ordinário universal: "Devemos crer de fé divina e católica tudo que está contido na Palavra de Deus, escrita ou transmitida pela Tradição e que a Igreja propõe como divinamente revelado, seja por uma julgamento solene, seja por seu Magistério ordinário e universal" (DS 3011). E na Carta Tuaslibenter de21 de dezembro de 1862, o Papa Pio IX fala do "Magistério ordinário de toda a Igreja dispersa em todo o universo" (DS 2679). Por ocasião do Concílio Vaticano l, num discurso de 6 de abril de 18702, o representante oficial do Papa, Mons. Martin, precisou o seguinte em relação ao texto Dei Filius: "Essa palavra "universal" significa quase o mesmo que a palavra empregada pelo Santo Padre na carta apostólica Tuas libenter, a saber, o Magistério ordinário de toda a Igreja dispersa sobre a Terra". Torna-se claro que o Magistério ordinário universal se distingue do Magistério do Concílio ecuménico como o Magistério do Papa e dos bispos dispersos se distingue do Magistério do Papa e dos bispos reunidos.

Ora, por um lado, o Vaticano II é um Concílio ecuménico. E por outro, o Papa Paulo VI disse em duas ocasiões3 que esse Concílio tinha evitado pronunciar de modo extraordinário dogmas que comportassem a nota de infalibilidade; o Concílio simplesmente quis munir seus ensinamentos da autoridade do Magistério ordinário supremo, manifestamente autêntico4.

2 - De Pio IX ao Vaticano continuidade: ruptura ou continuidade?

O Padre Lucien não nos diz se hoje ele vê uma contradição5 entre o texto de Dignitatis humanae e Quanta cura, entre o Vaticano II e o ensinamento da doutrina tradicional. O atual sucessor de Pedro, o Papa Bento XVI, sem dúvida não lhe reprovaria o fato de enxergar essa oposição entre o Vaticano II e Pio IX, pois ele próprio fez essa constatação no epílogo de seu livro publicado em 1982, Os princípios da teologia católica6. Sendo ainda cardeal, Joseph Ratzinger afirmava « com vigor e a clareza que lhe é característica7», essa oposição formal e irremediável. Explicando como a constituição pastoral sobre a Igreja no mundo atual (Gaudium et Spes) « foi considerada cada vez mais depois do Concílio como o verdadeiro testamento 8» do Vaticano II, o futuro Papa Bento XVI observava que « se procurarmos um diagnóstico global do texto, poderíamos dizer que ele é (ligado aos textos sobre a liberdade religiosa e sobre as religiões do mundo) uma revisão do Syllabus de Pio IX, uma espécie de anti-SylIabus9 ». Na verdade, « o texto desempenha o papel de um anti-Syllabus na medida em que representa uma tentativa de reconciliação oficial da Igreja com o mundo tal qual este mundo se tornou desde 178910. »

Sem negar explicitamente essa contradição, o padre Lucien constrói um raciocínio para afirmar o contrário da ruptura: ele pretende fazer-nos ver a mais completa continuidade entre o Vaticano II e Pio IX, entre o ensinamento do Concílio sobre a liberdade religiosa e a Tradição anterior.

3-  Cânon de São Vicente de Lérins a serviço da Dignitatis Humanae ?

Para afirmar essa continuidade, torna-se necessário encontrar no Vaticano II uma explicitação das verdades que até então estariam contidas em estado latente e implícito na pregação da Igreja11. Do início ao fim, o estudo do padre Lucien insiste sobre essa questão de passagem do implícito ao explícito na pregação de Igreja. Está exatamente aí o cerne do problema que o autor quer resolver: para negar a contradição entre a Quanta cura de Pio IX e Dinitatis humanae do Vaticano II, é indispensável ver nesse último documento urna explicitação do anterior. O Vaticano II teria, portanto ensinado, segundo a expressão de São Vicente de Lérins, « non nova sed nove », não verdades diferentes mas a mesma verdade apresentada em termos diferentes, isto é, de modo mais preciso. O padre Lucien quer provar que o ensinamento do Vaticano l sobre a liberdade religiosa é uma explicitação dogmática do ensinamento de Pio IX, um ensinamento perfeitamente homogêneo em relação à Tradição.

4-O verdadeiro significado do cânon

Mas é inútil... O cânon de S. Vicente é sem dúvida nenhuma digno de grande interesse. Não é à toa que o cardeal João Batista Franzelin consagrou duas teses (n°s 24 e 25) de seu célebre tratado Sobre a Tradição divina (De divina Traditione, Roma, I896) à exegese do cânon leriniano. É verdade que pode-se compreender mal seu verdadeiro alcance: a leitura não é tão fácil quanto se poderia imaginar. O pe. Lucien acha que os tradicionalistas interpretam mal S. Vicente segundo ele, a compreensão do verdadeiro significado de suas pala vras implica na perfeita aceitação dos documentos do Concílio Vaticano II. O raciocínio é completamente falso.

Ao compreender bem a extensão do Commonitorium, percebe-se que aí não há absolutamente nada que autorize a ver no Vaticano II uma explicitação legítima dos dados da Tradição. Ao contrário, o critério do "ubique et semper" justifica perfeitamente a atitude de Monsenhor Lefebvre e de todos os que se viram obrigados a recusar os ensinamento do Concílio.

4.1 -A regra do Commonitorium

Eis os termos que São Vicente de Lérins usa para enunciar sua famosa regra: "Na própria Igreja católica deve-se velar cuidadosamente para permanecer com o que foi crido em todos os lugares, sempre e por todos os católicos. Isso é verdadeira e propriamente católico. [...] E assim será se seguirmos a universalidade, a antiguidade, o acordo unânime" (Commonitorium, livro 1, n° 2 in Patrologie latine de Migne, t. 50, col. 640). Como observa o cardeal Franzelin, essa regra poderia ser compreendida num sentido ao mesmo tempo afirmativo e exclusivo em relação a qualquer verdade - e somente da verdade - crida em todo lugar, sempre e por todos. Mas na concepção de São Vicente, esse adágio deve ser compreendido em sentido apenas afirmativo, mas não em sentido exclusivo, em relação às verdades cridas de maneira explícita. É preciso também considerar o modo implícito de crer: nem todas as verdades que exigem hoje uma crença explícita por parte dos membros da Igreja foram sempre, ern todos os lugares e por todos cridas explicitamente. Algumas verdades foram cridas inicialmente somente de modo implícito, antes de tornar-se objeto de crença unânime e explícita. É o caso da Imaculada Conceição, por exemplo. Juntamente com a plenitude de graça, essa verdade sempre foi implicitamente professada, como consta em Lc., 1, 28. Pode-se dizer que ela sempre fez parte da fé da Igreja, apesar de sua expiicitação ter acontecido somente em 1854, por ocasião do ato decisivo de Pio IX, com a bula Ineffabilis Deus.

4.2 A explicação de Franzelin

Na tese 23, o cardeal Frar.zelin analisa detalhadamente essa diferença entre a crença implícita e explícita12. "Há uma diferença entre as verdades reveladas, e isso mostra que não é necessário nem desejável que todas as verdades estejam contidas de um só modo e uma só maneira na pregação dos apóstolos e ao longo de toda a história da tradição". As verdades cuja crença explícita se impôs imediatamente a todos foram pregadas e transmitidas desde as origens apostólicas de modo explícito. São os principais mistérios da fé católica, que correspondem aos doze artigos do Credo. Mas, observa Franzelin, essas verdades reveladas explicitamente possuem uma grande fecundidade: "elas podem corresponder de uma infinidade de maneiras às exigências das diferentes épocas. Elas se opõem a erros muito diversos que a fraqueza ou a perversidade humanas podem inventar. A questão é clara: nenhum dos dogmas revelados foi nem proposto nem enunciado pêlos apóstolos de modo a explicitar todas essas virtualidades diferentes, o que teria sido moralmente impossível. Tanto menos necessário, pelo fato de Jesus Cristo ter prometido e instituído que os sucessores dos apóstolos deviam receber, ao mesmo tempo que o dogma, o carisma da infalibilidade para poder responder às exigências de cada época, propondo e explicando as verdades reveladas."

Toda a pregação da Igreja já está em germe na pregação dos apóstolos; más assim como o germe não é ainda o fruto maduro, a pregação dos apóstolos não propôs no estado explícito todas as verdades necessárias à crença da Igreja. Como observa também o cardeal Billot, "a infalibilidade da Tradição não exige de modo algum que, sem distinção, todas e cada uma das verdades que fazem objetivamente parte do depósito da fé devem a cada época brilhar com todo seu esplendor no candelabro da Igreja magisterial, a ponto de que todos pudessem ver distinta e explicitamente as marcas dessa ou daquela verdade. E portanto pode ter havido alguma verdade a respeito da qual num momento ou noutro tenha surgido uma diversidade de interpretação ou de opinião no interior do aprisco da unidade e da comunhão.

Na tese n° 9, Franzelin resume assim a regra de São Vicente de Lérins: os ensinamentos da Tradição que todos devem crer explicitamente sempre encontraram uma adesão perfeitamente unânime13. Entretanto, a revelação objetiva pode conter pontos de doutrina que, num momento ou noutro, não tenham suscitado unanimidade bastante expressiva ou que na realidade não tenham chegado à unanimidade. Eis porque é impossível que uma doutrina revelada, depois de ter sido unanimemente defendida e explicitamente professada entre os sucessores dos apóstolos, venha a ser negada no interior da Igreja. E reciprocamente, é impossível que uma doutrina, depois de ter sido negada e condenada pela unanimidade, seja defendida. Mas pode acontecer que a unanimidade mais perfeita se produza somente depois de uma doutrina ter suscitado opiniões diferentes". Portanto, a pregação atual explícita da Igreja não pode negar a pregação passada explícita.

4.3 Aplicação do caso: a liberdade religiosa

Para dar apenas um exemplo, a condenação da liberdade de consciência e de culto só aparecerá de maneira explícita nos textos do Magistério a partir do momento em que, para retomar a expressão de Franzelin, a fraqueza e a perversidade humanas fizerem surgir esse erro pernicioso. O Papa Gregório XVI será quase 14 o  primeiro a denunciar o erro na encíclica Mirari vos, de 15 de agosto de 1832. Desde então, a reprovação vai se impor à adesão explícita de todos os fiéis católicos. Os sucessores de Gregório XVI no século XIX, de Pio IX (com Quanta Cura) a Leão XIII (com a encíclica Immortale Dei) farão constante eco a esse ensinamento (cf. Mons. Lefebvre, Mês doutes sur Ia liberte religieuse, Clovis, 2000, págs. 47-54). A encíclica Quanta cura de 8  de dezembro de 1864 (DS 2896), em particular, corresponde a um ato do Magistério solene, revestido das notas de infalibilidade ex cathedra15. A partir do momento em que o Magistério propõe uma verdade com toda a precisão requerida, observa ainda Franzelin, "a questão ficando esclarecida, esse dogma passa a fazer parte da crença católica explícita e da pregação aberta da Igreja. Tendo-se chegado a esse consenso e à pregação explícita, o dogma não pode mais ser objeto de desacordo ou de obscurecimento no interior da Igreja.

Nenhum consenso oposto a essa crença tornada explícita poderia desde então prevalecer. Podemos aplicar aqui a regra enunciada antes por Franzelin: "É impossível que uma doutrina, depois de ter sido negada e condenada unanimemente, seja defendida (in De divina Traditione, Roma, (4a ed), 1896, tese 9, 2° corolário, pág. 82. Ver  também a tese 23, pág. 266). Isso se verifica a propósito da verdade pregada pêlos Papas desde o século XIX: em seus ensinamentos, a liberdade religiosa está explícita e definitivamente condenada como um erro contrário ao depósito da revelação divina. Torna-se desde então impossível ensinar a liberdade religiosa sem se colocar em contradição formal com o depósito de fé.

5- O sofisma do Pé. Lucien

Demos esse exemplo para mostrar porque não podemos seguir o Pé. Lucien em sua análise. A explicação que ele dá do cânon de São Vicente de Lérins é tirada do tratado de Franzelin, mas está fora de contexto. Longe de contradizer a argumentação da Fraternidade São Pio X, ela vem confirmá-la. O ensinamento do Vaticano II sobre a liberdade religiosa, tal como se apresenta na declaração Dignitatis humanae, está em oposição formal com a pregação constante e explícita da Igreja, desde os Papas Gregório XVI e Pio IX. Ela não poderia, de modo algum, ser considerada como consenso legítimo nem prevalecer contra a doutrina tradicional. O consenso atual e unânime da pregação explícita da Igreja é o que o ato de ensino do Magistério ordinário universal definiu. A pregação do Vaticano II não pode pretender sê-lo, desde que ela contradiz o que sempre foi crido de modo explícito, em todos os lugares e por todos, a partir da metade do século XIX.

6- O Magistério ordinário universal, órgão da Tradição

Seria possível, entretanto, objetar que há 40 anos o conjunto do corpo episcopal docente disperso, compreendendo o Papa e os bispos residenciais -ordinários de uma diocese - ensina unanimemente o princípio da liberdade religiosa. Não haveria nisso, fora do Vaticano II propriamente dito mas em continuidade com ele, a expressão do Magistério ordinário universal infalível? O ensinamento infalível do pós-Concílio faria assim eco ao ensinamento autêntico do Concílio.

Para responder completamente a objeção, observemos ainda o seguinte: para ser universal, o ensinamento do Magistério ordinário do corpo episcopal disperso deve preencher duas condições: 1° ele deve ter a universalidade atual no espaço ou unanimidade; 2° ele deve ter a universalidade no tempo ou constância.

As duas, unanimidade e constância são requeridas para a universalidade que define formalmente esse Magistério ordinário.

6.1 - As duas propriedades constitutivas: unanimidade e constância

A universalidade atual no espaço concerne o sujeito docente: eis porque é uma universalidade que acontece no espaço somente e não no tempo. O Magistério

ordinário universal é desse ponto de vista o ensinamento do corpo episcopal pregando de viva voz; a unanimidade que resulta é a unanimidade dos bispos do instante presente da história, hic et nunc (aqui e agora). Se nos colocarmos sob o ângulo do sujeito, dizendo que esse Magistério é a unanimidade de todos os bispos e de todos os Papas desde São Pedro e os apóstolos, destruímos ipsofacto a própria noção de Magistério ordinário, pregando de viva voz.

A constância, em compensação, concerne o objeto ensinado: é uma universalidade que não somente existe no espaço mas também no tempo. O Magistério ordinário universal é a proposição da doutrina revelada. Ora, essa doutrina é imutável substancialmente, o que quer dizer que ela permanece imutável tanto no tempo quanto no espaço, não somente de um lado a outro do planeta, mas do início ao fim da história. O Magistério ordinário é por definição um Magistério tradicional: é um Magistério que prega hoje e que não pode estar em desacordo com o Magistério de ontem, como diz São Paulo. na epístola aos Gálatas, capítulo 1. versículos 8-9: "Se acontecesse que nós mesmos ou um anjo do céu vos ensinasse outra coisa diferente do que ensinei, que seja anátema". São Paulo aqui diz três coisas:

          - Primeiro,ele distingue entre duas pregações explícitas, a pregacão passada do Magistério de ontem e a pregação atual do Magistério de hoje.

- Segundo, ele precisa que essas duas pregações explícitas são feitas por aqueles que cumprem a mesma função do Magistério eclesiástico, o próprio São Paulo e todos os seus sucessores no episcopado.

         - Terceiro, São Paulo acrescenta que essas duas pregações explícitas não podem se contradizer; se houver uma contradição entre a pregação atual e a pregação passada, deve-se concluir que a pregação atual não é a pregação do Magistério eclesiástico.

E o ensino do Concílio Vaticano l, na constituição Dei Filius só repete o que diz São Paulo: Se alguém disser que é possível que os dogmas propostos pela Igreja às vezes, devido ao progresso da ciência, podem ter um sentido diferente do que a Igreja compreendeu e ainda compreende, que seja anátema" (cânon 3 do capítulo 4 em DS 3043).

Essas duas propriedades constitutivas são observáveis na realidade: elas falam aos olhos dos fiéis e permitem reconhecer a infalibilidade de uma pregação. É por isso que a unanimidade atual e a constância não são apenas elementos que compõem a definição dessa pregação; são também critérios de visibilidade. Mas há uma ordem entre os dois: O crrtério da unanimidade atual depende do critério de constância. A unanimidade de hoje só tem valor se coincidir com o ensinamento constante do mesmo e inalterável depósito de fé.

1 ABBÉ BERNARD LUCIEN, Lês degrés d'autorité du Magistère, La Nef, 2007, p. 160.
2 Mansi, tomo 51, coluna 322

3 "Discurso de encerramento do Concílio, 7 de dezembro de 1965" em DC n° 1462 (2 de janeiro de 1966), col 54; "Audiência de 12 de janeiro de 1966" em DC n° 1466 (6 de março oe 1966), col. 418-420.

4 Por essa expressão "Magistério autêntico", os teólogos entendem hoje comumente o ensino de um Magistério não infalível.

5 Num estudo precedente, de 1988, o Padre Bernard Lucien via a contradição: "Não podemos deixar de concluir a realidade da contradição entre Dignitatis humanae e Quanta cura. [...] A ruptura do Vaticano II em relação à doutrina tradicional sobre a questão da liberdade religiosa é (Gregoire XVI, Pie IX et Vatican II - Etude surla liberte religieuse dans Ia doctríne catholique, Ed. "Forts dans Ia Foi", 1990, p. 295 2 296.

6 CARDEAL JOSEPH RATZINGER, Lês Príncipes de Ia théologie catholique. Esquisse et matériaux, Téqui, 1982, p. 423-440.

7 Pé. BERNARD LUCIEN, Lês degrés d'autorité du Magistère, La Nef, 2007, p. 178.

8 CARDEAL JOSEPH RATZINGER, Lês Príncipes de Ia théologie catholique. Esquisse et matéríaux, Téqui, 1982, p. 423.

9 Ibidem, p. 426-427.

10 Ibidem, p. 427.

11 A tese do Padre Basílio do Mosteiro de Santa Madalena do Barroux também vai nesse sentido.

12 CARDEAL JOÃO BATISTA FRANZELIN, De divina Traditione, Roma (4a edição), 1896, tese 23, p. 259-260.

13 CARDEAL JOÃO BATISTA FRANZELIN, De divina Traditione, Roma (4a edição), 1896, tese 9, 2° corolário, p. 82.

14 " O Papa Pio VII já tinha condenado o mesmo erro em sua Carta apostólica Post tam diuturnitas de 29 de abril de 1814.

15 Cardei LOUIS BILLOT, De Ecc/es/a,Roma (4a. edição), 1921, questãoi 14, tese 31, parágrafo 1, n° 2, pág. 635; Rev .Pé. DUBLANCHY, "Infaillibilité", no

Dictionaire de théologie catholique, f. 7, col. 1703-1704; Mons. Lefebvre,Mês doutes sur Ia liberte religieuse, Clovis, 2000. págs. 54-56.

Fonte: Jornal Sim Sim Não Não, Ano XV nº 161, Julho-Agosto,2008

Assinatura

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

O fracasso da CNBB

O maior fracasso da CNBB, consiste em não gerar mais católicos. A vivência dos católicos é o termômetro da graça e do pastoreio dos Bispos. Quando uma entidade que se diz católica vem a público pedir honestidade na política, integridade, paz, justiça, etc é sinal de que algo está errado. Porque normalmente a Igreja em seus filhos oferta tudo isto a sociedade. É bastante gravíssimo que não tenhamos mais luzeiros católicos em meio as trevas do mundo. Diga-se de passagem, que toda esta corrupção tem sua origem na diretriz desta entidade no serviço ao segundo inimigo de nossa alma: o mundo.

Pode se argumentar como no artigo apóstata “Presbítero e crise de identidade” de Pe Edênio Valle, que não há mais necessidade de idealização do modelo e conseqüentemente já não basta o servo ser como o seu Senhor, e o discípulo como seu mestre. Nesta visão míope e tortuosa, já esta implicíta a corrupção e o abandono da fé. Porque bastaria a cada um ser ele mesmo, rejeitando a Cristo que nos pede que rejeitemos a nós mesmos. Uma entidade que não confere a identidade de Cristo em seus presbíteros, não é capaz de conferi-la aos seus fiéis. É complicado falar em fidelidade quando os própios presbíteros não tem nem mesmo identidade, pois como se lê no artigo:

“Participação - A visão funcionalista, isto é, cada padre, bispo, leigo tem sua função pré-determinada na Igreja, ruiu por terra com o Vat. II. Igreja como povo de Deus e servidora do mundo, como um todo sob a ação do Espírito que suscita carismas e ministérios úteis ao anúncio do Evangelho, exige uma revisão da participação que cabe ao presbítero e ao bispo nesta Igreja ministerial. Apesar dos avanços já verificados neste campo, persistem ranços de pessoas e condicionamentos estruturais da organização eclesial que ainda impedem uma participação de todos os batizados na missão da Igreja. Desafio crescente é viver o ministério presbiteral sob o ângulo do protagonismo laical; é saber encontrar o lugar para vivenciar o profetismo numa sociedade que evolui rumo à secularização. O processo acelerado de esvaziamento da função social do presbítero, não se dará sem deixar marcas profundas.” Presbíteros e crise de identidade – Pe Edênio Valle

Como pode se ver, a Igreja povo de DEUS, nasce em sua essência apostáta e só fez promover até o presente momento a apostasia. Os Bispos e os Padres, não tem mais a função de pastores e nem os leigos a de ovelhas. Como também não existe ninguém que sirva, pois não a quem se assente a mesa: todos são iguais, mas igualmente injustos ou igualmente justos?

A vivência do falso profetismo aponta para o serviço do anticristo, que é o serviço do mundo, inimigo irreconciliável de DEUS. Isto a CNBB realiza a anos, através de apoios a movimentos marxistas, como o MST que na cobiça dos bens do próximo, firma sua existência. Como uma entidade que deveria ensinar que não se deve cobiçar os bens e a casa do próximo, apóia um movimento que se move pela cobiça de bens alheios? A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, não tem nenhum direito de abolir o mandamento de DEUS que diz:

“Não cobiçar as coisas alheias”.

Os Bispos, são servos de DEUS, não são deuses e nem servos exclusivos do povo ao ponto de apoiar todos os seus desejos. O apóstolo nos advertiu que qualquer um, fosse (apóstolo ou anjo) que pregasse um Evangelho diferente do que por eles fora pregado, que o considerássemos anátema. Neste sentido, a corrupção começa na própia CNBB, que despreza a autoridade de DEUS para servir o homem do pecado. Em matéria de fé, a CNBB é insípida e entrevada, é uma entidade covarde e apóstata, como sugere este e outros apoios espúrios.

Nosso país esta assolado na corrupção e na violência, porque a CNBB não é sal e luz. Como resultado do diálogo com a Teologia da Libertação, que resultou na fundação do PT que produziu os maiores escândalos de corrupção de nossa história. Contra eles sentencia os apóstolos:

“Acautelai-vos, para que não percais o fruto de nosso trabalho, mas antes possais receber plena recompensa. Todo aquele que caminha sem rumo e não permanece na doutrina de Cristo, não tem Deus. Quem permanece na doutrina, este possui o Pai e o Filho. Se alguém vier a vós sem trazer esta doutrina, não o recebais em vossa casa, nem o saudeis. Porque quem o saúda toma parte em suas obras más.” II Jo 1,8-11

Chego a pensar que os Bispos da CNBB só fazem análises de conjuntura e não lêem a Bíblia. O apoio ao MST, fez com que esta entidade que se diz católica produzisse um fruto ateu, expressa no apoio ao descumprimento do mandamento ou da desconsideração de que seja um mandamento de DEUS. Ao saudar Karl Marx e o permitir nos altares através da Ateologia da Libertação, tomaram parte em sua obra má: negaram DEUS. Então como pode falar em honestidade e integridade se nem ela mesma é honesta e íntegra? Quanta hipocrisia...

Nestes quase cinqüenta anos, a CNBB foi capaz apenas de produzir apenas o partido mais corrupto da história do Brasil: o PT. Não foi capaz de produzir nenhum modelo de integridade e honestidade, até porque não acredita em modelos e exemplos, mas tão somente na consciência individual. É um problema grave a CNBB não produzir luzeiros na política, mas como poderia produzi-los se ela esta do lado daqueles que querem o fim do Estado?

Não existe uma crise de identidade (No Clero e nos leigos), mas a negação da mesma que torna a evangelização completamente non sense. O fim da atividade do Clero, deveria ser a geração de Cristo para serem fiéis a identidade daquele que os salvou. Se não existe mais o modelo e nem o exemplo, Cristo não esta nas autoridades e nem nos fiéis. O que vemos nas autoridades da CNB, são os pobres e o povo a quem estas autoridades colocaram no lugar de Cristo. E o fruto desta substituição só poderia ser a corrupção tanto do Estado quanto da religião católica. Daí a razão do crescimento das seitas protestantes, do agnosticismo e do ateísmo. O que nos oferta a CNBB, é a contemplação prática da grande apostasia predita pelos apóstolos. O fim da CNBB hoje é a geração da revolução e da laicidade nos leigos. Por parte desta entidade, não existe mais oferta de fé, mas a oferta da moda.

Quando ainda se considera que os Bispos não fazem nada para coibir os abusos litúrgicos e fazem de tudo para impedir a aplicação do Motu Próprio Summorum Pontificum. Constata-se a negação das própias raízes católicas e principalmente que a Casa de DEUS, não é mais Casa de Oração onde se adora Cristo. Mas CASA DE PARTICIPAÇÃO onde a comunidade adora a si mesma em uma liturgia narcisista que se tornou um prurido de novidade sem nenhuma identidade ou algum proveito para além da participação. Temos no Brasil uma Igreja onde os Bispos não pedem as orações do povo, mas apenas ações. É mais uma tomada das obras más marxistas, desesperar-se de DEUS para acreditar em si mesmo.

Recomendo aos católicos que prezam a sua fé que se afastem desta entidade. Procurem algum grupo ou Padre tradicionalista, estes os guiarão para a oração e o reino de Cristo, não para a ação e o reino do anticristo. Embora seja proibida a aplicação do Motu Próprio Summorum Pontificum (e personalidades tradicionalistas de darem aulas) é um dever que devemos correr para a salvação de nossas almas. Principalmente quando se comprova a proibição ao certo e o apoio ao erro. Manifestos em proibições aos que ensinam a fé e a liberdade a pessoas do nível de Leonardo Boff que tem livre trânsito em todas as faculdades católicas (apesar de todas as sanções de Roma). Percebe-se nisto que não estão preocupados com a salvação de nossas almas, o suficiente para nos afastarmos.

Enfim, enquanto entidade católica, a CNBB não produz católicos, é um fracasso. Mas considerando-se o que esta por trás da cortina, ela é um sucesso na propagação da apostasia. Serve muito bem ao mundo e ao anticristo trabalhando contra Cristo e o Santo Padre Bento XVI

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Apoio ao Papa Bento XVI

 

Apoio ao Papa Bento XVI

No dia 21 de janeiro de 2009, vossa Santidade decidiu por fim à excomunhão que pesava sobre os bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Por este gesto corajoso, V.S. agiu como Pastor do rebanho que vos foi confiado por Deus. V.S. reconheceu a catolicidade de uma obra da Igreja.

Homens e mulheres engajados na vida de nossas cidades, pais e mães de família ou solteiros, depois de tempos agitados onde a Barca parece invadida pela água por todos os lados, nós desejamos com Vossa Santidade levantar a Igreja de amanhã sobre a Tradição. Este projeto passa necessariamente pela transmissão da Fé às gerações futuras pelo amor à liturgia católica e pela defesa da vida humana.

Por meio desta carta, nós desejamos antes de tudo de expressar-vos nossa viva gratidão. Se este gesto histórico pode vos atrair a desaprovação de alguns setores da imprensa hostil que recorrem a amalgamas, ele suscita em nós uma alegria imensa e nos enche de esperança. Nós rezamos por vossa intenção, seguindo o pedido que VS formulou no início de vosso pontificado: “Rezai por mim, para que eu não fuja, por medo, diante dos lobos”[1]

Nós queremos, pondo nossa assinatura nesta carta, informar-vos de nossa idade e do número de nossos filhos para expressar que convosco, nós queremos construir a Cristandade para as gerações que virão, e que será, nós o esperamos de todo coração, livre de todo complexo e proclamará diante de todo o mundo o Credo.

É, pois num espírito de respeito filial que nós apresentamos nosso apoio e nossas orações quotidianas pelo vosso pontificado para a Igreja de Deus saia favorecida.


[1]  Bento XVI, 24 de abril de 2005

Tract | Formulaire

http://www.soutienabenoitxvi.org/index.php?lang=pt

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

De uma condição prévia à outra

Abbé Régis de Cacqueray-Valménier

Superior do Distrito da França
Fraternidade Sacerdotal São Pio X

NOTA

A Montfort, por amor à Fé e à Santa Igreja Católica Apostólica Romana, por amor à justiça para com Dom Lefebvre e a Dom Mayer, esses dois heróicos defensores da fé e da Missa de sempre, por amor à verdade, publica com alegria esse comunicado do Superior da FSSPX na França, rezando e fazendo votos para que o Papa Bento XVI, tirando a conclusão lógica do Motu Proprio Summorum Pontificum, anule as excomunhões inválida e injustamente lançadas contra Dom Lefebvre e Dom Mayer em 1988, o que permitirá a  vitória da Missa de sempre e o debate franco sobre os erros do Vaticano II.

Publicamos esse Comunicado, pouco nos importanto da oposição e até da hostilidade, que muitos da FSSPX fazem à Montfort, mas pensando apenas no bem e na vitória da Igreja. Tanto mais que nos chegam rumores de fontes romanas que indicariam uma possível suspensáo das excomunhões desse dois Bispos, quando o justo seria a declaração da nulidade das excomunhões de 1988.

Os destaques colocados no texto pela Montfort indicam os pontos em que mais concordamos com as palavras do Padre Cacqueray.

Deus dê, o quanto antes, por meio do Papa Bento XVI, a glória e a justice devidas a Dom Lefebvre e a Dom Mayer por seu heroísmo sem mácula, sem compromissos e sem traições.

São Paulo, 11 de Janeiro de 2009.

Orlando Fedeli

Presidente da Associação Cultural Montfort.


De uma condição prévia a outra

Abbé Régis de Cacqueray-Valménier

“Se se toma o termo “secundário” no sentido em que dissemos e que é o sentido primitivo: o segundo é o que segue... o que resulta do outro.” (Romano Amerio)

“Joana D’Arc tem hoje menos céticos do que ela encontrou em seu tempo.” Jacques Bainville

“Você me mostrou o caminho de Ars, eu lhe mostrarei o caminho do Céu.” São João Maria Vianney, o Cura d’Ars

No início do ano de 2001, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X especificou e levou ao conhecimento da Santa Sé “as três etapas” que lhe parecia necessário respeitar para continuar a trabalhar na resolução da crise doutrinal da Igreja e, por via de conseqüência, unicamente, à regularização canônica de sua própria situação.

A exposição, tornada pública, desta linha estratégica foi acolhida com numerosas críticas desfavoráveis, sobretudo pelo motivo de que o princípio de comunicar a Roma, como primeira etapa, condições prévias a toda discussão com ela, pareceu, senão inadmissível, ao menos totalmente inadequado. Essa pretensão, já considerada exorbitante em si mesma, não dissimulava, além disso, uma vontade inconfessada da Fraternidade de ficar no seu canto e de deixar para as calendas gregas a hora de sua reintegração?

A “estratégia” da Fraternidade

Para a decepção de alguns, e a alegria de outros, o itinerário proposto pela Fraternidade para chegar a “acordos” foi portanto considerado impraticável: como Roma teria podido aceitar que lhe ditassem uma linha de conduta, emitida, ainda por cima, sem qualquer conversação, por essa Fraternidade “excluída da Igreja”? Não teria sido dar a essa última uma importância desmesurada e se colocar a reboque de sua marginalidade, para maior irritação de quase todos?

Note-se, entretanto, que a lenta diplomacia romana nem produziu uma contraproposta no lugar daquela da Fraternidade nem exprimiu – ao menos publicamente – sua concordância ou sua discordância com a idéia de ter que passar sob as forcas caudinas, ou seja,  aceitar as condições humilhantes que lhe tinham sido designadas, diga-se de passagem, não sem alguma audácia ou ingenuidade.  Foi, todavia, o silêncio oficial em que Roma se manteve que contribuiu finalmente, por falta de expressão de uma outra proposição ou da recusa daquela que lhe tinha sido indicada, a tornar pouco a pouco a estratégia da Fraternidade, sozinha no terreno diplomático, mestra desse terreno até hoje, ao ponto de se ter imposto, sem combate, como a referência natural em função da qual todos se habituaram a se situar ou se deslocar, nas relações que se seguiram.

Dado que a apresentação dessas duas condições prévias forma apenas a primeira das três etapas do itinerário sugerido pela Fraternidade, nem o sucesso parcial que ela obteve em resposta a seu primeiro pedido, nem o outro sucesso que proviria da obtenção do segundo, não bastariam portanto, por si sós, para acertar a diferença, de essência puramente doutrinária, que a opõe à “Roma conciliar” e cujo tratamento foi fixado na segunda das três etapas.

Do mesmo modo, as duas condições preliminares ao pretendem de modo algum se substituir ao exame das questões doutrinárias. Tal não é sua função. Em virtude de seu próprio estatuto, elas não têm outra função além de preludiá-lo e de criar um clima propício a seu bom desenvolvimento. Elas foram escolhidas e formuladas para serem apresentadas a um interlocutor ainda por vir, o qual se espera que seja capaz de apreciar o interesse que há em atender esses dois pedidos para o bem de toda a Igreja, mas do qual não se conhece, ao menos no momento em que se está agora, a persistência em seguir e em professar os desvios conciliares.

Quer se trate pois da Missa de São Pio V ou das “excomunhões de 1988”, as condições prévias não têm a pretensão de fazer valer junto da Santa Sé tudo o que a Fraternidade quer obter em tais assuntos. Sobre o primeiro ponto, a Fraternidade, com efeito,  nunca fez mistério de sua vontade de chegar à erradicação pura e simples da missa nova. Quanto à segunda, ela considera que Roma terminará por concluir pela nulidade das “excomunhões de 1988”.

Mas ela tem clara consciência de que não se poderá, logicamente, ser-lhe dada inteira satisfação nesses dois pontos, senão após a conclusão feliz da segunda etapa de sua estratégia. Foi por isso que ela considerou, na escolha das duas condições prévias que colocou e em sua formulação precisa, o que poderia, em um primeiro tempo, ser já obtido de um papa, empenhado ainda em defender o Concílio, mas, paradoxalmente, preocupado em procurar os meios de remediar o estado de ruína da Igreja e as injustiças cometidas. Ora, constatou-se que o Papa Bento XVI apresentava esse perfil.

Apesar desse sábio realismo, as duas condições prévias a toda discussão não deixavam de ser, tanto uma quanto outra, inaceitáveis questionamentos. Que se julgue! Enquanto Paulo VI tinha tido simplesmente a vontade de substituir a antiga missa pela nova, a Fraternidade não pedia nada menos que o reconhecimento do direito dos padres de tê-la sempre celebrado e de continuar a celebrá-la.

Quanto às sagrações de 30 de junho de 1988, elas se encontravam ipso facto sancionadas pela excomunhão prevista no novo Código de Direito Canônico. Ora, a Fraternidade se recusa, no entanto, a pedir o “levantamento das sanções”. Ela procura obter a “retirada do decreto de excomunhão” e não escapa a ninguém que os termos que ela empregou para traduzir seu pedido foram escolhidos de propósito. Ela quer que seja bem manifestada sua convicção da nulidade das sanções e, se Roma se decidir a agir, que ela o faça deixando ao menos a porta aberta à essa hipótese canônica.

Todos os ingredientes pareciam portanto reunidos para que esta estratégia permanecesse letra morta, gelasse ainda mais as relações entre Roma e a Fraternidade e, mais grave, causasse mesmo um prejuízo a uma eventual vontade romana de reconhecer o direito dos padres de celebrar a missa de sempre.

Se essa perspectiva não é inexata, a decisão da promulgação do Motu Proprio de 7 de julho de 2007 parece então como ainda mais surpreendente. Como o Papa teria podido se decidir a atravessar um tão temível Rubicão, se a questão dessa missa não tivesse inicialmente se apresentado a ele como uma questão de consciência, se ele não tivesse percebido um estado de necessidade suficientemente grave para se arriscar em um tal terreno, e se ele não tivesse contado tirar vantagens decisivas de seu Motu Proprio? Teria ele enfrentado o episcopado do mundo inteiro, como fez, por um caso que considerasse secundário? E já que ele se decidiu, uma questão não deixa de estar em todos os lábios: se ele ousou conceder a primeira, atenderá também a segunda das duas condições prévias?

De uma espera à outra

Apenas nós tivemos tempo para nos deixar educar às lentidões romanas por esse jogo de paciência que precedeu o atendimento da primeira condição prévia, nós nos encontramos, com efeito, convidados à espera do segundo! Saberemos nós tirar de nossa primeira prova de resistência o melhor proveito? Viver aquela que começou como convém? De fato, não será simplesmente apenas no ritmo de nossos rosários?

Não só! Se a oração é nada menos que a respiração de nossas almas, ela não toma entretanto o lugar de tudo o mais e não nos dispensa do resto. Os instantes que nós vivemos devem igualmente ser utilizados para antecipar uma profunda reflexão a respeito dessa defesa e dessa confissão pública de fé junto a Roma, que será talvez “a hora” por excelência da vida de nossa Fraternidade.

É preciso realmente esperar que esses momentos, que poderão trazer sua pedra decisiva para o reerguimento da vida da Igreja, acabem por acontecer. Nós devemos, em conseqüência, ter essa grande preocupação de compreender, por nós mesmos, sempre mais profundamente, que a restituição parcial da Missa deverá ser seguida de sua restituição total e da restituição da fé. Ai de nós, clero e leigos, se não chegamos a ter uma consciência suficiente dos verdadeiros pontos-chave e da profundidade de nosso combate. Nossa posição de soldados de Deus nos pede que não nos deixemos embalar pela esperança da retirada de um decreto que, se acontecesse, não assinaria nem mesmo um armistício. A espera não é a passividade. Esse momento deve ser imperativamente aproveitado para prosseguir a instrução e a formação de cada um, do aumento de firmeza e de espírito de combate.

Lembremo-nos, pois, das faltas e das imperfeições constatadas durante esse primeiro período de espera para não recair nelas.        A medida que rumores, sempre mais numerosos e insistentes, alguns deles vindos de Roma, nos advertiam que o Papa ia publicar um texto em favor da Missa antiga, os espíritos tiveram tendência a se dividir entre ceticismo e euforia. Passando o tempo, eles se aqueceram, e se espalhou um clima de excitação realmente pouco propício a uma reflexão objetiva sobre a significação exata que teria a concessão da primeira condição prévia.

De uma condição prévia a outra


Ainda que imperfeito e insatisfatório sob vários aspectos, é evidente hoje que esse Motu Proprio marcou uma data na história da liberdade para a missa tradicional. Ele merecia ser saudado pela Fraternidade, que não deixou de fazê-lo, ao menos pela confissão pontifical tão esperada de que a missa de São Pio V não havia jamais sido abrrogada e pelo conseqüente reconhecimento de que todo padre tinha tido sempre o direito de celebrá-la e tinha, portanto, presentemente o direito de fazê-lo.


Além disso, ele correspondia e respondia, em sua materialidade, à primeira condição prévia sugerida pela Fraternidade e pelo qual ela havia pedido com fervorosas orações. Se ele não era, certamente, apresentado como uma resposta a seu primeiro pedido, ele o era de facto. Não contente de indicar  certo encontro do pensamento do Papa com o nosso, sobre esse primeiro bem que se esperava do reconhecimento da liberdade da missa, ele se prestava evidentemente demais a ser entendido como um sinal para com a Fraternidade para não ter sido pensado e medido como tal.


Notemos também que não repugnou a Bento XVI inscrever-se visivelmente nessa lógica, que foi, no entanto, emitida e definida unilateralmente pela Fraternidade, sabendo perfeitamente que não deixariam – para louvá-lo ou para criticá-lo – de ressaltar isso. Ainda que ter representado o primeiro ato não o comprometa, é verdade, com aqueles que se seguem, o fato de tê-lo feito não é neutro e ele o sabe bem. Tanto mais que o Papa não ignorava que o efeito secundário da publicação do Motu Proprio seria infalivelmente o aumento do discrédito que afetaria as condenações fulminadas por Roma contra a Fraternidade. Ao afirmar que a missa nunca tinha sido proibida, o discurso pontifical dava razão, infelizmente apenas após sua morte, àquele que o tinha sempre afirmado, quase isoladamente entre todos os bispos: “O venerado Monsenhor Lefebvre”.


Na seqüência de tal reabilitação implícita de seu grande combate pela missa, mesmo que ela permaneça ainda parcial, será possível por muito tempo ao Papa manter a lembrança da “excomunhão” daquele que, quase sozinho, teve a coragem de lutar contra todos, que não se deixou intimidar e cuja recompensa, até o momento, consistiu apenas em ter suja sua memória?


É realmente possível que um combate tão heróico, cuja utilidade para a Igreja não cessa e não vai cessar de se revelar cada vez mais, possa ter sido conduzido por um homem mau, mau de uma malícia que teria sido mais tenebrosa que aquela de Lutero e cuja memória deveria para sempre permanecer maldita? Maldito, aquele sem o qual essa missa não teria sido sempre oferecida à Igreja? Quem ousará ainda dizê-lo? Quem não começa, ao contrário, a perceber a reunião e o germinar de todos esses sinais que deixam pressentir que essas “excomunhões” foram simplesmente uma prevaricação, uma aplicação criminosa da lei e que não se pode por mais tempo deixar crer que elas existiram e que existiriam ainda?

Admitamos – dato, non concesso – que as sagrações episcopais de 1988 não tivessem, ali[as, tido outra finalidade que sua decisiva e incontestável contribuição à salvaguarda e à manutenção da missa. Só essa preocupação, tão grave e sagrada, não teria bastado então e, hoje ainda, não deveria ser suficiente para concordar com a realidade de um estado de necessidade, ao menos litúrgica, no qual Dom Lefebvre se encontrava acuado e que foi invocado por ele para agir?


Ou, se não se pode ou não se quer confessar essa necessidade, embora evidente, a preocupação de que ela existisse não deveria bastar a que se reconheça, pelo menos, a nobreza de sua intenção, e, em vista do eminente serviço assim prestado à Igreja, a impedir que se demore sobre uma “falta” que, na seqüência, se teria revelado tão bem-aventurada que só mereceria como sanção a magnanimidade pontifical? Embora não seja, de modo algum, o nosso, esse raciocínio deveria, por outro lado, encontrar atentos nossos interlocutores, submetidos a um novo Código de Direito Canônico que o favorece
.


Não nos espantaria, na verdade, que o pensamento de Bento XVI caminhe nessa direção. Se ele mesmo não estivesse, de saída, intimamente convencido de uma grave necessidade provocada pelo estado de dissolução litúrgica, teria corrido o risco de enfrentar e de ganhar a inimizade da grande maioria do espicopado? Se ele correu esse risco, é que também ele tinha consciência de um estado de necessidade litúrgica suficientemente grave para dever intervir.


Ainda que nós encontremos – e nós não escondemos – muito a dizer sobre a doutrina e a teologia do Papa, enraizados nos textos do Concílio, essas graves reservas não nos impedem de pensar, ao mesmo tempo, que Bento XVI não carece nem de inteligência nem de uma indiscutível probidade
. Ele sabe perfeitamente que não poderia ter devolvido a missa à Igreja se o apego a essa liturgia e a reinvidicação de sua liberdade não tivessem sido mantidas e transmitidas pelo Fundador da Fraternidade São Pio X. Essas excomunhões incomodam em sua alma de Papa como poeira no olho. Nós imaginamos que elas o fazem chorar e que elas obscurecem seu olhar: quanto tempo ele, que quer ver, as suportará ainda?


A partir disso, toda esperança não se torna possível? Essa primeira piscadela pontifical não nos dá o direito de pensar que o Papa não se deterá mais em tão bom caminho?
Teria ele podido, ao escolher dar o primeiro passo, não se colocar a questão do segundo, não se preocupar com essa lógica que leva irresistivelmente a subir de uma condição prévia a outra, ou seja, de uma ação reconhecida como benfazeja a um ser que não pode, portanto, ser um malfeitor?

Aliás, os dois processos se parecem. Nos dois casos, trata-se apenas de obter a confissão de um não-ser: não-serda interdição da celebração da missa de São Pio V, não-ser das excomunhões e nulidade de um decreto vergonhoso. Se a primeira cruzada do Rosário foi seguida do Motu Proprio sobre a missa, a segunda poderia muito bem terminar com a retirada do decreto das excomunhões.

A segunda condição prévia

Antes da obtenção da primeira condição, pouco numerosos, realmente, eram os que conjecturavam que Roma se arriscaria a concedê-la apesar da agressividade episcopal. Poucos procuraram, consequentemente, tomar a verdadeira medida de tal acontecimento. Após sua obtenção, é ainda possível ou ter tendência a relativizar sua significação e seu alcance por uma justa preocupação de não se arriscar a entusiasmo injustificado em relação ao Papa Bento XVI, ou então ter sido atingido pessoalmente por esse entusiasmo.

É preciso refletir bem e rezar para encontrar o equilíbrio no julgamento e esclarecer as almas como é preciso, não afastar a hipótese da retirada do decreto como improvável, nem anunciá-la,como um astrólogo, como estando para se produzir em breve.

Porque o decreto pode muito bem não ser retirado por muito tempo ainda, é preciso mostrar sua nulidade e injustice, e demonstrar, ao mesmo tempo, que ele é a conclusão lógica da máquina conciliar rejeitando Fé e Tradição. Enquanto subsistir a aparência dessa sanção, nós continuaremos a levá-la como uma Legião de Honra, como o símbolo de um glorioso opróbrio, aquele que valeu a nossos bispos sua fidelidade solitária.

Porque a retirada do decreto pode igualmente se produzir rapidamente, é nosso dever antecipar essa declaração, de maneira que tal ato, se acontecer, seja unicamente julgado conforme sua significação exata. Se se trata realmente da retirada do decreto – e não de um levantamento das excomunhões – será então o começo da reparação da injustiça inaudita que conhecemos e nós poderemos então nos rejubilar.


Com efeito, mesmo que se trate apenas, em definitivo, de um primeiro passo para a reparação de uma indignidade, nós teremos para com o Papa que decidir isso um verdadeiro sentimento de gratidão, que não devemos de modo algum hesitar em exprimir
..Se, por outro lado, se tratar de um “levantamento das excomunhões”, as coisas seriam outras. Isso não corresponderia a nossa segunda condição prévia, e não isentaria nossos bispos do mau processo que lhes tinha sido movido. Deixando crer que as penas pronunciadas não era nulas mas que eram talvez mesmo merecidas, não resultaria disso, em certo sentido, pelo menos, um novo mal mais profundo? Roma teria então retirado, com uma aparência misericordiosa, sanções que se encontrariam, pelo mesmo ato, confirmadas como tendo sido validamente e até mesmo legitimamente aplicadas.


Nós ouvimos dizer que alguns padres dos Institutos Ecclesia Dei tinham se unido a nossa cruzada do Rosário e nós lhes agradecemos
. Nós queríamos simplesmente observar-lhes que nossa cruzada visa obter a retirada de um decreto nulo e aflitivo, não a retirada de uma penalidade que nós sabemos ser inexistente. Esta distinção é importante! A existência dessa Comissão Ecclesia Dei,  trepadasobre a condenação de Dom Lefebvre, assim como a aceitação de pertencer a ela, é um autêntico assunto de escândalo.. Nós nunca entendemos, em particular, como alguns, que lhe devem tudo e estão convencidos da nulidade das excomunhões, tenham se perdido nessa via. Que eles possam protestar contra tal tutela e se emancipar dela. Não seria essa uma maneira de pagar sua dívida de reconhecimento para com Dom Lefebvre?

Se tivemos sucesso, como cremos, nesse esforço de explicar o que anima nossa Fraternidade, as almas não se encontrarão desorientadas. Essas duas condições prévias, por mais importantes que sejam, não são, no final das contas, nada mais do que o começo de um longo processo!


Todas as questões mais sérias, que dizem respeito à própria fé, restam a abordar. Esse é o coração de nosso combate e não podemos fazer concessão de um só iota. Não será, portanto, certamente, uma falta de gratidão, mas um ato de caridade, continuar a exprimir bem nitidamente todos os nossos desacordos com a doutrina envenenada do Concílio
. Tenhamos o trabalho, desde agora, de refutar esse sentimentalismo tão comum que gostaria, como resposta aos avanços do Papa, que nós cessemos nossas críticas a respeito de seu pensamento, o qual está, no entanto, resolutamente inscrito na sua hermenêutica de continuidade do Vaticano II, absolutamente inadmissível.

Nunca deixemos dizer que “essas discussões teológicas” são um problema de especialistas e não nos dizem respeito. É preciso insistir em demonstrar que é totalmente o contrário: já que se referem à fé, essas questões dizem respeito a todos eminentemente, clero e leigos. Nós devemos ter o trabalho de entender e de fazer entender os pontos chave delas.

O Vaticano II é o “descoroamento” político de Nosso Senhor Jesus Cristo e a negação de Seus direitos sobre as sociedades. O Vaticano II é uma benevolência, infinitamente danosa e escandalosa para as almas, para com essas sociedades, escoltas do erro e do vício e fornecedoras do Inferno, muito impropriamente chamadas “outras religiões”. O Vaticano II é o triunfo do democratismo na Igreja, que torna toda autoridade quimérica e todo mando mais ou menos impossível, que permite a proliferação da heresia e do cisma. O Vaticano II é, na realidade, o maior desastre que jamais se produziu na Igreja.


Para se refazer, ela deve se livrar dele. De modo algum, portanto, a Fraternidade poderá cessar seu imenso combate de confissão da fé, que comporta obrigatoriamente a denúncia do erro
. Ela deve permanecer humilde e respeitosa, mas intrépida, impávida, para continuar a dizer tudo que ela deve dizer, confessar tudo o que ela deve confessar, denunciar tudo o que ela deve denunciar.

De Santa Joana d’Arc a Dom Lefebvre

Não é chegada a hora de se lembrar do processo de Santa Joana, daquela que foi queimada, em 30 de maio de 1431, como feiticeira, herege e relapsa na praça do Velho Mercado de Rouen?

Foi sua admirável mãe, Isabelle Romée, que obteve a instalação de um novo processo da Inquisição. Em 7 de julho (essa não é uma data que nós já conhecemos?) de 1456, na grande sala do palácio arquiepiscopal de Rouen, os comissários pontifícios, sob a presidência de Jean Juvenal de Ursins, arcebispo de Reims, declararam o processo de condenação de Joana e a sentença “manchados de roubo, de calúnia, de iniqüidade, de contradição, de erro manifesto de fato e de direito, inclusive a abjuração, as execuções e todas as suas conseqüências” e, por isso, “nulas, inválidas, sem valor e sem autoridade”.

Hoje, ainda que, certamente, a santa mãe de Dom Lefebvre, do alto do céu,  espere isso com confiança, é a Fraternidade São Pio X, sua filha, que pede justiça por seu pai. Nós estamos certos de que, dele, os católicos confessarão um dia, o que alguns tinham pressentido a respeito de Joana: “Tua morte será tua vida”. E os franceses, do mesmo modo que experimentam um legítimo orgulho de contar entre os seus uma tal filha, terão não menos vivo orgulho do serviço prestado à Igreja por esse arcebispo, outro insigne rebento e honra de sua raça.

Ambos julgaram, no dia seguinte às suas famosas sagrações, das quais eles tinham consciência de que lhes valeriam as mais violentas incompreensões e represálias de seus juízes, terem acabado sua epopéia. Tanto para um como para a outra, a sagração, seja de um rei ou de quatro bispos, é o instante por excelência para o qual convergem suas admiráveis missões. E de suas cavalgadas, seus destinos e sua fidelidade ao plano de Deus, ninguém compreendeu nada e ninguém compreenderá jamais, se não tiver percebido que eles são voltados inteiramente para essas sagrações salvadoras.

O gênio deles ou sua santidade, o selo da inspiração divina como o símbolo de sua indomável determinação, não se manifesta, em toda sua amplitude, senão na hora dessas sagrações vitoriosas. Sua missão se encerra e culmina nessas sagrações, que valeram a uma e valerão um dia ao outro, muito mais que qualquer outro ato de suas vidas, a declaração da heroicidade de suas virtudes e que os tornam, um e outra, tão teologicamente próximos! É encantador ver, aliás, até que ponto as reflexões dos melhores biógrafos e hagiógrafos de Joana esclarecem também a vida de nosso fundador.

Ora, em 1456, a leitura da reabilitação de Joana foi feita em todas as grandes cidades do reino da França. De nossa parte, esperamos pacientemente a hora (e estamos firmemente convencidos de que ela virá) em que cada bispo de nosso país, cada um em sua catedral, será convidado a anunciar que as pretensas sanções levantadas contra nossos bispos, na realidade, jamais existiram. Muito pelo contrário, que Dom Lefebvre, por sua coragem em 30 de junho de 1988, rendeu um notável serviço à Igreja. Antes disso, eles terão, é claro, cada um em seu bispado, estourado um champanhe, ou pela sagração de Reims ou pelas sagrações de Ecône, para festejar essa reparação! Queiram nos perdoar a pequena ironia – que aliás nem é necessariamente uma ironia! – de ter imaginado essa divertida cena.

Como quer que seja, nós gostaríamos de convidar cada um a refletir sobre a luz que fornece a obtenção da primeira condição prévia. A Fraternidade pediu e agora ela obteve. Isso teria sem dúvida sido concedido antes, se ela tivesse sido mais vigorosamente imitada e apoiada em seu pedido e em sua oração. Hoje, ela começou uma segunda oração e um segundo pedido – não para pedir o levantamento das excomunhões! – mas para requerer a retirada do vergonhoso decreto.


Ninguém deve pensar que esse segundo pedido só interessaria desta vez – diferentemente do primeiro – exclusivamente aos membros e aos fiéis da Fraternidade! Em primeiro lugar porque todos e cada um de nós devem estar implicados, quando se trava um combate a serviço da verdade e da justiça. Em seguida e principalmente, porque a obtenção da segunda condição prévia abrirá, enfim, oficialmente, o debate tão esperado dessas questões graves e decisivas que o Concílio coloca à consciência católica.

Possam os católicos contemporâneos não passar a vergonha de ter de confessar, tarde demais, que só entraram na batalha após a vitória alcançada, por falta, certamente, de ter tido a coragem de enfrentar o consenso para levantar a capa do “religiosamente correto”. Será muita pena, tanto mais que se torna fácil, hoje em dia, sentir que o vento está começando a virar e farejar o fim que vai ter esse caso!

O carrasco de Joana, após ter acendido o fogo que devia queimá-la viva, gritou: “Estamos perdidos: queimamos uma santa”.  Nós nos perguntamos se as pessoas mais secretamente confusas não serão, um dia, aquelas que quiseram se obstinar em crer ou fazer de conta que crêem, nessas “excomunhões” e que, com uma voz grave e penalizada, mandam, ainda hoje, rezar pelo seu levantamento e pelo retorno dos cismáticos ao aprisco da Igreja. Quem será o último a dizer que acredita nisso ainda?

Quanto à Fraternidade, ela continua, tão pacificamente quanto é possível avançar pacificamente em meio a uma tempestade, a seguir sua rota. Com ou sem a retirada do decreto das excomunhões, ela se encontra ainda mais resoluta a não baixar os braços e a não assinar com Roma “um acordo entre a água e o fogo”, pelo fato de sua providencial estratégia ter sido reconhecida e escolhida e estar mesmo começando a dar frutos.

Com a graça de Deus, ela passará, neste ano de 2009, a fronteira de quinhentos membros padres. Na França, ela tem a alegria de anunciar-lhes, após a benção da nova igreja construída no coração da cidade de Rouen, a abertura, para este novo ano, de dois novos lugares de culto na região parisiense, um em plena cidade de Paris, o outro perto de Meaux, e tem esperança, na próxima volta às aulas, de abrir um priorado em Rouen e uma nova escola primária em Brest.

Para o progresso de nosso apostolado, nós lhes agradecemos, de todo coração, suas orações e seu apoio. Nós devemos, em toda parte, continuar a construir tudo sozinhos, pois os lugares de culto nos serão sempre recusados. Na medida em que se amontoam cada vez mais os escombros do Concílio, parece, com efeito, que os bispos, ao invés de tentar se livrar deles, preferem se deixar igualmente sepultar com o que subsiste de suas dioceses.

Não nos queixamos de pagar caro nossa liberdade de palavra e de confissão da fé. Mas é um fato, de que se deve ter consciência clara, que enquanto as igrejas vazias permanecem obstinadamente fechadas – como em Amiens – e que nós temos que pagar, até o último centavo, cada metro quadrado de nossas instalações e cada pedra de nossas construções, que o combate da fé só se manteve, miraculosamente, e continua, graças a esse ostracismo e a essa imensa precariedade aos quais nós continuamos confrontados.

Mais do que nunca, a fim de intensificar nossa resistência e a fim de propagar a fé, nós temos necessidade de sua ajuda. Nós lhe agradecemos esse apoio indispensável para que nós possamos sempre mais desenvolver nosso apostolado para a glória de Deus, para a salvação das almas, para que a fé seja transmitida a nossos filhos e que não desapareça de nosso país.  Santa Joana o disse e viveu: “É preciso fazer o que se deve quando Deus quer. Façamos a nossa parte que Deus fará a d’Ele”.

Caros amigos e benfeitores, nesse começo do ano de 2009, cheios de uma invencível certeza de que a hora de Deus e do triunfo de sua justiça está para vir, eu lhes apresento meus votos de que enraizados no combate da fé, nós continuemos a combater, todos juntos e até o fim, no cadinho das virtudes cristãs e no Coração Doloroso e Imaculado da Santíssima Virgem Maria.

Votos de 2009 aos fiéis

Suresnes, 31 de Dezembro de 2008

Abbé Régis de Cacqueray-Valménier, Superior Distrito da  França da FSSPX


Para citar este texto:
Abbé Régis de Cacqueray-Valménier - "De uma condição prévia à outra"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=fraternidade-vaticano&lang=bra
Online, 22/01/2009 às 18:40h

domingo, 8 de junho de 2008

Eclesiologia modernista

Por Gederson Falcometa Zagnoli Pinheiro de Faria



O modernista Alfred Loisy


Há Eclesiologia Modernista é um reflexo direto da Cristologia de Loisy condenada no Decreto Lamentabili Sine Exitu. Os modernistas a partir de sua Cristologia distinguem uma Igreja da Fé e uma Igreja Histórica. Para eles a Igreja da Fé, é o corpo do Cristo da Fé que supostamente teria sido inventado pelas comunidades cristãs. Já a Igreja Histórica, seria o corpo do Jesus Histórico que com certeza é uma invenção do homem moderno.


Evidentemente a Igreja da Fé, é a Igreja do dogma, das anatematizações, das condenações e das excomunhões. Trata-se da Igreja que tem a posse da verdade, a Igreja militante que salva é a Igreja do dogma:


"Extra Ecclesia Nulla Sallus"


Já a Igreja Histórica, seria a Igreja da Pastoral, que diáloga com tudo e com todos, não anatematiza, não condena e não excomunga, porque não se acredita de posse da verdade. Coloca se em irmandade com as demais denominações cristãs e com as outras religiões na busca da verdade, é a Igreja Ecumênica. É a Igreja "Gaudium et Spes".


São Pio X, na Carta Encíclica Pascendi Dominici Gregis*, apresenta muito bem a Cristologia de Loisy. Aplicada a Igreja, as palavras de São Pio X, seriam:


'Na instituição Igreja, dizem [os modernistas], a ciência e a história não acham mais do que uma instituição humana. Portanto, em virtude do primeiro cânon deduzido do agnosticismo, da história desta instituição se deve riscar tudo o que sabe de divino. Ainda mais, por força do segundo cânon, a instituição histórica da Igreja foi transfigurada pela fé; logo, convém despojá-la de tudo o que a eleva acima das condições históricas. Finalmente, a mesma foi desfigurada pela fé, em virtude do terceiro cânon; logo, se devem remover dela as falas, as ações, tudo enfim que não corresponde ao seu caráter, condição e educação, lugar e tempo em que viveu'


O Concílio Vaticano II removeu as falas, as ações, tudo enfim que não corresponde ao caráter, condição e educação, lugar e tempo da Igreja na modernidade. Exatamente por esta visão, o então Cardeal Ratzinger, respondeu a Dom Marcel Lefebvre que não estamos mais nos tempos da Quanta Cura. Na mentalidade do Cardeal a Igreja já não estava acima das condições históricas. Deste modo, deveria adequar-se ao seu tempo, a sua história, por se tratar de uma instituição humana como todas as outras instituições humanas.


A Igreja que temos hoje, nada mais do que a Igreja Histórica. Uma Igreja que não convence nada e nem ninguém do pecado, da justiça e do juízo, porque prega a dignidade da pessoa humana e se faz amiga do mundo. Ora, nosso Senhor Jesus Cristo disse que o mundo não pode conhecer o Espírito Santo. Então nem mesmo o Concílio Vaticano II, o Papa e o Magistério tem autoridade para contradizê-lo e colocar a Igreja que não lhes pertence a serviço do mundo e da humanidade. Há não ser que se tornem apostátas...


Pelo que já li sobre a Nova Teologia, ela tem outra trindade, que é o mundo, a matéria e a evolução. Deste modo, explica-se porque céu e inferno sumiram da pregação da Igreja pós-conciar, reaparecendo em documentos oficiais mais recentemente na Carta Encíclica de Bento XVI, Spes Salvi. Para os adoradores desta trindade atéia, o paraíso é aqui mesmo e o reino de DEUS é o reino do homem que se fez e que se faz DEUS. É uma ateologia e não uma teologia propriamente dita. São Paulo, disse que seria necessário vir a grande apostasia, será que ela já não veio?


* 'Na pessoa de Cristo, dizem [os modernistas], a ciência e a história não acham mais do que um homem. Portanto, em virtude do primeiro cânon deduzido do agnosticismo, da história dessa pessoa se deve riscar tudo o que sabe de divino. Ainda mais, por força do segundo cânon, a pessoa histórica de Jesus Cristo foi transfigurado pela fé; logo, convém despojá-la de tudo o que a eleva acima das condições históricas. Finalmente, a mesma foi desfigurada pela fé, em virtude do terceiro cânon; logo, se devem remover dela as falas, as ações, tudo enfim que não corresponde ao seu caráter, condição e educação, lugar e tempo em que viveu' (Pio X, Encíclica Pascendi, 1907, Denzinger, 2.076).

domingo, 18 de maio de 2008

É pecado ser tradicionalista ou é pecado ser oportunista?

Capela da Associação Civil Santa Maria das Missões


Pe. João Batista de Almeida Prado Ferraz Costa



Parece que o aumento do número de católicos que tomam consciência nestes últimos anos dos problemas doutrinários que flagelam a Igreja sobretudo a partir do Vaticano II incomoda a certos senhores.

Observa-se hoje que há católicos que começam a perceber que a crise da Igreja atualmente é tão grave e se revela uma crise de identidade. Quer dizer, não se sabe mais o que é ser católico e perdeu-se uma linha de continuidade entre a Igreja de ontem e a Igreja de hoje. Não só nas formas exteriores acidentais mas também no núcleo doutrinário. O problema é tão sério que o Papa Bento XVI chegou a falar de uma hermenêutica da descontinuidade na leitura do Vaticano II (cf. seu discurso de Natal à Cúria Romana) e a admitir que se fizesse uma crítica construtiva a esse concílio pastoral. Ora, isto significa dizer que os documentos do Vaticano II são, no mínimo, ambíguos.

Notando tantas mudanças na Igreja, não são poucos os católicos que se perguntam sobre a solidez e perenidade da doutrina. Assim, são levados a comparar o que se ensina hoje com o que se ensinava antes e a prognosticar o que se ensinará amanha, se o “evolucionismo” continuar.

Qualquer católico medianamente instruído em rudimentos da sua fé verifica ao menos duas coisas que se apresentam como novidades inauditas na vida da Igreja: uma nova liturgia e um novo ecumenismo. E como hoje em dia, graças à Internet, as informações estão mais acessíveis a todos, sãos inúmeros os católicos que tomam conhecimento dos documentos clássicos da Igreja sobre esses assuntos (por ex. Mediator Dei de Pio XII, sobre a liturgia, a qual condena a prática do altar em forma de mesa ou Mortalium ânimos de Pio XI que define o verdadeiro ecumenismo católico, um esforço para trazer de volta ao seio da única Igreja de Cristo, a Católica, todos os dissidentes, e não um diálogo que visa à edificação de uma nova igreja no futuro, fruto de um consenso entre todos que se dizem cristãos).

Meditando sobre esses documentos do magistério, muitos católicos chegam à conclusão de que, efetivamente, há uma crise na Igreja resultante de uma ruptura senão doutrinária por uma negação explícita do dogma mas ao menos uma ruptura da tradição na prática religiosa. Com efeito, qualquer católico dotado de uma capacidade mínima de reflexão vê que a “política ecumênica” dos nossos dias não tem a menor preocupação com a unidade e unicidade da Igreja mas se reduz a um congraçamento entre as várias “denominações” com objetivos filantrópicos, ecológicos seja o que for, menos a séria questão doutrinária com a afirmação clara e corajosa do dogma (que hoje causa horror) fora da Igreja não há salvação. E como, quanto à questão moral, não há consenso entre as “religiões” e prevalece hoje um relaxamento geral dos costumes, há, por parte da maioria dos católicos, uma clamorosa omissão a respeito. Por causa de um rio, um bispo quase comete suicídio. Mas em defesa da inocência das nossas crianças corrompidas pelas aulas de pornografia promovidas pelo governo Lula, não se move uma palha. Nem sequer se fala em penitência por um pecado que brada aos céus e pede a Deus vingança, segundo a expressão do catecismo de São Pio X.

Digo mais: qualquer católico medianamente inteligente chega à conclusão de que hoje a religião não é mais uma resposta ao problema da salvação eterna, porque isto não é mais considerado nenhum problema. A religião hoje é aceita numa perspectiva utilitarista ou pragmática, quer dizer, vale enquanto ajuda a resolver problemas imediatos de qualquer ordem e deve descartada ou reformada na medida em que estorva a vida aqui na terra. As “religiões” valem enquanto se unirem e se entenderem para combater o terrorismo, a intolerância, os preconceitos e tabus. E quem recusar essa religião pragmática que usa a Deus para servir e cultuar o homem deve ser perseguido, proscrito, esmagado, atirado a um gueto como infame, misantropo e inimigo da humanidade. Este é o católico a quem se chama pejorativamente “tradicionalista” ou “integrista”, porque simplesmente quer a continuidade integral da religião que os apóstolos receberam de Cristo e se desenvolveu de forma orgânica sob a custódia dos papas. Mas ser taxado de tradicionalista não é vitupério. Ao contrário, é uma honrosa distinção, pois São Pio X escreveu: “Os verdadeiros amigos do povo não revolucionários nem inovadores, mas tradicionalistas.”

Entretanto, devo dizer: há católicos que são capazes de ver que é verdade tudo que disse aqui mas preferem silenciar negar ou até justificar a triste realidade. O problema não está na inteligência mas na vontade. Não querem indispor-se com ninguém, muito menos com a autoridade. Vendem a sua alma por um prato de lentilha ou pela perspectiva de uma carreira brilhante ou por razões mais sórdidas ainda. A propósito, lembro-me de que meu professor de Bioética, na Pontifícia Universidade da Santa Cruz de Roma nos disse um dia que, quando Paulo VI publicou a encíclica Humanae Vitae em 1968, ele (meu professor) estava presente numa reunião numerosa de bispos e somente ele e seu bispo manifestaram-se a favor do documento pontifício. A maioria preferiu hipocritamente guardar silêncio e fazer um trabalho de sapa a fim de não perder as benesses da sua posição. Hoje vemos a doutrina da Humanae Vitae negada escandalosamente pela maioria dos católicos.

Portanto, o pecado, o erro, não é ser tradicionalista. O pecado, o indecente, é ser oportunista.

http://www.santamariadasvitorias.com.br/documentos/E_pecado_ser_tradicionalista_ou_e_pecado_ser_oportunista.doc