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segunda-feira, 3 de novembro de 2008

R E S P O N D E O nº 1

 

http://www.permanencia.org.br/Respondeo/missanova1.htm

1. Os tradicionalistas extrapolam ao afirmar que a Missa Nova é protestantizada. Na verdade queriam chamá-la herética e inválida!

Resposta: O Novus Ordo é um rito protestantizado. São vários os motivos que nos obrigam dizê-lo:

  • a intenção dos reformistas.

  • A acolhida dos protestantes.

  • O escandaloso convite feito aos protestantes.

  • O parecer de eminentes teólogos.

  • A comparação com as reformas litúrgicas de Lutero e Zwinglio.

  • O problema da tradução do Missal.

  • A adoção de novas linguagens e práticas.

a) A INTENÇÃO DOS REFORMISTAS

O escritor francês Jean Guitton, amigo próximo de Paulo VI, escreveu: “O Papa Paulo VI me confiou que era sua intenção assemelhar o mais possível a nova liturgia ao culto protestante” [3]. Também possuímos a declaração do pde. Anibal Bugnini, talvez o principal nome por trás do Novus Ordo Missae: “A oração da Igreja não deve ser um motivo de constrangimento para ninguém", logo "[é preciso] arredar toda a pedra que poderia constituir qualquer sombra de risco de tropeço ou de desprazer para os nossos irmãos separados" (L´Osservatore Romano, 19 de março de 1965). Grifos nossos.

b) A ACOLHIDA DOS PROTESTANTES

Lutero dizia: "Eu afirmo que todos os lupanares, os homicídios, os roubos, os adultérios, são menos maus que esta abominável Missa!"

Após o Novus Ordo, entretanto, os protestantes abandonaram a costumeira hostilidade e encheram-se de simpatia pelo rito da Igreja. Por que não se entusiasmavam com o antigo missal e sim com este? Por que recusavam firmemente rezar pela Missa de Sempre, mas não têm escrúpulos em utilizar a Missa Nova? A razão, acreditamos, não pode ser outra senão a de que a "reforma litúrgica deu um passo notável para a frente e houve uma aproximação das formas da Igreja luterana" (L´Osservatore Romano, 13/10/1967).

Vejamos algumas declarações públicas de protestantes, declarações essas que constituem sinal evidentíssimo de que há algo errado com a nova missa: [4]

- Max Thurian, da Comunidade protestante de Taizé: “Um dos frutos do novo Ordo será talvez que as comunidades não católicas poderão celebrar a santa ceia com as mesmas orações da Igreja católica. Teologicamente é possível” (“La Croix”, 30-5-69).

- “Agora, na Missa renovada, não há nada que possa verdadeiramente perturbar o cristão evangélico” (Siegevalt, Prof. de Dogmática na Faculdade protestante de Strasbourg, “Le Monde”, 22-11-69).

- “As novas orações eucarísticas católicas abandonaram a falsa perspectiva de um sacrifício oferecido a Deus” (“La Croix”, 10-12-69, palavras que Jean Guitton diz ter lido em revista protestantes muito apreciada).

- “Se toma em consideração a evolução decisiva da liturgia eucarística católica, a possibilidade de substituir o cânon da Missa por outras orações litúrgicas, o afastamento da idéia segundo a qual a Missa constituiria um sacrifício, a possibilidade de comungar sob as duas espécies, não há mais razão para as igrejas da Reforma" (Roger Mehl, protestante, em “Le Monde”, 10-9-70).

- “Nós nos atemos à utilização das novas preces eucarísticas nas quais nós nos encontramos e que têm a vantagem de matizar a teologia do sacrifício que tínhamos o hábito de atribuir ao catolicismo. Estas preces nos convidam a encontrar uma teologia evangélica do sacrifício” (Trecho de um documento emanado do Consistório superior da Confissão  de Augsbourg e da Lorena, datado  de 8-12-73, publicado em “L’Église en Alsace”, número de janeiro de 1974).

- “A maior parte das reformas que Lutero desejava. Existem doravante no interior mesmo da Igreja Católica” – (...) “Por que não se reunir?” (Seppo A. Teonen, teólogo luterano, professor de Dogmática na Universidade de Helsiqui, jornal “La Croix” de 15-5-72).

Acrescente-se ainda as declarações feitas em 1983 pela Comissão Mista católico-luterana, oficialmente reconhecida por Roma:

"Outras exigências que Lutero tinha formulado em seu tempo podem ser consideradas como sendo satisfeitas na teologia e na prática da Igreja de hoje", tais como: "o emprego da língua vulgar na liturgia, a possibilidade da comunhão sob as duas espécies e a RENOVAÇÃO DA TEOLOGIA E DA CELEBRAÇÃO DA EUCARISTIA"[5] . (grifos nossos)

c) O ESCANDALOSO CONVITE FEITOS AOS PROTESTANTES

Seis pastores protestantes foram convidados para a Comissão da Reforma Litúrgica e dela participaram como adidos qualificados. Paulo VI deixou-se fotografar com os mesmos na cerimônia de encerramento do CONSILIUM, em 10/4/70 e a foto foi reproduzida em La Documentation Catholique. Ora, estes pastores não se limitaram a assistir, mas tiveram participação ativa.

A intervenção ativa destes ‘observadores’ é corroborada por declarações de Mons. W.W.Baum, “diretor executivo” dos assuntos ecumênicos da conferência episcopal americana”: “Eles não lá estiveram como simples observadores, mas como consultores, e participaram plenamente das discussões sobre a renovação litúrgica católica. Não faria muito sentido caso se contentassem em ouvir, mas eles puderam contribuir” (Detroit News, 27 de junho de 1967).”[6]

Ademais, como afirmou Mons. Lefebvre, por que os protestantes teriam sido convidados para a Comissão da Reforma Litúrgica senão para que dissessem “se estavam satisfeitos ou não, ou se havia alguma coisa que lhes não agradava, se eles podiam rezar conosco?”[7]

Essa escandalosa participação dos protestantes teve um precedente notório: o Concílio Vaticano II:

Os protestantes, integrando um grupo que foi chamado de "OBSERVADORES NÃO-CATÓLICOS", já estavam presentes na Aula Conciliar desde o primeiro dia da Primeira Sessão do Concílio Vaticano II, e a importância de sua participação foi logo enfatizada, pois no programático discurso de abertura do Concílio (11/10/62), o Santo Padre João XXIII anunciou formalmente que uma das grandes finalidades do encontro seria a união dos cristãos.

“Esses "OBSERVADORES NÃO-CATÓLICOS" participaram do início ao fim do Concílio e no final deste, ou seja, no dia 4 de dezembro de 1965, estavam presentes em uma cerimônia ecumênica, na qual o Papa Paulo VI, "com evidente satisfação" e dirigindo-se a tais "observadores", disse:

"... Sabeis, Irmãos, que de muitas maneiras o nosso próprio Concílio Ecumênico pôs-se em movimento em direção a vós: da consideração que os Padres Conciliares não deixaram de manifestar pela vossa presença, que tão cara lhes era, até o esforço unânime para evitar toda expressão que não fosse cheia de deferências para convosco; da alegria espiritual de vermos vosso grupo de escol associado às cerimônias religiosas do Concílio, até a formulação de expressões doutrinais e disciplinares aptas a arredar os obstáculos e a abrir sendas tão largas e aplainadas quanto possível para uma melhor valorização do patrimônio religioso que conservais e desenvolveis: a Igreja Romana, como vedes, testemunhou a sua boa vontade de vos compreender e de se fazer compreender; não pronunciou anátemas, senão invitações; não traçou limites à sua espera, como tampouco os traça ao seu oferecimento fraterno de continuar um diálogo que a empenha."[8] (grifos nossos)

d) O PARECER DE EMINENTES TEÓLOGOS E AUTORIDADES DA IGREJA

Cardeal Ottaviani, outrora Prefeito da Congregação da Doutrina e da Fé, oficialmente encarregado pela defesa da Fé e da moral: “A nova forma da missa foi substancialmente rejeitada pelo Sínodo Episcopal, nunca foi submetida ao júri das Conferências Episcopais e nunca foi reivindicada pelo povo. Além do mais possui todas as possibilidades de satisfazer aos mais modernistas dos Protestantes.”[9] (grifos nossos).

Cardeal Sticker: “O lugar importante dado às leituras e à pregação na nova missa, a possibilidade mesma deixada ao padre de acrescentar explicações e palavras pessoais é uma reflexão a mais sobre o que é legítimo chamar de uma adaptação à idéia protestante de culto..." (grifos nossos)

Cardeal Silvio Oddi: “Quando o Cânon II foi publicado, os protestantes da famosa comunidade de Taizé, que têm uma liturgia muito diferente da liturgia católica, disseram: “Este nós também podemos usar”. Isto quer dizer que pode ser interpretado sem a presença real de Cristo na Eucaristia. Portanto, alguma coisa não era clara (...) Tenho a impressão de que as pessoas escolhidas para efetuar todas essas reformas litúrgicas não estavam muito preocupadas com a pureza do dogma e da doutrina. Tentaram apresentar as coisas para agradar alguém, por uma concepção ecumênica errônea”.[10] (grifos nossos)
Cardeal Fernando Antonelli
, membro do Consilium, organismo encarregado da reforma litúrgica: "Tenho a impressão de que se concedeu muito, sobretudo em matéria de sacramentos, à mentalidade protestante" (grifos nossos)

Mons. Klaus Gamber, bispo de Ratisbona e perito em Liturgia: “A reforma litúrgica de Paulo VI foi mais radical que a de Lutero”.

Pde. Raymond Dullac: “Este rito possui um PECADO ORIGINAL que circuncisão alguma será capaz de suprimir: o pecado de se ter querido fabricar uma “missa” passe-partout, apta a  ser celebrada tanto por um católico como por um protestante”

Um grupo de teológicos publicou em 1969 um artigo na conceituada revista Pensée Catholique: “O Ordo Missae tenderia a instaurar na Igreja católica romana um ofício por demais semelhante à ceia das igrejas protestantes. Sinal característico? É a Ceia e não a Cruz que figura no frontispício do livro vermelho, na página 2”[11].

Outro interessante testemunho nos foi dado pelo escritor Julien  Green, convertido do anglicanismo: “A primeira vez que ouvi a Missa em francês, tive dificuldade em crer que se tratava de uma Missa Católica. Apenas a Consagração me tranqüilizou, embora ela fosse, palavra por palavra, semelhante à consagração anglicana”.

No mesmo livro, o autor conta a impressão que ele e sua irmã tiveram diante de uma Missa televisionada: Pareceu-lhes uma imitação grotesca do ofício anglicano. No fim ele perguntou à sua irmã: “por que é que nos convertemos?” (op. cit., p. 138)[12].

e) A COMPARAÇÃO COM A REFORMA LITÚRGICA DE LUTERO

― É espantosa a comparação entre o culto dos reformadores e o Novus Ordo. A citação seguinte foi tirada do livro de Arnaldo Xavier da Silveira, “Considerações sobre o Ordo Missae de Paulo VI”. Os negritos são nossos:

“Na quinta-feira santa, 13 de abril de 1525, bem como na sexta-feira santa e no domingo de Páscoa seguintes, sob as abóbadas estarrecidas do “Grand Muenster”, o culto se processou de maneira absolutamente nova. A língua alemã expulsava totalmente o latim da liturgia. Os coros não cantavam mais (...) A ceia substituía a missa.

“As espécies da refeição sagrada encontravam-se sobre uma mesa de tipo comum. Zwinglio oficiava voltado para a assembléia, em vez de permanecer, como na liturgia romana, de frente para o altar. A seu tempo, acólitos distribuíam o pão ao longo dos bancos dos fiéis, que com suas próprias mãos tomavam um pedaço e o levavam à boca. O cálice, trazido da mesma maneira, circulava em seguida, passando de um comungante a outro. Zwinglio fizera questão de que o vinho fosse pôsto em cálices de madeira, a fim de repudiar abertamente todo o fausto. (...)”[13].

― “...a primeira medida de Lutero contra o caráter sacrifical da Missa, foi a supressão do ofertório, que mais explicitamente o expressa. Depois fez as outras mudanças. Foi igualmente o que fez Paulo VI na nova missa, transformando o ofertório em uma simples apresentação de dons conforme prática judaica na suas sinagogas.

“Em seguida, Lutero alterou as palavras da instituição, fazendo da parte consacratória e da narrativa, que são bem distintas, uma só, e mandando pronunciar tudo em tom narrativo e em voz alta. Tudo para suprimir qualquer idéia de ação pessoal do celebrante e pois, toda a idéia de sacrifício, e assim inculcar nos assistentes a idéia protestante de simples ceia-memorial.

“Também a reforma de Paulo VI, do rito da Missa, alterou a forma da Consagração, transpondo para fora dela as palavras “Mysterium fidei”, e suprimindo o ponto gráfico que separava bem a parte narrativa, da parte consecratória, de modo que o celebrante é levado a pronunciar tudo em tom narrativo como quem apenas conta um fato acontecido no passado, e não como quem faz uma ação pessoal, que torna de novo presente a mesma realidade operada por Jesus Cristo, e por Ele ordenada que fosse renovada perpetuamente mediante o ministério do sacerdote (Lc. 22,19).

“Vê-se pois, por essa pequena amostra – e há muitos outros pontos nos quais a missa nova não é mais a pura expressão da Fé Católica – como é de suma importância a nossa fé nesse aspecto da Missa como sacrifício. Aí está a prova. Os protestantes tomam ares de festa com a sua supressão, através da Missa nova.”[14]

― “Lutero suprimiu qualquer referência aos Santos. Também na Missa Nova, dos seus quatro Cânones, somente o chamado Romano menciona alguns Santos, e mesmo assim, é livre a sua menção pelo celebrante. Mais um motivo por que vários pastores protestantes afirmam poder celebrar a sua ceia-memorial usando o texto da Missa Nova”.[15]

― “Para Lutero, a Missa é somente um banquete de comemoração da última Ceia. Daí ser celebrado em uma mesa, e com o celebrante voltado para o povo, na postura dos comensais de refeição comum, como se faz na Missa Nova”[16].

f) O PROBLEMA DA TRADUÇÃO

Outro aspecto que deve ser estudado é o da tradução do Novus Ordo para o vernáculo. Problema que ocorreu em maior ou menor grau por todo o mundo. No Brasil, os "erros" de tradução foram motivo de polêmica pública, envolvendo sacerdotes e diversos intelectuais católicos. [17] Ora, analisando os “erros” diversos de tradução para o português (o padre D´Elboux listou na época nada menos que 150 e, segundo narrou o mesmo, Dom Fernandes, de Londrina, relacionou número ainda maior de "erros"), verifica-se que vão freqüentemente numa direção muito agradável aos protestantes. Ora, o fortuito não pode ser repetitivo. Vejamos alguns exemplos:

1. Nas referências à Nossa Senhora, todas as vezes em que se lia beata Virgo Maria no original latino do Novus Ordo, traduziu-se simplesmente por "Virgem Maria", omitindo o bem-aventurada que pedia o latim. Isto ocorre nos parágrafos 3, 45, 54, 78, 85 e 94. Notamos que, no parágrafo 85, lia-se: in primis cum beatissima Virgine, Dei Genitrice, Maria. Eliminados o superlativo beatissima e o in primis ("antes de tudo"), ficou a tradução abreviada para: "Virgem Maria, mãe de Deus".

Ainda neste ponto, encontramos as omissões seguintes:  

— no parágrafo 30: "Virgo Mater inefabili dilectione sustinuit", torna-se: "a Virgem esperou com amor de Mãe". Enquanto no latim, estava amor inefável e não, de Mãe;

— no parágrafo 45 e no 53, "virginitatis gloria permanente" e "in primis gloriosae semper Virginis Mariae", respectivamente no latim. Não aparece na tradução o gloria da primeira frase, nem o gloriosae, da segunda;  

— no parágrafo 46: "Deiparae Virgini Sponsus" fica traduzido como "esposo à Virgem Mãe", enquanto Deiparae pedia "à Virgem Mãe de Deus".

2. Com relação aos Apóstolos, Santos e Mártires ocorre fenômeno parecido com o que se viu acima. No parágrafo 47, "beatos Apostolos", no texto latino, traduz-se simplesmente "dos Apóstolos"; no parágrafo 69 traduz-se "tuis sanctis Apostolis" por "apóstolos"; mais grave, no parágrafo 78 simplesmente omite-se a menção aos santos ("et omnibus Sanctis qui tibi a saeculo placuerunt", torna-se "e todos os que neste mundo vos serviram" — sem mencionar a tradução de "placuerunt" por "serviram"). Ainda no parágrafo 85 vê-se novas omissões: "cum beatis Apostolis tuis et gloriosis Martyribus" é transformado em "os vossos apóstolos e mártires".

3. Com relação à Igreja: Por duas vezes suprime-se o adjetivo "católica" ao referir-se à Igreja e, em uma vez, omite-se o adjetivo "santa". "Quae tibi offerimus pro Ecclesia tua sancta catholica" passou a ser "Nós as oferecemos (omitiu-se in primis) pela vossa Igreja (omitiu-se sancta e catholica) dispersa pelo mundo".

4. A tradução de "pro multis", na formula mesma da Consagração, por "por todos" (mais gravemente, na tradução oficial de 1969, publicada sob a aprovação da CNBB, "por todos os homens"), cuja correção apenas recentemente foi ordenada.

5. No início da agora chamada "Oração Eucarística I" [...] vê-se traduzido haec dona, haec munera, haec sancta sacrificia illibata por "estas oferendas", simplificação excessiva e mutiladora, exatamente porque aquelas ofertas são matéria do "sacrifício ilibado", da Vítima Perfeita, Cristo. A missa é essencialmente sacrifício: não assembléia, nem memorial.

Poder-se-ia arrolar ainda muitos outros exemplos de infelizes omissões, como a do parágrafo 63, onde "et hunc praeclarum calicem" é traduzido, tão pobremente, por "o cálice"; ou a igualmente infeliz omissão em dois lugares de adjetivos que indicam perpetuidade quando se refere a danação ou vida eterna (parágrafos 43 e 60); ou as diversas passagens em que se eliminou ou se atenuou expressões referentes aos Anjos e à hierarquia angélica; ou a tradução do “Orate frates”, ou do “Et cum spiritu tuo”.

É de espantar a franqueza com que D. Clemente Isnard OSB, Secretário Nacional de Liturgia no tempo em que foram feitas as traduções, narra como conseguiu a aprovação de Roma ao texto traduzido (grifos nossos):

"Resolvi então proceder por própria conta" - coisa de admirar mas não de imitar - e que tanto irritou Dom Geraldo Fernandes, que chegou a ser Vice-Presidente da CNBB. "Apresentei em Roma, e a Congregação para o Culto Divino aprovou nossa versão. Nossa sorte é que no momento não havia na Congregação perito em língua portuguesa. Desta forma obtivemos aprovação da simplificação do Cânon Romano, que tinha sido apresentada pelos franceses e negada... Nós simplesmente havíamos copiado a proposta francesa."[18]

g) NOVA LINGUAGEM, NOVAS PRÁTICAS

- “É sabido que a Eucaristia tem dois aspectos, um de Sacramento, outro de Sacrifício. O 1º é chamado “Eucaristia”; o 2º é a Santa Missa. É de fé que a Missa é Sacrifício; o próprio termo “Missa” já indica o seu caráter sacrifical, pois é o particípio do verbo latino “mittere”: enviar. Significa que, ao fim da Missa, a oblação sacrifical já foi enviada (Sto. Tomás)

“Por isso, Lutero suprimiu a palavra “Missa”, em sua reforma litúrgica; queria apagar da mente dos fiéis até a idéia de Sacrifício que lhe é conexa. “Chamemo-la, dizia ele, Benção, Eucaristia, Ceia do Senhor”. E hoje, seguindo a preferência da “Institutio generalis”, que promulgou a Missa Nova, está sendo chamada, de preferência, Eucaristia.

- “Para Lutero, todo homem, só pelo batismo, já é sacerdote, porque, para ele, não há qualquer diferença entre ser cristão e ser sacerdote. Por isso, os seus pastores são meros presidentes das assembléias reunidas para celebrar a sua ceia meramente memorial. É muito sintomático que, na Missa Nova, o “Confiteor” não seja mais rezado, primeiro, pelo celebrante sozinho e só depois pelos fiéis juntos. Esta mudança insinua igualdade entre os padres e os leigos. E o próprio Institutio Generalis (no. 7) chama o celebrante de presidente da “assembléia do povo de Deus”, na qual o povo reunido sob sua presidência é que celebra o “Memorial do Senhor”. Só diante da reclamação dos fiéis por causa desse grave erro é que Roma fez um arremedo de correção, pois o celebrante continuou a ser presidente da Assembléia e o povo não deixou de ser quem celebra, ou con-celebra (com o presidente)...”[19]

Podemos citar ainda aqui:

- O grave problema da definição da Missa como Ceia no “Institutio Generalis”;

- As concelebrações;

- A substituição do latim pelo vernáculo;

- A comunhão dada na mão;

- A substituição do gregoriano por músicas populares, o emprego de instrumentos de percussão e cordas nas Igrejas;

- As missas-show, carismáticas etc.

CONCLUSÃO

"O Novus Ordo foi concebido com o propósito de favorecer um falso ecumenismo, esmaecendo a fé", "a Nova Missa pode ser lícita e válida, mas a intenção que presidiu a sua elaboração a torna intrinsecamente perversa e perigosa". A essas objeções, Dom Guy Oury, do célebre mosteiro de Solesmes, comentou: "Se fosse realmente assim, compreender-se-ia que os católicos fiéis estivessem justamente alarmados em sua fé; a resistência tornar-se-ia mesmo um dever"

Ora, como nota Louis Salleron, ainda que estas duas objeções devessem ser formuladas um pouco diferentemente, é realmente assim. Por isso, a resistência é um dever. [20]

* * *

Encerramos deixando ao leitor a tarefa de julgar. As evidências são copiosas. Como negar, sem má-fé, que é protestantizante o novo rito, não apenas em sua intenção, não apenas no entender dos protestantes, mas naquilo mesmo que o constitui?

O leitor desejoso de se aprofundar no assunto poderá ler alguns dos trabalhos que foram publicados nesse sentido:

- A Missa de Lutero, por Mons. Lefebvre;

- Protestantização Litúrgica (Sim Sim Não Não, no. 69);

- Carta Aberta aos Católicos Perplexos, cap. IV, de Mons. Lefebvre.

- “A Teologia do Sacrifício da Missa”, por D. Licínio Rangel (Sim Sim Não Não, Julho/2001);

- "Solesmes et la Messe" (Itinéraires, no. 195), "En quoi la Nouvelle Messe est un échec " (no. 194), Louis Salleron.

- La Nouvelle Messe de Paul VI: Qu´en penser?”, Ia parte, cap. 5. de Arnaldo Xavier da Silveira “

- “A Missa Nova, uma caso de Consciência” e “Católicos, Apostólicos, Romanos”, padres de Campos.

Sobre a Missa tradicional, oferecemos ainda vários textos no nosso índice Missa de São Pio V

* * *

Finalmente, jamais alegamos que a Nova Missa fosse herética ou inválida. A esse respeito, citamos palavras do próprio Mons. Lefebvre: “Evidente que a reforma litúrgica atual se inspira na reforma de Lutero. Eu disse isso, em Roma, a muitos Cardeais: Vossa nova Missa é a Missa de Lutero!” A isso me foi respondido: Mas então ela é herética!” E eu respondi: Não, ela não é herética, mas é ambígua, equívoca, pois um pode celebrá-la com a católica integral do Sacrifício, da Presença Real, da Transubstanciação e outro pode celebrá-la sem ter essa intenção e, nesse caso, a Missa não será mais válida. As palavras que ele pronuncia e os gestos que ele faz não o contradizem. Ela é equívoca, sim, equívoca. E certamente Lutero, durante muitos anos, a celebrou validamente, quando ele ainda não estava contra o Sacrifício, quando ele era ainda mais ou menos católico. Porém, mais tarde, quando ele recusou o Sacrifício, o Sacerdócio, a Presença Real, então sua Missa passou a não ter mais validade[21].

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Notas:

[3] Emission de Radio-Courtoisie, 19/12/1993. “A intenção de Paulo VI, a respeito da liturgia católica, foi reformá-la de modo a quase coincidir com a liturgia protestante (...) Repito, Paulo VI fez tudo quanto estava em seu poder para aproximar a missa católica – afastando-se do Concílio de Trento – da Ceia protestante (...) Há em Paulo VI uma intenção ecumênica de apagar, ou ao menos de corrigir, ou de abrandar, o que na Missa há de demasiadamente católico, no sentido tradicional, e de aproximar a Missa católica da missa calvinista”.

[4] “A missa nova, um problema de consciência”, padres de Campos

[5] - Como consta de “La Documentation Catholique”, de 3 julho de 1983, n.1085, páginas 696 e 697. Citado em “A Renovação da Celebração da Missa”, Francisco Lafayette.

[6] “La nouvelle messe est d´esprit protestant”, Mons. Lefebre, “La Libre Belgique”, 25/9/76. Reproduzido de “Le mouvement Liturgique”, Abbé Didier Bonneterrre, ed. Fideliter.

[7] A Missa de Lutero, conferência de Mons. Lefebvre.

[8] A “Renovação” da celebração da Missa, Francisco Lafayette.

[9] A Intervenção Ottaviani (http://www.permanencia.org.br/revista/atualidades/ottaviani.htm)

[10] Em entrevista para a revista “30 dias”, julho de 1991.

[11] Publicado em La Pensée Catholique, no. 122.

[12] “A missa nova, um problema de consciência”, padres de Campos.

[13] Jean Rilliet, “Zwingle, le Troisième Homme de la Réforme”, 1959 – citado por “La Contre-Réforme Catholique au XX Siècle”, no. 26, novembro de 1969, p. 1.

[14] “A Teologia do Sacrifício da Missa”, D. Licínio Rangel.

[15] A Missa da Tradição e a Missa Nova, nov/2001, Sim Sim Não Não.

[16] Ibidem.

[17] Além do Padre d'Elboux, escreveram Gustavo Corção, Gladstone Chaves de Melo ("A Tradução da Nova Missa" e "Ainda a Nova Missa", respectivamente 2/01 e 3/01/70; "Ainda a Missa", Mar/70; "Erros e Heresias Acobertados pela Tradução Brasileira da Missa", Jun/70), o Cônego Ludovico Rosano ("Traduttore, Traditore" em 17/02;"Carta de Uma Padre Católico" em 7/03/70). Como relata ainda o mesmo Pe. D'Elboux ("Ainda a tradução do Novo Missal", Set/73), Dom Fernandes, de Londrina, chegara a preparar uma lista de "erros" de tradução ainda maior que a sua.

[18]  Conferência pronunciada no Encontro dos Liturgistas do Brasil. in A Sagrada Liturgia — 40 anos depois", estudos da CNBB no. 87. Editora Paulus, São Paulo, 2003.

[19] “A Missa da Tradição e a Missa Nova”, nov/01, Sim Sim Não Não.

[20] "Solesmes et la Messe", Louis Salleron, Itinéraires, 195.

[21] “A Missa de Lutero”, Mons. Lefebvre.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O LIBERALISMO É PECADO

Dom Felix Sardá y Salvany

III. – Se é pecado o Liberalismo, e que pecado é...

O Liberalismo é pecado, já se o consideremos na ordem das doutrinas, já na ordem dos fatos.
Na ordem das doutrinas é pecado grave contra a fé, porque o conjunto de suas doutrinas é heresia, ainda que não o seja, talvez, uma ou outra de suas afirmações ou negações isoladas. Na ordem dos fatos é pecado contra os diversos Mandamentos da lei de Deus e de sua Igreja, porque de todos é infração. Mais claramente, na ordem das doutrinas o Liberalismo é a heresia universal e radical, porque a todas compreende; na ordem dos fatos é a infração radical e universal, porque a todas autoriza e sanciona.

Procedamos por partes na demonstração.

Na ordem das doutrinas o liberalismo é heresia. Heresia é toda doutrina que nega com negação formal e pertinaz um dogma da fé cristã. O liberalismo doutrina primeiro os nega todos em geral e depois cada um em particular. Nega todos em geral quando afirma ou supõe a independência absoluta da razão individual no indivíduo, e da razão social, ou critério público, na sociedade. Dizemos que afirma ou supõe porque, às vezes, nas conseqüências secundárias, não se afirma o princípio liberal, mas se lhe dá por suposto e admitido. Nega a jurisdição absoluta de Cristo Deus sobre os indivíduos e as sociedades, e, em conseqüência, a jurisdição delegada que sobre todos e sobre cada um dos fiéis, de qualquer condição ou dignidade que seja, recebeu de Deus a Cabeça visível da Igreja. Nega a necessidade da revelação divina, e a obrigação que tem o homem de admiti-la, se quiser alcançar seu fim último. Nega o motivo formal da fé, isto é, a autoridade de Deus que revela, admitindo da doutrina revelada apenas aquelas verdades que alcança seu limitado entendimento. Nega o magistério infalível da Igreja e do Papa, e, em conseqüência, todas as doutrinas por eles definidas e ensinadas. E depois desta negação geral e global, nega cada um dos dogmas, parcial ou concretamente, à medida que, segundo as circunstâncias, os julga opostos a seu critério racionalista. Assim, nega a fé do Batismo quando admite ou supõe a igualdade de todos os cultos; nega a santidade do matrimônio quando sanciona a doutrina do chamado matrimônio civil; nega a infalibilidade do Pontífice Romano quando se recusa a admitir como lei seus mandatos e ensinamentos oficiais, sujeitando-os a seu passe ou exequatur — não em seu princípio, para assegurar-se de sua autenticidade, mas para julgar seu conteúdo.

Na ordem dos fatos é a imoralidade radical. Assim o é porque destrói o princípio ou regra eterna de Deus, impondo-se à humana; canoniza o absurdo princípio da moral independente, que é, no fundo, a moral sem lei, ou, o que dá no mesmo, a moral livre — isto é, uma moral que não é moral, pois a idéia de moral, além de sua condição dirigente, encerra essencialmente a idéia de enfrentamento ou limitação. Ademais, o Liberalismo é toda imoralidade, porque em seu processo histórico cometeu e sancionou como lícita a infração de todos os mandamentos, desde o que manda o culto de um único Deus, que é o primeiro do Decálogo, até o que prescreve o tributo dos direitos temporais à Igreja, que é o último dos seus cinco mandamentos.

Por onde cabe dizer que o Liberalismo, na ordem das idéias, é o erro absoluto, e na ordem dos fatos, é a desordem absoluta. E por ambas as coisas o Liberalismo é pecado, ex genere suo, gravíssimo — é pecado mortal.

http://www.permanencia.org.br/revista/politica/liberalismo3.htm

sábado, 18 de outubro de 2008

O modernista Henrici de Lubac




HENRI DE LUBAC S.J., UM "MESTRE" QUE NUNCA FOI DISCÍPULO



I - Inclinações "liberais" e deformação teológica
II - "Mestres" Que Nunca Foram Discípulos
III - Desprezo por Roma e Falsa Obediência
IV -A "Simbiose intelectual de Blondel"
V - O Desprezo pelo Magistério Infalível
VI - Os "reformadores"
VII - A Arma do Desprezo e da Difamação
VIII - A Crise Pós-Conciliar e o "Exame de Consciência" de De Lubac


Inclinações "liberais" e deformação teológica



Chegamos ao jesuíta Henri de Lubac, pai da "nova teologia".
Partiremos de sua formação filosófico-teológica, porque ela mostra o clima de desprezo pela autoridade e pela orientação da Roma católica em que amadureceu a crise atual da Igreja. Para lutar contra a agressão dos modernistas, São Pio X tinha mandado que se afastassem dos seminários e das casas de formação de religiosos os professores suspeitos e que fossem excluídos das ordenações os "jovens que demonstrassem o menor sinal de apego às doutrinas condenadas e às novidades perniciosas"1.
De acordo com essas diretivas, o jovem De Lubac nunca deveria ter sido ordenado. Foi ele mesmo que, em sua obra Memória em Torno de Minhas Obras2, reconheceu suas simpatias pelo liberalismo católico, condenado de modo repetido pelos Pontífices Romanos, simpatias que o predispuseram a "correr atrás dos sistemas e das tendências turbulentas do pensamento moderno"3.
De Lubac escreveu, por exemplo, do Cardeal Couillé:
"por mim aureolado, desde minha adolescência, por causa da lembrança de Mons. Dupanloup, de quem ele foi colaborador". Mons. Dupanloup, o "herói", ou antes o "santo", de De Lubac adolescente, foi uma figura marcante da corrente liberal no Concílio Vaticano I, e deixou este Concílio antes de sua conclusão, para não assistir à proclamação da infalibilidade pontifical, a que ele se opunha. Ao contrário de Mons. Lavallée, reitor das Faculdades Católicas de Lyon, de quem De Lubac escreveu: "O que me preocupou sempre um pouquinho nele foi... sua reputação de tradicionalista extremo."4
Esse horror ao "integrismo" e aos "integristas" não deixou nunca De Lubac até o fim de seus dias, como veremos. Contra a agressão do modernismo, São Pio X e todos os seus sucessores, até Pio XII, tinham confirmado a obrigação de "seguir religiosamente (sancte) a doutrina, o método, os princípios de Santo Tomás"5. Mas dessa orientação romana faziam pouco caso ou até não se davam conta nas casas de formação dos jesuítas freqüentadas por De Lubac. Assim, durante seus estudos de filosofia, em Jersey (1920-1923), o jovem De Lubac pôde ler "apaixonadamente" L’Action, La Lettre (sobre Apologética) e diversos outros estudos de Maurice Blondel.
"Por uma louvável exceção, alguns de nossos mestres de então, apesar das interdições serem severas, permitiam, sem nos encorajar, que seguíssemos o pensamento do filósofo de Aix."6
E ainda, na página 192:
"Entre os autores de mais fraca envergadura, éramos loucos por Lachelier [que se mete, como Blondel, no domínio do kantismo], recomendado pelo Pe. Auguste Valensin mais pelo seu estilo do que por suas idéias [ainda que isto seja verdade, as idéias penetravam também com o estilo]. É preciso lembrar que, nesse tempo, para os escolásticos de filosofia tais leituras eram, para a maioria, um fruto semiproibido. Graças a mestres e conselheiros indulgentes, nunca foram leituras clandestinas."
E assim o jovem De Lubac, em vez de receber uma séria e sã formação filosófica, base indispensável de uma séria formação teológica, deformou-se, "graças a mestres e conselheiros indulgentes , com a leitura apaixonante de filósofos viciados de imanentismo e de subjetivismo.



"Mestres" Que Nunca Foram Discípulos



O prejuízo de tal "formação" é enorme e irreparável:
"Porque a doutrina tradicional de Santo Tomás é a mais forte, a mais luminosa e a mais segura nos seus princípios — é preciso crer na Igreja — é dever munir-se dessa força e dessa luz, para afastar as teorias arriscadas ou falsas. Não se faz sempre o contrário? Estuda-se aos trancos uma filosofia ou uma teologia diminuída e sem coesão; em seguida, tem-se contato com Santo Tomás e com a Tradição, mas episodicamente. Esse contato não é uma formação: pior, ele falsifica a realização do pensamento escolástico e tradicional. Ora, a Igreja pede uma formação tomista tradicional. Se realmente Santo Tomás é um guia, é a ele que é preciso recorrer, antes e sobretudo; é sua doutrina, pura, que é preciso ensinar na formação teológica; sua leitura, para ser realmente formadora, não deve vir como um estudo secundário e acessório."7
Essa carência de uma sólida formação filosófica e teológica é o "defeito de fábrica" que se constata em todos os "novos teólogos".
Henri Bouillard, veterano da "turma" de De Lubac, por ocasião da inauguração do Centro de Arquivos Maurice Blondel8 ofereceu "o testemunho" seguinte:
"Faço parte desses jovens estudantes de teologia que, em meados de 1930, arrumavam um exemplar fotocopiado de L’Action [principal obra de Blondel], livro que não se achava, na época, em livrarias. A obra era suspeita, e sua leitura, sem guia competente, era difícil. Mas, profundamente decepcionados com a filosofia escolástica e com a apologética ensinada nos Seminários [mal ou sem convicção por professores fascinados, também eles, pela ‘filosofia moderna’], procurávamos aí uma iniciação, entre outras, ao pensamento moderno e, mais ainda, o modo, que não achávamos em outro lugar, de compreender e
justificar nossa fé."
Continua Bouillard:
"Mesmo como professor, o conjunto de minhas lições se inspirava largamente no pensamento blondeliano. Outros teólogos [entre os quais seu amigo De Lubac] haviam se engajado, fazia muito tempo, neste caminho, e outros dele se aproximavam. Devo testemunhar não somente o que Blondel me ensinou mas a influência que ele exerceu sobre numerosos teólogos e, através deles, sobre o conjunto da teologia."9
Com razão, então, o Pe. Garrigou-Lagrange escreveu de De Lubac, de Bouillard e de seus companheiros:
"Não achamos que eles abandonam a doutrina de Santo Tomás; eles nunca aderiram a ela e nunca a compreenderam bem. É doloroso e inquietante."10
Como sempre, os "inovadores", para falar como Santo Afonso, "querem ser tidos por mestres, sem nunca terem sido discípulos"11.




Desprezo por Roma e Falsa Obediência




Junto com as "novidades", o jovem De Lubac absorveu, inevitavelmente, o desprezo pela orientação "romana":
"Entre os contemporâneos que eu segui na época de minha formação, tive uma dívida particular para com Blondel, Maréchal, Rousselot."12
Entretanto, nenhum desses três era visto como ortodoxo, nem pelo Santo Ofício nem pela sede romana da Companhia de Jesus.13 E De Lubac escreve sobre o jesuíta Pierre Charles:
"seu prestígio cresceu [sic] a nossos olhos, por causa da semidesgraça em que ele caiu [diante das autoridades romanas], como o padre Huby depois do caso de Les yeux de la Foi", obra de Rousselot que os jesuítas Charles e Huby tentaram muitas vezes publicar,
contra a oposição de Roma14.
Mais tarde, De Lubac aprendeu a praticar uma real desobediência sob a aparência da mais formal obediência. O padre Podechard, "o mais submisso dos filhos da Igreja", conta De Lubac, acabava de terminar um curso sobre o servo de Jahvé, na Faculdade de Teologia de Lyon.
"Disse-lhe que ele deveria escrever um livro e publicá-lo. ‘É impossível’, replicou-me. ‘E por quê?’ ‘Há na base posições críticas que hoje não são admitidas. Sobre essas questões bíblicas, Padre, a Igreja e eu, realmente, não nos entendemos; é preciso então que um dos dois se cale, e é normal que seja eu’."15
Mas isso não impedia o "mais submisso dos filhos da Igreja" de falar sem tais precauções nos seus cursos, propondo aos jovens eclesiásticos teses que ele sabia desaprovadas pela Igreja.
De Lubac aprenderá a lição e, no seu devido tempo, saberá esconder, ele também, sua real desobediência sob uma submissão formal. Com conhecimento de causa, Pio XII, na Humani Generis, escreverá que os "novos teólogos" ensinam o erro "de modo prudente e encoberto": "Se nos livros impressos falam com prudência, nos escritos transmitidos em particular, nas lições e conferências, se exprimem mais livremente." Constataremos a mesma coisa, mais adiante, para von Balthasar. E isso explica como o mundo católico, com o Vaticano II, pôde "acordar" modernista sem nem sequer gemer16.



A "Simbiose Intelectual" de Blondel



O primeiro passo da "nova teologia", para abandonar a tradição dogmática da Igreja, é o abandono da filosofia escolástica. E esse passo, vimos no capítulo precedente, foi dado por Blondel. O segundo passo é o abandono da teologia católica tradicional, e é Henri de Lubac que dele se encarregará.
O "teólogo modernista" — escreveu São Pio X — critica "a Igreja porque, com grande obstinação, ela se recusa a submeter-se e acomodar seus dogmas às opiniões da filosofia [moderna]"; de seu lado, "tendo posto de lado a antiga teologia", ele se esforça "para pôr em voga uma novidade, fiel em tudo aos delírios dos filósofos"17. Toda teologia, de fato, pressupõe uma filosofia, e a "nova teologia" de De Lubac pressupõe a "nova filosofia" de Blondel.
Em 8 de abril de 1932, Henri de Lubac S.J. escrevia a Blondel que agora era possível "a elaboração de uma [nova] teologia do sobrenatural [...] porque sua obra filosófica [de Blondel] lhe havia preparado os caminhos"18.
Recentemente, em março de 1991, o Osservatore Romano consagrou uma página inteira à apresentação (naturalmente elogiosa) da obra Henri de Lubac: Théologie et dogme dans l’Histoire. L’influence de Blondel19. O autor, A. Russo, aluno italiano do alemão Walter Kasper (ele também da turma "dos que pensam que venceram"), escreve que a correspondência De Lubac/Blondel "oferece um exemplo de simbiose intelectual que raramente se encontra na história do pensamento"20. É, na realidade, uma velha história: os semelhantes se atraem. Inúmeros pontos uniam Blondel e De Lubac: a mesma falta de confiança no valor da razão (antiintelectualismo ou, ainda, gnosticismo ou cepticismo); a mesma falta de vigor intelectual já assinalada pelo Pe. de Tonquedec S.J. em Blondel e que não é difícil mostrar nos escritos de De Lubac; o mesmo complexo de inferioridade em face do "homem moderno" (identificado com o filósofo moderno, doente de cepticismo e de subjetivismo); o mesmo medo de intelectuais, escondido sob a ansiedade apologética de um "apostolado pacificante" (Blondel), "de ficar ou ser expulso" (A. Russo21) por uma cultura que recusa o Cristo e sua Igreja, e a miragem correlativa de conciliar a pseudofilosofia moderna com a fé, como São Tomás tinha conciliado com a fé a filosofia de sua época. Blondel e De Lubac não notaram que São Tomás havia saneado uma filosofia fundamentalmente sã, mas que até um pensador da têmpera de São Tomás (Blondel é como um ratinho diante de uma montanha, em relação a ele) não poderia sanar os sofismas dos filósofos modernos. Não há conflito entre a fé e a razão reta22, mas há conflito entre a fé e a filosofia moderna, porque esta última anda muito longe da sã razão. Querer "reler" a Fé segundo os critérios da filosofia moderna é dissolver a fé nos erros da filosofia moderna, sem libertar para tanto o "pensamento cristão" (e a nós) do ostracismo a que a cultura moderna o relegou.
Isso toca o erro, que não é suscetível de conversão.Quanto aos que erram, é preciso lembrar que é difícil reconduzir à verdade aqueles que, como os filósofos modernos, se enganam nos princípios23 e que, em todo caso, aqueles que se enganam nos princípios devem ser corrigidos nos princípios. Supor, ao contrário, esses princípios errados (gnosticismo, subjetivismo etc.) como ponto de partida para uma "nova filosofia cristã" ou então para uma "nova teologia" conduz inevitavelmente a conclusões erradas, uma vez que é impossível tirar conclusões verdadeiras de princípios falsos.
E então a "simbiose intelectual" que houve entre De Lubac e Blondel só poderia conduzir a resultados muito infelizes, e não somente para os dois personagens diretamente interessados.



O Desprezo pelo Magistério Infalível



De Lubac e Blondel compartilhavam, sobretudo, o mesmo desprezo pelo Magistério infalível. E este desprezo aparece evidente quando se pensa que eles deviam sustentar (ou, mais exatamente, insinuar e difundir mais ou menos clandestinamente, porque não as sustentavam nunca de cara descoberta) suas "novidades" não contra uma escola teológica diferente, numa matéria controversa, mas contra o Magistério da Igreja, numa matéria sobre a qual existiam ensinamentos constantes e condenações repetidas dos Pontífices Romanos.
Quando Blondel e, no rastro de sua "filosofia" De Lubac consideraram o sobrenatural como uma exigência, um aperfeiçoamento necessário da natureza, que sem ele se acharia frustrada nas suas aspirações essenciais e, por isso, num estado anormal, e, em conseqüência, negavam que se pudesse admitir, ainda que por mera hipótese, um estado de "natureza pura", eles vinham opor-se à doutrina universal e constante da Igreja sobre a gratuidade do sobrenatural: se o sobrenatural é necessário à natureza, já não é gratuito, mas sim devido, e, se é devido à natureza, já não é sobrenatural, mas... natural, e com efeito o naturalismo é o fundo real do modernismo, como
também da "nova teologia".
A gratuidade do sobrenatural foi constantemente ensinada pela Igreja e defendida por ela contra os erros de Baius e de Lutero, que, como Blondel e De Lubac, diziam seguir a Santo Agostinho. Contra o modernismo, São Pio X tinha assim confirmado a doutrina constante da Igreja:
"Não Nos podemos impedir de deplorar mais uma vez, e com firmeza, que se encontrem católicos [e aqui o Pe. de Tonquedec não podia deixar de pensar em Blondel] que, repudiando a imanência como doutrina, a empregam, contudo, como método de apologética; que o fazem, digamos Nós, com tão pouca discrição, que parecem admitir na natureza humana, em relação à ordem sobrenatural, não somente uma capacidade e uma conveniência — coisas que, em todos os tempos, os apologetas católicos tiveram o cuidado de pôr em relevo — mas uma verdadeira e rigorosa exigência." Assim, na natureza humana, o filósofo, o apologeta, o teólogo católico não podem admitir mais que "uma capacidade ou uma conveniência" (poder de obediência) de receber o sobrenatural. Ultrapassar esses limites é abalar uma pedra fundamental da teologia católica, acarretando em seguida a ruína de todo o resto, como o vemos hoje, no curto caminho que vai do "sobrenatural",
que já não é aquele de Blondel e de De Lubac, à "visão antropológica" e aos "cristãos anônimos" de Karl Rahner, ao indiferentismo religioso ou "ecumenismo", à importância secundária da Igreja como meio de salvação24.
A encíclica Pascendi data de 1907. Em 1932, Blondel, com um desprezo evidente pelo Magistério infalível da Igreja, estava ainda chocado ou, como ele diz, "amadurecendo"
sua concepção heterodoxa do sobrenatural. Por sua vez, De Lubac, exaltado como modelo de "obediência" e de "fidelidade" à Igreja por ocasião de sua morte25, com igual desprezo pelo Magistério, encoraja-o e faz do sobrenatural naturalizado de Blondel o fundamento de sua "nova teologia".
Do mesmo modo, quando Blondel e De Lubac apresentam e difundem uma "nova" noção de "verdade", vitalista e evolucionista, eles sabem que essa noção fora condenada por São Pio X na Pascendi26 e em seguida pelo Santo Ofício, em 1º de dezembro de 1924, mas continuam imperturbáveis no seu caminho do erro.



Os "Reformadores"



Na realidade, o que espanta em Blondel e De Lubac é, justamente, sua maneira de se apresentar como critérios indiscutíveis de verdade, contra o Magistério secular da Igreja: sua causa é a causa do "cristianismo autêntico"27; eles são os artistas do retorno à "tradição mais autêntica"28, aqueles que restituíram a vida à "antiga doutrina"29, da qual, segundo eles, o "pensamento cristão" e, necessariamente, o Magistério da Igreja se teriam desviado no curso dos séculos, o que é "uma coisa absurda e a mais ultrajante
para a própria Igreja"30.
São Pio X, na Pascendi, bem descreveu a consciência falsificada dos modernistas, que tiravam do santo Papa toda a esperança em suas possibilidades de arrependimento:
"O que se lhes reprova como uma falta é o que eles vêem, ao contrário, como um dever sagrado... Que a autoridade os repreenda tanto quanto queira, eles têm para si suas consciências... E eles seguem seus caminhos; repreendidos e condenados, vão sempre dissimulando, sob mentiras de submissão exterior, uma audácia sem limites. Curvam hipocritamente a cabeça, enquanto com todos os seus pensamentos, com todas as suas energias perseguem, mais audaciosamente que nunca, o plano traçado. Isto é neles uma vontade e uma tática: porque acham que é preciso estimular a autoridade, não destruí-la; e porque lhes importa ficar no seio da Igreja para aí trabalhar e aí modificar pouco a pouco a consciência comum."
E ainda:
"Essa gente faz maravilhas, porque nós não os contamos no número dos inimigos da Igreja [...]; mas deixemos de lado as intenções, de que somente Deus é juiz, e examinemos suas doutrinas [é o critério objetivo para julgar] e suas maneiras de falar e de agir. Na verdade, aqueles que os consideram como os mais nocivos inimigos da Igreja não se afastam da verdade."31




A Arma do Desprezo e da Difamação



De Lubac, como Blondel (ver o capítulo anterior), utiliza o sistema dos modernistas para não se revelar excessivamente, a fim de, como disse São Pio X na Pascendi, "ficar no seio da Igreja para aí trabalhar e aí modificar pouco a pouco a consciência comum".
Apesar disto, os grandes teólogos tomistas viram imediatamente o termo aonde iriam conduzir as "novidades" propostas por ele, precavidamente encobertas; e imediatamente o futuro Cardeal Journet, fortalecido por sua formação tomista, assinala que "o Pe. De Lubac já não consegue distinguir a filosofia da teologia"32 ou, ainda, o natural do sobrenatural, e, adiante, percebe nele um "fideísta"33.
Não foi difícil para De Lubac convencer "o excelente" Charles Journet34, mas não foi assim com os outros teólogos tomistas. Às suas argumentações De Lubac oporá, então, a arma do desprezo e da difamação.
Em 1946 o Pe. Garrigou-Lagrange lança sua grave advertência: "Para onde vai a nova teologia? Ela retorna ao modernismo"; "a verdade já não é o que é, mas o em que se torna, e muda sempre", e isto "conduz ao relativismo completo"35. Além disso, numa carta pessoal, o grande teólogo dominicano lembra a Blondel, agora avançado em idade, sua responsabilidade diante de Deus. Em vão. De Lubac "utiliza" a carta para desacreditar o autor"36 e intervém prontamente para sossegar o inquieto Blondel: "A carta que ele Garrigou-Lagrange] acaba de nos enviar explica-se, ao menos em parte, pelo despeito que sente por ter visto recusado um artigo seu para a própria Revue Thomiste. Ele já não é somente o homem limitado que nós sabíamos, mas se torna num verdadeiro maníaco; daqui a alguns meses estará fabricando um espectro de heresia, para se dar a satisfação de salvar a ortodoxia. Recorre ao senso comum, mas é ele que já não tem o senso comum. O que se poderia responder é que o fato de pertencer a uma Ordem que tem por divisa ‘Veritas’ não lhe confere nenhum privilégio de infalibilidade [...]. O senhor não é responsável por nenhum dos desvios teológicos que ele imagina.
Neste momento existe um forte impulso integrista, denúncias e tagarelices de todo o gênero confluem ao quarto do Padre Garrigou-Lagrange."37 E, em 28 de julho de 1948, ele voltará a falar de "suas [de Garrigou-Lagrange] idéias simplistas sobre o absoluto da verdade"38.
Mas em 17 de setembro de 1946 Pio XII, interferindo pessoalmente na questão, exprimiu "idéias simplistas" idênticas às do Pe. Garrigou-Lagrange, idéias que foram sempre as da Igreja sobre o absoluto da verdade. Aos padres da Companhia de Jesus, numa alocução que teve grande repercussão, ele exprimira seu ponto de vista sobre a "nova teologia", "que deve evoluir como todas as coisas evoluem, estar em progresso sem se fixar nunca (...) Se fosse necessário abraçar tal opinião [advertiu o Santo Padre], que seria dos dogmas imutáveis da Igreja Católica? Que seria da unidade e da estabilidade da fé?"39
A advertência caíra no vazio. E igualmente cairá, para De Lubac (nesse tempo Blondel já estava morto), a encíclica Humani Generis (1950), que repete a imutabilidade da verdade e condena a "nova teologia do sobrenatural", de De Lubac:
"Ela me parece — escreve este sobre a grande Encíclica — como muitos outros documentos eclesiásticos, muito unilateral; o que não me espantou: é um pouco a lei do gênero. Mas nada vi que me tenha atingido."40
E às críticas vigorosas e luminosas de seus grandes adversários (Garrigou-Lagrange, Labourdette, Cordovan, Boyer etc.) ele continuará a responder com o desprezo e a difamação. Escreve ele a seu provincial em 1 de julho de 1950: "Fui atacado por alguns teólogos, é verdade, em geral pouco estimados [sic] por causa de sua ignorância notória [sic] da tradição católica ou por qualquer outro motivo."41 Adiante fala de "críticos obstinados de um grupo enfurecido" (é o sistema sempre utilizado pelos "que pensam que venceram"; ver a caricatura, tão injuriosa quanto injusta, do Pe. Garrigou- Lagrange apresentada pelo Pe. Martini S.J. — que reserva um tratamento parecido para Pio IX em Vaticano II — Balanço e Perspectivas).
De Lubac pratica um sistema "transversal" idêntico para defender seus companheiros:
Teilhard de Chardin S.J., que fazia teologia através da ciência, como De Lubac fez teologia através da história, é criticado por seus erros teológicos? De Lubac adverte que a culpa vem da "ignorância de seus críticos quanto ao estado atual da ciência [sic] e aos problemas que daí derivam"42!




A Crise Pós-Conciliar e o "Exame de Consciência" de De
Lubac




Nem as advertências e condenações dos Pontífices Romanos nem as condenações de seus adversários arranharam, em De Lubac, a segurança de "reformador". Para conter tal segurança, era preciso o horrível desastre do pós-concílio.
Do estado de alma de De Lubac (e de von Balthasar), Paulo VI se fará eco fiel — falaremos nisso depois — no seu famoso discurso de 30 de junho de 1972 sobre "as fumaças de Satanás no templo de Deus", que é também a confissão de uma ilusão longamente cultivada e obstinadamente perseguida:
"Acreditava-se que, depois do Concílio, viria um dia de sol para a história de Igreja. E, pelo contrário, veio um dia de nuvens, de tempestade, de obscuridade."
A impossibilidade de cavalgar o tigre das contestações desencadeadas e o desastre que desmentiu as róseas ilusões dos "reformadores" obrigaram De Lubac a um "exame de consciência", que ele registra na já citada Mémoire autour de mes oeuvres. Entretanto, estamos muito longe de uma conversão. Ele admite, no máximo, que "essa época não é menos [sic] sujeita aos desvios, aos passos em falso, às ilusões, aos assaltos do espírito do mal".
E continua:
"O que eu percebo hoje desses assaltos não me faz maldizer minha época, mas me leva a perguntar: não teria sido melhor considerar mais seriamente, desde o começo, meu caráter de fiel, meu papel de padre e de membro de uma Ordem apostólica, em suma, minha vocação, e principalmente concentrar com maior decisão meu trabalho intelectual precisamente no centro da fé e da vida cristã, em vez de o desperdiçar em domínios mais ou menos periféricos, segundo meus gostos ou segundo a atualidade? [...]
Não estaria eu preparado, dessa maneira, para interferir, com um pouco mais de competência e, sobretudo, de autoridade moral, no grande debate espiritual de nossa geração? Não estaria eu, agora, um pouco menos desprovido para esclarecer a uns e encorajar a outros?"
E ainda:
"Há sete ou oito anos estou paralisado pelo medo de afrontar de cara, de maneira concreta, os problemas essenciais, na sua atualidade viva. Isto foi sabedoria ou fraqueza? Tive eu razão ou não? [...]. Não teria eu aparentemente acabado, contra a minha vontade, no clã
integrista que me causa horror?"43
Entre tantas dúvidas, uma única parece não ter jamais aflorado à consciência de De Lubac, a saber, que este "integrismo", com o "horror" que o paralisava, não era nada menos que a fidelidade à ortodoxia católica, fiel e infalivelmente guardada pela Igreja, e que ele desprezava, para se dispersar em "domínios mais ou menos periféricos",
43 Pp. 389 ss. 77 segundo seus "gostos ou segundo a atualidade", pretendendo em seguida — o que é pior — ser um "mestre" na Igreja, sem jamais ter sido um discípulo:
"Cegos e condutores de cegos, que, inflamados de uma ciência orgulhosa, chegaram a essa loucura de perverter a eterna noção da verdade e, ao mesmo tempo, a verdadeira natureza do sentimento religioso; inventores de um sistema onde, sob o império de um amor cego e desenfreado por novidades, não se preocupam de maneira nenhuma em achar um ponto de apoio sólido para a verdade, mas, desprezando as santas e apostólicas tradições, abraçam outras doutrinas, vãs, fúteis, incertas, condenadas pela Igreja, nas quais homens muito vaidosos pretendem apoiar e assentar a verdade."44










Notas: 1 Motu Proprio de 18 de novembro de 1907.
2 Milão, Jaca Book.
3 Pe. Parente, La Théologie, ed. Studium.
4 P. 5.
5 São Pio X, Motu Próprio, cit.; Pio XII, Humani Generis; Direito Canônico
(1917), Cânon 1366 nº2.
6 Memória, p. 10.
7 Lavaud, La Vie spirituelle, pp. 174 ss, citado por J. B. Aubry, L’Étude de
la Tradition, p. 100.
8 Louvaina, 30-31 de março de 1973.
9 Centre d’Archives Maurice Blondel — Journée d’inauguration, 30-31 de
março de 1973; textos das intervenções, p. 41.
10 "La nouvelle théologie où va-t-elle?", Angelicum 23, 1946.
11 A. M. Tannoia, Vita, L.II, c. LV.
12 Op. cit.
13 Ibid., pp.13 ss.
14 Ibid., p. 14.
15 P. 17.
16 Cf. São Jerônimo: "O mundo acordou ariano e gemeu."
17 Pascendi.
18 Op. cit., p. 26.
19 Roma, ed. Studium.
20 P. 307.
21 Op. cit.
22 Dz. 1799.
23 Santo Tomás, II-II, q. 156, a. 3, ad 2m.
24 Sì Sì No No, ed. francesa, nº 131, pp. 2-7, "O Elogio do Padre Henri de
Lubac, um dos Padres do Vaticano II".
25 Ver Sì Sì No No, ed. francesa, cit.
26 Dz. 2058 e 2080.
27 Blondel a De Lubac, 15 de abril de 1945 e 16 de março de 1946, in A.
Russo, op. cit., pp. 307 e 309.
28 De Lubac in A.Russo, op. cit., p. 373.
29 Ibid.
30 Gregório XVI, Mirari vos.
31 Ibid.
32 Mémoire, cit., p. 7.
33 Ibid. p. 20.
34 Ibid., pp. 7-20.
35 "La Nouvelle Théologie...", op. cit.
36 A. Russo, op. cit.
37 Citado por A. Russo, op. cit., pp. 354 ss.
38 Ibid., p. 356.
39 Acta Apostolicae Sedis, 38, S., 2, 13, 1946, p. 385.
40 Mémoire, cit. p. 240.
41 Mémoire, cit., p. 219.
42 Nota pró-memória a seus superiores, de 6 de março de 1947, in
Mémoire, cit., p. 178.
43 Pp. 389 ss.
44 São Pio X, Pascendi, citação da Encíclica Singulari Nos, de Gregório
XVI..

domingo, 5 de outubro de 2008

O LIBERALISMO É PECADO

Dom Felix Sardá y Salvany

III. – Se é pecado o Liberalismo, e que pecado é...

O Liberalismo é pecado, já se o consideremos na ordem das doutrinas, já na ordem dos fatos.
Na ordem das doutrinas é pecado grave contra a fé, porque o conjunto de suas doutrinas é heresia, ainda que não o seja, talvez, uma ou outra de suas afirmações ou negações isoladas. Na ordem dos fatos é pecado contra os diversos Mandamentos da lei de Deus e de sua Igreja, porque de todos é infração. Mais claramente, na ordem das doutrinas o Liberalismo é a heresia universal e radical, porque a todas compreende; na ordem dos fatos é a infração radical e universal, porque a todas autoriza e sanciona.

Procedamos por partes na demonstração.

Na ordem das doutrinas o liberalismo é heresia. Heresia é toda doutrina que nega com negação formal e pertinaz um dogma da fé cristã. O liberalismo doutrina primeiro os nega todos em geral e depois cada um em particular. Nega todos em geral quando afirma ou supõe a independência absoluta da razão individual no indivíduo, e da razão social, ou critério público, na sociedade. Dizemos que afirma ou supõe porque, às vezes, nas conseqüências secundárias, não se afirma o princípio liberal, mas se lhe dá por suposto e admitido. Nega a jurisdição absoluta de Cristo Deus sobre os indivíduos e as sociedades, e, em conseqüência, a jurisdição delegada que sobre todos e sobre cada um dos fiéis, de qualquer condição ou dignidade que seja, recebeu de Deus a Cabeça visível da Igreja. Nega a necessidade da revelação divina, e a obrigação que tem o homem de admiti-la, se quiser alcançar seu fim último. Nega o motivo formal da fé, isto é, a autoridade de Deus que revela, admitindo da doutrina revelada apenas aquelas verdades que alcança seu limitado entendimento. Nega o magistério infalível da Igreja e do Papa, e, em conseqüência, todas as doutrinas por eles definidas e ensinadas. E depois desta negação geral e global, nega cada um dos dogmas, parcial ou concretamente, à medida que, segundo as circunstâncias, os julga opostos a seu critério racionalista. Assim, nega a fé do Batismo quando admite ou supõe a igualdade de todos os cultos; nega a santidade do matrimônio quando sanciona a doutrina do chamado matrimônio civil; nega a infalibilidade do Pontífice Romano quando se recusa a admitir como lei seus mandatos e ensinamentos oficiais, sujeitando-os a seu passe ou exequatur — não em seu princípio, para assegurar-se de sua autenticidade, mas para julgar seu conteúdo.

Na ordem dos fatos é a imoralidade radical. Assim o é porque destrói o princípio ou regra eterna de Deus, impondo-se à humana; canoniza o absurdo princípio da moral independente, que é, no fundo, a moral sem lei, ou, o que dá no mesmo, a moral livre — isto é, uma moral que não é moral, pois a idéia de moral, além de sua condição dirigente, encerra essencialmente a idéia de enfrentamento ou limitação. Ademais, o Liberalismo é toda imoralidade, porque em seu processo histórico cometeu e sancionou como lícita a infração de todos os mandamentos, desde o que manda o culto de um único Deus, que é o primeiro do Decálogo, até o que prescreve o tributo dos direitos temporais à Igreja, que é o último dos seus cinco mandamentos.

Por onde cabe dizer que o Liberalismo, na ordem das idéias, é o erro absoluto, e na ordem dos fatos, é a desordem absoluta. E por ambas as coisas o Liberalismo é pecado, ex genere suo, gravíssimo — é pecado mortal.

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