domingo, 19 de outubro de 2008

Aos sacerdotes reunidos em Sínodo


Nota: Os sermões de Hugo de São Víctor são oásis em pleno deserto. O que segue abaixo trata do Sínodo. Nele vocês poderão ver como deveria ser um Sínodo da Palavra. A diferença de orientação daqueles tempos para o nosso é gritante, como poderão constatar neste texto.



Sermones Centum
Hugo de São Víctor


Sermo XXXIII
Aos Sacerdotes

reunidos em Sínodo.


"Ide, anjos velozes, a uma gente desolada e dilacerada, a um povo terrível, após o qual não há outro, uma gente que espera e é pisada, cujos rios destroçaram sua terra".
Is. 18, 2


Eis, irmãos caríssimos, o divino ofício que nos foi confiado. Eis o cuidado, a solicitude e o trabalho dos sacerdotes. Eis a piedosa, mas perigosa responsabilidade que lhes foi imposta:

"Ide, anjos velozes".


A palavra profética, ou melhor, a palavra divina, nos admoesta nesta passagem que não desprezemos o ministério que nos foi divinamente confiado, nem que abandonemos esta santa responsabilidade, para que não ocorra que os homens, formados à imagem e semelhança de Deus, redimidos pelo precioso sangue de Cristo, por nossa negligência deslizem para a condenação eterna por suas culpas temporais. E que não venha a ocorrer que não somente neles se encontre o pecado por causa de seus próprios delitos, mas que também em nós, além dos nossos próprios, se acrescentem os pecados alheios. Haveremos, efetivamente, de dar conta não somente de nós, mas também das almas que nos tiverem sido confiadas, a não ser que lhes tivermos anunciado insistentemente a palavra da salvação.


Ouçamos, pois, mais atentamente o que nos é divinamente ensinado:

"Ide, anjos velozes, a uma gente desolada".

Os sacerdotes são anjos, como se depreende de uma passagem da Escritura em que se afirma que


"Os lábios do sacerdote são os guardas da sabedoria, e pela sua boca se há de buscar a lei, porque ele é o anjo do Senhor dos exércitos".
Mal. 2, 7


Se somos, portanto, sacerdotes do Senhor, também somos, pelo mesmo ofício, seus anjos, isto é, seus mensageiros, e devemos anunciar ao povo as coisas que são de Deus.

"Ide, anjos velozes, a uma gente desolada".


Demonstra-se de dois modos que a natureza humana provém de Deus e que nEle possui suas raízes, conforme já o dissemos em outro lugar. Primeiramente, por ter sido criada à imagem de Deus, na medida em que pode conhecer a verdade; depois, por ter sido criada à Sua semelhança, na medida em que pode amar o bem. Segundo estes dois modos pode ser reconhecida como unida a Deus não apenas a criatura humana, como também a angélica, na medida em que pelo conhecimento contempla a Sua sabedoria e pelo amor frui de Sua felicidade. Por estes dois modos evita o mal, pois pelo conhecimento da verdade que possui desde a origem na divina imagem que lhe foi enxertada repele o erro e pelo amor da virtude que possui na semelhança divina odeia a iniquidade. Pela sugestão diabólica, porém, entrando a ignorância na natureza humana, e desarraigou-se no homem a raiz do conhecimento divino; sobrevindo também a concupiscência, arrancou-se a planta do amor.


Qualquer gente ímpia, portanto, afastada pela culpa dos bens divinos e celestes, plantada primeiramente no bem pelos dois bens precedentes, sobrevindo-lhe os dois males seguintes é corretamente apresentada e chamada de desolada do bem:


"Ide, anjos velozes, a uma gente desolada".


E, deve-se notar, a palavra divina não diz apenas desolada, como também acrescenta "dilacerada", desolada por ter sido afastada do bem, dilacerada por ter mergulhado no mal. A natureza humana, efetivamente, depois que é afastada do bem, é imediatamente e de múltiplas maneiras dilacerada pelo mal, conduzida por diversos vícios e pecados à condenação. Alguns pelo orgulho, outros pela inveja, outros pela ira, outros pela acédia, outros pela avareza, outros pela gula, outros pela luxúria, outros pela usura, outros pela rapina, outros pelo furto, outros pelo falso testemunho, outros pelo perjúrio, outros pelo homicídio, outros contemplando a mulher para desejá-la, outros chamando `louco' a seu irmão, e por tantos outros vícios ou pecados, interiores e exteriores, os quais pela brevidade do presente não queremos nem podemos enumerar.


"Ide", portanto, "anjos velozes, a uma gente desolada e dilacerada", para que, pelo vosso ensino, torneis a unir o que foi dilacerado pelo mal, e replanteis o que foi desenraizado do bem. "Ide, anjos", ide "velozes", ide "a uma gente desolada e dilacerada, a um povo terrível, após o qual não há outro".


Todas as vezes, irmãos caríssimos, que o homem pela justiça conserva a nobreza, a elegância e a beleza de sua condição, verificamo-lo possuir uma aparência formosa. Quando, porém, pela culpa mancha em si mesmo o decoro da beleza, encontramo-lo imediatamente deforme e horrível, dessemelhante de Deus, tornado semelhante ao demônio.


E então? Nos dias de domingo e nas solenidades festivas o povo confiado aos vossos cuidados aflui à igreja, ajusta sua forma corporal, reveste-se com roupas mais ornamentadas e tingidas de diversas cores. Vós, talvez, contemplando homens e mulheres trajados de modo tão fulgurante, vos gloriareis de terdes tais súditos e de serdes seus prelados. Não é boa, porém, esta vossa glória se é nisto que vos gloriais e se o povo a vós confiado for encontrado desolado e afastado do bem, dilacerado pelo mal e terrível pelos diversos vícios e pecados. Prestai diligentemente atenção em suas vidas, considerai seus costumes, julgai a sua beleza segundo as coisas que pertencem ao homem interior e não segundo as que pertencem ao exterior, enrubescei e compadecei-vos deste povo que é vosso súdito, se tal o virdes como aqui ouvis, isto é, "uma gente desolada e dilacerada, um povo terrível, após o qual não há outro", porque talvez vossa seja a culpa, vossa a negligência, vossa a preguiça, por ele ser tal porque não lhe anunciastes os seus pecados e as suas impiedades.


"Ide", portanto, "anjos velozes, a uma gente desolada e dilacerada, a um povo terrível, após o qual não há outro".


"Ide, anjos", porque é o vosso ofício. "Ide, velozes", para que a vossa demora não cause perigo.
"Ide a uma gente desolada e dilacerada, a um povo terrível, após o qual não há outro", para que pelo vosso ensino se alcance o remédio:


"Não queirais sentar-vos no conselho da vaidade, nem associar-vos com os que planejam a iniquidade. Odiai a sociedade dos malfeitores, e não queirais sentar-vos com os ímpios".
Salmo 25, 4-5


Alguém de vós poderá pensar silenciosa ou mesmo responder abertamente, dizendo:
"Tu nos proíbes, pelo exemplo que nos colocas do Salmista, de nos dirigirmos a estes, mas é a estes que o Senhor nos encaminha, quando nos diz: `Ide, anjos velozes, a uma gente desolada e dilacerada, a um povo terrível, após o qual não há outro'".


Entendei, porém, que onde o Senhor diz: "Ide, anjos velozes, a uma gente desolada e dilacerada, a um povo terrível, após o qual não há outro", Ele vos impõe aqui um ofício, e vos dá o preceito de ensinar aos ímpios; ali, porém, onde dissemos: "Não queirais sentar-vos no conselho da vaidade, nem associar- vos com os que planejam a iniquidade; odiai a sociedade dos malfeitores, e não queirais sentar-vos com os ímpios", aqui, digo, vos é continuamente negada a permissão para pecar com os ímpios.


"Ide", portanto, "anjos", para ensinar; não queirais ir para pecar. "Ide a um povo terrível", para que pela palavra da salvação o torneis de formosa aparência; não queirais ir, para que pela deformidade de seu pecado vos torneis a vós mesmos semelhantes a eles. Cristo comeu com os pecadores para associá- los consigo mesmo no bem, mas não comeu com eles para que se associasse com eles no mal. "Assim como Cristo o fêz, assim fazei-o vós também; assim como Ele não fêz, assim não o queirais vós fazer".


"Ide, anjos velozes".


Quão velozes? Tão velozes que "pelo caminho não saudeis a ninguém" (Luc. 10, 4), e, "se alguém vos saudar", "não lhe respondais".
2 Reis 4, 29


Não que a salvação não deva ser anunciada a todos; por estas palavras o Espírito Santo quer dar a entender quão velozes e pressurosos importa que sejam os sacerdotes no anúncio da salvação, como se dissesse:


"Prega a palavra, insiste a tempo e fora de tempo, repreende, suplica, admoesta com toda a paciência e doutrina",
2 Tim. 4, 2

e


"não queirais adiar a palavra dia após dia, de domingo a domingo, de solenidade a solenidade, mas que, ao menos nos domingos e nas solenidades festivas não vos seja suficiente celebrar somente as missas para o povo reunido na igreja segundo o costume. Não seja suficiente para o homem apostólico e para cada uma das ordens fazer um discurso genérico ou anunciar a festa da semana seguinte. Antes, castigai o povo sobre o mal, ensinai-o e formai-o no bem, declarai-lhes a pena que há de vir sobre os pecadores e a glória reservada aos justos".


"Ide, anjos; ide velozes". Se adiais de domingo a domingo pregar ao povo a palavra da salvação, quem saberá dizer se então estareis vivos, sãos ou presentes? E ainda que ocorra que estejais vivos, sãos ou presentes, quem saberá se alguém que antes estava presente estará então ausente e não mais ouvindo o bom conselho para a sua alma, surpreendido por uma morte inesperada e súbita, seja arrebatado para a pena eterna sem se ter lavado da sua culpa? Porventura de vossas mãos Deus não pedirá com justiça contas do sangue deste homem?
"Ide", pois, "anjos velozes, a uma gente desolada e dilacerada, a um povo terrível, após o qual não há outro".


O que significa: `Depois do qual não há outro'? Porventura depois deste povo não haverá mais de nascer ou de viver quem faça o bem ou quem faça o mal? Certamente que não. O que significa, então, o `após o qual não haverá outro'? Significa que não haverá, diante do supremo juiz, ninguém pior, mais torpe pela culpa, mais terrível do que este. Três são os povos: o cristão, o judeu, e o pagão. Aqueles que no povo cristão são cristãos segundo o nome, mas que pela injustiça servem ao demônio, são mais terríveis que os judeus ou os pagãos, já que são piores pela iniquidade. De fato, quanto mais facilmente, ajudados pela graça, se quiserem, podem permanecer na justiça, tanto mais gravemente ofendem não querendo abster-se da culpa. Aquele a quem mais foi confiado, mais lhe será exigido. Quanto mais alto for o degrau, tanto maior será a queda, e mais pecou o demônio no céu, do que o homem no paraíso. Conforme no-lo ensina a Escritura,


"Aquele servo, que conheceu a vontade de seu Senhor, e não se preparou, e não precedeu conforme a sua vontade, levará muitos açoites. O servo, porém, que não a conheceu, e fêz coisas dignas de castigo, levará poucos açoites".
Luc. 12, 47-8


Assim como no-lo é manifestado por esta sentença, assim também o Senhor repreendeu as cidades em que havia feito vários prodígios, pelo fato de não haverem feito penitência, dizendo:

"Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidônia tivessem sido feitos os milagres que se realizaram em vós, há muito tempo eles teriam feito penitência em cilício e em cinza. Por isso eu vos digo que haverá menor rigor para Tiro e Sidônia no dia do Juízo do que para vós. E tu, Cafarnaum, elevar-te-ás porventura até o céu? Não, hás de ser abatida até o inferno. Se em Sodoma tivessem sido feitos os milagres que se fizeram em ti, ainda hoje existiria. Por isso vos digo que no dia do Juízo haverá menos rigor para a terra de Sodoma que para ti".
Mat. 11, 21-24


Deste mesmo modo pode-se repreender também este povo de falsos cristãos, depravado por diversas impiedades, feito terrível, distante da divina semelhança da qual se afastou segundo a sua iniquidade:


"Ai de ti, povo iníquo, povo mentiroso, povo apóstata, que pela tua má vida conculcas o Filho de Deus, que manchaste o sangue do Testamento em que foste santificado e fazes injúria ao Espírito da graça! Melhor seria para estes `não conhecer o caminho da justiça do que, depois de o terem conhecido, tornarem para trás daquele mandamento que lhes foi dado. De fato realizou-se neles aquele provérbio verdadeiro: `Voltou o cão para o seu vômito e a porca lavada tornou a revolver-se no lamaçal'' (2 Pe. 2, 21-22)".


Como não vemos, portanto, que este povo não poderá ser pior do que si mesmo e que nenhum outro povo mau haverá de vir depois dele? Neste o peso dos males manifestado pela palavra profética já parece ter-se espalhado, pelo que se diz:


"Ai de vós, os que ao mal chamais bem, e ao bem mal, que tomais as trevas por luz, e a luz por trevas, que tendes o amargo por doce, e o doce por amargo! Ai de vós, os que sois sábios a vossos olhos e, segundo vós mesmos, prudentes! Ai de vós os que sois poderosos para beber vinho, e fortes para fazer misturas inebriantes! Vós os que justificais o ímpio pelas dádivas, e ao justo tirais o seu direito!".
Is. 5, 20-23


De todas estas coisas, irmão caríssimos, há muito mais que poderia ser dito, as quais temos que omití-las por causa da brevidade.


"Ide, anjos velozes, a um povo terrível, após o qual não há outro, a uma gente que espera e é pisada".


O que ela espera? A vossa palavra, o vosso exemplo, o vosso amparo e, pela vossa solicitude e pelo vosso serviço, o auxílio e o dom divino. Espera a vossa palavra, para que possa aprender; o vosso exemplo, para que dele receba a forma; o vosso amparo, para que seja defendido; por vossa solicitude e serviço, o auxílio e o dom divino para que possa ser libertado do mal e justificado no bem.


"E é pisada".


Quem a pisou? Todos os demônios, que continuamente dizem à sua alma: "Curva-te, para que passemos por ti". De fato, os maus, os que desprezam as coisas celestes, e se curvam para as terrenas, oferecem aos demônios o caminho para serem por eles pisados e atravessados.
Segue-se:


"Cujos rios destroçaram sua terra".


Quem são estes rios que destroçam a terra dos que vivem mal? Onde os vícios fluem com impetuosidade, carregam consigo os maus aos tormentos. O que é a destruição da terra, senão a dissipação de qualquer virtude? Os rios, portanto, destroçam a terra dos maus quando os vícios lhes removem as virtudes. A soberba, de fato, remove a humildade, a ira remove a paz, a inveja a caridade, a acédia a exultação espiritual, a avareza a liberalidade, a luxúria a continência.

"Ide, anjos velozes, a uma gente desolada e dilacerada, a um povo terrível, após o qual não há outro, uma gente que espera e é pisada, cujos rios destroçaram sua terra".
"Naquele tempo", acrescenta logo em seguida Isaías, "será levada uma oferta ao Senhor dos exércitos por um povo desolado e dilacerado, por um povo terrível, após o qual não houve outro, por uma gente que espera e é pisada, cujos rios destroçaram a sua terra".

Is. 18, 7


De que tempo nos fala o profeta? Daquele tempo em que tiverdes ido a este povo ao qual sois enviados e, pelo vosso ensino, o tiverdes curado dos males que já mencionamos. Que oferta então será levada ao Senhor? Uma oferta de gratidão, um holocausto entranhado e medular, um voto interior, que será levado ao lugar do nome do Senhor, ao monte Sião, isto é, à Santa Igreja.
Ide, pois, anjos velozes, e ensinai ao povo terrível, cumpri o vosso ministério. Se assim o fizerdes, alcançareis para vós um bom lugar. Que a vós e a nós conceda esta graça aquele que nos promete também a glória, Jesus Cristo, Nosso Senhor, o qual vive e reina, por todos os séculos dos séculos.


Amén.

sábado, 18 de outubro de 2008

O modernista Henrici de Lubac




HENRI DE LUBAC S.J., UM "MESTRE" QUE NUNCA FOI DISCÍPULO



I - Inclinações "liberais" e deformação teológica
II - "Mestres" Que Nunca Foram Discípulos
III - Desprezo por Roma e Falsa Obediência
IV -A "Simbiose intelectual de Blondel"
V - O Desprezo pelo Magistério Infalível
VI - Os "reformadores"
VII - A Arma do Desprezo e da Difamação
VIII - A Crise Pós-Conciliar e o "Exame de Consciência" de De Lubac


Inclinações "liberais" e deformação teológica



Chegamos ao jesuíta Henri de Lubac, pai da "nova teologia".
Partiremos de sua formação filosófico-teológica, porque ela mostra o clima de desprezo pela autoridade e pela orientação da Roma católica em que amadureceu a crise atual da Igreja. Para lutar contra a agressão dos modernistas, São Pio X tinha mandado que se afastassem dos seminários e das casas de formação de religiosos os professores suspeitos e que fossem excluídos das ordenações os "jovens que demonstrassem o menor sinal de apego às doutrinas condenadas e às novidades perniciosas"1.
De acordo com essas diretivas, o jovem De Lubac nunca deveria ter sido ordenado. Foi ele mesmo que, em sua obra Memória em Torno de Minhas Obras2, reconheceu suas simpatias pelo liberalismo católico, condenado de modo repetido pelos Pontífices Romanos, simpatias que o predispuseram a "correr atrás dos sistemas e das tendências turbulentas do pensamento moderno"3.
De Lubac escreveu, por exemplo, do Cardeal Couillé:
"por mim aureolado, desde minha adolescência, por causa da lembrança de Mons. Dupanloup, de quem ele foi colaborador". Mons. Dupanloup, o "herói", ou antes o "santo", de De Lubac adolescente, foi uma figura marcante da corrente liberal no Concílio Vaticano I, e deixou este Concílio antes de sua conclusão, para não assistir à proclamação da infalibilidade pontifical, a que ele se opunha. Ao contrário de Mons. Lavallée, reitor das Faculdades Católicas de Lyon, de quem De Lubac escreveu: "O que me preocupou sempre um pouquinho nele foi... sua reputação de tradicionalista extremo."4
Esse horror ao "integrismo" e aos "integristas" não deixou nunca De Lubac até o fim de seus dias, como veremos. Contra a agressão do modernismo, São Pio X e todos os seus sucessores, até Pio XII, tinham confirmado a obrigação de "seguir religiosamente (sancte) a doutrina, o método, os princípios de Santo Tomás"5. Mas dessa orientação romana faziam pouco caso ou até não se davam conta nas casas de formação dos jesuítas freqüentadas por De Lubac. Assim, durante seus estudos de filosofia, em Jersey (1920-1923), o jovem De Lubac pôde ler "apaixonadamente" L’Action, La Lettre (sobre Apologética) e diversos outros estudos de Maurice Blondel.
"Por uma louvável exceção, alguns de nossos mestres de então, apesar das interdições serem severas, permitiam, sem nos encorajar, que seguíssemos o pensamento do filósofo de Aix."6
E ainda, na página 192:
"Entre os autores de mais fraca envergadura, éramos loucos por Lachelier [que se mete, como Blondel, no domínio do kantismo], recomendado pelo Pe. Auguste Valensin mais pelo seu estilo do que por suas idéias [ainda que isto seja verdade, as idéias penetravam também com o estilo]. É preciso lembrar que, nesse tempo, para os escolásticos de filosofia tais leituras eram, para a maioria, um fruto semiproibido. Graças a mestres e conselheiros indulgentes, nunca foram leituras clandestinas."
E assim o jovem De Lubac, em vez de receber uma séria e sã formação filosófica, base indispensável de uma séria formação teológica, deformou-se, "graças a mestres e conselheiros indulgentes , com a leitura apaixonante de filósofos viciados de imanentismo e de subjetivismo.



"Mestres" Que Nunca Foram Discípulos



O prejuízo de tal "formação" é enorme e irreparável:
"Porque a doutrina tradicional de Santo Tomás é a mais forte, a mais luminosa e a mais segura nos seus princípios — é preciso crer na Igreja — é dever munir-se dessa força e dessa luz, para afastar as teorias arriscadas ou falsas. Não se faz sempre o contrário? Estuda-se aos trancos uma filosofia ou uma teologia diminuída e sem coesão; em seguida, tem-se contato com Santo Tomás e com a Tradição, mas episodicamente. Esse contato não é uma formação: pior, ele falsifica a realização do pensamento escolástico e tradicional. Ora, a Igreja pede uma formação tomista tradicional. Se realmente Santo Tomás é um guia, é a ele que é preciso recorrer, antes e sobretudo; é sua doutrina, pura, que é preciso ensinar na formação teológica; sua leitura, para ser realmente formadora, não deve vir como um estudo secundário e acessório."7
Essa carência de uma sólida formação filosófica e teológica é o "defeito de fábrica" que se constata em todos os "novos teólogos".
Henri Bouillard, veterano da "turma" de De Lubac, por ocasião da inauguração do Centro de Arquivos Maurice Blondel8 ofereceu "o testemunho" seguinte:
"Faço parte desses jovens estudantes de teologia que, em meados de 1930, arrumavam um exemplar fotocopiado de L’Action [principal obra de Blondel], livro que não se achava, na época, em livrarias. A obra era suspeita, e sua leitura, sem guia competente, era difícil. Mas, profundamente decepcionados com a filosofia escolástica e com a apologética ensinada nos Seminários [mal ou sem convicção por professores fascinados, também eles, pela ‘filosofia moderna’], procurávamos aí uma iniciação, entre outras, ao pensamento moderno e, mais ainda, o modo, que não achávamos em outro lugar, de compreender e
justificar nossa fé."
Continua Bouillard:
"Mesmo como professor, o conjunto de minhas lições se inspirava largamente no pensamento blondeliano. Outros teólogos [entre os quais seu amigo De Lubac] haviam se engajado, fazia muito tempo, neste caminho, e outros dele se aproximavam. Devo testemunhar não somente o que Blondel me ensinou mas a influência que ele exerceu sobre numerosos teólogos e, através deles, sobre o conjunto da teologia."9
Com razão, então, o Pe. Garrigou-Lagrange escreveu de De Lubac, de Bouillard e de seus companheiros:
"Não achamos que eles abandonam a doutrina de Santo Tomás; eles nunca aderiram a ela e nunca a compreenderam bem. É doloroso e inquietante."10
Como sempre, os "inovadores", para falar como Santo Afonso, "querem ser tidos por mestres, sem nunca terem sido discípulos"11.




Desprezo por Roma e Falsa Obediência




Junto com as "novidades", o jovem De Lubac absorveu, inevitavelmente, o desprezo pela orientação "romana":
"Entre os contemporâneos que eu segui na época de minha formação, tive uma dívida particular para com Blondel, Maréchal, Rousselot."12
Entretanto, nenhum desses três era visto como ortodoxo, nem pelo Santo Ofício nem pela sede romana da Companhia de Jesus.13 E De Lubac escreve sobre o jesuíta Pierre Charles:
"seu prestígio cresceu [sic] a nossos olhos, por causa da semidesgraça em que ele caiu [diante das autoridades romanas], como o padre Huby depois do caso de Les yeux de la Foi", obra de Rousselot que os jesuítas Charles e Huby tentaram muitas vezes publicar,
contra a oposição de Roma14.
Mais tarde, De Lubac aprendeu a praticar uma real desobediência sob a aparência da mais formal obediência. O padre Podechard, "o mais submisso dos filhos da Igreja", conta De Lubac, acabava de terminar um curso sobre o servo de Jahvé, na Faculdade de Teologia de Lyon.
"Disse-lhe que ele deveria escrever um livro e publicá-lo. ‘É impossível’, replicou-me. ‘E por quê?’ ‘Há na base posições críticas que hoje não são admitidas. Sobre essas questões bíblicas, Padre, a Igreja e eu, realmente, não nos entendemos; é preciso então que um dos dois se cale, e é normal que seja eu’."15
Mas isso não impedia o "mais submisso dos filhos da Igreja" de falar sem tais precauções nos seus cursos, propondo aos jovens eclesiásticos teses que ele sabia desaprovadas pela Igreja.
De Lubac aprenderá a lição e, no seu devido tempo, saberá esconder, ele também, sua real desobediência sob uma submissão formal. Com conhecimento de causa, Pio XII, na Humani Generis, escreverá que os "novos teólogos" ensinam o erro "de modo prudente e encoberto": "Se nos livros impressos falam com prudência, nos escritos transmitidos em particular, nas lições e conferências, se exprimem mais livremente." Constataremos a mesma coisa, mais adiante, para von Balthasar. E isso explica como o mundo católico, com o Vaticano II, pôde "acordar" modernista sem nem sequer gemer16.



A "Simbiose Intelectual" de Blondel



O primeiro passo da "nova teologia", para abandonar a tradição dogmática da Igreja, é o abandono da filosofia escolástica. E esse passo, vimos no capítulo precedente, foi dado por Blondel. O segundo passo é o abandono da teologia católica tradicional, e é Henri de Lubac que dele se encarregará.
O "teólogo modernista" — escreveu São Pio X — critica "a Igreja porque, com grande obstinação, ela se recusa a submeter-se e acomodar seus dogmas às opiniões da filosofia [moderna]"; de seu lado, "tendo posto de lado a antiga teologia", ele se esforça "para pôr em voga uma novidade, fiel em tudo aos delírios dos filósofos"17. Toda teologia, de fato, pressupõe uma filosofia, e a "nova teologia" de De Lubac pressupõe a "nova filosofia" de Blondel.
Em 8 de abril de 1932, Henri de Lubac S.J. escrevia a Blondel que agora era possível "a elaboração de uma [nova] teologia do sobrenatural [...] porque sua obra filosófica [de Blondel] lhe havia preparado os caminhos"18.
Recentemente, em março de 1991, o Osservatore Romano consagrou uma página inteira à apresentação (naturalmente elogiosa) da obra Henri de Lubac: Théologie et dogme dans l’Histoire. L’influence de Blondel19. O autor, A. Russo, aluno italiano do alemão Walter Kasper (ele também da turma "dos que pensam que venceram"), escreve que a correspondência De Lubac/Blondel "oferece um exemplo de simbiose intelectual que raramente se encontra na história do pensamento"20. É, na realidade, uma velha história: os semelhantes se atraem. Inúmeros pontos uniam Blondel e De Lubac: a mesma falta de confiança no valor da razão (antiintelectualismo ou, ainda, gnosticismo ou cepticismo); a mesma falta de vigor intelectual já assinalada pelo Pe. de Tonquedec S.J. em Blondel e que não é difícil mostrar nos escritos de De Lubac; o mesmo complexo de inferioridade em face do "homem moderno" (identificado com o filósofo moderno, doente de cepticismo e de subjetivismo); o mesmo medo de intelectuais, escondido sob a ansiedade apologética de um "apostolado pacificante" (Blondel), "de ficar ou ser expulso" (A. Russo21) por uma cultura que recusa o Cristo e sua Igreja, e a miragem correlativa de conciliar a pseudofilosofia moderna com a fé, como São Tomás tinha conciliado com a fé a filosofia de sua época. Blondel e De Lubac não notaram que São Tomás havia saneado uma filosofia fundamentalmente sã, mas que até um pensador da têmpera de São Tomás (Blondel é como um ratinho diante de uma montanha, em relação a ele) não poderia sanar os sofismas dos filósofos modernos. Não há conflito entre a fé e a razão reta22, mas há conflito entre a fé e a filosofia moderna, porque esta última anda muito longe da sã razão. Querer "reler" a Fé segundo os critérios da filosofia moderna é dissolver a fé nos erros da filosofia moderna, sem libertar para tanto o "pensamento cristão" (e a nós) do ostracismo a que a cultura moderna o relegou.
Isso toca o erro, que não é suscetível de conversão.Quanto aos que erram, é preciso lembrar que é difícil reconduzir à verdade aqueles que, como os filósofos modernos, se enganam nos princípios23 e que, em todo caso, aqueles que se enganam nos princípios devem ser corrigidos nos princípios. Supor, ao contrário, esses princípios errados (gnosticismo, subjetivismo etc.) como ponto de partida para uma "nova filosofia cristã" ou então para uma "nova teologia" conduz inevitavelmente a conclusões erradas, uma vez que é impossível tirar conclusões verdadeiras de princípios falsos.
E então a "simbiose intelectual" que houve entre De Lubac e Blondel só poderia conduzir a resultados muito infelizes, e não somente para os dois personagens diretamente interessados.



O Desprezo pelo Magistério Infalível



De Lubac e Blondel compartilhavam, sobretudo, o mesmo desprezo pelo Magistério infalível. E este desprezo aparece evidente quando se pensa que eles deviam sustentar (ou, mais exatamente, insinuar e difundir mais ou menos clandestinamente, porque não as sustentavam nunca de cara descoberta) suas "novidades" não contra uma escola teológica diferente, numa matéria controversa, mas contra o Magistério da Igreja, numa matéria sobre a qual existiam ensinamentos constantes e condenações repetidas dos Pontífices Romanos.
Quando Blondel e, no rastro de sua "filosofia" De Lubac consideraram o sobrenatural como uma exigência, um aperfeiçoamento necessário da natureza, que sem ele se acharia frustrada nas suas aspirações essenciais e, por isso, num estado anormal, e, em conseqüência, negavam que se pudesse admitir, ainda que por mera hipótese, um estado de "natureza pura", eles vinham opor-se à doutrina universal e constante da Igreja sobre a gratuidade do sobrenatural: se o sobrenatural é necessário à natureza, já não é gratuito, mas sim devido, e, se é devido à natureza, já não é sobrenatural, mas... natural, e com efeito o naturalismo é o fundo real do modernismo, como
também da "nova teologia".
A gratuidade do sobrenatural foi constantemente ensinada pela Igreja e defendida por ela contra os erros de Baius e de Lutero, que, como Blondel e De Lubac, diziam seguir a Santo Agostinho. Contra o modernismo, São Pio X tinha assim confirmado a doutrina constante da Igreja:
"Não Nos podemos impedir de deplorar mais uma vez, e com firmeza, que se encontrem católicos [e aqui o Pe. de Tonquedec não podia deixar de pensar em Blondel] que, repudiando a imanência como doutrina, a empregam, contudo, como método de apologética; que o fazem, digamos Nós, com tão pouca discrição, que parecem admitir na natureza humana, em relação à ordem sobrenatural, não somente uma capacidade e uma conveniência — coisas que, em todos os tempos, os apologetas católicos tiveram o cuidado de pôr em relevo — mas uma verdadeira e rigorosa exigência." Assim, na natureza humana, o filósofo, o apologeta, o teólogo católico não podem admitir mais que "uma capacidade ou uma conveniência" (poder de obediência) de receber o sobrenatural. Ultrapassar esses limites é abalar uma pedra fundamental da teologia católica, acarretando em seguida a ruína de todo o resto, como o vemos hoje, no curto caminho que vai do "sobrenatural",
que já não é aquele de Blondel e de De Lubac, à "visão antropológica" e aos "cristãos anônimos" de Karl Rahner, ao indiferentismo religioso ou "ecumenismo", à importância secundária da Igreja como meio de salvação24.
A encíclica Pascendi data de 1907. Em 1932, Blondel, com um desprezo evidente pelo Magistério infalível da Igreja, estava ainda chocado ou, como ele diz, "amadurecendo"
sua concepção heterodoxa do sobrenatural. Por sua vez, De Lubac, exaltado como modelo de "obediência" e de "fidelidade" à Igreja por ocasião de sua morte25, com igual desprezo pelo Magistério, encoraja-o e faz do sobrenatural naturalizado de Blondel o fundamento de sua "nova teologia".
Do mesmo modo, quando Blondel e De Lubac apresentam e difundem uma "nova" noção de "verdade", vitalista e evolucionista, eles sabem que essa noção fora condenada por São Pio X na Pascendi26 e em seguida pelo Santo Ofício, em 1º de dezembro de 1924, mas continuam imperturbáveis no seu caminho do erro.



Os "Reformadores"



Na realidade, o que espanta em Blondel e De Lubac é, justamente, sua maneira de se apresentar como critérios indiscutíveis de verdade, contra o Magistério secular da Igreja: sua causa é a causa do "cristianismo autêntico"27; eles são os artistas do retorno à "tradição mais autêntica"28, aqueles que restituíram a vida à "antiga doutrina"29, da qual, segundo eles, o "pensamento cristão" e, necessariamente, o Magistério da Igreja se teriam desviado no curso dos séculos, o que é "uma coisa absurda e a mais ultrajante
para a própria Igreja"30.
São Pio X, na Pascendi, bem descreveu a consciência falsificada dos modernistas, que tiravam do santo Papa toda a esperança em suas possibilidades de arrependimento:
"O que se lhes reprova como uma falta é o que eles vêem, ao contrário, como um dever sagrado... Que a autoridade os repreenda tanto quanto queira, eles têm para si suas consciências... E eles seguem seus caminhos; repreendidos e condenados, vão sempre dissimulando, sob mentiras de submissão exterior, uma audácia sem limites. Curvam hipocritamente a cabeça, enquanto com todos os seus pensamentos, com todas as suas energias perseguem, mais audaciosamente que nunca, o plano traçado. Isto é neles uma vontade e uma tática: porque acham que é preciso estimular a autoridade, não destruí-la; e porque lhes importa ficar no seio da Igreja para aí trabalhar e aí modificar pouco a pouco a consciência comum."
E ainda:
"Essa gente faz maravilhas, porque nós não os contamos no número dos inimigos da Igreja [...]; mas deixemos de lado as intenções, de que somente Deus é juiz, e examinemos suas doutrinas [é o critério objetivo para julgar] e suas maneiras de falar e de agir. Na verdade, aqueles que os consideram como os mais nocivos inimigos da Igreja não se afastam da verdade."31




A Arma do Desprezo e da Difamação



De Lubac, como Blondel (ver o capítulo anterior), utiliza o sistema dos modernistas para não se revelar excessivamente, a fim de, como disse São Pio X na Pascendi, "ficar no seio da Igreja para aí trabalhar e aí modificar pouco a pouco a consciência comum".
Apesar disto, os grandes teólogos tomistas viram imediatamente o termo aonde iriam conduzir as "novidades" propostas por ele, precavidamente encobertas; e imediatamente o futuro Cardeal Journet, fortalecido por sua formação tomista, assinala que "o Pe. De Lubac já não consegue distinguir a filosofia da teologia"32 ou, ainda, o natural do sobrenatural, e, adiante, percebe nele um "fideísta"33.
Não foi difícil para De Lubac convencer "o excelente" Charles Journet34, mas não foi assim com os outros teólogos tomistas. Às suas argumentações De Lubac oporá, então, a arma do desprezo e da difamação.
Em 1946 o Pe. Garrigou-Lagrange lança sua grave advertência: "Para onde vai a nova teologia? Ela retorna ao modernismo"; "a verdade já não é o que é, mas o em que se torna, e muda sempre", e isto "conduz ao relativismo completo"35. Além disso, numa carta pessoal, o grande teólogo dominicano lembra a Blondel, agora avançado em idade, sua responsabilidade diante de Deus. Em vão. De Lubac "utiliza" a carta para desacreditar o autor"36 e intervém prontamente para sossegar o inquieto Blondel: "A carta que ele Garrigou-Lagrange] acaba de nos enviar explica-se, ao menos em parte, pelo despeito que sente por ter visto recusado um artigo seu para a própria Revue Thomiste. Ele já não é somente o homem limitado que nós sabíamos, mas se torna num verdadeiro maníaco; daqui a alguns meses estará fabricando um espectro de heresia, para se dar a satisfação de salvar a ortodoxia. Recorre ao senso comum, mas é ele que já não tem o senso comum. O que se poderia responder é que o fato de pertencer a uma Ordem que tem por divisa ‘Veritas’ não lhe confere nenhum privilégio de infalibilidade [...]. O senhor não é responsável por nenhum dos desvios teológicos que ele imagina.
Neste momento existe um forte impulso integrista, denúncias e tagarelices de todo o gênero confluem ao quarto do Padre Garrigou-Lagrange."37 E, em 28 de julho de 1948, ele voltará a falar de "suas [de Garrigou-Lagrange] idéias simplistas sobre o absoluto da verdade"38.
Mas em 17 de setembro de 1946 Pio XII, interferindo pessoalmente na questão, exprimiu "idéias simplistas" idênticas às do Pe. Garrigou-Lagrange, idéias que foram sempre as da Igreja sobre o absoluto da verdade. Aos padres da Companhia de Jesus, numa alocução que teve grande repercussão, ele exprimira seu ponto de vista sobre a "nova teologia", "que deve evoluir como todas as coisas evoluem, estar em progresso sem se fixar nunca (...) Se fosse necessário abraçar tal opinião [advertiu o Santo Padre], que seria dos dogmas imutáveis da Igreja Católica? Que seria da unidade e da estabilidade da fé?"39
A advertência caíra no vazio. E igualmente cairá, para De Lubac (nesse tempo Blondel já estava morto), a encíclica Humani Generis (1950), que repete a imutabilidade da verdade e condena a "nova teologia do sobrenatural", de De Lubac:
"Ela me parece — escreve este sobre a grande Encíclica — como muitos outros documentos eclesiásticos, muito unilateral; o que não me espantou: é um pouco a lei do gênero. Mas nada vi que me tenha atingido."40
E às críticas vigorosas e luminosas de seus grandes adversários (Garrigou-Lagrange, Labourdette, Cordovan, Boyer etc.) ele continuará a responder com o desprezo e a difamação. Escreve ele a seu provincial em 1 de julho de 1950: "Fui atacado por alguns teólogos, é verdade, em geral pouco estimados [sic] por causa de sua ignorância notória [sic] da tradição católica ou por qualquer outro motivo."41 Adiante fala de "críticos obstinados de um grupo enfurecido" (é o sistema sempre utilizado pelos "que pensam que venceram"; ver a caricatura, tão injuriosa quanto injusta, do Pe. Garrigou- Lagrange apresentada pelo Pe. Martini S.J. — que reserva um tratamento parecido para Pio IX em Vaticano II — Balanço e Perspectivas).
De Lubac pratica um sistema "transversal" idêntico para defender seus companheiros:
Teilhard de Chardin S.J., que fazia teologia através da ciência, como De Lubac fez teologia através da história, é criticado por seus erros teológicos? De Lubac adverte que a culpa vem da "ignorância de seus críticos quanto ao estado atual da ciência [sic] e aos problemas que daí derivam"42!




A Crise Pós-Conciliar e o "Exame de Consciência" de De
Lubac




Nem as advertências e condenações dos Pontífices Romanos nem as condenações de seus adversários arranharam, em De Lubac, a segurança de "reformador". Para conter tal segurança, era preciso o horrível desastre do pós-concílio.
Do estado de alma de De Lubac (e de von Balthasar), Paulo VI se fará eco fiel — falaremos nisso depois — no seu famoso discurso de 30 de junho de 1972 sobre "as fumaças de Satanás no templo de Deus", que é também a confissão de uma ilusão longamente cultivada e obstinadamente perseguida:
"Acreditava-se que, depois do Concílio, viria um dia de sol para a história de Igreja. E, pelo contrário, veio um dia de nuvens, de tempestade, de obscuridade."
A impossibilidade de cavalgar o tigre das contestações desencadeadas e o desastre que desmentiu as róseas ilusões dos "reformadores" obrigaram De Lubac a um "exame de consciência", que ele registra na já citada Mémoire autour de mes oeuvres. Entretanto, estamos muito longe de uma conversão. Ele admite, no máximo, que "essa época não é menos [sic] sujeita aos desvios, aos passos em falso, às ilusões, aos assaltos do espírito do mal".
E continua:
"O que eu percebo hoje desses assaltos não me faz maldizer minha época, mas me leva a perguntar: não teria sido melhor considerar mais seriamente, desde o começo, meu caráter de fiel, meu papel de padre e de membro de uma Ordem apostólica, em suma, minha vocação, e principalmente concentrar com maior decisão meu trabalho intelectual precisamente no centro da fé e da vida cristã, em vez de o desperdiçar em domínios mais ou menos periféricos, segundo meus gostos ou segundo a atualidade? [...]
Não estaria eu preparado, dessa maneira, para interferir, com um pouco mais de competência e, sobretudo, de autoridade moral, no grande debate espiritual de nossa geração? Não estaria eu, agora, um pouco menos desprovido para esclarecer a uns e encorajar a outros?"
E ainda:
"Há sete ou oito anos estou paralisado pelo medo de afrontar de cara, de maneira concreta, os problemas essenciais, na sua atualidade viva. Isto foi sabedoria ou fraqueza? Tive eu razão ou não? [...]. Não teria eu aparentemente acabado, contra a minha vontade, no clã
integrista que me causa horror?"43
Entre tantas dúvidas, uma única parece não ter jamais aflorado à consciência de De Lubac, a saber, que este "integrismo", com o "horror" que o paralisava, não era nada menos que a fidelidade à ortodoxia católica, fiel e infalivelmente guardada pela Igreja, e que ele desprezava, para se dispersar em "domínios mais ou menos periféricos",
43 Pp. 389 ss. 77 segundo seus "gostos ou segundo a atualidade", pretendendo em seguida — o que é pior — ser um "mestre" na Igreja, sem jamais ter sido um discípulo:
"Cegos e condutores de cegos, que, inflamados de uma ciência orgulhosa, chegaram a essa loucura de perverter a eterna noção da verdade e, ao mesmo tempo, a verdadeira natureza do sentimento religioso; inventores de um sistema onde, sob o império de um amor cego e desenfreado por novidades, não se preocupam de maneira nenhuma em achar um ponto de apoio sólido para a verdade, mas, desprezando as santas e apostólicas tradições, abraçam outras doutrinas, vãs, fúteis, incertas, condenadas pela Igreja, nas quais homens muito vaidosos pretendem apoiar e assentar a verdade."44










Notas: 1 Motu Proprio de 18 de novembro de 1907.
2 Milão, Jaca Book.
3 Pe. Parente, La Théologie, ed. Studium.
4 P. 5.
5 São Pio X, Motu Próprio, cit.; Pio XII, Humani Generis; Direito Canônico
(1917), Cânon 1366 nº2.
6 Memória, p. 10.
7 Lavaud, La Vie spirituelle, pp. 174 ss, citado por J. B. Aubry, L’Étude de
la Tradition, p. 100.
8 Louvaina, 30-31 de março de 1973.
9 Centre d’Archives Maurice Blondel — Journée d’inauguration, 30-31 de
março de 1973; textos das intervenções, p. 41.
10 "La nouvelle théologie où va-t-elle?", Angelicum 23, 1946.
11 A. M. Tannoia, Vita, L.II, c. LV.
12 Op. cit.
13 Ibid., pp.13 ss.
14 Ibid., p. 14.
15 P. 17.
16 Cf. São Jerônimo: "O mundo acordou ariano e gemeu."
17 Pascendi.
18 Op. cit., p. 26.
19 Roma, ed. Studium.
20 P. 307.
21 Op. cit.
22 Dz. 1799.
23 Santo Tomás, II-II, q. 156, a. 3, ad 2m.
24 Sì Sì No No, ed. francesa, nº 131, pp. 2-7, "O Elogio do Padre Henri de
Lubac, um dos Padres do Vaticano II".
25 Ver Sì Sì No No, ed. francesa, cit.
26 Dz. 2058 e 2080.
27 Blondel a De Lubac, 15 de abril de 1945 e 16 de março de 1946, in A.
Russo, op. cit., pp. 307 e 309.
28 De Lubac in A.Russo, op. cit., p. 373.
29 Ibid.
30 Gregório XVI, Mirari vos.
31 Ibid.
32 Mémoire, cit., p. 7.
33 Ibid. p. 20.
34 Ibid., pp. 7-20.
35 "La Nouvelle Théologie...", op. cit.
36 A. Russo, op. cit.
37 Citado por A. Russo, op. cit., pp. 354 ss.
38 Ibid., p. 356.
39 Acta Apostolicae Sedis, 38, S., 2, 13, 1946, p. 385.
40 Mémoire, cit. p. 240.
41 Mémoire, cit., p. 219.
42 Nota pró-memória a seus superiores, de 6 de março de 1947, in
Mémoire, cit., p. 178.
43 Pp. 389 ss.
44 São Pio X, Pascendi, citação da Encíclica Singulari Nos, de Gregório
XVI..

O que significou a canonização de São Pio X?

O Padre Júlio Meinvielle responde a questão no texto
"El significado de la canonización de Pío X". Vale a pena conferir!

Motu Propio Ecclesia Dei contradiz a Constituição Dogmática Pastor Aeternus?

"...o Espírito Santo não foi prometido aos sucessores de S. Pedro para que estes, sob a revelação do mesmo, pregassem uma nova doutrina, mas para que, com a sua assistência, conservassem santamente e expusessem fielmente o depósito da fé, ou seja, a revelação herdada dos Apóstolos. " Constituição Dogmática Pastor Aeternus - Concílio Vaticano I

b) Quereria, alem disso, chamar a atenção dos teólogos e dos outros peritos nas ciéncias eclesiásticas, para que tambem eles se sintam interpelados pelas circunstáncias presentes. Com efeito, a amplitude e a profundidade dos ensinamentos do Concilio Vaticano II requerem um renovado empenho de aprofundamento, no qual se ponha em relevo a continuidade do Concilio com a Tradição, do modo especial nos pontos de doutrina que, talvez pela sua novidade, ainda não foram bem compreendidos por alguns sectores da Igreja. Motu Propio Ecclesia Dei

domingo, 12 de outubro de 2008

O catolicismo social no século XIX


Parece-me necessário completar nossa constelação de sinais com outro aspecto da luta da Igreja, que também tem sido objeto da mais divulgada das calúnias. Refiro-me à "questão social" e ao papel que o povo de Deus (agora os membros da Igreja) tiveram na tentativa de defender, contra a avidez de toda uma nova civilização, a causa dos pobres, e principalmente na tentativa de subtrair esse pretexto aos socialistas que, movidos por paixão de poder ou por avidez do vazio, quiseram fazer das chagas dos pobres degraus de sua dominação do mundo. Sem esquecer as condenações vindas do Magistério Extraordinário, é com apoio nas obras dos leigos que a Igreja combate o socialismo com seu magistério ordinário. Referime atrás aos movimentos em favor dos pobres no século passado, e agora creio estar ouvindo um clamor de vozes indignadas de nosso bravo século:

— Assistencialismo! Paternalismo! Obras de misericórdia! Caridade!
Respondeo dicendum:

—• Exatameate, minhas senhoras e meus senhores: assístencialismo, paternalismo, obras de misericórdia e de caridade, mesmo porque acho matematicamente impossível, fisicamente impossível, metafisicamente impossível e moralmente impossível melhorar um pouco as asperezas do mundo sem muito assistencialismo, muito
paternalismo, muitas obras de misericórdia e muitíssimas obras de santa caridade. Os socialistas apregoam que só será possível construir um mundo melhor com mudanças radicais de "estruturas" sociais, a começar, todavia, por um arrasamento total. Nós outros, católicos, acreditamos modestamente no "mundo melhor"; mas só
acreditamos nesse digno e preceptivo ideal a partir de um aperfeiçoamento interior do homem, isto é, a partir do melhor aproveitamento dos dons de Deus transformados em virtudes morais e teologais, para uma vida humana mais dignamente vivida com vistas à vida eterna, pela qual e por nós Nosso Senhor Jesus Cristo padeceu.
Não ignoramos que o problema do aperfeiçoamento humano, tanto na ordem de pedagogia como na das reformas sociais, deve sempre contar com a primordial autonomia do educando ou dos pobres. Sabemos que a "atividade imanente do educando" é o principal fator no dinamismo da ascensão humana. Sabemos que o melhor modo de ajudar o pobre é o de nele ativar essa atividade, ou de nele despertar o gosto de se ajudar a si mesmo, sem o qual será dificílimo ajudá-lo. Há um abismo entre essas noções e a filosofia que só vê possibilidade de ascensão humana pelo processo de "conscientização" em que a autonomia é despertada para o ódio e para a luta de classes.
Karl Marx, o messias do Século do Nada, conclamou a união de todos os proletários para a luta de classes no seu manifesto de 1848 que terminava com este grito: "Operários do mundo inteiro, uni-vos!"
Seria mais didático ter dito: "Operários do mundo inteiro, desunivos da humanidade comum". E é ainda Augustin Cochin, no termo da Introdução da obra atrás citada, quem nos dirá uma palavra lúcida sobre a união na revolução:

As três formas de opressão que correspondem aos três estados das "sociétés de pensée" — a socialização do pensamento, a socialização da vida pública e a socialização da vida privada — não são um efeito do temperamento do indivíduo nem um acaso, mas a condição da própria existência das sociedades que armam o princípio da liberdade absoluta na ordem intelectual, moral e sensível.

Toda sociedade de pensamento é opressão intelectual pelo simples fato de denunciar todo dogma como opressão. Porque ela não pode, sem_ cessar de ser, renunciar a toda unidade de opinião. Ora, uma disciplina intelectual sem objeto que lhe responde, sem ideia, é a própria definição de opressão intelectual. Toda sociedade de iguais é privilégio pelo simples fato de renunciar em princípio a qualquer direção pessoal, porque ela não pode existir sem unidade de direção. Ora, uma direção sem responsabilidade, o poder sem autoridade, isto é, a obediência sem o respeito, eis a própria definição da opressão moral.

Toda sociedade de irmãos é luta e ódio pelo fato de denunciar, como egoísta, qualquer independência pessoal: porque ela não pode deixar de ligar seus membros uns aos outros, e não pode deixar de manter uma coesão social. Ora, a união sem o amor é a própria definição de ódio.

E aí está como o liberalismo se transmuda em socialismo, e a mística da liberdade produz, como produziu, a opressão.
O "catolicismo social" só se manterá católico enquanto mantiver, paralelo ao seu atendimento dos pobres, uma vigilante luta contra os que exploram os pobres em nome da justiça, e portanto contra os pregadores da união no ódio.
O Século do Nada, Cap. III A revolução se avoluma; O Catolicismo social no Século XIX, pag 145-146, Gustavo Corção.

domingo, 5 de outubro de 2008

O LIBERALISMO É PECADO

Dom Felix Sardá y Salvany

III. – Se é pecado o Liberalismo, e que pecado é...

O Liberalismo é pecado, já se o consideremos na ordem das doutrinas, já na ordem dos fatos.
Na ordem das doutrinas é pecado grave contra a fé, porque o conjunto de suas doutrinas é heresia, ainda que não o seja, talvez, uma ou outra de suas afirmações ou negações isoladas. Na ordem dos fatos é pecado contra os diversos Mandamentos da lei de Deus e de sua Igreja, porque de todos é infração. Mais claramente, na ordem das doutrinas o Liberalismo é a heresia universal e radical, porque a todas compreende; na ordem dos fatos é a infração radical e universal, porque a todas autoriza e sanciona.

Procedamos por partes na demonstração.

Na ordem das doutrinas o liberalismo é heresia. Heresia é toda doutrina que nega com negação formal e pertinaz um dogma da fé cristã. O liberalismo doutrina primeiro os nega todos em geral e depois cada um em particular. Nega todos em geral quando afirma ou supõe a independência absoluta da razão individual no indivíduo, e da razão social, ou critério público, na sociedade. Dizemos que afirma ou supõe porque, às vezes, nas conseqüências secundárias, não se afirma o princípio liberal, mas se lhe dá por suposto e admitido. Nega a jurisdição absoluta de Cristo Deus sobre os indivíduos e as sociedades, e, em conseqüência, a jurisdição delegada que sobre todos e sobre cada um dos fiéis, de qualquer condição ou dignidade que seja, recebeu de Deus a Cabeça visível da Igreja. Nega a necessidade da revelação divina, e a obrigação que tem o homem de admiti-la, se quiser alcançar seu fim último. Nega o motivo formal da fé, isto é, a autoridade de Deus que revela, admitindo da doutrina revelada apenas aquelas verdades que alcança seu limitado entendimento. Nega o magistério infalível da Igreja e do Papa, e, em conseqüência, todas as doutrinas por eles definidas e ensinadas. E depois desta negação geral e global, nega cada um dos dogmas, parcial ou concretamente, à medida que, segundo as circunstâncias, os julga opostos a seu critério racionalista. Assim, nega a fé do Batismo quando admite ou supõe a igualdade de todos os cultos; nega a santidade do matrimônio quando sanciona a doutrina do chamado matrimônio civil; nega a infalibilidade do Pontífice Romano quando se recusa a admitir como lei seus mandatos e ensinamentos oficiais, sujeitando-os a seu passe ou exequatur — não em seu princípio, para assegurar-se de sua autenticidade, mas para julgar seu conteúdo.

Na ordem dos fatos é a imoralidade radical. Assim o é porque destrói o princípio ou regra eterna de Deus, impondo-se à humana; canoniza o absurdo princípio da moral independente, que é, no fundo, a moral sem lei, ou, o que dá no mesmo, a moral livre — isto é, uma moral que não é moral, pois a idéia de moral, além de sua condição dirigente, encerra essencialmente a idéia de enfrentamento ou limitação. Ademais, o Liberalismo é toda imoralidade, porque em seu processo histórico cometeu e sancionou como lícita a infração de todos os mandamentos, desde o que manda o culto de um único Deus, que é o primeiro do Decálogo, até o que prescreve o tributo dos direitos temporais à Igreja, que é o último dos seus cinco mandamentos.

Por onde cabe dizer que o Liberalismo, na ordem das idéias, é o erro absoluto, e na ordem dos fatos, é a desordem absoluta. E por ambas as coisas o Liberalismo é pecado, ex genere suo, gravíssimo — é pecado mortal.

http://www.permanencia.org.br/revista/politica/liberalismo3.htm

Theos Vacantismo: A tese judaíca

"...Não é por causa de alguma boa obra que te queremos apedrejar, mas por uma blasfêmia, porque, sendo homem, te fazes Deus." Jo 10,33

Cristo escandalizou os judeus por estes considerarem no um homem que se fez DEUS, eles não o apedrejaram, mas o crucificaram. Há cruz foi a prova exigida pela grande maioria judaíca para que viessem a crer em Nosso Senhor, daí dizerem "Tu, que destróis o templo e o reconstróis em três dias, salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz!"(1). Como Cristo não desceu da cruz, concluíram que em Cristo, a divindade estava vacante (Theos Vacantismo).

Em nosso tempo a tese judaíca adentrou na Igreja, a pelo menos dois séculos através do liberalismo. O modernismo nega a divindade de Cristo afirmando com o Sinédrio Judaíco que ele é o homem que se fez DEUS. O que os judeus fizeram grosseiramente, os modernistas fazem refinidamente desenvolvendo intelectualmente a tese judaíca. A diferença entre ambos reside naquilo que era a liberdade naquele tempo e naquilo que hoje é a liberdade. Naquele tempo a liberdade tinha uma definição racional, hoje ela é definida pelo sentimento. Assim, mesmo que as escrituras chamem deuses apenas a quem a palavra foi dirigida(2), o modernismo estende a todos o direito negado pelo Sinédrio judaíco a Cristo. Deste modo, a finalidade principal do modernismo é fazer com que o Cristo deixe de ser escândalo para os judeus e loucura para os gregos, através da "revelação" da filosofia e ciência moderna que afirmam a divindade humana. Consequentemente afirma-se a igualdade das religiões, culturas e filosofias, porque para eles, o logus é a matéria e não o verbo.

O modernismo é a teologia do homem da iniqüidade, "o adversário, aquele que se levanta contra tudo o que é divino e sagrado, a ponto de tomar lugar no templo de Deus, e apresentar-se como se fosse Deus" (3). O resultado desta teologia, nada mais é do que a pura e simples apostasia. Manifesta pela tolerância ao erro que nada mais é do a dúvida assumindo o lugar da certeza(4).

Um outro matiz da tese judaíca, é o sede-vacantismo, que é o efeito do modernismo na Igreja. Sobre o que acima disse a respeito da provação que os judeus submeteram Nosso Senhor, deve-se acrescentar que a sua causa foi "a hora e o poder das trevas"(5). Diante de tantos acontecimentos, não é absurdo e nem contrário a fé crer que estamos diante dos eventos narrados no Apocalipse. Desta maneira, se o perseguiram (6), também perseguiram a Igreja e se submeteram no a prova da cruz, também a Igreja seria submetida a esta prova.

Diante da prova da crucificação a que se expõe a Igreja, quem é provado sobremaneira, é o Papa. Assim, da mesma maneira que Cristo não desceu da cruz para se salvar e provar aos judeus a sua divindade, o Papa não desce de sua cruz para provar empíricamente aos sede-vacantistas a sucessão petrina. E afirmando que a Sé esta vacante, eles consideram que Cristo abandonou a Igreja na mão de seus piores inimigos. Negando indiretamente a divindade de Nosso Senhor e o carácter divino da Igreja, reduzem na ao humano, como fazem os modernistas.Então o que temos é que aquilo que os modernistas negam informalmente pela sua postura frente ao magistério, os sede-vacantistas, o negam formalmente. Não considerando e nem podendo considerar a gravidade da situação em que se encontra a Igreja; a hora e o poder das trevas, confundiram até mesmo os apóstolos, então seriam os modernistas ou os sede-vacantistas a enxergarem a luz neste momento dificílimo?

O Papa é o doce Cristo na terra e diante de tudo que tenho visto, cheguei a conclusão de que para onde ele vai, nós não podemos ir(7). Assim, negar formalmente ou informalmente que a Sé esta ocupada pelo sucessor de São Pedro, é aderir a tese judaíca. Portanto, até que um legítimo sucessor de São Pedro, não se pronúncie contra algum de seus predecessores, ela esteve, esta e estará ocupada por seus legítimos sucessores. Não se deve cair na sedução de sede-vacantistas e modernistas, ambos são os dois lados de uma mesma moeda, pelo menos neste caso.

(1) Mt 27,40
(2) Jo 10,34-35
(3)II Ts 2,4
(4)Tg, 1,6
(5) Lc 22,53
(6) Jo 15,20
(7) Jo 13,33

sábado, 4 de outubro de 2008

O modernismo na Litúrgia

São Paulo, ensinou em seu tempo que "Em um só Espírito fomos batizados todos nós, para formar um só corpo, judeus ou gregos, escravos ou livres; e todos fomos impregnados do mesmo Espírito" (1). A Igreja primitiva cresceu tendo este preceito como um santo mandamento. E já na Idade Média aparece na história com a forma de um único corpo; Santo, Católico, Apostólico e Romano. Veremos neste artigo parte da problemática surgida no Século passado, que tem sua causa no abandono deste simples e fundamental preceito da Igreja.

No inicío Século passado entusiasmados pelos progressos técnicos, um grupo de estudiosos fundou um movimento para reinterpretar o cristianismo, a partir dos progressos de então. Não é nosso objetivo apresentar este movimento, que ficou conhecido como modernismo em sua totalidade. Queremos destacar um de seus princíos que triunfou no Concílio Ecumênico Vaticano II; o da distinção entre substância e forma. Condenado naquele mesmo tempo por São Pio X, na Carta Encíclica Pascendi Dominici Gregis (2).

A distinção entre forma e substância, é tirada da teoria da evolução. Os modernistas entenderam a substância como a matéria e a forma como o seu revestimento. Deste modo, eles entendem que os homens darwinistas tem a mesma substância, mudaram apenas em sua forma. Isto explica porque defenderam que a experiência sentimental é capaz de vencer qualquer experiência racional. São Pio X na Pascendi, condenou este princío:

"Há ainda outra face, além da que já vimos, nesta doutrina da experiência, de todo contrária à verdade católica. Pois, ela se estende e se aplica à tradição que a Igreja tem sustentado até hoje, e a destrói. E com efeito, os modernistas concebem a tradição como uma comunicação da experiência original, feita a outrem pela pregação, mediante a fórmula intelectual."(3)

Diante da condenação, o modernismo foi abafado, mas permaneceu secretamente atuante. Ressurgiu das cinzas no período do pontificado de Pio XII, como diz Dom Aloísio Lorscheider, (um dos Bispos desta nova teologia em sua versão marxista, a Teologia da libertação); "... a Théologie Nouvelle (4) afirmara que a verdade revelada, sendo católica, deveria poder encarnar-se nas categorias de pensamento de qualquer Filosofia e qualquer cultura. (5) No mesmo texto, diz o Bispo, que Pio XII, condenou a Théologie Nouvelle através da Humani Generis, afirmando:

"Que não se pode, sem mais, aceitar tal princípio, pois há sistemas que não servem para encarnar a verdade revelada como o imanentismo, o idealismo, o materialismo, seja histórico, seja dialético, o próprio existencialismo, enquanto professa o ateísmo ou enquanto nega o valor do raciocínio no campo da metafísica.

Para que uma verdade revelada se possa encarnar em determinada Filosofia, requer-se que essa Filosofia aceite o genuíno valor do conhecimento humano, os princípios indestrutíveis da razão suficiente, da causalidade, da finalidade e aceite também a capacidade da inteligência de atingir a verdade certa e imutável."
(6)

Passados oito anos da publicação da Humani Generis, morre Pio XII e lhe sucede João XXIII. Ao terceiro ano de seu pontificado, convoca um Concílio Ecumênico, onde já no discurso de abertura, faz da distinção entre substância e forma, o preceito mestre do Concílio:

" Uma coisa é a substância do « depositum fidei », isto é, as verdades contidas na nossa doutrina, e outra é a formulação com que são enunciadas, conservando-lhes, contudo, o mesmo sentido e o mesmo alcance. Será preciso atribuir muita importância a esta forma e, se necessário, insistir com paciência, na sua elaboração; e dever-se-á usar a maneira de apresentar as coisas que mais corresponda ao magistério, cujo caráter é prevalentemente pastoral. "(7)

O Concílio durará apenas 3 anos (1962-1965), sua aplicação colocará a Igreja em uma crise jamais vista em toda sua história. Hoje passados quase 43 anos de seu término, podemos avaliar este Concílio como algo no mínimo estranho a tradição da Igreja. Porque triunfaram todos os princípios modernistas até então condenados pela Igreja. O que é fácilmente demonstrado pela litúrgia, onde afirmou e reafirmou-se o direito da Théologie Nouvelle:

"Mantendo-se substancialmente a unidade do rito romano, dê-se possibilidade às legítimas diversidades e adaptações aos vários grupos étnicos, regiões e povos, sobretudo nas Missões, de se afirmarem, até na revisão dos livros litúrgicos; tenha-se isto oportunamente diante dos olhos ao estruturar os ritos e ao preparar as rubricas. " (8)

No inicío do artigo referimo nos ao preceito batismal (fundamental) pelo qual fomos batizados, o de formar um só corpo. Caros leitores, pergunto a vocês:

Aplicado a distinção modernista na Igreja, qual seria sua substância e qual seria sua forma?

Como judeus ou gregos, escravos ou livres, formarão um só corpo, se lhes é dado o direito de formar sua própia litúrgia?

Podemos dizer sem sombra de dúvidas que passados quase dois mil anos, foi necessário um Concílio Ecumênico para detectar um grave problema no cristianismo; ele não tem uma forma universal e própia, sua forma é empréstimo de todas as culturas humanas. O cristianismo em si mesmo, não dispõem de uma cultura, uma filosofia e uma teologia própia, ele evoluí e juntamente com ele tudo que o compõe.

A litúrgia caríssimos, encarnou-se em todas as culturas e filosofias humanas. Provando nos o resultado prático da adoção do método moderno que foi condenado pelo Magistério pré-conciliar, por ser a geratriz do preceito modernista exposto.

Ora, ao aplicar-se a misericórdia ao erro, pressupõe-se a tentativa de encarnação da doutrina católica no erro e dá se a este a liberdade para encarnar-se na doutrina católica. Tal aplicação e liberdade, só é possível pelo método moderno, que pressupõe condenações após a experiência. Assim, reduz-se o catolicismo ao natural e humano, pois as condenações são avisos de DEUS para os fiéis não fazerem a experiência do erro. Condenando-se após a experiência, DEUS não fala, mas é o homem quem fala, através da juízos meramente humanos. Digamos, que dariam ouvidos a um São João Bosco, apenas após o cumprimento de cada profecia que fizesse, pois necessitam apenas da prova de que a profecia é profecia, não de seu conteúdo.


(1) São Paulo; Primeira Carta aos Coríntios; Cap. 12, Vers. 13
(2) São Pio X; Pascendi Dominici Gregis; O modernista crente
(3) Ibidem
(4)
(5)Uma Criteriosa teológica; Cardeal Dom Aloisio Lorscheider
(6) Ibid.
(7) João XXIII; Discurso de abertura do Concílio Vaticano II, VI. Como deve ser promovida a doutrina, 5.
(8) Sacrosanctum Concilium 38

Traidores de Cristo

Atualmente podemos contemplar até mesmo autoridades que dizem ser possível encontrar salvação em outras religiões, filosofias e ciências. Judas Iscariotes, também pensava encontrar salvação fora de Cristo, porque a sua salvação dependia da libertação do julgo romano, ou seja, dependia da salvação material de Israel. Morreu ele, juntamente com sua esperança, pois no lugar para onde foi a esperança não entra.
Infelizmente a postura de Judas, é a mesma adotada pela Teologia da Libertação, com o consentimento episcopal; o modelo de messias de Judas Iscariotes, é o triunfalista que deveria libertar Israel do julgo Romano. O modelo da Igreja brasileira vai nessa linha, é um modelo socialista/marxista que visa a libertação do julgo capitalista. Evidentemente que tal modelo de Igreja é ecumênico, pois sobretudo, o ponto comum de todas as religiões é o "bem social." No entanto, não a traição maior a fé do que professar a salvação fora da Igreja, pois a porta que conduz a salvação é ESTREITA.
São Cipriano de Cartago, expressou muito bem esta estreiteza no dogma 'Extra Ecclesia Nulla Sallus.' O mesmo ainda diz que 'não pode ter DEUS por Pai quem não tem a Igreja por mãe' e Santo Agostinho referindo-se a Igreja, diz basicamente o mesmo, quando disse 'Cristo prega Cristo', ele também dizia que ela era a porta. Portanto a Igreja é a porta estreita, ela é necessária, não útil a salvação como dizem os protestantes e muitos católicos hoje em dia.
Se a Igreja fosse apenas útil a salvação, sua existência seria contingente, ela não necessitaria da promessa de não prevalecência dos portôes do inferno contra a mesma.
No caso do protestantismo, os portões do inferno triunfam em cada protestante que funda uma nova Igreja. Se todos os protestantes resolverem fundar Igrejas como seus pastores e mestres fundaram, já não haverá mais Igreja, mas sim o triunfo dos portões do inferno, por este motivo para os reformistas a Igreja é útil e sua existência contingente.
Em ano Paulino, é bom lembrar que a cruz era loucura para os gregos e escândalo para os judeus. Tais palavras podem se aplicar muito bem hoje a Bispos, Padres e Leigos Católicos, que tem a cruz como escândalo e loucura. Específicamente os modernistas, que são os membros autênticos da Sinagoga de Satanás.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O LIBERALISMO É PECADO II

Dom Felix Sardá y Salvany

II. – Que é o Liberalismo?

Ao estudar um objeto qualquer, depois da pergunta: an sit? Faziam os antigos escolásticos a seguinte: quid sit? E esta é a que vai ocupar-nos no presente capítulo.
Que é o Liberalismo? Na ordem das idéias é um conjunto de idéias falsas; na ordem dos fatos é um conjunto de fatos criminosos, conseqüência prática daquelas idéias.

Na ordem das idéias o Liberalismo é o conjunto do que se chamam princípios liberais, com as conseqüências lógicas que deles se derivam. Princípios liberais são: a absoluta soberania do indivíduo com inteira independência de Deus e de sua autoridade; soberania da sociedade com absoluta independência do que não nasça dela mesma; soberania nacional, isto é, o direito do povo para legislar e governar com absoluta independência de todo critério que não seja o de sua própria vontade, expressa primeiro pelo sufrágio e depois pela maioria parlamentar; liberdade de pensamento sem limitação alguma em política, em moral ou em Religião; liberdade de imprensa, assim absoluta ou insuficientemente limitada; liberdade de associação com iguais amplitudes. Estes são os chamados princípios liberais em seu radicalismo mais cru.

O fundo comum deles é o racionalismo individual, o racionalismo político e o racionalismo social. Derivam-se deles a liberdade de cultos mais ou menos restringida; a supremacia do Estado em suas relações com a Igreja; o ensino leigo ou independente sem nenhum laço com a Religião; o matrimônio legalizado e sancionado pela única intervenção do Estado: sua última palavra, que todo o abarca e sintetiza, é a palavra secularização, isto é, a não intervenção da Religião em ato algum da vida pública, verdadeiro ateísmo social, que é a última conseqüência do Liberalismo.

Na ordem dos fatos o Liberalismo é um conjunto de obras inspiradas por aqueles princípios e reguladas por eles. Como, por exemplo, as leis de desamortização; a expulsão das ordens religiosas; os atentados de todo gênero, oficiais e extra-oficiais, contra a liberdade da Igreja; a corrupção e o erro publicamente autorizado na tribuna, na imprensa, na diversões, nos costumes; a guerra sistemática ao Catolicismo, ao que se apoda clericalismo, teocracia, ultramontanismo, etc., etc.

É impossível enumerar e classificar os fatos que constituem o procedimento prático liberal, pois compreendem desde o ministro e o diplomata que legislam ou intrigam, até o demagogo que perora no clube ou assassina na rua; desde o tratado internacional ou a guerra iníqua que usurpa do Papa seu principado temporal, até a mão cobiçosa que rouba o dote da monja ou se apropria da lâmpada do altar; desde o livro profundo e pedante que se dá de texto na universidade ou instituto, até a vil caricatura de que se riem os libertinos nas tavernas. O Liberalismo prático é um mundo completo de máximas, modas, artes, literatura, diplomacia, leis, maquinações e atropelos inteiramente seus. É o mundo de Luzbel, disfarçado hoje em dia com aquele nome, e em radical oposição e luta com a sociedade dos filhos de Deus, que é a Igreja de Jesus Cristo.

Eis aqui, pois, retratado, como doutrina e como prática, o Liberalismo.

sábado, 16 de agosto de 2008

Liberalismo e comunismo – rebentos da mesma raiz (I)

Carlos Nougué

O liberalismo e o comunismo brotam de um mesmo non serviam, de uma mesma revolta contra Deus, e ambos carecem de uma correta compreensão do que é o homem, seus produtos e seus fins. Mostremo-lo ao longo da série de breves artigos que começa aqui.
I) O homem
O homem, em meio embora à grande complexidade de tendências a que está submetido, mantém una inequívoca e rigorosa unidade hierárquica.Antes de tudo, tem ele um corpo, e dão-se nesse corpo operações físico-químicas que ele tem em comum com todos os outros entes visíveis, animados como inanimados. Mas também há no homem:
1) operações, como as de assimilação e crescimento, de caráter vegetativo, as quais ele tem em comum com as plantas;
2) operações, como o ver, o ouvir etc., de caráter sensitivo ou sensível, as quais, de certa forma, ele tem em comum com os animais;
3) e, por fim, as operações que lhe são próprias e distintivas no mundo visível, o inteligir e o querer, as quais, porém, mutatis mutandis, ele tem em comum com as substâncias espirituais a que chamamos anjos (e com Deus mesmo).
É o homem, portanto, um microcosmo, um epítome da criação, e por isso, pelo fato de que in homine quodam modo sunt omina (“no homem, de certo modo, se encontram todas as coisas”), dizia Santo Tomás de Aquino que merece ele nossa especial atenção (Suma Teológica, I, q. 96, a. 2, corpus)
E, apesar da complexidade de suas tendências e operações naturais, é o homem uma perfeita unidade (ao contrário do que sempre disseram, por um lado, as correntes de pensamento ultra-espiritualistas, como o platonismo, os diversos neoplatonismos e o cartesianismo, e, por outro lado, as correntes materialistas, como o marxismo e o darwinismo).
1) Ele é uno com unidade de natureza, ainda que sua natureza seja composta de dois princípios aparentemente tão incompatíveis, o corpo e a alma.
2) Ele também é uno com unidade de “pessoa”, porque todos os seus atos se atribuem a um mesmo “eu”, que se mantém idêntico a si mesmo ao longo das múltiplas mudanças e alterações da vida.
3) E ele é uno com unidade de orientação e de fim, porque tudo o que faz se destina a uma única e suma meta, a verdade e o bem plenos (e não aceitar isso é incorrer, ipso facto, de alguma maneira, no desespero niilista, que é propriamente o suicídio da vida espiritual).
Mas essa tão complexa unidade da criatura espiritual que é o homem (espiritual porque sua natureza dupla tem por princípio constitutivo e formal [ou atual] a alma espiritual) se torna ainda mais complexa porque o homem, conquanto se destine à verdade e ao bem plenos, vem ao mundo — como dizia o Padre Julio Meinvielle em De Lamennais a Maritain — em estado de “maior indigência. Ele é feito, sim, para toda a Verdade e Bem e a eles tende com toda a força de seu ser, mas vem ao mundo em total privação de toda Verdade e de todo Bem. Numa árdua e progressiva conquista, deve primeiro adquirir perfeições puramente materiais, para por meio delas alcançar as de sua vida afetiva e sensitiva, e depois, através destas, também as da vida intelectiva, e por fim culminar [...] na plena contemplação da Verdade”.
II) O homem e a pólis
Ora, é precisamente por tal indigência, por nascer como uma tabula rasa, que o homem é um “animal político”: ele depende não só da família, mas, a princípio, da pólis, da cidade, da sociedade, da civilização (chame-se como se queira), para viver e para atingir seus fins. Portanto, justamente pelo fato de ser composta de entes que, por um lado, nascem tão indigentes, tão absolutamente carentes de toda e qualquer perfeição, mas, por outro, anseiam a plena felicidade que é a posse da verdade e do bem supremos, é que a pólis ou civilização deve não só reunir em si toda a complexa variedade de bens naturais apetecidos pelo homem, ordenados naquela mesma unidade hierárquica segundo a qual ele os apetece, mas também propiciar condições para a consecução de seus bens e fins “transpolíticos”, como propriamente os chama Jorge Martínez Barrera em A Política em Aristóteles e Santo Tomás.
Daí a importância de assinalar não só quais são esses bens e condições, mas também a medida ou proporção em que devem e podem ser fornecidos pela pólis.
Em tempo: Para fazermos alguma ligação entre o tema da série de artigos que começa aqui e o da série de artigos sobre a arte que venho postando no blog, saiba-se que com a revolução francesa, a parteira de todas as formas de liberalismo, se desata uma arte em que o mundo do infernal se torna como que imanente ao próprio homem. Ele próprio passa a ser demoníaco, e não só na aparência; ele e todo o seu mundo estão entregues às forças diabólicas. Exemplos? Eis dois, concomitantes à mesma revolução: a obra do pintor, escultor e gravurista inglês John Flaxman (amigo do poeta e, também, ilustrador William Blake, que escreveu o terrível "Matrimônio do Céu e do Inferno" e era seguidor do não menos daninho Emmanuel Swedenborg) e a fase “escura” da pintura do espanhol Goya, em que o satanismo é explícito. Retenha-se, porém, que o que antes fora esporádico (com, por exemplo, Hieronymus Bosch ou o Paraíso Perdido de Milton), a partir de agora será uma das tônicas. Voltaremos ao assunto.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Considerações acerca das "Considérations sur la France" de Joseph de Maistre




Paulo Miranda



Se porventura indagarmos quem foi Joseph de Maistre a certos católicos conservadores, ouviremos extenso laudatório. De Maistre teria sido, talvez, um dos maiores católicos ultramontanos, ardoroso inimigo da Revolução Francesa, vibrante defensor da Igreja e do Papado.

Eis o rótulo.

Se, não nos contentando com isso, desejarmos passar ao conteúdo, certamente ficaremos perplexos. A leitura das obras do conde saboiano surpreende pela flagrante incongruência entre seu renome de contra-revolucionário e a diametral oposição de muitas de suas teses aos interesses e à doutrina da Igreja.

Mas não é só. Perplexidade talvez ainda mais aguda nos causará a verificação da ingenuidade daqueles que, encantados pelo brilho do invólucro, aceitam cegamente o que ele reveste. Ainda que desse modo se lhes esteja inoculando o pior dos venenos.

Tal é o pensamento que vem à mente de quem estuda as obras de De Maistre, particularmente Considérations sur la France (1795), sobre a qual Veritas oferece hoje a seus leitores um comentário.

Para tanto, valemo-nos da edição da Librairie Catholique Emmanuel Vite, Lyon, 1924.



A honra ou a vida?

Uma pequena introdução de caráter histórico se impõe.

Em 1795, quando foram publicadas pela primeira vez as Considérations sur la France, o movimento católico chouan, que se rebelara contra a Revolução Francesa, sofria terrível derrota na batalha de Quiberon.

Apesar disso, não estava ainda definitivamente vencido. Dois anos mais tarde, Sotin, o terrível ministro da polícia revolucionária, escreveria: "Mantenhai-vos firmes, sobretudo, para que a chouanerie não reerga a cabeça. Se ela reaparecesse hoje, ela mataria a República" (G. de Cadoudal, Georges de Cadoudal et la Chouannerie, Éditions Saint Michel, 1971, pág. 181).

O que faltou para que o pujante movimento contra-revolucionário camponês obtivesse vitória? Não há dúvida de que a história poderia ter tomado rumo diverso se ele tivesse recebido apoio decidido da nobreza francesa, e se não tivesse sido traído por certos elementos do Clero.

No ano de 1797, Georges de Cadoudal, o último dos grandes líderes chouans, viajou à Inglaterra na tentativa de convencer o Conde d’Artois, irmão de Luís XVI, a retornar à França e comandar pessoalmente, com grandes chances de sucesso, uma ofensiva contra-revolucionária.

A gestão de Cadoudal redundaria em total fracasso. Era mais cômodo, para a nobreza, continuar a gozar dos confortos oferecidos pelo exílio e deixar a França à própria sorte.

Indagado por um nobre se ele poderia garantir a vida do Conde d’Artois caso este aceitasse sua proposta, o general chouan foi sincero: "A vida não, mas a honra".

De fato, tal era a opção que se apresentava aos nobres. Cabia arriscar suas vidas lutando pelo restabelecimento da monarquia, ou nada fazer, sacrificando sua honra.

Poucos seguiram o primeiro caminho. Alguns, pelo contrário, chegaram a aderir aos princípios da Revolução que lhes confiscara os bens e forçara o exílio ou condenara à morte: "Eu te asseguro que já sou quase democrata, e estou farta até as orelhas de reis e de imperadores", não temia escrever a princesa Louise de Condé a seu pai (Ghislain de Diesbach, Histoire de l’Émigration, B. Grasset, Paris, 1975, pág. 25).

A maioria dos nobres permaneceu inativa. "Coisa estranha", observa Louis Madelin, "os que se mostravam menos perturbados eram aqueles que, aparentemente, a Revolução atingia com mais crueldade: os nobres. Havia nessas amáveis pessoas um fundo de despreocupação (...). O que mais surpreende, é o fatalismo sereno com o qual as próprias vítimas aceitavam ser aprisionadas" (Louis Madelin, La Révolution, Hachette, Paris, 1933, págs. 114/115).

Contudo, a consciência provavelmente pesava a muitos. Afinal, saber que pobres camponeses davam suas vidas pela causa da Igreja e do Trono, e, diante disso, cruzar os braços, não era atitude que se pudesse suportar por muito tempo. A Revolução corria o risco, portanto, de que tais nobres, despertos de seu torpor, se dispusessem a lutar.

Portanto, a República tinha dois inimigos a combater: os chouans e a consciência dos nobres.

Quanto aos primeiros, era preciso "metralhar sem escrúpulo, prender à primeira suspeita concebida e fazê-los desaparecer", como recomendava Sotin a seus comandados.

Em relação aos nobres emigrados, o método podia ser mais suave. Bastava encontrar uma fórmula que lhes apaziguasse as consciências, mantendo-os na doce inatividade. Encontrar uma saída pretensamente católica que os fizesse crer na legitimidade de seu ócio. Que lhes permitisse, enfim, conciliar vida e honra.

Dos chouans daria conta o exército revolucionário. A segunda tarefa, mais sutil e talvez ainda mais nefasta, seria em grande parte cumprida por um insuspeito contra-revolucionário: o conde Joseph de Maistre.



A "Divindade" conduz a revolução satânica

"Há na revolução francesa um caráter satânico que a distingue de tudo o que já foi visto e talvez de tudo o que se verá" (Cons., pág. 55).

A frase tornou-se célebre, e bastou para consagrar as Considérations sur la France como obra contra-revolucionária.

Se a revolução francesa era satânica, qual a atitude normal do católico diante dela? O combate, naturalmente.

Engano. A lógica de De Maistre não condiz com a lógica comum. Segundo ele, combater a revolução era contrariar os planos da Providência, conforme veremos adiante.

Para o conde, havia na revolução "uma força avassaladora que faz curvarem todos os obstáculos"; ela "conduz os homens, mais do que os homens a conduzem" (Cons., pág. 4).

Eis como ele desenvolve sua tese: "Os próprios celerados que pareciam conduzir a revolução dela tomaram parte apenas como simples instrumentos". Robespierre, Collot ou Barrère "não pensaram em estabelecer o governo revolucionário e o regime do terror; eles foram conduzidos a isso insensivelmente pelas circunstâncias, e jamais se tornará a ver algo semelhante" (Cons., pág. 5). Tudo deu certo para eles, "porque eles eram apenas os instrumentos de uma força que conhecia mais do que eles" (Cons., pág. 6).

Mas o que seria essa "força avassaladora", da qual os líderes da revolução eram simples instrumentos? Certamente - pensará o leitor - a força satânica a que se refere De Maistre.

Novo engano. "Diz-se muito bem, quando se afirma que ela (a revolução) caminha sozinha: essa frase significa que jamais a Divindade se mostrou de uma maneira tão clara em nenhum acontecimento humano. Se ela emprega os instrumentos mais vis, é porque ela pune para regenerar" (Cons., pág. 7 - grifo nosso).

Portanto é essa "Divindade" que conduz essa revolução de caráter satânico, empregando instrumentos vis - os próceres revolucionários.

Esse é apenas o primeiro de uma série de paradoxos que infestam a obra.



O jacobinismo, "único meio de salvar a França"

Se a revolução era o meio de atuação da "Divindade", combatê-la seria contrariar o próprio Deus. Tal é a conclusão que se impõe, e De Maistre não hesita em confirmá-la: foi a Providência quem impediu o triunfo das forças contra-revolucionárias, cuja vitória teria conseqüências funestas.

Com ele a palavra:

"Se apenas a força tivesse operado aquilo que se chama a contra-revolução e recolocado o rei sobre o trono, não teria havido meio de fazer justiça" (Cons., pág. 13).

Para argumentar, o autor arquiteta uma hipótese:

"Transportemo-nos à época mais terrível da revolução; suponhamos que, sob o governo do comitê infernal, o exército, por uma súbita metamorfose, se tornasse de repente realista; suponhamos que ele convocasse suas assembléias primárias e que nomeasse livremente os homens mais esclarecidos e estimáveis para lhe traçar a rota a ser seguida nessa situação difícil; suponhamos, enfim, que um desses eleitos do exército se erguesse e dissesse: ‘Bravos e fiéis guerreiros, há circunstâncias em que toda a sabedoria humana se reduz a escolher entre diferentes males. É duro, sem dúvida, combater em favor do comitê de salvação pública, mas haveria algo ainda mais fatal: seria voltar nossas armas contra ele. No instante em que o exército se imiscuir na política, o Estado será dissolvido, e os inimigos da França, aproveitando esse momento de dissolução, a penetrarão e dividirão. Não é para o momento atual que nós devemos agir, mas para a continuação dos tempos: trata-se sobretudo de manter a integridade da França, e nós somente podemos fazê-lo combatendo em favor do governo, qualquer que seja ele" (Cons., págs. 16 e 17).

Como - perguntamos - deveria ser recebida tal proposta pelos católicos contra-revolucionários? Poderiam tais sofismas encontrar guarida? Afinal, já não estava dividida a França pela revolução, se não em seu território, em seu povo e em sua Fé? Poderiam os católicos, a pretexto de manter aquela artificial integridade territorial, juntar suas forças às do governo assassino, que derrubara Igreja e trono, inundando de sangue o solo francês?

Não. Sem dúvida, o autor de tal discurso seria repelido pelos católicos não acovardados como vil traidor.

Não é o que pensava De Maistre: "Esse homem", diz ele, "teria falado como grande filósofo" (Cons., pág. 17). E ele continua: "Se pensarmos bem, veremos que, uma vez estabelecido o movimento revolucionário, a França e a monarquia somente poderiam ser salvas pelo jacobinismo" (Cons., pág. 17). O poder revolucionário, em sua visão, "era ao mesmo tempo um castigo terrível para os franceses e o único meio de salvar a França" (Cons.,pág. 18).

A História, como já era previsível, negou-lhe razão. Tragicamente.

De Maistre, a pretexto de patriotismo, não poupa os contra-revolucionários:

"O que pediam os realistas, quando pediam uma contra-revolução tal como eles a imaginavam, quer dizer, feita bruscamente e pela força? Eles pediam a conquista da França, e portanto sua divisão, o aniquilamento de sua influência e o aviltamento de seu rei, ou seja, massacres talvez de três séculos, como conseqüência infalível de uma tal ruptura de equilíbrio" (Cons., pág. 18).

Linhas escritas por um falso contra-revolucionário, não apenas contra nobres, mas também contra camponeses católicos que, nada possuindo além de sua Fé, tomaram rudes armas para, desordenadamente, defender a Igreja e o Trono. Linhas que, a pretexto de falso patriotismo, apaziguavam consciências de omissos. Linhas assassinas, responsáveis pelo massacre de milhares de católicos franceses.



Bons frutos da má árvore

O otimismo de De Maistre não conhece limites. Profeticamente, o conde vislumbra resultados maravilhosos da revolução satânica. Para demonstrá-las, ele não hesita lançar mão de paradoxos, por mais irrazoáveis que sejam.

Aliás, ele não deixa de advertir quanto a isso: "Povo francês, não escute os raciocinadores; raciocina-se demais na França, e o raciocínio está banindo dela a razão. Entrega-te sem temor e sem reservas ao instinto infalível de tua consciência" (Cons., pág. 111).

Vê-se bem que De Maistre seguia à risca seu próprio conselho, entregando-se a esse estranho "instinto infalível".

Entre os excelentes resultados da revolução, o ultramontano conde vislumbra o ecumenismo:

"Era necessário, provavelmente, que os padres franceses fossem mostrados às nações estrangeiras; eles viveram entre nações protestantes, e essa aproximação diminuiu muito os ódios e preconceitos. A emigração considerável do clero, e particularmente dos bispos franceses, para a Inglaterra, me parece sobretudo uma época notável. Seguramente, ter-se-ão pronunciado palavras de paz! Seguramente, ter-se-ão formado projetos de aproximação durante essa reunião extraordinária! Ainda que não se tenha senão desejado em conjunto, isso já seria muito" (Cons., págs. 22/23).

Comovente, sem dúvida. Com essa demagogia, nosso tradicionalista poderia ser, hoje, presidente do Conselho Mundial das Igrejas.

Mas o ecumenismo é apenas uma das conseqüências benéficas da revolução descobertas por De Maistre:

"Todos os monstros que a revolução concebeu trabalharam apenas, segundo as aparências, em favor da realeza. Através deles, o brilho das vitórias forçou a admiração do universo, e envolveu o nome francês de uma glória da qual os crimes da revolução não puderam despojar inteiramente; por eles, o rei voltará ao trono com todo seu brilho e todo o seu poder, talvez mesmo com um acréscimo de poder" (Cons.,pág. 19).

"Qui habitat in coelis irridebit eos". A história demonstra o ridículo dessas palavras.

Entusiasmado, De Maistre prodigaliza sua estranha lógica:

"Se desejarmos conhecer o resultado provável da revolução francesa, basta examinar em que todas (as facções revolucionárias) desejaram o aviltamento, a própria destruição do cristianismo universal e da monarquia; de onde se deduz que todos os seus esforços redundarão apenas na exaltação do cristianismo e da monarquia" (Cons., pág. 117, o estranho destaque é do original).

Eis a árvore má a produzir bons frutos!



Que fazer? Nada fazer.

Ante tão belas perspectivas, que atitude tomar?

De Maistre responde: "Essa mesma idéia, que tudo se faz em vantagem da monarquia francesa, me convence de que qualquer revolução realista é impossível antes da paz; pois o restabelecimento da realeza deteria subitamente todos os recursos do Estado" ( p. 19). "Entretanto, parece sempre mais vantajoso para a França e para a monarquia que a paz, e uma paz gloriosa para os franceses, se faça pela república" (p.20).

Assim, De Maistre aconselha a nobreza a esperar a "paz gloriosa pela república". Enquanto isso, devia ela, segundo suas palavras, "curvar a cabeça e resignar-se. Um dia ela deverá abraçar de bom grado filhos que ela não carregou em seu seio; esperando, ela não deve mais fazer esforços exteriores; talvez mesmo fosse desejável que jamais a tivessem visto em uma atitude ameaçadora" (p. 151).

Nada mais cômodo.

***

Assim pensava Joseph de Maistre. Surpreende que, passados dois séculos, continue ele a gozar do renome de grande católico contra-revolucionário.

À sua revelia, é preciso reconhecer, pois ele se afirma "estranho a todos os sistemas, a todos os partidos, a todos os ódios, por caráter, por reflexão, por posição" (p. 183).

Essa derradeira mentira talvez seja a maior contida na obra. Pois por detrás da falsa neutralidade de De Maistre, ou de seu falso prestígio de católico contra-revolucionário, existia, sim, um sistema e um partido. E existia, sim, muito ódio.

O mesmo sistema, o mesmo partido e o mesmo ódio que levaram, mais tarde, o mundo a assistir impassível à gradual descristianização dos povos. Que não permitiu houvesse uma forte reação contra-revolucionária entre os católicos, a pretexto de não dividi-los. Que tem auxiliado a caminhada revolucionária até nossos dias, acalentando a inanição e a pusilanimidade de muitos daqueles que deveriam ser seus maiores opositores.



______________________________________________________________
Para citar este texto:
Paulo Miranda - "Considerações acerca das "Considérations sur la France" de Joseph de Maistre"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=consideracoes&lang=bra
Online, 22/07/2008 às 20:02h

domingo, 20 de julho de 2008

A porta estreita

A porta estreita"Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram.Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho da vida e raros são os que o encontram." Mt 7,13-14

A porta é estreita,
proclama o salvador!

A porta é estreita,
proclama o Rei dos Reis!

A porta é estreita,
proclama o Senhor dos Senhores!

A porta é estreita,
proclamam os anjos, arcanjos, serafins e querubins!

A porta é estreita
,proclama a multidão de Mártires e Santos!

A porta é estreita,
proclama a Igreja!

A porta é estreita,
proclamam 20 Concílios Ecumênicos!

A porta é estreita,
proclamam as Santas Escrituras!

A porta é estreita,
proclama a Santa Tradição!

A porta é estreta,
proclama o Magistério!

EXTRA ECLESIA NULLA SALLUS!

A porta deve ser alargada,
proclama o Concílio Ecumênico Vaticano II !

A Igreja abre-se ao mundo,
a fumaça de satanás penetra o templo de DEUS!

Inicia-se,a auto-demolição!
Dias nublados e tristes,
pairaram e pairam
sobre a noiva do cordeiro!

Terá o sol escurecido e a lua se convertido em sangue?

Ó saudades dos tempos de Trento e da contra-reforma!

Onde estará o
espírito de Trento?

Onde estará o
espírito da contra-reforma?

Será a autoridade pastoral
superior a autoridade dogmática?

Renasça o espírito de Trento!
Renasça a civilização Catolica!
Renasça o Reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo!

Chega de uma "liberdade",
de uma "igualdade",
de uma "fraternidade"
que excluí a verdade!

Voltem as palavras de salvação!