terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O verdadeiro São Francisco de Assis

OS FIORETTI DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS

Capítulo 24.

Como S. Francisco converteu à fé o sultão da Babilônia, e a cortesã que o induzia ao pecado

S. Francisco, instigado pelo zelo da fé cristã e pelo desejo do martírio, atravessou uma vez o mar com doze de seus companheiros santíssimos, para ir diretamente ao sultão de Babilônia. E chegou a uma região de sarracenos, onde certos homens cruéis guardavam as passagens, que nenhum cristão que ali passasse podia escapar sem ser morto; como aprouve a Deus, não foram mortos, mas presos, batidos e amarrados foram levados diante do sultão. E estando diante dele S. Francisco, ensinado pelo Espírito Santo, pregou tão divinamente sobre a fé cristã, que mesmo por ela queria entrar no fogo. Pelo que o sultão começou a ter grandíssima devoção por ele, tanto pela constância de sua fé, como pelo desprezo do mundo que nele via; porque nenhum dom queria dele receber, sendo pobríssimo; e também pelo fervor do martírio que nele via.

E deste ponto em diante o sultão o ouvia com boa vontade e pediu-lhe que freqüentemente voltasse à sua presença, concedendo livremente a ele e aos seus companheiros que podiam pregar onde quisessem. E deu-lhes um sinal com o qual não podiam ser ofendidos por ninguém.

Obtida esta licença tão generosa, S. Francisco mandou aqueles seus eleitos companheiros, dois a dois, por diversas terras de sarracenos, a predicar a fé cristã; e ele com um deles escolheu um lugar. No qual chegando, entrou em um albergue para repousar: e ali havia uma mulher belíssima de corpo, mas vil de alma, a qual mulher maldita convidou S. Francisco a pecar.

E dizendo-lhe S. Francisco: "Aceito, vamos ao leito"; e ela o conduziu para o quarto. E disse S. Francisco: 'Vem comigo, levar-te-ei a um leito belíssimo". E conduziu-a a uma grandíssima fogueira que se fazia naquela casa; e no fervor de espírito despe-se e lança-se neste fogo por sobre tições inflamados, e convida a mulher para que se dispa e vá se deitar nesse leito tão macio e belo. E estando assim S. Francisco por grande espaço de tempo com semblante alegre e sem se queimar, nem mesmo se chamuscar, aquela mulher por tal milagre assombrada, e compungida em seu coração, não somente se arrependeu do pecado e da má intenção, mas até se converteu perfeitamente à fé cristã, e tornou-se de tanta santidade, que por ela muitas almas se salvaram naquela terra.

Finalmente, vendo S. Francisco que não podia obter mais fruto naquelas partes, por divina revelação se dispôs com todos os seus companheiros a retornar aos fiéis; e reunindo todos os seus voltou ao sultão e despediu-se. E então lhe disse o sultão: "Frei Francisco, de boa vontade me converteria à fé cristã, mas temo fazê-lo agora, porque se estes homens o descobrissem matariam a mim e a ti com todos os teus companheiros: mas, porque tu podes fazer muito bem, e eu tenho de resolver certas coisas de muito grande peso, não quero agora causar a tua morte e a minha, mas ensina-me como me poderei salvar, e estou pronto a fazer o que me impuseres". Disse então S. Francisco: "Senhor, separar-me-ei de vós, mas depois de chegar ao meu pais e ir ao céu pela graça de Deus, depois de minha morte, conforme a vontade de Deus, enviar-te-ei dois dos meus irmãos, dos quais receberás o santo batismo de Cristo e serás salvo, como me revelou meu Senhor Jesus Cristo. E tu, neste espaço, desliga-te de todo impedimento, a fim de que, quando chegar a ti a graça de Deus, te encontre preparado em fé e devoção". E assim prometeu fazer e fez. Isto feito, S. Francisco retornou com aquele venerável colégio de seus santos companheiros: e depois de alguns anos S. Francisco, pela morte corporal, restituiu a alma a Deus. E o sultão adoecendo espera a promessa de S. Francisco e faz postar guardas em certas passagens, ordenando que, se dois frades aparecessem com o hábito de S. Francisco, imediatamente fossem conduzidos a ele.

Naquele tempo apareceu S. Francisco à dois frades e ordenou-lhes que sem demora fossem ao sultão e procurassem a salvação dele, segundo lhe havia prometido. Os quais frades imediatamente partiram e, atravessando o mar, pelos ditos guardas foram levados ao sultão.

E vendo-os, o sultão teve grandíssima alegria e disse: "Agora sei, na verdade, que Deus me mandou os seus servos para a minha salvação, conforme a promessa que me fez S. Francisco por divina revelação". Recebendo, pois, a informação da fé cristã, e o santo batismo dos ditos frades, assim regenerado em Cristo, morreu daquela enfermidade, e sua alma foi salva pelos méritos e operação de S. Francisco.

A “NOVA” FILOSOFIA DE MAURICE BLONDEL


PASSAMOS, AGORA, AOS “santos padres” da “nova teologia”.


O abandono da filosofia escolástica foi o primeiro passo da “nova teologia” para se libertar da teologia católica tradicional e, assim, da tradição dogmática, como vimos em nosso último número. Não é por acaso que Urs von Balthasar, sustentando que “o inferno existe, mas está vazio”, se apóia, entre outros, em Maurice Blondel. Se este filósofo, por despeito de seus “amigos”, ocupa um lugar bem modesto na história da filosofia, em compensação ocupa um lugar muito importante na história do neomodernismo ou da “nova teologia”.

Uma Filosofia Fantasma
Tendo nascido em Dijon, em 1861, e morrido em 5 de junho de 1949 em Aix-en-Provence, cidade onde ensinou filosofia durante trinta anos, Maurice Blondel foi, até o fim de seus dias, objeto de longa polêmica, que sua atitude fugaz e insaciável só fazia entreter. Essa atitude, tipicamente modernista, foi assim estigmatizada pelo padre de Tonquedec O.P., no Dictionnaire Apologétique de la Foi Catholique:
“Dei-me conta de que, apesar dos esforços para dar ao debate [com Blondel] uma base documentária tão grande quanto possível, ele só terminaria se o público tivesse sob os olhos as próprias obras de Blondel. Infelizmente isso é impossível. As obras de M. Blondel [que de Tonquedec possuía e citava largamente] esgotaram-se há muito tempo nas livrarias; as brochuras onde ele reuniu seus mais importantes artigos nunca foram comercializadas. Com isso a doutrina contida nesses escritos se acha numa condição singular: objeto de explicações, de retificações, de discussões sem fim, sustentada por uma ativa e ardorosa propaganda, é inacessível em seu texto original. A muitos dá a impressão de algo incompreensível e fugaz, cujo aspecto se modifica segundo o momento e as circunstâncias. Poucas pessoas, ainda entre as que, por profissão, estudam a filosofia religiosa, são capazes de controlar os dizeres do autor e de seus amigos sobre o sentido e o conteúdo de seus escritos.”1

Sistemas Modernistas
Não é difícil saber quem eram os “amigos” de Blondel: o Pe. De Lubac e sua “turma”: Bouillard, Fessard, von Balthasar, Auguste Valensin etc.; ou seja, os fundadores da “nova teologia”, condenada por Pio XII na Humani Generis, e hoje — como reconhece o Pe. Henrici S.J. — elevada ao plano de teologia oficial do Vaticano II2.
No mesmo Dictionnaire Apologétique de la Foi Catholique citado acima, junto da crítica antiblondeliana, densa e documentada, do dominicano Tonquedec, publicou-se outro estudo3, do jesuíta Auguste Valensin (da “turma” de De Lubac), que tomava a defesa de Blondel (sinal da confusão que reinava então sobre a real posição de Blondel). Valensin S.J. começava a dispensar qualquer documentação pelo motivo seguinte:
“Na exposição que se segue não haverá, por assim dizer, citações [das obras de Blondel]; as poucas frases postas entre aspas não são absolutamente literais; modificou-se o tempo de um verbo ou se suprimiu alguma palavra para adaptá-la ao contexto — e o uso que se faz é apenas literário. Esta exclusão é sistemática: uma citação destacada de seu quadro não poderia provar nada, só poderia servir de apoio para uma interpretação duvidosa, carente de certeza.”
Por isso o padre de Tonquedec, que, pelo contrário, fundava sua crítica em numerosas citações de Blondel, replicava justamente:
“É certamente possível falsificar o espírito de um texto que se cita, mas todos concordarão que é ainda mais fácil fazê-lo quando não o citam. Um documento resiste, por sua simples presença, a certas interpretações. Estar sempre em contato visível com ele é, sem dúvida, a melhor garantia contra o erro e a suprema honestidade de um crítico para com seu autor e seus leitores.”4
Sob o Pretexto Apologético, a Ruína do Dogma Católico
Na realidade os “amigos” de Blondel — De Lubac e sua “turma” — tinham seus motivos para deixar confusa a filosofia daquele que, na sua opinião, deveria ter sido o fundador da “nova filosofia cristã”.
Blondel apresentava sua filosofia como um método apologético para conquistar o “homem moderno :
“As provas clássicas [da credibilidade do dogma católico]”, escrevia ele, “escapam a nossos espíritos penetrados de positivismo e de kantismo (elas supõem uma filosofia objetiva). Ora, quando se quer salvar as almas, é preciso procurar onde elas habitam, e, se elas caíram no subjetivismo, é no subjetivismo que é preciso buscá-las.”5
A infelicidade, entretanto, era que, se a apologética clássica supunha e supõe ainda uma filosofia objetiva, a nova “apologética” de Blondel supunha, ao contrário, uma filosofia subjetivista e imanentista, típica do protestantismo e do modernismo e já condenada por São Pio X na Pascendi, por suas conseqüências ruinosas para o dogma católico.
Quando Blondel afirma6 que se recolhe a verdade do catolicismo mais com a vontade e a experiência do que com a inteligência (a fé “não passa do espírito ao coração”, mas, ao contrário, passaria do coração ao espírito), ele se move no domínio do agnosticismo ou cepticismo religioso, que é a base do modernismo e que leva os modernistas a exaltar a “experiência” religiosa, que, somente ela, tornaria o homem certo da existência de Deus (pseudomisticismo que atinge a maior parte dos “movimentos eclesiásticos” de hoje). E, de fato, para Blondel a tarefa da apologética não é produzir argumentos racionais sobre a existência de Deus e sobre a credibilidade do Cristianismo, mas sim levar o incrédulo a fazer uma “experiência efetiva” do catolicismo, levar aquele que ainda não tem fé a “agir como se a tivesse”7, em suma, a fazer a “experiência” do divino; o que é exatamente a apologética modernista condenada por São Pio X na Pascendi.
E ainda: quando Blondel afirma que o sobrenatural é uma exigência da natureza humana, porque “nada pode entrar no homem que não venha dele e não corresponda, de algum modo, à sua necessidade de expansão”, ele se move no imanentismo (Spinoza, Kant etc.), para o qual o espírito humano é a realidade a que tudo volta; imanentismo que é a essência do modernismo, porque “o fundo do modernismo é este: a alma religiosa não tira de nenhuma outra fonte senão de si mesma o objeto e o motivo de sua própria fé”8. Na prática, seria dizer que não houve na história nenhuma revelação divina externa e que Nosso Senhor Jesus Cristo teria sido somente, para falar como Renan, a consciência mais sublime da humanidade, mas não Deus.

A Nova “Filosofia Cristã”
Em suma, Blondel foi procurar realmente o “homem moderno” (identificado com o filósofo moderno), adoentado pelo cepticismo e pelo subjetivismo, não para tirá-lo de seus graves erros, mas para deixá-lo atolar-se neles. E essa nova “filosofia cristã”, no pensamento de Blondel, e ainda mais nas intenções de seus “amigos” da “nova teologia”, teria de suplantar a “filosofia perene” da Igreja Católica, esta filosofia objetiva do real que, fixada lentamente e através dos tempos pelos maiores espíritos filosóficos da humanidade, atingiu seu cume com Santo Tomás de Aquino.
Na encíclica Humani Generis (1950), Pio XII lembrará ainda uma vez, contra os “novos teólogos”, a importância fundamental que a Igreja reconhece a essa filosofia, até para evitar desvios no dogma. De fato, como escreve uma inteligência lúcida contemporânea, “não é por acaso que a Igreja está ligada à filosofia grega”, ao contrário, pois “a filosofia grega é aquela do senso comum, do realismo, da inteligência humana fiel à sua essência”, e por isso, “cada vez que ela é repudiada, pagam-se as conseqüências”.
E de fato hoje, quando “o Concílio abandonou [...] esse realismo sempre protegido pela Igreja” e rompeu “essa solidariedade entre o realismo sobrenatural da fé e o realismo natural da inteligência humana que durou mais ou menos dois milênios”, e que “com diversas peripécias constituiu o eixo do cristianismo e o pivô da Igreja instituída como depositária e guardiã vigilante da fé, da inteligência e dos costumes”, vimos e vemos “derramar-se na jarra vazia [...] o vento de todas as tempestades da subjetividade humana”9.

O Alarme
Foi assim que o padre Auguste Valensin S.J., ao tomar a defesa de Blondel, tinha suas razões para se dispensar de citar passagens desses textos e para “adaptar” oportunamente as raras frases mencionadas. Por exemplo, a afirmação de Blondel de que “nada pode entrar no homem que não venha dele e não corresponda, de algum modo, à sua necessidade de expansão” torna-se, na defesa do padre A. Valensin: “nada pode entrar no homem que não corresponda de qualquer modo à sua necessidade de expansão”10. A eliminação de “que não venha dele” servia claramente para evitar a Blondel a acusação de imanentismo e subjetivismo.
Os erros de Blondel, entretanto, chamaram a atenção dos grandes teólogos tomistas (Tonquedec, Labourdette, Garrigou-Lagrange etc.), aos quais se uniu num segundo tempo o jesuíta Charles Boyer. Eles deram um grito de alarme, refutando os erros da nova “filosofia cristã”, e indicando-lhe as ruinosas conseqüências para o dogma e a oposição essencial com o Magistério infalível da Igreja. Hoje, “os que pensam que venceram” pretendem reduzir esta polêmica, de importância vital para a Igreja, a uma mesquinha questão pessoal. Não foi assim. As refutações luminosas de Tonquedec, de Labourdette, do Pe. Garrigou-Lagrange testemunham o contrário, e a crise atual da Igreja está aí para demonstrar claramente a clarividência desses nobres espíritos.

O Pivô da Questão
O erro capital de Blondel, que se torna o pivô de toda a questão agitada na Igreja pelos modernistas, é exposto clara e sinteticamente pelo Pe. Garrigou-Lagrange: “O Sr. Maurice Blondel escrevia nos Anais de Filosofia Cristã de 15 de junho de 1906, p. 235: ‘A abstrata e quimérica adequatio rei et intellectus [conformidade do espírito com o objeto conhecido] é substituída pela procura metódica desse direito — a adequatio realis mentis et vitae [a adequação da inteligência à vida]’.” Essa proposição — observa o ilustre teólogo dominicano — é justamente a proposição “extraída da filosofia da ação, condenada pelo Santo Ofício em 1º de dezembro de 1924: ‘A verdade não se acha em nenhum ato particular da inteligência, na qual se teria, segundo a expressão dos escolásticos, a conformidade com o objeto [conformitas cum objecto], mas ela está sempre em evolução e consiste numa adequação progressiva entre a inteligência e a vida [in adaequatione progressiva intellectus et vitae], a saber, num movimento perpétuo, pelo qual a inteligência se esforça em desenvolver e explicar o que engendra a experiência ou o que exige a ação, de tal sorte que, em qualquer desenvolvimento interrompido, jamais se possa obter um resultado definitivo e imutável’”11.
É o retorno ao erro fundamental do modernismo: “A verdade não é mais imutável que o próprio homem , pois ela evolui com ele, nele e por ele.”12 De onde Pio X escrevia dos modernistas: “Eles pervertem a noção eterna da verdade.”13
“Não é sem uma grande responsabilidade”, escrevia ainda o Pe. Garrigou-Lagrange, “que chamam ‘quimérica’ a definição tradicional da verdade admitida há séculos na Igreja, e que se fale em ‘substituir’ outra, em todos os domínios, incluído o da fé teologal”, porque “um erro quanto à noção primeira da verdade provoca um erro em tudo o mais.”14
Na mesma época (1946) o grande teólogo dominicano, numa carta pessoal, suplicava a Blondel que “retificasse antes de morrer sua definição da verdade, se não quisesse passar muito tempo no purgatório”15. Um dos frutos mais amargos do erro capital de Blondel é o que se chama hoje a “tradição viva”, que carece da indispensável ligação lógica com o que a Igreja sempre acreditou e ensinou desde suas origens porque, dizem, até no progresso dogmático, no aprofundamento da Verdade revelada, não há “nunca nada determinado nem fixo”16.

As “Hesitações” de Blondel
O Pe. de Tonquedec já sublinhara, em 192417, a “semelhança impressionante” entre o pensamento de Blondel e algumas teses condenadas por São Pio X na Pascendi. Essa semelhança — escrevia ele — “existe até nos termos empregados por uma e outra parte, e essa coincidência provavelmente não é casual”. Para o Pe. Tonquedec, Blondel evitava o anátema pessoal e caracterizava-se por “imprecisões de pensamento”, por “hesitações”, por “contradições” que apareciam em seus escritos.
Blondel estava, ao menos, de boa-fé? O Pe. Tonquedec tinha boas razões para duvidar; veja-se, por exemplo, a deformação que Blondel operava no pensamento de Santo Tomás para lhe fazer dizer exatamente o contrário do que diz18, o “abuso” de “negações sumárias e categóricas” invariavelmente opostas por Blondel aos críticos, com provas de apoio em seus contraditores, sua maneira de se refugiar atrás de um “vocês não me compreenderam”, suas repetidas tentativas de “explicar” seu próprio pensamento para sustentar em seguida, gratuitamente, que ele nunca esteve em oposição com a ortodoxia católica etc.19 Na realidade, Blondel passou toda a sua vida tentando “explicar” seu pensamento num sentido ortodoxo, de modo que até hoje se emitem os juízos mais contraditórios sobre ele. Se alguns opositores acabaram acreditando, ao menos, na sinceridade das “explicações” de Blondel, os críticos mais prudentes e mais informados não se desarmaram.
Assim, L’Ami du Clergé20 escrevia:
“La Pensée, L’Être et les êtres são apenas a renovação do que escreveu em Action. M. Blondel pôde modificar para melhor, ou mesmo rever certos detalhes, assinalar úteis constatações psicológicas, fazer oportunas declarações de ortodoxia. No fundo, ele não mudou em nada a sua doutrina.
Dizemos isso francamente e sem animosidade, porque, para retomar uma palavra que ele aprecia: assim é.”
O Pe. de Tonquedec e o Pe. Descops tinham a mesma opinião:
“Foi-me impossível, para meu desgosto, aceitar a interpretação atual que M. Blondel dá de suas obras. Sua exegese parece-me, com efeito, violenta, arbitrária, inspirada pela preocupação, muito honrosa sem dúvida, mas algo frenética, de defender a ortodoxia de seus textos. O desacordo entre antigamente e hoje em dia não incide somente sobre palavras e detalhes, mas sobre as linhas básicas do pensamento.
Há em L’Action, Lettre sur l’Apologétique etc. muita coisa além de uma ‘apologética do limiar’. Há uma filosofia geral, uma teoria do conhecimento, uma metafísica, uma lógica, fragmentos de teologia etc., impossíveis de reduzir àquela.
Nenhum dos que leram inteiramente os escritos de M. Blondel poderá aceitar essa equivalência, ainda que fosse sob a palavra do autor. Até essa ‘apologética do limiar’ — a qual tenho o prazer de dizer que aceito inteiramente, sob a forma que lhe deu Auguste Valensin — já não apresenta o mesmo aspecto ao ser considerada em função do restante da doutrina. Ela é intrinsecamente transformada, radicalmente transposta, consoante a isolemos ou a aproximemos de uma filosofia de que ela não está na origem nem no fim, e que dá um sentido especial à mais tranqüila de suas fórmulas. Essa filosofia, muito nova, muito audaciosa, muito exclusiva, compreende uma parte negativa, das mais acentuadas, que não se pode excluir sem que o conjunto sofra alteração.”21
Por sua vez, o Pe. Garrigou-Lagrange escrevia acerca da nova noção de verdade sustentada por Blondel:
“Talvez as últimas obras de M. Blondel corrijam esse desvio? Vimos que não o podemos afirmar.”22

As “Confissões” d’Os Que Venceram
Os críticos tenazes de Blondel não se enganavam. Os “novos teólogos” nos oferecem hoje a confirmação e a chave do comportamento laudatório do pai da “nova filosofia cristã”:
“Depois de L’Action, de 1893, e de Lettre, de 1896, Blondel foi muitas vezes acusado de ‘modernismo’ pelos polemistas que confundiam tudo [sic], e ele multiplicava as precauções, guardando silêncio ou refugiando-se sempre nos artigos de temas históricos. Aliás, para responder a seus detratores, Blondel oferece sempre uma interpretação fraca, mínima de suas obras.”23
Pela correspondência Blondel/De Lubac, ficamos sabendo que, em 20 de dezembro de 1931, Blondel perguntava a De Lubac se alguma de suas teses “ultrapassava a medida”. De Lubac responde, em 3 de abril de 1932, com uma reprovação em “sentido contrário”: o pai da “nova teologia” atrapalha-se demasiadamente com os teólogos que o criticam e o obrigam a “tantas explicações”. Isso impede o “livre desenvolvimento” de seu pensamento, que é “bastante católico para precisar cobrir-se de excessiva timidez”. Continua De Lubac:
“Se admiro o cuidado minucioso que você toma em criticar se, fico um pouco triste ao pensar que esse trabalho atrasa talvez as obras mais importantes que esperamos com tanta impaciência...”24
Encantado pela flauta mágica de seu “amigo”, Blondel toma coragem e, na resposta de 5 de abril de 1932, confessa:
“Quando, há mais de quarenta anos, abordei problemas para os quais não estava preparado o suficiente, reinava um extrinsequismo [= tomismo, filosofia perene] intransigente, e, se eu tivesse dito já naquela época o que o senhor deseja, ter-me-ia achado temerário e teria comprometido todo o esforço empenhado, toda a causa por defender, afrontando censuras que seriam inevitáveis e certamente causariam atrasos. Era preciso deixar o tempo amadurecer-me o pensamento e amansar os espíritos rebeldes. A lentidão que o senhor reclama é, desse duplo ponto de vista, desculpável. E, antes de avançar para teses discutíveis, eu precisava discernir o essencial despercebido, o incontestável que se contestava então: donde a necessidade de aceitar os modelos tradicionais (tradição recente, aliás, mas que se tornou escolar) e de me adaptar à perspectiva costumeira, ao menos como ponto de partida de uma renovação, de um aprofundamento interior. O senhor conhece as dificuldades, os riscos — que não desapareceram — em meio aos quais persegui um plano que se tornaria ainda mais oneroso pelas dificuldades de saúde, pelas tarefas profissionais ou pelos conselhos de prudência e de espera que me eram manifestados. Logo, não sou de todo responsável pela demora ou timidez que o senhor deplora como ‘filho’ de uma nova geração e mestre de uma ciência teológica que eu sempre estive longe de possuir.”25
Desse modo, Blondel, com um sistema típico dos modernistas, escondia voluntariamente seu pensamento para permanecer oficialmente na Igreja e “renová-la” desde dentro. Há nessa correspondência Blondel/De Lubac todo o modernismo (e seu prolongamento histórico, o neomodernismo) com suas manobras subterrâneas para não sofrer censuras que o teriam irremediavelmente comprometido, dada a sua obstinada surdez a qualquer crítica e a qualquer lembrança da ordem. As cartas (que não eram “ameaçadoras”, mas simplesmente caridosas) por meio das quais Garrigou- Lagrange tentou até o fim pôr Blondel em face de suas próprias responsabilidades, “em vez de produzir o efeito esperado, são dadas a De Lubac e utilizadas por ele, e postas em circulação sob forma confidencial, para desacreditar o autor”26.
Para sua infelicidade, Blondel encontrara De Lubac e sua turma, que lhe viam na nova “filosofia cristã” a base de sua nova “teologia católica”. E em Roma ele poderá contar com a simpatia do substituto da Secretaria de Estado, Monsenhor Montini. Mas falaremos disso adiante.

1 Verbete “Milagre”, “nota adicional sobre a interpretação dos escritos
de M. Blondel”.
2 Cf. Sim Sim Não Não, novembro de 1993.
3 Verbete “Imanência”.
4 Op. cit.
5 L’Action.
6 L’Action, p. 402.
7 Idem.
8 R. Amerio, Iota Unum, NEL, p. 42, nota 17.
9 Marcel de Corte, L’Intelligence en péril de mort, Prefácio da 1ª edição.
10 Dic. Apol., cit., col. 581.
11 “La Nouvelle Théologie, où va-t-elle?”, Angelicum 23, 1946.
12 Dz. 2058.
13 Dz. 2080.
14 Id.
15 Centre d’Archives Maurice Blondel - Journée d’inauguration, 30-31 de
março de 1973, Textos das Intervenções.
16 Sì Sì No No, ed. francesa, de janeiro de 1992: L’Éloge du Père Henri de
Lubac.
17 Dic. Apol., cit., col. 601.
18 Ibid., nota 3.
19 Ibid., col. 611, 612.
20 4 de março de 1937, p. 155.
21 Dic. Apol., cit.
22 “La Nouvelle Théologie, où va-t-elle?”.
23 Centre d’Archives Maurice Blondel, p. 50.
24 H. de Lubac, Mémoire autour de mes oeuvres, Jaca Book, p. 21.
25 Ibid., p. 182.
26 A. Russo, H. de Lubac:- Théologie e dogme de l’Histoire. L’Influence de
Blondel, ed. Studium Roma, p. 334.

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Extraído de “A nova teologia” Os que pensam que venceram

Fonte:  Permanência

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O dever do Papa

O dever do vigário de Cristo

14. Como vigário daquele que, numa hora decisiva, diante do representante da mais alta autoridade terrena de então, pronunciou a grande palavra: "Nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade; quem está pela verdade, ouve a minha voz" (Jo 18,37), de nada nos sentimos mais devedores ao nosso cargo, e também ao nosso tempo, como de, com apostólica firmeza, "dar testemunho da verdade". Este dever implica necessariamente a exposição e a refutação dos erros e das culpas humanas que devem ser conhecidas para que se torne possível a cura: "conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres" (Jo 8,32). No cumprimento deste nosso dever, não nos deixaremos influenciar por considerações terrenas, nem nos deteremos diante de difidências e contrastes, de recusas e incompreensões, nem diante do temor de desprezos e falsas interpretações. Animar-nos-á sempre aquela paternal caridade que, enquanto sofre pelos males que afligem seus filhos, não deixará de indicar-lhes o remédio, esforçando-nos por imitar o divino modelo dos Pastores, o Bom Pastor Jesus Cristo que é, a um tempo, luz e amor: "Seguindo a verdade com amor" (Ef 4,15).

15. No início da caminhada que leva à indigência espiritual e moral dos tempos presentes, estão os esforços nefastos de não poucos para destronar Cristo, o desapego da lei da verdade, que ele anunciou, da lei do amor, que é o sopro vital do seu reino. O reconhecimento dos direitos reais de Cristo e a volta de cada um e da sociedade à lei da sua verdade e de seu amor são o único caminho de salvação.

16. Enquanto escrevemos estas linhas, veneráveis irmãos, chega-nos a apavorante notícia que se desencadeara o terrível tufão da guerra, não obstante todos os nossos esforços para esconjurá-lo. A nossa caneta como que hesita em prosseguir, quando imaginamos o abismo de sofrimentos de inúmeras pessoas, às quais sorria ainda ontem, no ambiente doméstico, um raio de modesto bem-estar. O nosso coração enche-se de angústia, ao prevermos tudo o que poderá medrar da tenebrosa semente da violência e do ódio, depositada hoje nesses sulcos sangüinosos que a espada acaba de abrir: Mas, mesmo diante destas apocalípticas previsões de desventuras iminentes e futuras, achamos que é nosso dever sugerir àqueles em cujos corações se aninha ainda um sentimento de boa vontade, que elevem os olhos ao único do qual deriva a salvação do mundo, ao único; cuja mão onipotente e misericordiosa pode fazer cessar esta tempestade, ao único, cuja verdade e cujo amor podem iluminar as inteligências e inflamar os corações de tão grande parte da humanidade imersa no erro, no egoísmo, nos contrastes e na luta, e reorganizá-la no espírito da realeza de Cristo.

17. Talvez nos sej a lícito esperar - e Deus o permita - que esta hora de máxima indigência seja também uma hora de retificação do pensar e sentir de muitos que até agora palmilhavam, com cega confiança, o caminho semeado de erros modernos, sem suspeitarem quão insidioso e falso era o terreno que pisavam. Muitos talvez, que não compreendiam a importância da missão da Igreja, perceberão melhor agora os seus avisos, por eles descurados na falsa segurança de tempos passados. As angústias do presente são uma apologia do cristianismo, e não poderia ser mais impressionante. Do gigantesco vórtice de erros e movimentos anticristãos originaram-se frutos tão amargos que constituem uma condenação, cuja eficácia supera qualquer confutação teórica.

18. Horas de tão penosa desilusão são muitas vezes horas de graça, uma "passagem: do Senhor" (Ex 12, 11) nas quais; à palavra do Salvador: "Eis que estou à porta,e bato" (Ap 3;20) abrem-se as portas que, de outra maneira, se conservariam fechadas. Bem sabe Deus com que amor comipassivo, com que santa alegria o nosso coração se volta para aqueles que, em meio de tão dolorosas experiências, sentem nascer em si o imperioso e salutar desejo da verdade, da justiça e da paz de Cristo. Mas também por aqueles que aguardam ainda a luz superna que os ilumine, o nosso coração não conhece senão amor, e de nossos lábios não se desprendem senão preces ao Pai das luzes pedindo-lhe que faça resplandecer em suas almas, indiferentes ou inimigas de Cristo, um raio daquela luz que transformou um dia Saulo em Paulo, daquela luz que demonstrou sempre a sua força misteriosa mesmo nos tempos mais difíceis para a Igreja.

Summi Pontificatus – Pio XII

http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_20101939_summi-pontificatus_po.html

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

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O facto é que, como Hans Urs von Balthasar referiu, já em 1952, (…) Ela [a Igreja] tem de renunciar a muitas das coisas que Lhe têm até agora inspirado segurança e que Ela aceitou como certas. Ela tem de demolir bastiões há muito existentes e confiar somente na protecção da Fé. Cardeal Ratzinger, Principles of Catholic Theology, p. 390 – Citado em “O derradeiro combate do demônio – Capitulo VII A demolição dos bastiões.

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A FRATERNIDADE SÃO PIO X NÃO É HERÉTICA, NEM SEDEVACANTISTA, NEM CISMÁTICA"

Sim Sim Não Não

As seguintes passagens foram extraídas das declarações do cardeal Castrillón em entrevista publicada na conhecida revista mensal 30 Giomi (n° 9 - setembro 2005). Essa entrevista foi motivada pela audiência que o papa concedeu a S. Excia. Mons. Fetlay - a pedido do próprio bispo - em Castelgandolfo no dia 29 de agosto de 2005 e que despertou grande curiosidade em muitos ambientes.

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Assis é compatível com a doutrina católica tradicional?
Fonte: Permanência
A Declaração "Dignitatis Humanae" é compatível com a doutrina católica tradicional?

A doutrina católica nos ensina que o primeiro dever da caridade não está na tolerância das convicções errôneas, por sinceras que sejam, nem na indiferença teórica ou prática ao erro ou vício em que vemos mergulhados nossos irmãos... se Jesus foi bom para os transviados e pecadores, não respeitou suas convicções errôneas por sinceras que parecessem; amou-os a todos para os instruir,converter e salvar.. São Pio X, Notre charge apostolique, 25 de outubro de 1910” (condenação do Sillon).

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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A demolição dos bastiões e a hermenêutica da continuidade

 

O facto é que, como Hans Urs von Balthasar referiu, já em 1952, (…) Ela [a Igreja] tem de renunciar a muitas das coisas que Lhe têm até agora inspirado segurança e que Ela aceitou como certas. Ela tem de demolir bastiões há muito existentes e confiar somente na protecção da Fé. Cardeal Ratzinger, Principles of Catholic Theology, p. 390 – Citado em “O derradeiro combate do demônio – Capitulo VII A demolição dos bastiões.

Como pode se ler acima, o então Cardeal Ratzinger (hoje Bento XVI), trabalhou pela demolição dos bastiões (que inspiravam a segurança e a confiança na Igreja). Isto para confiar somente na fé (sola fides). Mas em encontros como o de Assis, o que vemos é uma confiança no Estado Laico. Evidentemente, após derrubarem os bastiões católicos, colocaram outros “bastiões” em seu lugar, e agora estes “bastiões” que inspiram a “segurança” e a “confiança” que foram aceitos como certos pela Igreja conciliar, vem da Revolução Francesa (totalmente anti-católica).

Quando se considera ainda, que realmente o Concílio Vaticano II, representou a demolição de bastiões da fé católica, o problema dele, não pode ser considerado apenas um problema hermenêutico. Mas sim que os bastiões que foram demolidos, fizeram e fazem uma tremenda falta. A demolição destes bastiões (católicos) e a sua substituição pelos bastiões de 1789, é muito mais que uma ruptura, são os golpes da régua, do esquadro e do compasso desferidos contra a Igreja, por seus próprios membros (que deveriam usar avental). Foi um ato criminoso!!!

Agora Bento XVI, fala em uma hermenêutica da continuidade e outra da ruptura. Para que exista uma hermenêutica da continuidade, pressupõe-se que o Concílio Vaticano II tenha deixado intactos os bastiões católicos. Mas… mas… ele os demoliu! Então, como é possível falar em uma hermenêutica da continuidade, sem falar na reconstrução dos bastiões demolidos pelo Concílio? Antes de se falar nesta hermenêutica, deveria se falar na reconstrução dos bastiões católicos de sempre, sem os quais, nenhuma continuidade é possível. Ainda poderíamos dizer que sem estes bastiões, a hermenêutica da continuidade, estaria para a Igreja Conciliar, como os elos perdidos, para a teoria da Evolução. Assim, antes de ir a Assis pelo Estado Laico, o Papa deveria consagrar a Rússia e confiar na promessa de Nossa Senhora de um Estado Católico.

Dom Lefebvre e Dom Mayer, estavam corretos em tudo o que disseram. Se Roma não os reabilitar, veremos ambos serem reabilitados no dia do juízo, onde receberam a coroa de glória, pela fidelidade a Roma Eterna.