Li o artigo do Pe Françoa, "Tradição e "tradicionalistas"", chamou me a atenção os esforços do autor a tentativa de demonizar Dom Marcel Lefebvre e o movimento tradicionalista. E principalmente a tentativa de impugnar a concepção tradicionalista de Tradição.
No primeiro caso, não falta material para impugnar a falsa acusação de cisma contra Dom Marcel Lefebvre. É mais do que suficiente, citar as palavras do Presidente da Comissão Ecclesia Dei, Cardeal Castrillon Hoyos, a maior autoridade sobre o assunto Tradicionalistas dentro da Igreja. Em entrevista a revista Una Voce, ele diz:
"Non siamo di fronte ad una eresia. Non si può dire in termini corretti, esatti, precisi che ci sia uno scisma. C'è una attitudine scismatica nel consacrare vescovi senza il mandato pontificio. Loro sono dentro la Chiesa, solo che manca una piena, una più perfetta - come è stato detto nell'incontro con monsignor Fellay - una più piena comunione, perchè c'è la comunione".
“Não se pode dizer em termos corretos, exatos, precisos, que no que eles fizeram haja um cisma. Há uma atitude cismática no consagrar Bispos sem o mandato pontifício. Eles estão dentro da Igreja, falta apenas uma plena, uma mais perfeita—como foi dito no encontro com Dom Fellay—uma mais plena comunhão, porque comunhão existe”
Una voce - Entrevista com o Cardeal Castríllon Hoyos "non si puó dire che ci sia uno scisma"http://www.unavoce-ve.it/11-05-93.htm
É o Cardeal Hoyos quem diz que "não há cisma" e "Eles estão dentro da Igreja, falta apenas uma plena, uma mais perfeita comunhão". Portanto, tudo o que o Pe Françoa, escreveu em relação a cisma, "tradicionalistas que se afastaram da comunhão Católica e a ela não voltaram ou àqueles que, ainda que se dizem em comunhão com a Igreja, combatem-na" não possuí na própia Comissão Ecclesia Dei nenhum sentido e absolutamente nada de verdade. Uma atitude cismática, não é cisma!
Passemos agora a noção de tradição que ele apresenta no artigo. Segundo ele, os tradicionalistas, não fazem distinção entre "Tradição Apostólica" (experiência) e "tradições teológicas, disciplinares, litúrgicas ou devocionais" (formulação intelectual ). O Pe Françoa ao fazer isto, apenas repete a noção modernista de tradição, infundida pelo Concílio na Igreja, já em seu discurso de abertura, conforme-se lê:
“Uma coisa é a substância do “depositum fidei”, isto é, as verdades contidas na nossa doutrina, e outra é a formulação com que são enunciadas, conservando-lhes, contudo, o mesmo sentido e o mesmo alcance.” Discurso de abertura do Concílio Vaticano II – Papa João XXIII
Justamente esta noção, é condenada por São Pio X, na Encílica Pascendi Dominici Gregis, como pode se ler:
“Há ainda outra face, além da que já vimos, nesta doutrina da experiência, de todo contrária à verdade católica. Pois, ela se estende e se aplica à tradição que a Igreja tem sustentado até hoje, e a destrói. E com efeito, os modernistas concebem a tradição como uma comunicação da experiência original, feita a outrem pela pregação, mediante a fórmula intelectual." Pascendi Dominici Gregis - São Pio X
A distinção entre experiência e formulação intelectual, analogamete, equivaleria a vestir as imagens dos Santos e de Nosso Senhor Jesus Cristo, com terno e gravata. É a formulação intelectual quem gera a experiência, não conservando-se a mesma podera a Igreja gerar a experiência tradicional católica em seus fiéis? E como se não bastasse, ele, ainda apresenta o critério modernista da temporalidade, afetada pelo tempo que dura, como se lê na própia Pascendi:
"Por isto a esta fórmula, além do valor representativo, atribuem certa eficácia de sugestão, tanto naquele que crê, para despertar o sentimento religioso quiçá entorpecido, e restaurar a experiência de há muito adquirida, como naqueles que ainda não crêem, para despertar neles, pela primeira vez, o sentimento religioso e produzir a experiência. Por esta maneira a experiência religiosa abundantemente se propaga entre os povos: não só entre os existentes, pela pregação, mas também entre os vindouros, quer pelo livro, quer pela transmissão oral de uns a outros. Esta comunicação da experiência às vezes lança raízes e vinga; outras vezes se esteriliza logo e morre. O viver para os modernistas é prova de verdade; e a razão disto é que verdade e vida para eles são uma e a mesma coisa. E daqui, mais uma vez, se infere que todas as religiões existentes são verdadeiras, do contrário já não existiriam. " Pascendi Dominici Gregis
O modernismo "a síntese de todas as heresias" nos tempos de São Pio X, estava "nas veias e nas entranhas da Igreja." No período do Concílio, segundo Jacques Maritain, ele tinha evoluído de tal maneira que ele escreve no livro La Paysan de la Garonne (1966):
"O modernismo do tempo de Pio X comparado à febre neomodernista moderna, é um simples resfriado". Le Pavsan de la Garonne (1966) - Jacques Maritain
Não é somente Maritain, quem atesta a febre modernista no período do Concílio. O própio Cardeal Ratzinger dirá no livro "O caminho Pascal":
"A Teologia moderna está muitas vezes procurando uma certeza científica no sentido das ciências (naturais, empíricas); e, procedendo deste ponto de partida, é forçada a reduzir o ambiente bíblico às dimensões desta demonstrabilidade. Penso que este erro ao nível da certeza reside no âmago da crise modernista que reapareceu depois do Concílio" (Joseph Cardeal Ratzinger, O Caminho Pascal, Loyola, São Paulo,, p. 28).
Por essa e outras razões, fica completamente destituída de razão e sentido, o que o Pe Françoa escreveu em seu artigo sobre a Pascendi e sobre o Decreto Lamentabilli, como pode se ler (Nos destaques):
"O decreto e a encíclica, ao entrar em luta contra o modernismo, queriam dar resposta a uma situação pontual, que responde a uma determinada época histórica.Logicamente, esses documentos continuam válidos. No entanto, não seria razoavelmente válido julgar a nossa época da mesma maneira que se fez no principio do século XX e usar a linguagem do documento para atacar e combater o Concílio Vaticano II, a bispos que estão em perfeita comunhão com o Papa e com o seu Magistério." Tradição e "tradicionalistas" - Pe Françoa
São Pio X, não julgou a sua época, ele julgou uma doutrina, por isso dizer que "não seria razoavelmente válido julgar a nossa época da mesma maneira que se fez no principio do século XX", é algo destituído de sentido. Equivaleria a dizer que Jesus Cristo não poderá julgar todos os homens no dia do juízo final, pois ele não vive a nossa época e não seria razoávelmente válido julgar homens que estão sujeitos ao tempo por preceitos eternos. Lógicamente tanto o decreto quanto a encíclica cotinuam válidos e se tanto o Concílio, como Bispos, o Magistério e o Papa, não estão em comunhão com o decreto e pascendi, temos sim uma ruptura na tradição. Ainda mais quando se observa que a "linguagem" anterior ao concílio era um redondo e sonoro Não e após o Concílio ele tornou-se um redondo e sono Sim. O mesmo espírito que nos ensina a dizer Sim Sim e Não Não, diria Sim e depois Não?
O Pe Françoa e todos que professam os erros impugnados pela Pascendi, são modernistas. Há fé para os tradicionalistas, continua sendo a adesão da inteligência e da vontade a verdade revelada, e não a adesão da inteligência e da vontade a experiência que produz o sentimento religioso. A Teologia que conhecemos não é desatualizada e nem atualizada, ela é eterna, não é o tempo que lhe determina a veracidade. Não cremos com Galileu Galilei que "a verdade é filha de seu tempo." E muito menos observamos em toda a história da Igreja um Concílio Ecumênico que dividiu a Igreja em desatualizada e atualizada, a Igreja não caminha com o mundo!
Estes erros já foram denunciados pelo grande Pe Reginald Garrigou Lagrange, no artigo "Para onde vai a nova teologia?" Nele pode se ler que uma teologia que não usa a linguagem de nosso tempo, é uma teologia falsa, como sugere Pe Françoa em seu artigo. Para a nova teologia a matéria, é o Pai, o mundo é o Filho e a Evolução é o Espírito Santo. Por esta razão atualmente Igreja e mundo se confundem, por esta razão desejou-se abrir a Igreja ao mundo e por esta razão ela encontra-se nesta crise de identidade sem precedentes na sua própia história.
O modernismo, que é a fé na ciência humana, triunfa, como o poder das trevas teve a sua hora nos tempos de Nosso Senhor. Porém esse triunfo perdurará por pouco tempo...
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SIM SIM NÃO NÃO: A REINCIDÊNCIA DO AMERICANISMO
Depois da viagem de Bento XVI aos Estados Unidos da América (17-20 de abril de 2008), parece-nos um dever necessário oferecer aos leitores uma análise do que significa realmente a cultura norte-americana, tão exaltada pelo Papa Ratzinger em seus discursos na ONU e na sinagoga de Nova York. -
SIM SIM NÃO NÃO: A FRATERNIDADE SÃO PIO X NÃO É HERÉTICA, NEM SEDEVACANTISTA, NEM CISMÁTICA"
As seguintes passagens foram extraídas das declarações do cardeal Castrillón em entrevista publicada na conhecida revista mensal 30 Giomi (n° 9 - setembro 2005). -
SIM SIM NÃO NÃO: TRATADO SOBRE A TRADIÇÃO DIVINA DO CARDEAL FRANZELIN
Depois da publicação no ano passado de Tradição e Modernismo do cardeal Billot, as edições "Courrier de Rome" acabam de publicar a primeira tradução francesa do Tratado sobre a Tradição divina do cardeal Franzelin (400 páginas, 21 euros + taxa de correio). -
O ANTICRISTO - INSTRUÇÃO PASTORAL DO CARDEAL PIE Anticristo, o que nega que Jesus seja Deus; anticristo, o que nega que Jesus seja homem; anticristo, o que nega que Jesus seja homem e Deus ao mesmo tempo. Um anticristo, nos diz São João, nega o Pai, pois negando o Pai nega o Filho: Hic est antichristus qui negat Patrem et filium (I Jo. 2, 22).
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ARCEBISPO DE FERRO, ARCEBISPO DE LÃ
Por ocasião dos 20 anos da morte de Dom Lefebvre, como singela homenagem, publicamos a conferência de Dom Tissier, a respeito da vida de Dom Lefebvre, que juntamente com Dom Antônio, nos ensinaram o que é, e como deve ser um Bispo. Obrigado, Monsenhor ! .
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domingo, 8 de junho de 2008
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